
MICHAEL BAIGENT
RICHARD LEIGH
HENRY LINCOLN



A HERANA MESSINICA



Traduo
Maria Luiza X. de A. Borges




        EDITORA
        NOVA
FRONTEIRA



SUMRIO

Agradecimentos, 1
Introduo, 3
PARTE I O MESSIAS
1        Conhecimento especializado e viso popular, 9
2        Jesus como rei de Israel, 29
3        Constantino como Messias, 39
4        Jesus como um revolucionrio, 51
5        O movimento zadoquita de Qumran, 59
6        A formao do cristianismo, 69
7        Os irmos de Jesus, 89
8        A sobrevivncia do ensinamento nazareno, 99
9        Final dos tempos, 121
PARTE 11 A BUSCA DE SENTIDO
10        A ativao do smbolo, 129
11        A perda da f, 133
12        Fs substitutas: Rssia sovitica e Alemanha nazista, 141
13        A crise e o desespero social do aps-guerra, 157
14        Confiana e poder, 163
15        O artista como sacerdote, o rei como smbolo, 179
16        Rumo a uma adeso ao Armagedon, 193
PARTE III A CABALA
17        Fragmentos no correio, 215
18        A conexo britnica, 229
19        O panfleto annimo, 255
20        O elusivo "contingente americano", 269
21        O panorama se amplia, 285
22 Resistncia, cavalaria e os Estados Unidos da Europa, 295
23       A volta de De Gaulle, 309
24        Poderes secretos de grupos clandestinos, 321

Eplogo, 341

Notas e referncias, 351

Bibliografia, 367


INTRODUO

Em 1982, cerca de doze anos de pesquisa sobre um pequeno mistrio local no sul da Frana culminaram com a publicao de O santo graal e a linhagem sagrada. Brenger 
Sauniere, um obscuro sacerdote que viveu no Languedoc no final do sculo XIX, nos havia metaforicamente tomado pela mo e nos guiara at as pedras que tnhamos de 
virar para discernir o padro subjacente  sua histria. Ele nos conduziu at uma sociedade secreta, ou semi-secreta, o Prieur de Sion, cujas origens remontavam 
a quase mil anos, que contou entre seus membros muitas figuras ilustres e que permanecia ativo na Frana e possivelmente em outros lugares at os nossos dias. O 
objetivo declarado do Prieur de Sion era restaurar na Frana moderna a estirpe merovngia - uma estirpe que desapareceu do palco da histria h mais de treze sculos. 
Isso no parecia fazer sentido. Que poderia haver de to especial com O sangue merovngio? Por que sua restaurao poderia ser do interesse de homens como Leonardo 
da Vinci e Victor Hugo e, mais recentemente, de homens como Andr Malraux, Alphonse Juin e talvez Charles de Gaulle?
Uma resposta parcial, mas decisiva, para esta pergunta surgiu quando descobrimos que os prprios merovngios se proclamavam descendentes em linha direta da Casa 
de Davi do Antigo Testamento, e que   validade dessa pretenso foi reconhecida pela dinastia que os suplantou, por outros monarcas e pela Igreja catlica da poca. 
Pouco a pouco, os indcios foram se encaixando, como que por impulso prprio. Eles nos levaram ao delicado territrio dos estudos bblicos. Estimularam-nos a sugerir 
uma hiptese provocativa, a de que Jesus fora um legtimo rei de Israel, de que se casara e gerara filhos, e que esses filhos tinham perpetuado sua linhagem at 
que, cerca de trs sculos e meio depois, ela seu fundiu  dinastia merovngia da Frana.
Nossas concluses,  medida que ganhavam forma, pareciam de incio to surpreendentes para ns quanto depois se mostraram para nossos leitores. Para ns, porm, 
a magnitude do que estvamos descobrindo s se revelou gradativamente, infiltrando-se pouco a pouco na nossa conscincia ao longo de um certo perodo. Para os nossos 
leitores, o mesmo processo de descoberta foi condensado nos limites de um nico livro, e seu efeito foi por isso mais repentino, mais inesperado e mais perturbador 
- ou mais intrigante. No envolveu nenhum trabalho lento e penoso de coleta de fatos, correlao de dados e montagem de confusas peas de quebra-cabea num quadro 
coerente, semana aps semana, ms aps ms. Ao contrrio, foi brusco e desnorteante como uma exploso. Dada a esfera em que essa exploso ocorreu, os resultados 
talvez fossem inevitveis. Para muitos dos nossos leitores, o ponto polmico fundamental- seno o nico, na verdade - no nosso livro so "os elementos referentes 
a Jesus".
Jesus projetou nosso trabalho nas primeiras pginas dos jornais pelo mundo afora e conferiu-lhe uma nota de "sensacionalismo". No que diz respeito  mdia, em particular, 
tudo mais que havamos escrito passou a segundo plano, quando chegou a ser mencionado. O entusiasmo que havamos sentido quando, por exemplo, descobrimos uma nova 
dimenso das Cruzadas, um novo fragmento de informao sobre a criao dos Templrios ou novos indcios sobre a fonte dos famigerados Protocolos dos sbios de Sio 
no encontrou uma repercusso geral. Todas essas descobertas foram eclipsadas pela sombra de Jesus e nossa hiptese a seu respeito.
Para ns, no entanto, nossa hiptese sobre Jesus no era de modo algum o nico aspecto da nossa pesquisa. No era nem mesmo, afinal de contas, o mais importante. 
Ainda que a mdia e muitos leitores estivessem se concentrando nas nossas concluses bblicas, j podamos perceber o rumo que nossas investigaes subseqentes 
teriam de tomar. Nossa ateno teria de se concentrar no Prieur de Sion nos dias de hoje.
Qual era a verdadeira raison d'tre do Prieur? Se o objetivo final era a restaurao da linhagem merovngia, de que meios lanaria mo? Pessoas como Malraux e Juin 
no eram idealistas ingnuos, nem fanticos religiosos. Isto se aplicava igualmente aos membros da Ordem que pudemos conhecer pessoalmente. Como, ento, se propunham 
implementar seus objetivos? A resposta parecia residir, muito claramente, em reas como a psicologia de massas, o poder poltico e as altas finanas. Estvamos lidando 
com pessoas atuantes no "mundo real", e era nos termos do "mundo real" da dcada de 1980 que tnhamos de compreender a histria centenria que as precedia.
Mas que estava o Prieur fazendo naquele momento? Que pistas poderiam ser encontradas de sua atividade contempornea, de seu envolvimento em negcios atuais? Quem 
eram os membros da Ordem? Que poder tinham? De que tipo de recursos dispunham? Se nossa hiptese se mostrasse vlida, como poderiam eles tentar se valer da pretenso 
a uma descendncia direta dos merovngios e/ou de Jesus, e/ou da Casa de Davi? E quais poderiam ser, no mundo moderno, as repercusses sociais e polticas de semelhante 
pretenso?
Parecia claro que o Prieur estava trabalhando em prol de algum tipo de "grande plano" ou "projeto mestre" para o futuro da Frana, em ltima anlise para o futuro 
da Europa como um todo, e talvez mais. Era isso, sem dvida, que se deduzia de muitos indcios, sugestes e fragmentos de informao com que havamos topado. Tampouco 
podamos esquecer a maneira simples, categrica e prosaica como o homem que em seguida se tornaria o Gro-Mestre do Prieur nos contou que a Ordem realmente possua 
o tesouro perdido do Templo de Jerusalm. Seria devolvido a Israel, disse ele, "no momento certo". De que dependia esse momento? Somente de fatores sociais e polticos, 
e talvez de um "clima psicolgico".
Estava bvio para ns que nossa pesquisa sobre o Prieur moderno nos obrigaria a investigar simultaneamente em vrias direes. Primeiro, teramos de recapitular 
nossa pesquisa sobre histria religiosa e material bblico, reconstituindo nosso prprio caminho, reexaminando e se possvel ampliando o nosso trabalho nesses campos. 
Antes,  havamos procurado provas da existncia de uma linhagem sagrada. Desta vez, teramos de nos concentrar basicamente no conceito de
Jesus como messias. Tnhamos observado que, no prprio pensamento do Prieur, o messiado parecia gozar de especial relevncia. Teria sido impossvel, por exemplo, 
no notar a insistncia com que a dinastia merovngia era repetidamente descrita numa linguagem geralmente reservada a figuras messinicas. Teramos de determinar 
o significado preciso da idia de "messias" no tempo de Jesus, de que modo ela se alterara nos sculos seguintes e como seria possvel conciliar as idias antigas 
e as modernas.
Em segundo lugar, teramos de estabelecer de que modo o conceito de messiado seria aplicado na prtica atualmente. Num nvel mais bsico, teramos de nos convencer 
de que o conceito podia ter alguma pertinncia no sculo XX. Isso exigiria uma anlise do clima espiritual e psicolgico que caracteriza o mundo moderno. Teramos 
de enfrentar certos aspectos da sociedade ocidental que parecem j explorados: a crise de sentido e a busca de valores espirituais.
Finalmente,  claro, seramos obrigados a levar adiante nossos contatos pessoais com o prprio Prieur de Sion, com seu Gro-Mestre e  com aqueles ..membros ou associados 
que tnhamos identificado ou chegado a conhecer. Neste ponto, logo ficou claro que teramos de nos mover em meio s areias movedias de eventos em rpida sucesso, 
de situaes em rpida mudana. Teramos de inferir a presena de algum tipo de verdade sob alegaes e negativas absurdas. Teramos de testar novas provas documentais, 
descobrir falsificaes, abrir caminho num labirinto de "desinformao" deliberadamente disseminada - "desinformao" gerada pelas obscuras maquinaes de figuras 
espectrais.
Pouco a pouco, comeamos a discernir alguns extraordinrios amlgamas de possibilidades. Comeamos a entender como uma organizao como o Prieur de Sion podia lidar 
com a atual "crise de sentido" e at tirar partido dela. Aprendemos tambm que um conceito aparentemente to rarefeito, etreo e mstico como "messiado" podia de 
fato figurar no mundo prtico da sociedade e da poltica do sculo XX.

                                                          I
O MESSIAS

1
CONHECIMENTO ESPECIALIZADO E VISO POPULAR

(...) Isto caiu nas minhas mos por acaso, h pouco tempo. At ento eu no tinha noo alguma do que estava sendo feito atualmente no campo da pesquisa bblica 
ou dos ataques que estavam sendo desferidos por competentes historiadores. Foi um choque para mim - e uma revelao! (...) Tomei conhecimento de toda sorte de fatos 
que eram inteiramente novos para mim. Que os Evangelhos, por exemplo, foram escritos entre os anos 65 e 100. Isto significa que a Igreja foi fundada, e conseguiu 
se manter, sem eles.  espantoso! Mais de sessenta anos depois do nascimento de Cristo!  como se algum hoje quisesse registrar as palavras e os feitos de Napoleo 
sem poder consultar um nico documento escrito, s vagas lembranas e anedotas. 
A no ser pela referncia a Napoleo, a citao acima poderia expressar quase literalmente, a julgar pelas cartas que recebemos e as declaraes verbais que ouvimos, 
a reao de um leitor contemporneo a  O santo araal e a linhaaem saarada quando foi publicado, em 1982. Na verdade, as palavras so de um romance de Roger Martin 
du Gard, Jean BaTois, publicado em 1912, e no prprio romance elas suscitam a seguinte resposta:
(. . .) No vai demorar para que todos os telogos de qualquer posio intelectual cheguem a estas concluses. Na verdade, vai lhes parecer espantoso que os catlicos 
do sculo XIX tenham conseguido acreditar por tanto tempo na verdade literal dessas lendas poticas.2
Mesmo antes da poca em que se situa este dilogo fictcio, a dcada de 1870, Jesus e as origens do cristianismo j tinham comeado a emergir como um florescente 
campo de trabalho para pesquisadores, escritores e divulgadores. H registro de que, no incio do sculo XVI, o papa Leo X teria declarado: "Esse mito de Cristo 
prestou-nos bons servios." Na dcada de 1740, estudiosos j haviam desenvolvido o que hoje reconhecemos como uma metodologia histrica vlida para o questionamento 
da veracidade dos relatos das Escrituras. Assim, entre 1744 e 1767, Hermann Samuel Reimarus, um professor de Hamburgo, afirmou que Jesus nada mais fora do que um 
revolucionrio judeu malsucedido, cujo corpo fora removido do sepulcro por seus discpulos. Em meados do sculo XIX, os estudos bblicos alemes j haviam de fato 
chegado  maturidade e fora estabelecida uma datao dos Evangelhos que - em sua abordagem e na maior parte de suas concluses - ainda  considerada vlida. Hoje, 
nenhum renomado historiador ou estudioso da Bblia negaria que os primeiros Evangelhos foram compostos pelo menos uma gerao depois dos eventos neles descritos. 
O impulso da pesquisa alem culminaria finalmente numa posio sintetizada por Rudolf Bultmann, da Universidade de Marburgo, um dos mais importantes, famosos e respeitados 
comentadores bblicos do sculo XX:
De fato, penso que hoje no podemos saber quase nada acerca da vida e da personalidade de Jesus, pois as fontes crists mais antigas no mostram interesse em nenhuma 
das duas coisas, sendo ademais fragmentrias e muitas vezes legendrias.
No entanto, Bultmann no deixou de ser um cristo devoto. Justificou isso sublinhando uma distino decisiva entre o Jesus da histria e o Cristo da f. Enquanto 
essa distino fosse admitida, a f podia ser mantida. Se no fosse admitida, a f se veria inevitavelmente corroda e confundida pelos fatos inelutveis da histria.
Foi a esse tipo de concluso que os estudos bblicos alemes do sculo XIX acabaram por levar. Ao mesmo tempo, porm, o bastio da autoridade tradicional em estudos 
bblicos estava sendo desafiado tambm em outras frentes. Em 1863, enquanto as controversas teses da investigao germnica permaneciam confinadas numa esfera rarefeita 
de especialistas, o escritor francs Ernest Renan gerou uma enorme discusso internacional com seu clebre best-seller A vida de Jesus Cristo. Essa obra, que procurou 
desvestir o cristianismo de seus atavios sobrenaturais e apresentar Jesus como "um homem incomparvel", foi talvez o livro mais comentado em sua poca. Seu impacto 
sobre o pblico foi imenso, e entre as pessoas que ele mais influenciou estava Albert Schweitzer. Mesmo a abordagem de Renan, porm, viria a ser considerada piegas 
e marcada por um sentimentalismo acrtico pela gerao dos modernistas, que comeava a despontar no ltimo quartel do sculo XIX. Cabe notar que, em sua maioria, 
os modernistas trabalhavam no mbito da Igreja - isto , at sua condenao oficial pelo papa Pio X, em 1907, e a introduo de um juramento antimodernista em 1910.
Nessa altura, tanto as descobertas resultantes dos estudos bblicos alemes quanto as dos catlicos modernistas comeavam a encontrar expresso nas artes. Assim, 
em 1916, o romancista anglo-irlands George Moore publicou sua prpria histria romanceada de Jesus em The Brook Kerith. Moore causou considervel escndalo ao propor 
que Jesus teria sobrevivido  crucificao e recobrado a sade graas aos cuidados de Jos de Arimatia. Desde a publicao de The Brook Kerith, foram muitas as 
verses ficcionais da histria dos Evangelhos. Em 1946, Robert Graves publicou seu ambicioso retrato romanceado, Kina Jesus, em que novamente Jesus sobrevive  cruz. 
Em 1954, Nikos Kazantzakis, autor grego laureado com o Prmio Nobel, causou um tumulto internacional com A ltima tentao de Cristo. Ao contrrio das figuras de 
Jesus em Moore e Graves, o protagonista de Kazantzakis morre na cruz. Antes, porm, tem uma viso do que teria sido sua vida caso no se tivesse submetido voluntariamente 
ao sacrifcio final. Nessa viso - uma espcie deflash-Jorward na fantasia - Jesus se v casado com Madalena (a quem desejara ao longo de todo o livro) e gerando 
com ela uma famlia.
Estes exemplos mostram at que ponto os estudos bblicos abriram um novo espao para as artes. H duzentos anos, um romance que tratasse de assuntos bblicos seria 
impensvel. Nem a poesia ousava abordar esses temas, exceto na forma mais ou menos ortodoxa, mais ou menos piedosa de O paraso perdido. No sculo XX, porm, Jesus 
e seu mundo j eram vistos, no como alvos aceitveis para exploraes notoriamente sensacionalistas, mas como objetos vlidos de investigao e explorao por literatos 
de renome internacional. Atravs dessas obras de fico, os frutos dos estudos bblicos especializados se disseminaram entre um pblico cada vez mais amplo.
Os prprios estudos bblicos no permaneceram inalterados. Jesus e o mundo do Novo Testamento continuaram a receber a ateno de historiares e pesquisadores profissionais 
que, com crescente rigor e novos elementos de prova a seu dispor, buscavam apurar os fatos que envolviam aquele enigmtico personagem de 2 mil anos atrs. Muitos 
desses trabalhos destinavam-se basicamente a outros especialistas no campo e atraram pouca ateno popular. Alguns, no entanto, foram expostos ao pblico leitor 
em geral e deram origem a considervel controvrsia. The Passo ver Plot (1963), do dr. Hugh Schonfield, afirmou que Jesus encenou a farsa da sua prpria crucificao, 
no tendo morrido na cruz; o livro tornou-se um best-seller internacional, com  mais de 3 milhes de cpias em circulao. Mais recentemente, Jesus the Maaician, 
em que o dr. Morton Smith descreve seu protagonista como um tpico milagreiro da poca, uma espcie de figura muito comum no Oriente Mdio no incio da era crist, 
gerou controvrsia. O Jesus de Morton Smith no difere significativamente, por exemplo, de Apolnio de Tiana ou do prottipo da figura lendria (se  que existiu 
alguma) de Simo, o Mago.
Alm do material dedicado especificamente a Jesus, tm surgido inmeros trabalhos sobre as origens do cristianismo, a formao da Igreja primitiva e suas razes 
no judasmo do Antigo Testamento. Neste aspecto, o dr. Schonfield desempenhou novamente papel de destaque, com uma srie de trabalhos voltados para o pano de fundo 
do Novo Testamento. E, em 1929, Elaine Pagels atraiu a ateno do mundo todo e alcanou um imenso contingente de leitores com The Gnostic Gospels - um estudo dos 
manuscritos de Nag Hammadi, cuja descoberta no Egito, em 1945, permitiu uma interpretao radicalmente nova da doutrina e da tradio crists.
Os estudos bblicos fizeram enormes avanos nos ltimos quarenta anos, com a imensa ajuda representada pela descoberta de novas fontes primrias, material fora do 
alcance dos pesquisadores do passado. As mais famosas dessas fontes so, evidentemente, os manuscritos do Mar Morto, descobertos em 1947 nas runas da comunidade 
asctica essnia de Qumran. Alm de grandes descobertas como essa, da qual muitas partes ainda esto por ser publicadas, outras fontes tm vindo  luz gradualmente, 
ou comeam a ser postas em circulao e estudadas aps longos perodos de ocultao. O resultado  que Jesus est deixando de ser um vago personagem que existiu 
no mundo simplista e fictcio dos Evangelhos. A Palestina e o advento da era crist no  mais um lugar nebuloso que pertence mais ao mito do que  histria. Ao 
contrrio, hoje sabemos muito sobre o ambiente de Jesus, e muito mais do que a maioria dos cristos praticantes imagina sobre a Palestina no sculo I - sua sociologia, 
sua economia, sua poltica, sua atmosfera cultural e religiosa, sua atualidade histrica. Grande parte do mundo de Jesus emergiu da bruma da conjectura, da especulao 
e da hiprbole mtica, e est mais claramente e mais bem documentada do que, digamos, o mundo do rei Artur. E embora o prprio Jesus permanea envolto num grau considervel 
de indefinio,  to possvel fazer inferncias plausveis a seu respeito quanto sobre o rei Artur ou Robin Hood.

O malogro dos estudos bblicos

Apesar de tudo isso, a profecia otimista que citamos no incio deste captulo no se realizou. Telogos intelectualmente respeitados no passaram - pelo menos, no 
publicamente - a partilhar dessas concluses, nem a se espantar com a credulidade de seus predecessores do sculo XIX. Em certos setores, o dogma se tornou apenas 
mais arraigado do que nunca. A despeito dos problemas atuais de superpopulao, o Vaticano ainda  capaz de impor restries ao controle da natalidade e ao aborto 
- por razes no sociais ou morais, mas teolgicas. Um incndio causado por um raio em York Minster ainda pode ser visto como sinal da ira divina, por causa da nomeao 
de um bispo duvidoso. As afirmaes ambguas desse bispo sobre aspectos da biografia de Jesus ainda podem ultrajar pessoas que crem que seu salvador foi concebido 
numa virgem pelo prprio Esprito Santo e se recusam a acreditar em qualquer outra coisa. Em comunidades dos Estados Unidos, grandes obras literrias podem ser banidas 
de escolas e bibliotecas - ou at, eventualmente, queimadas - por contestarem descries bblicas tradicionais, enquanto uma nova corrente do fundamentalismo  efetivamente 
capaz de influenciar a poltica do pas graas ao apoio de milhes de pessoas ansiosas por se extasiar num cu bastante parecido com a Disneylndia.
Por menos ortodoxa que seja sua apresentao de Jesus, A ltima tentao de Cristo, de Kazantzakis,  uma obra apaixonadamente religiosa, apaixonadamente devota, 
apaixonadamente crist. Isso no impediu, porm, que o romance fosse proibido em muitos pases, entre os quais a Grcia, ptria do autor, e que o prprio Kazantzakis 
fosse excomungado. Entre as obras no ficcionais, The Passo ver Plot, de Schonfield, embora tenha vendido enormemente, provocou muita indignao.
Em 1983, David Rolfe, a servio da London Weekend Television e do Channel 4, comeou a planejar um documentrio em trs partes intitulado Jesus: the Evidence. A 
srie no tomava nenhuma posio prpria, no endossava nenhum ponto de vista particular. Pretendia simplesmente dar uma viso do campo dos estudos sobre o Novo 
Testamento e estimar o valor das vrias teorias propostas. No entanto, antes mesmo que o projeto comeasse a ser executado, grupos de presso britnicos j faziam 
lobby para que fosse suspenso. Quando a srie foi concluda, em 1984, teve de ser exibida em sesso privada para vrios membros do Parlamento, antes de ter sua transmisso 
liberada. Depois, embora as crticas subseqentes a tenham considerado perfeitamente equilibrada e incontestvel, clrigos da Igreja da Inglaterra foram a pblico 
declarar que estariam de prontido para atender a quaisquer membros de sua congregao perturbados pelo programa.
A inteno de Jesus: the Evidence fora levar ao conhecimento do pblico leigo alguns avanos feitos nos estudos do Novo Testamento. Afora The Passo ver Piot, praticamente 
nada desses estudos chegara  conscincia popular. Umas poucas obras, como Jesus the Maoidan e The Gnostic Gospeis, tinham sido amplamente resenhadas, discutidas 
e difundidas, mas sua leitura se limitara em grande parte a pessoas especialmente interessadas no tema. A maior parte do trabalho realizado nos ltimos anos s atingiu 
especialistas. Em grande medida, esses trabalhos so tambm escritos especificamente para especialistas, sendo praticamente impenetrveis para o leitor no iniciado.
No que diz respeito ao grande pblico, bem como s igrejas que atendem a esse pblico, tudo se passa como se as obras acima citadas jamais tivessem sido produzidas. 
A verso de George Moore de que Jesus teria sobrevivido  crucificao fazia eco a uma tese sustentada no apenas por algumas das mais antigas heresias, mas tambm 
pelo Coro, sendo portanto amplamente aceita no islame e no mundo islmico. No entanto, essa mesma afirmao, quando divulgada por Robert Graves e depois pelo dr. 
Schonfield em The Passo ver Piot, provocou tanto escndalo e incredulidade como se isso jamais tivesse sido aventado antes. No campo dos estudos sobre o Novo Testamento, 
 como se cada nova descoberta, cada nova afirmao, fosse anulada com a mesma rapidez com que  feita. Cada uma tem de ser constantemente reapresentada, s para 
desaparecer novamente. Muita gente reagiu a certas afirmaes do nosso prprio livro como se The Passo ver Piot ou King Jesus, de Graves, ou The Brook Kerith, de 
Moore - ou at o prprio Coro - nunca tivessem sido escritos.
Esta  uma situao extraordinria, talvez nica em todo o espectro da pesquisa histrica moderna. Em todas as demais esferas da investigao histrica, novos dados 
so admitidos. Podem ser contestados. Pode haver tentativas de suprimi-los. Podem tambm ser digeridos e assimilados. Mas pelo menos as pessoas sabem o que j foi 
descoberto, o que j foi dito vinte ou setenta anos atrs. H uma espcie de progresso genuno, mediante o qual velhas descobertas e teses fornecem base para novas 
descobertas e teses, dando origem a um corpo de conhecimento. Teorias revolucionrias podem ser aceitas ou descartadas, mas pelo menos se toma conhecimento delas 
e do que as precedeu. Existe um contexto. As contribuies cumulativas de sucessivas geraes de pesquisadores criam uma compreenso mais ampla e em ampliao.  
assim que adquirimos nosso conhecimento de histria em geral, bem como de pocas e eventos especficos.  assim que chegamos a uma imagem coerente de personagens 
como o rei Artur, Robin Hood ou Joana d' Arc. Essas imagens esto sempre crescendo, mudando constantemente, sendo cada vez mais ampliadas por novos dados,  medida 
que estes se tomam disponveis.
Entre isso e a histria do Novo Testamento, no que diz respeito ao grande pblico, h um contraste impressionante. Ela permanece esttica, inatingida por novos desenvolvimentos, 
novas descobertas, novos achados. Cada tese controversa  tratada como se estivesse sendo proposta pela primeira vez. Assim, os pronunciamentos teolgicos do bispo 
de Durham produzem tamanho choque e horror como se o inspirador declarado do prprio bispo, o arcebispo Temple, no tivesse existido, no tivesse presidido a Igreja 
Anglicana entre as duas grandes guerras e jamais tivesse feito pronunciamentos essencialmente semelhantes.
Cada contribuio no campo da pesquisa bblica  como uma pegada na areia. Cada uma delas  quase imediatamente encoberta e, no que diz respeito ao grande pblico, 
praticamente no deixa vestgio. Cada uma tem de ser constantemente refeita, somente para ser de novo encoberta.
Por que isso acontece? Por que os estudos bblicos, que so pertinentes para tantas vidas, so assim subtrados  evoluo e ao desenvolvimento? Por que os cristos 
convictos, em sua grande maioria, sabem na verdade menos sobre a figura que adoram do que sobre personagens histricos de relevncia to menor? No passado, quando 
esse tipo de conhecimento era inacessvel, ou sua divulgao perigosa, pode ter havido alguma justificao. Hoje o conhecimento  acessvel e sua divulgao segura. 
No entanto, o cristo praticante permanece to ignorante quanto seus antecessores de sculos atrs; essencialmente, aceita os mesmos relatos simplistas que ouvia 
quando criana.
Um fundamentalista poderia por certo argumentar que tal situao atesta a firmeza e a tenacidade da f crist. Esta explicao no nos parece satisfatria. A f 
crist pode sem dvida ser firme e tenaz. A histria provou que . Mas no estamos falando de f, o que seria por fora uma questo extremamente privada, intensamente 
subjetiva. Estamos falando de fatos histricos documentados.
Na esteira da srie de televiso acima mencionada, foi transmitido um painel sobre o assunto. Vrios comentaristas eminentes, em sua maioria clrigos, foram reunidos 
para avaliar os programas e suas implicaes. Durante esse painel, muitos dos participantes concordaram num ponto revelador. Em 1985, a mesma opinio foi repetida 
no s pelo bispo de Durham mas tambm pelo arcebispo de Canterbury. Ela esteve tambm no centro de um debate num snodo subseqente da Igreja da Inglaterra.
Segundo vrios participantes do painel, a ignorncia que reina quanto aos estudos sobre o Novo Testamento  em grande parte culpa das prprias igrejas e da instituio 
eclesistica. Qualquer pessoa. que exera o sacerdcio, qualquer pessoa que esteja se preparando para exerc-lo , evidentemente, confrontada com os ltimos desenvolvimentos 
da pesquisa bblica. Todo seminarista atualmente aprender pelo menos alguma coisa sobre os manuscritos do Mar Morto, os manuscritos de Nag Hammadi, a histria e 
a evoluo dos estudos do Novo Testamento, as teses mais controversas sustentadas tanto por telogos como por historiadores. Esse conhecimento, contudo, no foi 
transmitido aos leigos. Conseqentemente, abriu-se um abismo entre clrigos e suas congregaes. Entre eles mesmos, os clrigos se tornaram extremamente sofisticados 
e eruditos. Reagem s ltimas descobertas com uma serenidade blas, no se deixando abalar pela controvrsia teolgica. Afirmaes como as que fizemos podem lhes 
parecer questionveis, mas no surpreendentes ou escandalosas. No entanto, nada dessa sofisticao se transmitiu a seu rebanho. O rebanho no recebe praticamente 
nenhuma informao histrica de seu pastor, que  reputado a autoridade mxima nessas questes. Assim, quando essas informaes so apresentadas por autores como 
ns, e no pelo pastor oficial, ela pode muitas vezes produzir uma reao de verdadeiro trauma, ou uma crise pessoal de f. Ou passamos a ser encarados como iconoclastas 
gratuitamente destrutivos, ou o prprio pastor incorre na suspeita de ter sonegado informao. O efeito global  precisamente o mesmo que seria produzido por uma 
conspirao organizada de silncio entre os sacerdotes.
 esta, portanto, a situao atual. Por um lado, h a hierarquia eclesistica, imbuda do que foi escrito no passado, versada em todos os mais recentes aspectos 
dos estudos bblicos. Por outro lado, h a congregao leiga, para quem os estudos bblicos so um territrio totalmente desconhecido. O sacerdote moderno, mais 
ou menos culto, tem profunda conscincia, por exemplo, da diferena entre o que est no Novo Testamento propriamente dito e o que  acrscimo de uma tradio posterior. 
Sabe precisamente quanto - ou, para ser mais preciso, quo pouco - as escrituras realmente dizem. Sabe quanto espao existe para a interpretao, e na verdade o 
quanto ela  necessria. As contradies entre fato e f, entre histria e teologia, foram pessoalmente confrontadas e resolvidas. h muito tempo por esse sacerdote. 
Ele h muito reconheceu que sua crena pessoal no se confunde com os indcios histricos e j operou algum tipo de conciliao pessoal entre as duas coisas - uma 
conciliao que, em maior ou menor grau, consegue acomodar uma e outra. Um sacerdote como esse em geral j "ouviu falar de tudo isso antes".  pouco provvel que 
fique chocado com indcios ou hipteses como os apresentados por ns e por outros autores. J estar familiarizado com eles e j ter tirado suas prprias concluses 
h muito tempo.
Em contraste com o pastor culto, o rebanho no teve oportunidade sequer de se familiarizar com o indcio em questo ou de encarar as incoerncias entre relatos bblicos 
e o pano de fundo da histria real. Para o cristo devoto, nunca houve necessidade de conciliar fato e f, histria e teologia, simplesmente porque ele nunca teve 
qualquer razo para supor que poderia haver distino entre essas coisas. Talvez no tenha sequer pensado conscientemente na Palestina de 2 mil anos atrs como um 
lugar muito real, situado no espao e no tempo, sujeito a um confusa mescla de fatores sociais, psicolgicos, polticos, econmicos e religiosos - o mesmo tipo de 
fatores que operam em qualquer localidade "real", passada ou presente. Ao contrrio, nos Evangelhos a histria est com freqncia inteiramente divorciada de qualquer 
contexto histrico - uma narrativa de absoluta, mtica e intemporal simplicidade, encenada numa espcie de limbo, uma terra do nunca de muito tempo atrs e muito 
longe daqui. Jesus, por exemplo, aparece ora na Galilia, ora na Judia; ora est em Jerusalm, ora nas margens do Jordo. O cristo moderno, contudo, com freqncia 
no faz idia da relao geogrfica e poltica existente entre esses lugares, a que distncia podiam estar um do outro, quanto tempo poderia demandar a viagem de 
um a outro. Os ttulos dos vrios funcionrios pblicos parece-lhe muitas vezes sem sentido. Romanos e judeus circulam confusamente em segundo plano, como figurantes 
num cenrio de filmagem e, quando h alguma imagem concreta deles, ela em geral deriva de uma ou outra superproduo de Hollywood - Pilatos com sotaque do Brooklin.
Para a congregao leiga, os relatos .das Escrituras so histria literal, uma histria independente e no menos verdadeira por estar dissociada de um contexto histrico. 
No tendo aprendido outra coisa de seus mentores espirituais, muitos crentes devotos nunca sentiram qualquer necessidade de enfrentar os problemas suscitados por 
tal contexto. Quando subitamente formulados por um livro como o nosso, esses problemas assumem para essas pessoas, de maneira muito compreensvel, a forma de revelao 
ou de sacrilgio. E ns mesmos passamos a ser instintivamente vistos como "anticristos", como escritores plenamente engajados numa cruzada que nos lana, como adversrios 
militantes, contra o establishment eclesistico - como se estivssemos pessoalmente interessados em derrubar o edifcio da cristandade (e fssemos ingnuos a ponto 
de pensar que isso  possvel).


Nossa concluso em perspectiva

Como seria desnecessrio dizer, no acalentamos tais intenes. No estamos engajados em nenhum tipo de cruzada. No temos nenhum desejo particular de "converter" 
ningum. Certamente no estamos tentando deliberadamente abalar a f do povo. Em O santo graal e a linhagem sagrada nossa motivao foi, na verdade, bastante simples. 
Tnhamos uma histria para contar, e essa histria nos parecia merecer, especialmente, ser contada. Estivramos envolvidos numa aventura histrica to palpitante 
quanto uma histria de detetive ou um romance policial. Ao mesmo tempo, a aventura se mostrara tambm bastante informativa, revelando vastos tratos do passado da 
nossa civilizao - e no apenas bblico - que de outro modo ns e nossos leitores no poderamos explorar. Desejvamos partilhar nossa histria, num esprito muito 
semelhante quele que nos leva a puxar o brao de uma pessoa amiga e chamar sua ateno para uma paisagem surpreendente ou um pr-do-sol espetacular.
Nossa concluso sobre Jesus era parte integrante da nossa aventura. Na verdade, a prpria aventura nos levara a ela. Simplesmente convidamos nossos leitores a testemunhar 
de que modo isso acontecera. De fato, dissemos: "Estas so as concluses a que chegamos. So as nossas concluses, baseadas na nossa prpria pesquisa, nas nossas 
prprias predisposies, nossa prpria estrutura, nossa prpria falta de preconceitos. No estamos tentando impingi-las a voc. Se elas lhe parecerem fazer sentido, 
muito bem. Se no, sinta-se  vontade para descart-las e tirar as suas prprias. Enquanto isso, esperamos que ache sua estada conosco interessante, divertida e 
informativa." Apesar disso, era inevitvel, dado o nosso tema, que nos vssemos apanhados no conflito bsico entre fato e f. Um simples exemplo pode ilustrar as 
complexidades e os paradoxos desse conflito.

Em 1520, Hernn Corts, ao penetrar na antiga capital mexicana de Tenochtitln, foi tomado por um deus pelos astecas. Como jamais tinham visto armas de fogo ou cavalos, 
os astecas viram essas coisas no s como' sobrenaturais mas como confirmao da condio divina de Corts - de sua identidade como um avatar do seu deus supremo, 
Quetzalcatl. Hoje, obviamente, podemos compreender como tal equvoco pde acontecer. At para um europeu ocidental da poca, ele teria sido compreensvel.  bastante 
claro que Corts no tinha absolutamente nada de divino. No entanto,  igualmente claro que, nas mentes daqueles que acreditaram em sua divindade, ele era realmente 
um deus.
Suponhamos que um ndio mexicano moderno, talvez com vestgios de uma ascendncia asteca, afirme que acredita na divindade de Corts. Talvez isso nos parea um tanto 
esquisito, mas no poderamos nos atrever a contestar a crena do ndio - especialmente se sua origem social, educao, criao, cultura, tudo isso tiver contribudo 
para foment-la. Ademais, essa "f" poderia envolver algo muito mais profundo do que a mera crena na divindade de Corts. O ndio poderia afirmar que experimentava 
Corts dentro de si, que comungava pessoalmente com Corts, que Corts lhe aparecia em vises, que atravs de Corts ele se aproximava de uma unidade com Deus ou 
com o sagrado. Como poderamos cogitar de contestar afirmaes como estas? O que um homem experimenta na intimidade da sua psique deve necessariamente permanecer 
inviolado e inviolvel. E h muitas pessoas, perfeitamente lcidas, perfeitamente equilibradas, merecedoras de todo o respeito que, na privacidade da sua psique, 
acreditam em coisas muito mais estranhas que a divindade de Corts.
Mas o tempo em que Corts viveu, como o tempo em que Jesus viveu, est documentado. Sabemos um bocado sobre o contexto histrico, o mundo em que esses personagens 
existiram. Esse conhecimento no  uma questo de crena pessoal, mas de simples fato histrico. E se um homem permite que sua crena pessoal distora, altere ou 
transforme o fato histrico, ele no pode esperar que outros, quer partilhem ou no da sua crena, fechem os olhos para esse processo. O mesmo princpio se aplica 
se um homem permite que sua f pessoal desarrume consideravelmente as leis da probabilidade ou o que sabemos sobre a natureza humana. No poderamos, como dissemos, 
discutir com um homem que acredita na divindade de Corts, ou que, de alguma maneira, "experimentou" Corts dentro de si. Poderamos, no entanto, discutir com um 
homem que afirmasse que Corts, mesmo sem a sua armadura, era imune a lanas e flechas, que atravessou a  cavalo os cus ou os mares, ou que usava armas que sabemos 
s terem sido inventadas dois sculos depois.
No  que os registros estabelecidos sobre Corts neguem explicitamente essas coisas. Eles no o fazem - pela simples razo de que nada disso foi afirmado a propsito 
de Corts enquanto ele estava vivo. Mas essas afirmaes contrariam de maneira to flagrante a histria conhecida, a experincia humana e a simples probabilidade, 
que  extremamente difcil acreditar nelas. Corno crena pessoal, podem ser inatacveis. Apresentadas corno fato histrico, porm, repousam numa base demasiado improvvel 
e tnue.
Jesus suscita um problema essencialmente anlogo. No ternos nenhum desejo de contestar a f pessoal, a crena pessoal de ningum. No estamos tratando do Cristo 
ou Christus da teologia, a figura que goza de urna existncia muito real e muito vigorosa nas psiques e conscincias dos que tm f. Estamos tratando de um outro 
personagem, algum que realmente caminhou pelas areias da Palestina 2 mil. anos atrs, assim corno Corts pisou as pedras do deserto mexicano em 1519. Estamos tratando, 
em suma, do Jesus da histria - e a histria, por mais vaga e incerta que por vezes possa ser, est sempre pondo em xeque nossos desejos, nossos mitos, nossas imagens 
mentais, nossas idias preconcebidas.
Para fazer justia ao Jesus da histria, devemos nos despir efetivamente de nossas idias preconcebidas - especialmente aquelas alimentadas pela tradio posterior. 
Devemos estar preparados para contemplar os elementos bblicos to desapaixonadamente quanto poderamos contemplar crnicas relativas a Csar ou a Alexandre... ou 
a Corts. E ternos de nos abster de atos ou crenas a priori.
Na verdade, pode-se pr em questo a sensatez de acreditar ou desacreditar. A palavra "crena" pode sem dvida ser perigosa, urna vez que implica um ato de f que 
muitas vezes pode ser injustificado. As pessoas esto demasiado dispostas a matar em nome da crena. Ao mesmo tempo, desacreditar  igualmente um ato de f, urna 
presuno to carente de fundamento quanto a crena. A descrena - tal como exemplificada pelo ateu militante ou pelo racionalista, por exemplo -  em si mesma urna 
outra forma de crena. Dizer que no acreditamos em telepatia, ou em fantasmas, ou em Deus  tanto um ato de f quanto no acreditar neles.
 prefervel pensar em termos de conhecimento. Em ltima anlise, a questo  bastante simples. Ou sabemos alguma coisa de maneira imediata, direta e em primeira 
mo, ou no sabemos. Um homem que toca num fogo quente no precisa acreditar na dor. Ele conhece a  dor; experimenta a dor; a dor  uma realidade que ele no pode 
pr em dvida. Um homem que recebe um choque eltrico no indaga a si mesmo se acredita na forma de energia conhecida como eletricidade. Experimenta alguma coisa 
cuja realidade no pode ser negada, seja qual for a palavra que se associe a ela. Mas se estamos lidando com algo diverso desse tipo de conhecimento emprico - se, 
em suma, no sabemos pessoalmente, no sentido que acabamos de explicar - a nica coisa honesta que podemos dizer  que no sabemos. No que diz respeito aos atributos 
teolgicos conferidos a Jesus pela tradio crist, simplesmente no sabemos.
Dentro do espectro geral das "coisas no sabidas", praticamente tudo  possvel. Mas, com base na nossa prpria experincia, com base na histria e no desenvolvimento 
humanos, algumas delas so mais possveis que outras, mais ou menos plausveis, mais ou menos provveis que outras. Se formos honestos, s nos resta reconhecer essa 
situao - que todas as coisas so possveis, mas algumas so mais possveis que outras. Isso equivale a um simples equilbrio entre probabilidades e plausibilidades. 
Que acontecimentos teriam sido mais ou menos plausveis? O que est mais de acordo com a experincia da humanidade? Na falta de conhecimento verdadeiramente conclusivo 
sobre Jesus, parece-nos mais plausvel, mais provvel, mais de acordo com nossa experincia humana supor que um homem ter-se-ia se casado e tentado recuperar o trono 
que lhe era de direito do que admitir que teria nascido de uma virgem, caminhado sobre as guas e levantado de seu tmulo. No entanto, tambm esta concluso deve 
permanecer, forosamente, hipottica.  uma concluso reconhecida como possibilidade mais plausvel, no adotada como um credo.

Interpretao a servio da crena

Como dissemos, sabe-se muito atualmente sobre o mundo em que Jesus viveu, a Palestina de 2 mil anos atrs. Porm, no tocante ao prprio Jesus e aos acontecimentos 
que envolvem sua vida, h uma ausncia de conhecimento conclusivo. Os Evangelhos, e na verdade toda a Bblia, so bosquejos, documentos que nenhum estudioso responsvel 
sequer por um momento consideraria absolutamente fidedigno como testemunho histrico. Diante dessa situao, somos obrigados a traar hipteses, se no quisermos 
silenciar. Certamente no devemos traar hipteses a torto e a direito; temos de limitar nossas especulaes  moldura dos dados histricos conhecidos e das probabilidades. 
Dentro dessa moldura, contudo,  perfeitamente vlido, e de fato necessrio, especular - interpretar os parcos, opacos e muitas vezes contraditrios indcios existentes. 
A maior parte dos estudos bblicos envolve um certo grau de especulao. O mesmo pode ser dito, alis, da teologia e dos ensinamentos das igrejas. Mas, enquanto 
a pesquisa histrica especula com base no fato histrico, a teologia e os ensinamentos clericais especulam quase exclusivamente sobre as prprias escrituras - muitas 
vezes sem qualquer referncia ao fato histrico.
Ao longo dos ltimos 2 mil anos, pessoas discutiram, se mataram umas s outras, fizeram guerras por causa do modo como determinadas passagens das escrituras deveriam 
ser compreendidas. No processo de consolidao da tradio crist, um princpio permaneceu constante. No passado, quando os doutores da Igreja se viam diante de 
uma ou vrias ambigidades bblicas, eles especulavam sobre seu significado. Tentavam interpret-lo. Uma vez aceita, a concluso de sua especulao - isto , sua 
interpretao - passava a ser venerada como um dogma. Com o correr dos sculos, vinha a ser considerada um fato estabelecido. Tais concluses absolutamente no so 
fatos. Ao contrrio, so especulaes e interpretaes cristalizadas numa tradio; e  essa tradio que  freqentemente tomada como fato.
Um nico exemplo pode ilustrar esse processo. Segundo todos os quatro Evangelhos, Pilatos afixou na cruz uma inscrio que trazia o ttulo "Rei dos Judeus". Afora 
isso, os Evangelhos no nos dizem praticamente nada a respeito. Em Joo 6:15 h a curiosa afirmao de que "Jesus percebeu que eles iriam chegar e lev-lo para faz-lo 
rei; fugiu ento de novo para a montanha, sozinho".. E em Joo 19:21-22: "Em vo os altos sacerdotes dos judeus disseram a Pilatos, 'No devereis escrever "Rei 
dos judeus", mas "Este homem disse: Eu sou rei dos judeus". Pilatos respondeu: 'O que escrevi est escrito." No h, porm, nenhuma elaborao ou elucidao destas 
passagens. No nos  dada nenhuma indicao real de que o ttulo era justificado ou no, oficial ou no, reconhecido ou no. Tampouco nos  dada qualquer indicao 
sobre como, precisamente, Pilatos pretendia que a designao fosse entendida. Qual era sua motivao? Que pretendia com isso?
Em algum ponto no passado, sups-se, com base em interpretao especulativa, que Pilatos usara o ttulo como zombaria. Supor outra coisa teria sido levantar muitas 
questes espinhosas. Hoje, a maioria dos cristos aceita cegamente, como fato consumado, que Pilatos usou o ttulo por escrnio. Mas isso no  de modo algum um 
fato estabelecido. Se lermos os prprios Evangelhos, sem nenhuma idia preconcebida, no encontraremos nenhuma sugesto de que o ttulo no foi usado com absoluta 
seriedade, de que no era perfeitamente legtimo e reconhecido como tal pelo menos por alguns dos contemporneos de Jesus, entre os quais Pilatos. A julgar pelos 
prprios Evangelhos, Jesus pode de fato ter sido rei dos judeus - e/ ou assim considerado. Somente a tradio persuadiu as pessoas do contrrio. Sugerir que Jesus 
pode realmente ter sido rei dos judeus no , portanto, ir contra as evidncias.  meramente divergir de uma tradio h muito estabelecida - um sistema de crenas 
h muito estabelecido, baseado em ltima anlise na interpretao especulativa de algum. Se alguma coisa vai contra as evidncias  esse sistema de crenas. Pois, 
no relato que Mateus faz do nascimento de Jesus, os trs "magos" perguntam: "Onde est o Rei dos judeus que acaba de nascer?" Se Pilatos pretendia usar o ttulo 
a pretexto de zombaria, como podemos resolver a questo dos magos? Ser que eles tambm o usavam por zombaria? Certamente no. No entanto, se estavam aludindo a 
um ttulo legtimo, por que Pilatos no poderia ter feito o mesmo?
Os Evangelhos so documentos de uma simplicidade chapada, mtica. Retratam um mundo reduzido a uns poucos traos toscos, um mundo de carter intemporal, arquetpico, 
quase de conto de fadas. Mas a Palestina, quando do advento da era crist, no era um reino de faz-de-conta. Ao contrrio, era um lugar absolutamente real, povoado 
por pessoas reais, como poderamos encontrar em qualquer parte do mundo em qualquer outra poca na histria. Herodes no foi o rei de uma lenda obscura. Foi um potentado 
muito real, cujo reinado (37- 4 a.C.) se estende alm do contexto bblico para coincidir no tempo com o de figuras seculares bem conhecidas - como Jlio Csar, Clepatra, 
Marco Antnio, Augusto, por exemplo, e outros personagens que nos so familiares a partir dos manuais escolares e at a partir de Shakespeare. Como dissemos, a Palestina 
no sculo I, como qualquer lugar do mundo, estava sujeita a um complexo emaranhado de fatores sociais, psicolgicos, polticos, econmicos, culturais e religiosos. 
Numerosas faces lutavam entre si e intestinamente. Compls manipulavam e maquinavam nos bastidores. Vrios partidos perseguiam objetivos conflitantes, muitas vezes 
fazendo frouxas alianas entre si com propsitos meramente oportunistas. Tratos eram feitos na clandestinidade. Jogos de interesses marcavam a luta pelo poder. O 
povo em geral, como o povo de qualquer lugar e de outras pocas, oscilava entre o torpor aptico e o fanatismo histrico, entre o medo ignbil e a convico ardorosa. 
Muito pouco disso, ou nada,  transmitido pelos Evangelhos - apenas um resduo de confuso. No entanto, essas correntes, essas foras, so essenciais para qualquer 
compreenso do Jesus hist6rico - o Jesus que realmente palmilhou o solo da Palestina 2 mil anos atrs, e no o Cristo da f. Foi esse Jesus que nos esforamos por 
discernir e compreender mais claramente. Fazer semelhante esforo no  declarar-se anticristo.

O contexto

Na esteira de O santo graal e a linhaaem sagrada, quando certos "cristos" nos acusaram com veemncia de sermos anticristos, s pudemos dar de ombros, impotentes. 
Ns prprios,  preciso repetir, no tnhamos nenhum desejo de assumir o papel de iconoclastas; fomos simplesmente apanhados no conflito entre fato e f.        .
As sugestes que fizemos sobre Jesus tampouco nos pareciam ter algo de chocante ou ultrajante. Como o leitor ter notado, praticamente todas as sugestes tinham 
sido feitas antes, em sua maioria muito recentemente, e foram bastante divulgadas. Alm disso, no estvamos sozinhos. No estvamos maquinando uma tese excntrica, 
temerria, feita sob medida para produzir um "best-seller instantneo". Ao contrrio, praticamente todas as nossas sugestes coincidiam muito com as principais tendncias 
dos estudos bblicos contemporneos, e era precisamente nesses estudos que grande parte da nossa pesquisa tinha origem. Consultamos os especialistas reconhecidos 
no campo, muitos dos quais no eram conhecidos pelo grande pblico; e, no geral, pouco mais fizemos do que sintetizar suas concluses de uma maneira facilmente digervel. 
Essas concluses j eram bastante conhecidas pelos membros dos cleros, que em grande parte as aceitaram prontamente. O que no conseguiram fazer foi, no entanto, 
transmiti-las aos leigos.
Em discusses privadas, tivemos contato com sacerdotes de muitas religies. Poucos expressaram alguma hostilidade s concluses do nosso livro. Alguns discordaram 
de um ou outro ponto especfico, mas a maioria julgou nossa tese geral plausvel, at provvel em certos casos, e de modo algum desabonadora da estatura de Jesus 
ou da f crist. A cristos leigos, contudo, as mesmas concluses pareceram envolver blasfmia, heresia, sacrilgio, e quase todos os outros pecados religiosos catalogados. 
Foi essa discrepncia de reao que nos pareceu particularmente espantosa e instrutiva. Clrigos, de quem poderamos esperar uma atitude mais combativa nesse campo, 
reagiram com algo entre a indiferena ctica mas no surpreendida e o  endosso completo. Seus rebanhos reagiram com algo entre a desiluso horrorizada e o ultraje 
vociferante. Nada teria podido deixar to a nu o fracasso das igrejas em manter suas congregaes a par dos desenvolvimentos no campo das investigaes bblicas.
Ainda assim, h sinais de que a situao comea a mudar lentamente. Pode ser,  claro, que esses sinais sejam enganosos ou ilusrios, e que o pndulo volte a oscilar 
em favor da "f simples", e que os frutos dos estudos histricos continuem a ser ignorados ou silenciados. Nesse aspecto, o contgio do fundamentalismo norte-americano 
 sem dvida um mau agouro. Seja como for, h no ar diferentes sinais de melhora, numerosos a ponto de corresponder, em escala modesta, a uma espcie de Zeitaeist 
- um esprito, ou corrente, ou movimento que se espalha pelo mundo.
Durante os anos em que fizemos nossa pesquisa, muitas outras publicaes j estavam em circulao, ajudando a criar um clima favorvel. Na dcada de 1970, pelo menos 
dois romances - um deles um trabalho literrio srio, bem-visto pela crtica - partiram da hiptese da descoberta do corpo mumificado de Jesus. Outro romance popular 
ps os Evangelhos em questo, sugerindo a existncia de um novo corpus de relatos bblicos de primeira mo - e este livro foi transformado numa minissrie de televiso. 
Em sua monumental obra Terra nostra - certamente um dos doze mais importantes romances publicados em qualquer lngua desde a Segunda Guerra Mundial - o respeitado 
romancista mexicano Carlos Fuentes descreve como Jesus escapou da morte por meio de uma crucificao fraudulenta, envolvendo um substituto. Pelo menos um romance, 
Magdalene, de Carolyn Slaughter, apresenta Madalena como amante de Jesus. E Liz Greene, inspirando-se na nossa prpria pesquisa, escreveu sobre uma linhagem que 
descenderia de Jesus em The Dreamer of the Vine, um romance sobre Nostradamus publicado em 1980.
No que diz respeito a trabalhos mais acadmicos, os manuscritos de Nag Hammadi foram publicados pela primeira vez em traduo inglesa em 1977 e, em menos de dois 
anos, inspiraram o best-seller de Elaine Pagel, The Gnostic Gospels. Morton Smith, que havia divulgado seus achados sobre a Igreja primitiva em The Secret Gospel, 
traou em seguida um controverso retrato de Jesus em Jesus the Magician. Haim Maccoby voltou sua ateno para o Jesus histrico em Revolution in Judaea e o mesmo 
fez Geza Vermes em obras como Jesus the Jew. A srie de estudos que Hugh Schonfield est desenvolvendo sobre a Palestina do sculo I foi sendo publicada a intervalos 
regulares ao longo da dcada de 1970. Num nvel teolgico, alguns clrigos anglicanos suscitaram considervel controvrsia ao pr em questo a divindade de Jesus 
numa coletnea de ensaios, The Myth of God lncarnate. Por fim, merece meno The Jesus ScroIl, da autoria do australiano Donovan Joyce, um livro curioso, sem respaldo 
nos fatos, mas fascinante.
Assim, em 1982, quando O santo graal e a linhagem sagrada foi publicado, as guas j haviam sido agitadas por uma onda recente de elementos relativos ao Jesus histrico. 
 verdade que muita gente ainda no sabe sequer em que medida, por exemplo, os Evangelhos se contradizem entre si. Ou que h outros Evangelhos alm dos que constam 
do Novo Testamento, que foram excludos do cnon de maneira mais ou menos arbitrria por conclios compostos de homens obviamente mortais, obviamente falveis. Ou 
que a divindade de Jesus foi decidida pelo voto no Conclio de Nicia, cerca de trs sculos depois da morte do prprio Jesus.  verdade tambm que o fundamentalismo 
continua fantico nos Estados Unidos. E, como observamos antes, ainda h na Gr-Bretanha pessoas capazes de atribuir um incndio provocado por um raio em York  
ira de Deus provocada pela nomeao de um bispo um tanto boquirroto - como se, em meio  violncia,  animosidade, ao preconceito,  insensibilidade e aos perigos 
do mundo moderno, Deus no tivesse mais nada com que se preocupar, nada de melhor para fazer com Seus recursos. E quando esse mesmo bispo faz uma declarao to 
bvia, to corriqueira, como a de que a Ressurreio no pode ser cabalmente "provada", ainda h quem grite blasfmia ou heresia e pea seu afastamento. Seja como 
for, h alguma coisa "no ar", da qual o prprio bispo  uma manifestao.
Seria falso de nossa parte afetar ignorncia quanto ao impacto causado por nosso livro, tanto em vendas como em controvrsia. Pela primeira vez, desde Passo ver 
Plot, de Hugh Schonfield, de 1963, algumas questes relativas ao Novo Testamento, a Jesus e  origem do cristianismo foram levantadas para o pblico leitor em geral 
- para o chamado "mercado de massa", e no para um punhado de especialistas acadmicos e telogos. E ficou patente que o grande pblico leitor estava no s preparado, 
mas positivamente vido por ouvir.
Nem a televiso nem as empresas editoriais ficaram cegas para as possibilidades. Desde 1982, vrios novos livros foram lanados. Em 1983, The ilIusionist, um romance 
de Anita Mason, props uma perspectiva controversa mas historicamente vlida sobre a consolidao da Igreja primitiva; foi includo na lista final de indicaes 
para o Booker Prize, o mais prestigioso prmio literrio da Gr-Bretanha. Em 1985, Anthony Burgess, de maneira talvez ainda mais controversa, explorou quase o mesmo 
territrio em The Kingdom of the Wicked. Uma tempestade incipiente foi provocada pelo romance de Michele Roberts, The Wild Girl. Inspirando-se, como ns, em dados 
dos manuscritos de Nag Hammadi, Michele Roberts apresenta Madalena como amante de Jesus e me de seu filho. Publicado em brochura em 1985, The Wild Girl provocou 
medonhas fulminaes, no somente de grupos de presso, como era previsvel, mas tambm de um pretenso Torquemada com assento no Parlamento; at que avaliaes bem 
mais lcidas tivessem conseguido se impor, o livro ficou sob a ameaa de ao penal nos termos da antediluviana lei britnica da blasfmia. Nesse nterim, King Jesus, 
de Robert Grave, que faz afirmaes no menos escandalosas, teve a primeira nova tiragem desde 1962, numa edio em brochura facilmente acessvel. (Ao que se presume, 
o livro de Grave era opaco demais para os pretensos guardies do pensamento que condenavam Michele Roberts. Ou talvez as figuras consagradas da literatura gozem 
de certa imunidade contra um zelo rabugento. Seria sensato alegar que o mais provo cativo retrato de Jesus jamais feito em qualquer lugar foi The Man Who Died, de 
D.H. Lawrence, publicado h mais de cinqenta anos, uma obra-prima em miniatura em que Jesus aparece tendo o que se costumava chamar de "conbio sexual" com uma 
sacerdotiza de sis num templo egpcio. No momento do clmax, ele declara: "Ressuscitei!".)
Entre os estudos bblicos destinados a um pblico no especialista, dois livros de Hugh Schonfield foram reeditados, ao passo que um novo, The Essene Odissey, foi 
publicado em 1985. As obras de Morton Smith e Elaine Pagels foram todas lanadas em brochuras de boa qualidade. Na televiso e no cinema, fizeram-se dramatizaes 
(ainda que estilizadas e no polmicas) do cerco a Massada e da contenda entre Pedro e Paulo. De maneira mais significativa, Karen Armstrong, uma ex-freira, contestou 
a tradio crist estabelecida numa srie inteligente, bem fundamentada e claramente apresentada sobre so Paulo, intitulada The First Christian. Como j comentamos, 
David Rolfe fez o mesmo em sua srie amplamente divulgada, Jesus: the Evidence, que foi seguida por um livro com o mesmo ttulo. Por fim, em The Sea of Faith, Don 
Cupitt, professor-conferencista de teologia e decano do Emmanuel College, Cambridg.e, apresentou o que talvez, seja o mais penetrante estudo j feito na televiso 
sobre o cristianismo nos dias de hoje - um estudo que contm afirmaes muito mais controversas do que as do bispo de Durham.
No teramos a presuno de afirmar que O santo graal e a linhagem sagrada por si mesmo influenciou qualquer desses trabalhos. Na verdade, algumas das pessoas citadas 
acima iriam indubitavelmente se ver s voltas com algumas das nossas concluses. Gostaramos, porm, de pensar que o sucesso do nosso livro deu, tanto aos editores 
quanto aos produtores de televiso, uma maior conscincia do pblico existente para informaes relativas ao Jesus histrico e  origem do cristianismo - um pblico 
cujo apetite torna viveis livros e filmes sobre esses temas. A emergncia desse pblico  um movimento novo extremamente significativo. Ela confere tambm uma nova 
e salutar responsabilidade s igrejas, tornando cada vez mais insustentvel a espcie de censura condescendente at agora praticada pelos sacerdotes com suas congregaes. 
Se, como no passado, pastores sonegarem informao ao seu rebanho, o rebanho no mais se resignar. Em vez isso, recorrer aos livros e  televiso.
Se esta suposio estiver correta, temos razes para nos sentir compensados. No por estarmos numa cruzada, convm repetir. No por termos algum interesse pessoal 
em contestar, desacreditar ou aviltar a instituio eclesistica. Mas porque tambm ns vivemos no mundo moderno. Percebemos as presses desse mundo e somos afetados 
por elas. Somos vulnerveis ao preconceito e, como quaisquer outras pessoas, estamos conscientes de quanta devastao o fanatismo, os excessos da f cega e a tirania 
que freqentem ente a acompanha podem infligir ao mundo.  em nosso benefcio, bem como em benefcio de todos, que algum senso de perspectiva precisa ser restaurado.

2
JESUS COMO REI DE ISRAEL

Certa vez, ao cruzar os Estados Unidos de avio, fomos informados pela aeromoa: "Aterrissaremos por alguns momentos [momentari1y ] em Chicago." Logo procuramos 
nos certificar de que o avio ficaria pousado tempo suficiente para nos permitir sair. As palavras esto imbudas de um significado que muitas vezes pode ser afetado 
pelo contexto, a cultura e a histria, todos por sua vez sujeitos a mudana. Nossos colegas americanos no compreendem a palavra "momentari1y" do mesmo modo que 
ns. Algumas palavras e seus significados podem alcanar notvel longevidade. "Co" continua sendo "co" atravs dos sculos e das mudanas culturais. (Embora at 
uma palavra to simples v evocar uma variedade de imagens diferentes segundo as preferncias caninas do leitor.) Mas a palavra "avio" certamente no poderia ter 
transmitido aos nossos ancestrais do sculo XVIII o sentido que tem no alto desta pgina.
Temos, necessariamente, de interpretar a linguagem. Pensamos saber o que certas palavras significam, mas essa presuno pode ser perigosa. Isso ocorre especialmente 
quando tentamos impor nossa interpretao do sculo XX a uma palavra que em algum momento, no passado, transmitiu um sentido sutilmente, ou radicalmente, diferente. 
Mais perigoso ainda  quando insistimos em que um homem de 2 mil anos atrs queria expressar o mesmo que ns numa esfera to contenciosamente abstrata quanto a da 
f religiosa.
Muitas das nossas atitudes ou crenas em relao a Jesus so fruto de interpretao - correta ou no - de material bblico. E a Bblia  composta de palavras (elas 
prprias tradues de outras palavras) que tentam transmitir idias. Talvez uma das mais importantes dessas idias seja a de Jesus como um messias.
Nas palavras de um hino muito apreciado, Jesus  qualificado de "profeta, sacerdote e rei" . Todas essas denominaes esto implcitas quando o cristo fala de Jesus 
como messias. De fato, para a maioria das pessoas, essa palavra, aplicando-se unicamente a Jesus, como ocorre em nossos dias, implica tambm Deus. Devemos ser cuidadosos, 
contudo, ao supor que palavras como "rei", "profeta" ou "messias" ainda carregam o mesmo significado que tinham no tempo e no mundo de Jesus.
Discutimos indcios de que Jesus seria um rei no nosso livro anterior, mas informaes adicionais sero apresentadas e enfatizadas aqui. Pois dizer que Jesus era 
um "rei legtimo" significa muito mais do que isso poderia implicar no mundo de hoje - muito mais que uma mera posio herdada e legtima como chefe, simblico ou 
no, de um Estado secular. Dois mil anos atrs, a "nao de Israel" era percebida basicamente como uma entidade mais espiritual do que secular. Ela representava 
um exemplo extremo de teocracia - de um corpo poltico essencialmente organizado em torno de princpios religiosos. Religio e Estado no eram apenas praticamente 
sinnimos, como talvez sejam atualmente no Ir, por exemplo. O Estado em si mesmo era uma manifestao da religio. Todos os demais aspectos da cultura eram igualmente 
absorvidos numa estrutura religiosa. A prpria paisagem era vista como favorecida de maneira nica e especial por Deus. Cavernas, vales, montanhas, rios - tudo era 
investido de um significado reverencial profundo. Embora fatores sociais, polticos e econmicos fossem obviamente importantes, a mquina administrativa do governo 
estava fundamentalmente voltada para a criao de uma cultura que merecesse a aprovao de Deus e realizasse o que se supunha ser a Sua vontade. Os impostos arrecadados 
por Roma ou por autoridades seculares locais podiam provocar ressentimento, mas aqueles reivindicados pelo Templo eram pagos de bom grado, at com alegria. As pessoas 
se viam a si mesmas como "escolhidas por Deus" e o rei dessa gente era concebido como algo maior que outros reis - maior at que o imperador de Roma. Ele era uma 
manifestao da vontade de Deus. Era a encarnao do plano divino de Deus para o povo como um todo. Era um porta-voz das intenes e dos desejos de Deus. Por ser 
um rei, tinha, em ltima anlise, o valor de um orculo, de um sumo sacerdote, de um papa, de um lder espiritual.
Tudo isso - no contexto da poca,  claro -  o que o termo "messias" teria significado. Numa traduo estritamente literal, "messias" significava nem mais nem menos 
que "o ungido". Em outras palavras, denotava o rei devidamente consagrado e divinamente aprovado. Todo rei de Israel era visto como um messias. O termo foi habitualmente 
aplicado a Davi e a seus sucessores, de Salomo em diante.

"Todo rei judeu da Casa de Davi foi conhecido como Messias, ou Cristo, e uma maneira usual de se referir ao Sumo Sacerdote era 'o Sacerdote Messias' ..." 
Mas isso no  tudo. Mais ou menos na poca em que Jesus nasceu, uma oposio militante, armada, a Roma foi organizada e liderada por um homem que tambm reivindicava 
o ttulo de messias. Foi reconhecido como .tal no s por seus seguidores imediatos como por parte do povo em geral. Em 66 d.C., seu filho "retomou a Jerusalm na 
condio de rei" e, "adornado com trajes reais", visitou o Templo para adorar. 
 desnecessrio dizer que esses personagens nada tinham de intrinsecamente divino. De fato, afirmar que algum homem era Deus, ou mesmo filho de Deus, num sentido 
literal, teria sido, para Jesus e seus contemporneos, algo de sumamente blasfemo. Para Jesus e seus contemporneos, a idia de um messias divino teria sido inteiramente 
impensvel.
Mas se o messias no era divino, devia por certo ter recebido uma bno particular e nica de Deus. Seria, por assim dizer, uma espcie de vice-rei temporal de 
Deus, constituindo o elo primeiro entre a Divindade e a humanidade comum. Assim, embora o termo "messias" significasse meramente "o ungido", ou "rei", o conceito 
de realeza por ele implicado envolvia muito mais do que envolve hoje.
A importncia do messias esperado foi ampliada pelas circunstncias reinantes na Palestina no perodo em que Jesus nasceu. O perodo - que teremos oportunidade de 
discutir com detalhes adiante - era conhecido, pelos que nele viviam, como "Final dos Tempos" ou "Os ltimos Dias". Acreditava-se que a nao cara numa fase de 
calamidade cataclsmica. A ltima dinastia de monarcas judeus legtimos por pouco fora extinta. Desde 63 a.C., Israel se tornara um territrio do Imprio Romano, 
obrigado a reconhecer um soberano secular que numa afronta blasfema a todos os dogmas do judasmo - ousava se proclamar um deus. O trono do pas, por sua vez, estava 
ocupado por um rei-fantoche, visto como um inquo usurpador. Herodes, que reinava na Palestina na poca, no podia pretender ser judeu por nascimento. Era natural 
da Idumia, uma regio ao sul, em grande parte desrtica e no judaica.
No incio de seu reinado, Herodes procurou assegurar sua prpria aceitao e legitimidade. Repudiou sua primeira esposa e casou-se com uma princesa judaica reconhecida, 
procurando assim pelo menos alguma forma de sano legal. Para despertar a simpatia do povo, reconstruiu o Templo de Jerusalm numa escala sem precedentes.
Proclamava-se um devoto servidor do Deus de Israel. Esses gestos malograram por completo como formas de ratificar sua autoridade. Herodes continuou execrado e odiado 
pelo povo que governava o Mesmo seus atos mais generosos eram recebidos com hostilidade e desdm, o que estimulou sua predisposio natural para a tirania e o desmando.
Que um homem como esse fosse colocado no papel de soberano dos escolhidos de Deus era considerado uma maldio - uma atribulao imposta por Deus a Seu povo, uma 
punio por transgresses tanto passadas quanto presentes. Fossem quais fossem os abusos que Herodes pudesse perpetrar, eles eram vistos como meros sintomas de um 
dilema muito mais profundo - o dilema de um povo que fora abandonado pelo seu Deus. Por toda a Palestina do tempo de Jesus, espalhava-se uma nsia por um lder espiritual 
que pudesse reconduzir a nao de volta a Deus, que efetuasse uma reconciliao com o divino. Esse lder espiritual, quando aparecesse, seria o legtimo rei - o 
"messias". Como rei, iria resgatar seu povo. Iria restaurar o pacto de Deus com o homem. Ajudado por Deus, imbudo de Deus, sancionado e autorizado por Deus, desempenhando 
a vontade de Deus, ele expulsaria da Palestina os invasores romanos e estabeleceria seu prprio regime legtimo, to glorioso quanto aquele atribudo pela tradio 
a Salomo e Davi. O perfil moral do messias  assim sintetizado por um historiador do perodo:

(...) um descendente de Davi carismaticamente dotado que, segundo os judeus acreditavam (...), seria alado por Deus para quebrar o jugo do gentio e reinar sobre 
um reino restaurado de Israel, para o qual todos os judeus do Exlio haveriam de retomar. 

A tradio crist,  claro, no contesta a pretenso de Jesus ao messiado. Contesta apenas as implicaes disso, simplesmente porque, durante sculos, elas no foram 
suficientemente esclarecidas. Aceitar Jesus como messias negando ao mesmo tempo seu papel rgio e poltico  simplesmente ignorar os fatos - ignorar o contexto histrico, 
ignorar o que a palavra "messias" significava e implicava. Os cristos viram o messias como no-poltico - uma figura inteiramente espiritual que no representava 
qualquer desafio  autoridade temporal, que no tinha quaisquer aspiraes seculares ou polticas pessoais, que acenava para seus seguidores com um reino "que no 
 deste mundo". Nos ltimos dois sculos, no entanto, os estudos bblicos tomaram essa interpretao cada vez mais insustentvel. Dificilmente um especialista nesse 
assunto contestaria que o messias esperado na poca de Jesus era uma figura de carter amplamente poltico, que se  empenharia em redimir Israel do jugo romano. 
O judasmo nesse tempo no estabelecia distino entre religio e poltica. Uma vez que o rei legtimo era designado e confirmado por Deus, sua atividade poltica 
ficava envolta numa aura religiosa. Uma vez que sua funo religiosa inclua libertar seu povo da servido, seu papel espiritual era tambm poltico.

O rei legtimo

Os Evangelhos de Mateus e Lucas afirmam explicitamente que Jesus tinha sangue real - era um genuno e legtimo rei, descendente em linha direta de Salomo e Davi. 
Se isso fosse verdade, teriam conferido a ele pelo menos uma importante qualificao para ser o messias, ou para ser apresentado como tal. Tecnicamente, ele teria 
direito ao trono de seus rgios antepassados - e talvez, como j foi sugerido, fosse o nico legtimo detentor desse direito. Fica evidente nos Evangelhos que certas 
pessoas, de origens sociais e interesses radicalmente diversos, se mostram bastante dispostas a reconhecer a validade dessa reivindicao. Como observamos, os trs 
magos chegam perguntando pelo "Rei dos Judeus que acaba de nascer". Em Lucas 23:3, Jesus  acusado de ". .. incitar nosso povo  revolta, condenando o pagamento 
do tributo a Csar e proclamando ser o Cristo um rei". Em Mateus 21:9, em sua entrada triunfal em Jerusalm, Jesus  saudado por uma multido que gritava "Hosana 
ao filho de Davi".  praticamente indiscutvel que, nesse episdio, Jesus est sendo aclamado como rei. Na verdade, os Evangelhos tanto de Lucas com de Joo so 
explcitos a este respeito. Em ambos, Jesus  aclamado de maneira absolutamente inequvoca como rei. E em Joo 1:49 Natanael diz a Jesus, sem meias palavras: "Tu 
s o rei de Israel!"
Por fim,  claro, h a inscrio "Rei dos Judeus", que Pilatos manda afixar na Cruz. Como j mencionamos, a tradio crist atribui esse gesto de Pilatos ao escrnio. 
Mesmo como ato de escrnio, contudo, ele no faz sentido a menos que Jesus fosse realmente rei dos judeus. De que serviria um tirano e provocador, empenhado em afirmar 
sua prpria autoridade, dominar as pessoas e humilhar os que esto sob seu poder, rotular de rei um pobre profeta? Se, por outro lado, Jesus fosse um rei legtimo, 
a sim ele poderia afirmar sua autoridade humilhando-o.
H mais indcios da condio rgia de Jesus na narrativa do massacre dos inocentes promovido por Herodes (Mateus, 2:3-14). Embora extremamente questionvel como 
registro de um fato histrico verdadeiro, essa narrativa revela uma inquietao muito real de Herodes diante do nascimento de Jesus:

Ao saber disso, Herodes ficou perturbado (...). Reuniu todos os altos sacerdotes e os escribas (...) e perguntou-lhes em que lugar o Cristo deveria nascer. "Em Belm 
de Judia", responderam-lhe, "pois foi isto que o profeta escreveu..."

Por mais aborrecido que Herodes possa ter ficado, teoricamente sua posio no trono era segura. Certamente  inconcebvel que tenha-se sentido seriamente ameaado 
por rumores acerca de um personagem mstico ou espiritual - um profeta ou mestre do tipo que existia em abundncia na Terra Santa nesse tempo. Se Herodes se sentiu 
ameaado por um recm-nascido, isso s pode ter ocorrido em razo do que a criana era intrinsecamente - um rei legtimo, por exemplo, com direito ao trono que at 
Roma, no interesse da paz e da estabilidade, poderia reconhecer. S um desafio concreto, poltico, como esse seria suficiente para explicar a inquietao de Herodes. 
No seria o filho de um pobre carpinteiro que poderia atemorizar o usurpador, mas o messias, o rei ungido e legtimo - uma figura que, em virtude de alguma qualificao 
genealgica inerente, seria capaz de arregimentar apoio popular e de, se no dep-lo, pelo menos amea-lo em bases especificamente polticas.

A origem privilegiada

A imagem de Jesus como um "pobre carpinteiro" de Nazar pode ser questionada em detalhes. Por ora, contudo, basta simplesmente destacar dois pontos. O primeiro  
que a palavra geralmente traduzida por "carpinteiro" no significa, no original grego, um mero operrio que faz obras grosseiras de madeira. A traduo mais precisa 
seria "mestre", implicando mestria em alguma arte, ofcio ou disciplina. Teria sido to aplicvel a um mestre-escola, por exemplo, quanto a um arteso dedicado a 
qualquer arte manual.  O segundo ponto  que, quase certamente, Jesus no era "de Nazar". Um enorme corpo de dados indica que Nazar no existia nos tempos bblicos. 
 pouco provvel que a cidade tenha surgido antes do sculo m. "Jesus de Nazar", como hoje a maioria dos estudiosos da Bblia admitiria prontamente,  uma traduo 
errnea da expresso grega original "Jesus, o Nazareno". Esse epteto no denota nenhuma localidade. Indica, isto sim, que Jesus pertencia a um grupo ou seita especfico, 
como uma orientao religiosa e/ ou poltica especfica - o "partido nazareno", como alguns especialistas contemporneos o chamam.
Existem muito poucas informaes precisas sobre as circunstncias que cercaram Jesus. Mas as que existem indicam claramente que sua famlia era abastada, e que recebeu 
uma criao de tipo s acessvel aos que possuam boa posio social e recursos financeiros. Todos os relatos o apresentam como um homem instrudo - coisa que, convm 
lembrar, era rara naqueles tempos de analfabetismo generalizado, em que a educao era essencialmente um acessrio de classe. Jesus  obviamente instrudo e bem-educado. 
Nos Evangelhos, ele discute com conhecimento de causa sobre a Lei, o que pressupe considervel grau de educao formal. Por suas prprias declaraes, fica claro 
que sabia de cor e salteado os livros profticos do Antigo Testamento, sendo capaz de cit-los a seu talante, de transitar entre eles com a facilidade e a percia 
de um estudioso profissional. E se alguns membros do seu crculo so aparentemente humildes pescadores e artesos da Galilia, outros so pessoas ricas e influentes 
- Jos de Arimatia, por exemplo, e Nicodemo, e Joana, a mulher do intendente de Herodes. Alm disso, como demonstramos no nosso livro anterior, o casamento em Can 
- que na verdade pode ter sido o casamento do prprio Jesus - no foi um modesto festejo de aldeia, mas uma cerimnia suntuosa de gente de boa posio social ou 
da aristocracia.  Mesmo que o casamento no fosse do prprio Jesus, sua presena, bem como a de sua me, em semelhante ocasio seria uma indicao patente de que 
eram membros da mesma casta social.

Reconhecimento pblico

Mais significativo talvez que dados desse tipo  o simples fato de, nos Evangelhos, em algumas ocasies decisivas, Jesus agir com um rei, e isso de maneira bastante 
deliberada. Um dos exemplos mais eloqentes  a sua entrada triunfal em Jerusalm montado num jumento. Estudiosos da Bblia concordam em que esse incidente - de 
importncia manifesta na carreira de Jesus e intencionalmente produzido para atrair ao mximo a ateno de seus contemporneos - serviu a um propsito muito especfico. 
Pretendia cumprir, de maneira bastante ostensiva, uma profecia do Antigo Testamento. De fato, em Mateus 21:4,  explicitado que a procisso se destinava a cumprir 
a profecia feita em Zacarias 9:9, que prev a chegada do messias:

Exulta com todas as tuas foras, filha de Sio! Lana gritos de alegria, filha de Jerusalm! Eis que teu rei vem a teu encontro:
Ele  justo e vitorioso,
Humilde e montado num jumento...

Dada a familiaridade de Jesus com o Antigo Testamento,  difcil duvidar que conhecesse esta profecia. E conhecendo esta profecia, dificilmente teria podido realiz-la 
de maneira no intencional, ou por "mera coincidncia". A entrada em Jerusalm s pode ter sido feita por Jesus com a deliberada inteno de se identificar aos olhos 
da populao, de maneira muito especfica, com o messias esperado - em outras palavras, o rei legtimo, o "ungido".
Para completar, Jesus de fato fora ungido. O relato figura no Novo Testamento sob uma forma ambgua. Obviamente sofreu uma tentativa de alterao e/ ou censura, 
mas alguma coisa da verdade ainda pode ser pinada dos fragmentos que restaram. Assim, tanto Mateus quanto Marcos afirmam de maneira inequvoca que ocorreu uma uno 
rgia.
Ambos afirmam que ela envolveu trezentos denarii de nardo - o equivalente, talvez, a 5 mil libras hoje. Joo declara que o ritual foi oficiado por Maria de Betnia, 
a irm de Lzaro. E deixa escapar novamente a verdade, ao especificar que o ritual se realizou precisamente um dia depois da entrada triunfal em Jerusalm.
Mesmo antes disso, contudo, h indcios de que Jesus recebia algum tipo de reconhecimento pblico convencional como messias de Israel, ou rei legtimo. O ritual 
oficiado por Joo Batista no Jordo certamente parece ser algo desse gnero. Ao que tudo indica, foi algo anlogo, grosso modo,  investidura do prncipe de Gales. 
Tendo sido batizado por Joo, Jesus tinha o "selo de aprovao" de um profeta aceito e estabelecido, um homem santo e reverenciado - assim como Saul, o primeiro 
rei de Israel, recebera o "selo de aprovao" do profeta Samuel. Se Joo fosse, ademais, da mesma famlia de Jesus, seu "selo de aprovao" possuiria a autoridade 
adicional de um certificado rgio.
Seja como for, uma coisa parece clara: depois de seu batismo no Jordo Jesus passa por uma mudana significativa. Antes desse ritual, ele parece ter sido desconhecido. 
 certo que no h registro de nenhuma atividade pblica sua, nenhum comportamento que pudesse atrair ateno. Depois do batismo, no entanto, ele se desloca subitamente 
para o centro do palco, sem se acovardar ante as luzes da ribalta, sem se acovardar ao dirigir a palavra a grandes multides, sem se acovardar por se tomar o foco 
do interesse pblico. Mas isso no  tudo, sua atitude parece ter sido afetada pelo encontro com Joo no Jordo.  quase como se tivesse adquirido algo da fria 
tempestuosa de Joo, algo da terrvel, da apocalptica ameaa de Joo, do seu sinistro ultimato. Em suma, Jesus comea a exibir precisamente o comportamento que 
seus contemporneos teriam esperado de seu legtimo rei. Reconhecido e ratificado como o messias, comea agora a agir como tal.

O efeito da queda de Jerusalm

Os Evangelhos foram despolitizados e a responsabilidade pela crucificao de Jesus foi transferida da administrao romana para os judeus. Ao tratarmos desse processo, 
no estamos especulando. Ao contrrio, estamos nos apoiando no consenso de estudos contemporneos imparciais do Novo Testamento. E estamos tambm nos valendo de 
um elementar bom senso. Por que, por exemplo, as mesmas pessoas que se aglomeram para saudar Jesus na sua entrada em Jerusalm iriam clamar sua morte poucos dias 
depois? Por que a mesma multido que invocou bnos sobre o filho de Davi haveriam de se regozijar ao v-lo envergonhado e humilhado pelos odiados opressores romanos? 
Por que - admitindo que o relato bblico tem um mnimo de veracidade - a mesma populao que reverenciava Jesus daria de repente uma guinada e pediria, ao preo 
de sua vida, que se poupasse um personagem como Barrabs (fosse ele quem fosse)? Estas perguntas no podem ser ignoradas. Nem os Evangelhos, porm, nem a tradio 
crist posterior tentaram respond-las.
Como explicamos no nosso livro anterior, e como admitem todos os especialistas srios em estudos bblicos, no que tange a questes como essas, ou os Evangelhos foram 
radicalmente reescritos, ou, o que  mais provvel, distorceram os eventos que descrevem, os quais provavelmente ocorreram pelo menos trinta anos antes de sua composio. 
Os Evangelhos datam do perodo posterior  revolta judaica de 66 d.C. e ao saque de Jerusalm em 70 d.C. Datam de um perodo de conturbao cataclsmica, quando 
a Palestina estava devastada pela guerra, a Cidade Santa e o mais sagrado santurio do judasmo destrudos, todos os registros dispersados e a memria que as pessoas 
tinham dos acontecimentos estava toldada ou alterada por ocorrncias mais recentes. A revolta de 66-73 d.C. foi um divisor de guas. Os eventos anteriores foram 
transformados  sua luz, muitas vezes pela projeo no passado daquilo que s depois se veio a saber. Para historiador contemporneo, a revolta deforma todas as 
perspectivas: nenhum testemunho escapa da filtragem pelo vidro escuro, embaado, da sublevao.
Mas a exploso da Palestina em 66 d.e. no foi uma ocorrncia sbita ou inesperada. Ao contrrio, o pas estivera em combusto por algum tempo. A derrocada iminente 
estava no ar. Antes da revolta decisiva, que provocou a reao romana em seu grau mximo de violncia, muitas insurreies frustradas tinham acontecido, desde o 
tempo de Jesus e, na verdade, desde bem antes. A partir do incio do sculo, faces militantes tinham-se tomado cada vez mais ativas, empreendendo uma prolongada 
guerra de guerrilha, atacando de surpresa caravanas romanas com carregamentos de provises, enfrentando contingentes isolados de tropas romanas, atormentando as 
guarnies romanas com investidas sucessivas, causando tanta perturbao quanto possvel.
H indcios da associao de Jesus com faces militantes e  provvel que ele prprio tenha militado. Esses indcios existem, e no vo desaparecer, por mais que 
os autores do Evangelho tenham tentado disfar-los, e por mais embaraosos que sejam para a tradio crist posterior. A nosso ver, porm, seria um erro dissociar 
esses indcios do seu contexto, como alguns estudiosos tentaram fazer recentemente. Seria um erro ver Jesus simplesmente como um agitador, um revolucionrio no sentido 
moderno. Um revolucionrio ou agitador comum - e havia muitos deles atuando na Terra Santa na poca podia perfeitamente ter conseguido apoio popular para suas aes, 
mas no ser aclamado como messias. E h fragmentos suficientes nos Evangelhos - o batismo no Jordo, por exemplo, e a entrada triunfal em Jerusalm - para indicar 
que Jesus de fato recebeu esse ttulo, pelo menos durante os anos de seu ministrio. Se era assim elegvel para esse ttulo, algo devia qualific-lo para tal- algo 
que o distinguia dos muitos outros lderes, tanto militares quanto polticos, que na poca estavam se transformando num tormento constante para os romanos. Para 
receber o ttulo de messias, e ser aclamado como tal pelo povo, Jesus teria de possuir alguma pretenso legtima.
Em contraste com um revolucionrio convencional, Jesus deve ser visto como o que os prprios Evangelhos reconhecem que foi - um pretendente ao trono de Davi, um 
rei legtimo, cujo cetro, como o de Davi, implicava soberania espiritual e temporal. E se ele se envolveu em atividades de combate, estava simplesmente desempenhando 
a misso marcial esperada dele como libertador real. A resistncia armada a Roma estava implcita no ttulo e na posio que assumira.

3
CONSTANTINO COMO MESSIAS

O messias que os contemporneos de Jesus esperavam era uma variante de um conceito muito conhecido e antigo. Era o equivalente especificamente judaico do rei-sacerdote 
sagrado. O conceito subjacente a essa figura havia vigorado por todo o mundo antigo - no s nas culturas clssicas do Mediterrneo e do Oriente Mdio como entre 
as tribos celtas e teutnicas da Europa e ainda mais longe. Entre outras coisas, a condio de rei funcionava como uma espcie de canal atravs do qual o homem se 
ligava aos seus deuses. E a hierarquia social que culminava no rei pretendia espelhar, no plano terreno, a ordem imutvel, a coerncia e a estabilidade de que o 
cu parecia dar testemunho.
No raro, o rei-sacerdote era investido de uma condio divina prpria, tornando-se ele prprio um deus. Assim, por exemplo, os faras egpcios eram divinizados, 
vistos como avatares de Osris, Amon e/ou R. De maneira um tanto parecida, os imperadores romanos se alavam  condio de deuses, proclamando-se descendentes diretos 
no apenas de semideuses, como Hrcules, mas de ningum menos que o prprio Jpiter. No judasmo,  claro, o monotesmo prevalecente no sculo I d.C. impedia qualquer 
deificao do messias. No obstante, ele era mais que um mero rei. Era tambm sagrado. Se no era ele prprio um deus, estava intimamente ligado a Ele, sendo uma 
manifestao da Sua benevolncia e da Sua vontade. Constitua o essencialissimo vnculo entre a ordem terrestre e a ordem celeste.
O conceito do carter sagrado da realeza persistiu por muito tempo na histria ocidental. Nem  preciso dizer que esteve na base da doutrina do "direito divino", 
 medida que esta foi-se desenvolvendo. Esteve tambm por trs de desdobramentos, como a crena medieval de que os monarcas tinham o poder de curar pela imposio 
das mos. No espanta que esse dom, que refletia to diretamente o dom atribudo a Jesus, tenha sido conferido com especial nfase aos merovngios.

Dos merovngios aos Habsburgos, as dinastias europias se consideraram, e foram consideradas por seus sditos, detentoras de um mandato exclusivo "das alturas". 
Embora com freqncia se abusasse muito dele, esse mandato tinha um fundamento intrinsecamente generoso - destinava-se fundamentalmente a promover o bem comum e 
no a fomentar a autocracia. Estritamente falando, o rei nada mais era que um servo, um recipiente, um veculo, atravs do qual a vontade divina se manifestava. 
Para que essa vontade se realizasse, consideravase que o prprio rei podia ser sacrificado.
De fato, em muitas culturas antigas o rei era ritualmente sacrificado aps um perodo estipulado. O assassnio ritualstico do rei  um dos mais arcaicos e difundidos 
ritos na aurora da civilizao. Ainda que com certas variaes simblicas, o prprio Jesus se enquadra nesse padro. E isso no  tudo. Em culturas antigas pelo 
mundo afora, o corpo sacrificado do rei era consumido num banquete. Sua carne era comida e seu sangue bebido. Assim seus sditos ingeriam algo da virtude e do poder 
de seu soberano morto, dele se apropriando. Um resqucio dessa tradio est bastante evidente no servio cristo da comunho.
   
O messias guerreiro

Se os reis da Europa medieval crist gozavam de um "direito divino", somente a Igreja tinha o poder de conferir, ratificar e legitimar tal direito. De fato, a partir 
do sculo VIII a Igreja se arrogou o poder de fazer reis. Em outras palavras, tomou a si uma prerrogativa anteriormente reservada a Deus, promovendo-se a Seu porta-voz. 
Em conformidade com a prtica do Antigo Testamento, fazia-o atravs da uno, a sagrao com leo. Como nos tempos bblicos, o rei tornava-se "o ungido", mas somente 
se tivesse a aprovao da Igreja.
Para os cristos modernos, contudo, seria surpreendente se a Igreja conferisse a soberanos seculares os demais atributos que os contemporneos de Jesus conferiam 
ao messias esperado.  difcil imaginar, por exemplo, a Igreja reconhecendo um soberano secular como um reisacerdote "pleno" no sentido bblico tradicional. Foi 
exatamente isso, no entanto, que a Igreja primitiva fez com o imperador Constantino. Na verdade, ela foi ainda mais longe. Aceitou no apenas que Constantino se 
proclamasse o messias, como que se arvorasse num messias especificamente guerreiro - um homem que implementava a vontade de Deus com a espada e cujos triunfos eram 
demonstraes da aprovao divina. Em outras palavras, a Igreja reconheceu que Constantino estava cumprindo com xito a misso em que Jesus notoriamente fracassara.
Constantino, que reinou inconteste sobre o Imprio Romano de 312 d.C. at sua morte, em 337 d.C.,  considerado com razo um piv de extrema importncia na histria 
e no desenvolvimento do cristianismo. Mas a postura que hoje se adota para avali-lo repousa em supersimplificaes precrias, quando no extravagantes. Segundo 
a tradio popular, Constantino teria sido sempre tolerante, seno simptico, ao cristianismo - um "homem bom" por natureza, mesmo antes de ter "visto a luz" definitivamente. 
Na verdade, a atitude de Constantino com relao ao cristianismo parece ter sido ditada antes de mais nada pela convenincia, j que os cristos a essa altura eram 
numerosos no imprio e ele precisava de todo o apoio que pudesse angariar contra Maxncio, seu rival ao trono imperial. Em 312 d. C., Maxncio foi morto e seu exrcito 
dispersado na batalha da Ponte Mlvia, ficando inconteste a reivindicao de Constantino ao trono. Ao que se conta, imediatamente antes desse combate decisivo, Constantino 
teria tido a viso - mais tarde reforada por um sonho proftico - de uma cruz luminosa suspensa no cu. Nela estaria escrita uma frase: "In Hoc Signo Vinces" [Por 
este sinal vencers]. Reza a tradio que Constantino, em deferncia a esse prodgio celestial, ordenou que os escudos de suas tropas fossem imediatamente adornados 
com o monograma cristo: as letras gregas qui e r, as duas primeiras da palavra Khristos. Por conseginte, a vitria de Constantino sobre Maxncio veio a representar 
um triunfo miraculoso do cristianismo sobre o paganismo.
Mas a tradio no pra a. Apresenta tambm Constantino como um devoto convertido ao cristianismo. Atribuem-lhe a "cristianizao do imprio" e a transformao 
do cristianismo em religio oficial de Roma. E, em virtude de um documento que teria supostamente "vindo  luz" no sculo VIII, a chamada "Doao de Constantino", 
passouse a acreditar que teria transferido alguns de seus prprios poderes seculares ao papa. Foi com base nesse documento que a Igreja catlica sustentou sua prerrogativa 
de fazer reis, bem como de se impor ela prpria como autoridade temporal.
   
Salvador da Igreja

J examinamos algumas das tradies popularmente associadas a Constantino e tentamos deslindar os fatos histricos de um emaranhado de meias-verdades e lendas.) 
O resultado foi um quadro muito diferente do que geralmente se pinta. Desde ento, porm, novos dados sobre Constantino tornaram-se disponveis, acrescentando ao 
quadro novas dimenses significativas. Diante disso,  necessrio reexamin-lo.
 verdade, sem dvida, que Constantino foi tolerante com o cristianismo. Pelo Edito de Milo, promulgado em 313, ele proibiu a perseguio de todas as formas de 
monotesmo no imprio. Uma vez que o cristianismo estava entre elas, Constantino tornou-se de fato um salvador, livrando as congregaes crists de sculos de hostilidade 
imperial.  verdade tambm que concedeu certos privilgios  Igreja catlica, bem como a outras instituies religiosas. Permitiu que altos dignitrios da Igreja 
participassem da administrao civil, pavimentando com isso o caminho para a consolidao do poder secular da Igreja. Doou o palcio de Latro ao bispo de Roma, 
e a Igreja pde us-lo como instrumento para estabelecer sua supremacia sobre centros rivais de autoridade crist em Alexandria e Antioquia. Finalmente, presidiu 
ao Conclio de Nicia, em 325 d.C. Nesse conclio, as vrias formas divergentes de cristianismo foram obrigadas a se confrontar e, na medida do possvel, dirimir 
suas diferenas. Em conseqncia de Nicia, Roma se tornou o centro oficial da ortodoxia crist e qualquer desvio em relao a essa ortodoxia passou a ser visto 
como heresia, e no mais mera divergncia de opinio ou interpretao. No Conclio de Nicia, a divindade de Jesus e a natureza precisa dessa divindade foram decididas 
por voto.
 justo dizer que o cristianismo, tal como o conhecemos hoje, deriva em ltima anlise no do tempo de Jesus, mas do Conclio de Nicia. E como Nicia foi em grande 
parte obra de Constantino, o cristianismo tem uma dvida para com ele. Coisa muito diferente, porm,  dizer que Constantino foi cristo, ou que "cristianizou o 
imprio". Na verdade, hoje  possvel demonstrar que as tradies populares associadas a ele so em sua maioria errneas.
A chamada "Doao de Constantino", usada pela Igreja no sculo VIII para impor sua autoridade em assuntos seculares,  hoje universalmente reconhecida com uma fraude 
descarada - dessas que, num contexto contemporneo, seriam consideradas inequivocamente criminosas. Atualmente, at a Igreja admite isso sem hesitao, embora permanea 
relutante em abrir mo de muitos dos benefcios obtidos por meio dessa trapaa.
Quanto  sua "converso" - se  que essa palavra se aplica -, Constantino no parece em absoluto ter sido cristo, e sim um pago no sentido usual. Parece ter tido 
uma espcie de viso ou sonho, ou talvez ambos, no recinto de um templo pago a Apolo na Glia, ou na regio dos Vosges, ou perto de Autun. Pode ter havido tambm 
uma segunda experincia desse tipo, imediatamente antes da batalha da Ponte Mlvia, em que Constantino derrotou seu rival na disputa pelo trono imperial. Segundo 
uma testemunha que acompanhou o exrcito de Constantino nessa fase, a viso foi a do deus Sol - divindade adorada por certos cultos sobre o nome de Sol lnvictus, 
o "Sol Invencvel". Pouco antes de ter sua viso ou vises, Constantino havia sido iniciado num culto ao Sol lnvictus, o que torna sua experincia perfeitamente 
plausvel. Alm disso, aps a batalha da Ponte Mlvia, o Senado romano ergueu um arco triunfal no Coliseu. Segundo a inscrio que esse arco ostenta, a vitria de 
Constantino fora conquistada "graas ao estmulo de Deus" . Mas o Deus em questo no era Jesus - era Sol Invictus, o deus Sol pago. 
Ao contrrio do que reza a tradio, Constantino no fez do cristianismo a religio oficial de Roma. Esta foi na verdade, sob Constantino, o culto pago ao Sol, 
no qual o prprio imperador desempenhou, ao longo de toda a sua vida; o papel de sumo sacerdote. De fato, seu reinado, aclamado pelos contemporneos como o "imprio 
do Sol", foi marcado pela ubiqidade da imagem de Sol Invictus, presente inclusive nas bandeiras imperiais e nas moedas do reino. A idia de Constantino como um 
fervoroso convertido ao cristianismo  patentemente errnea. Ele sequer tinha sido batizado antes de jazer no seu leito de morte. Tambm no  correto creditar-lhe 
o monograma qui r: esse monograma foi encontrado inscrito num tmulo de Pompia datado de dois sculos e meio antes.
O culto a Sol lnvictus era de origem sria. Fora introduzido em Roma um sculo antes da poca de Constantino. Embora contivesse elementos dos cultos a Baal e Astartia, 
era essencialmente monotesta. Na verdade, tomava o deus Sol como a suma de todos os atributos de todos os demais deuses, e assim englobava pacificamente seus rivais 
potenciais, sem necessidade de erradic-los. Estes podiam, em resumo, ser acomodados sem maior atrito.
Para Constantino, o culto a Sol lnvictus era, simplesmente, de grande convenincia. Seu objetivo bsico, e de fato obsessivo, era a unidade - unidade na poltica, 
na religio e no territrio. Uma religio oficial que englobava todas as demais favorecia obviamente esse objetivo. Foi portanto sob a gide de Sol Invictus, por 
assim dizer, que o cristianismo continuou a prosperar.
Seja como for, a doutrina crist, tal como promulgada por Roma nesse tempo, tinha muito em comum com o culto a Sol Invictus. Assim, pde florescer imperturbada, 
protegida pela tolerncia do culto pago. Sendo essencialmente monotesta, o culto a Sol Invictus abriu caminho para o monotesmo cristo. Ao mesmo tempo, a Igreja 
primitiva no tinha qualquer escrpulo em modificar seus prprios credos e dogmas em proveito prprio, quando a oportunidade se apresentava. Por um edito promulgado 
em 321, por exemplo, Constantino ordenou que os tribunais deveriam ser fechados no "venervel dia do Sol", decretando que esse seria um dia de repouso. At ento, 
o cristianismo havia guardado o sbado, o sab judaico, como sagrado. A partir do edito de Constantino, passou a adotar o domingo, o dia do Sol, como seu dia sagrado. 
Isso no somente o ps em harmonia com o regime vigente, mas tambm lhe permitiu um maior afastamento de suas origens judaicas. Alm disso, at o sculo IV o nascimento 
de Jesus fora celebrado em 6 de janeiro. Para o culto a Sol Invictus, contudo, o dia simbolicamente mais importante do ano era 25 de dezembro - o festival de Nalalis 
Invictus, o nascimento (ou renascimento) do Sol, quando os dias comeam a ser tornar perceptivelmente mais longos. Tambm sob este aspecto, o cristianismo acomodou-se 
ao regime e  religio oficial estabelecida. Chegou tambm a pilhar certos ornamentos dessa religio oficial, e foi assim que o halo de luz que coroa a cabea do 
rei Sol tornou-se a aurola de Cristo.
O culto a Sol Invictus misturou-se tambm convenientemente com o de Mitra, um remanescente da antiga religio zorostrica, importada da Prsia. De fato, o mitrasmo 
estava to prximo do culto a Sol Invictus que os dois so freqentemente confundidos. Ambos enfatizavam a supremacia do Sol. Ambos guardavam o domingo como dia 
sagrado. Ambos celebravam um grande festival de nascimento em 25 de dezembro. Conseqentemente, o cristianismo pde encontrar tambm linhas de convergncia com o 
mitrasmo, tanto mais que este enfatizava a imortalidade da alma, um julgamento futuro e a ressurreio dos mortos. O cristianismo que se comps e tomou forma no 
tempo de Constantino era de fato um hbrido, contendo considervel mistura de pensamentos derivados do mitrasmo e do culto ao Sol. Sob muitos aspectos, o cristianismo, 
tal como o conhecemos hoje, est mais prximo desses sistemas pagos de pensamento do que de suas prprias origens judaicas.
No interesse da unidade, Constantino atenuou deliberadamente as distines entre cristianismo, mitrasmo e o culto ao Sol - deliberadamente fechou os olhos a quaisquer 
pontos de conflito entre eles. Assim, tolerou o Jesus deificado como a manifestao terrena de Sol Invictus. Assim, construa uma Igreja crist numa parte da cidade 
enquanto em outra erguia esttuas da deusa-me Cibele e de Sol Invictus, o deus Sol (este ltimo representado  sua semelhana, com seus traos). Esses gestos eclticos 
e ecumnicos so mais uma prova da nfase na unidade. A f, para Constantino, era uma questo poltica; e toda f propcia  unidade era tratada com indulgncia.
No entanto, Constantino no era simplesmente um cnico. Como muitos soberanos militares de seu tempo - e como muitos soberanos militares at hoje -, parece ter sido 
ao mesmo tempo um homem supersticioso e imbudo de um senso muito verdadeiro do sagrado. Em suas relaes com o divino, parece ter cercado sua aposta pelos sete 
lados - mais ou menos como o proverbial ateu que, em seu leito de morte, aceita receber os sacramentos como uma salvaguarda, "afinal, nunca se sabe". Isso o conduziu 
a levar bastante a srio todos os deuses cujo culto sancionou em seus domnios, a propiciar a todos, a render a todos certo grau de venerao genuna. Se seu deus 
pessoal era Sol Invictus, e se sua atitude bsica com relao ao cristianismo era ditada pela convenincia e o desejo de unidade dentro do Imprio, no deixa de 
ser verdade que Constantino teve para com o Deus dos cristos certa deferncia especial- uma deferncia de tipo claramente novo.
Segundo urna antiga tradio, os imperadores romanos se proclamavam descendentes dos deuses, e com base nisso apresentavam-se igualmente como divinos. Assim, Diocleciano 
arvorara-se em descendente de Jpiter, Maximiliano se dissera da linhagem de Hrcules. Para Constantino, sobretudo depois que autorizara o cristianismo em seus domnios, 
era vantajoso instituir um novo pacto divino, uma nova ramificao do sagrado. Isso era ainda mais importante em virtude da sua condio, em certo sentido, de usurpador 
- tendo derrubado um descendente de Hrcules, precisava do apoio de algum deus rival para suas prprias pretenses  legitimidade.
Ao escolher um deus corno seu fiador ou patrono, Constantino se voltou - pelo menos ostensivamente - para o Deus dos cristos. No se voltou,  importante frisar, 
para Jesus. O deus que Constantino reconheceu foi Deus Pai - que, naquele perodo anterior ao Conclio de Nicia, no era idntico ao Filho. Sua relao com Jesus 
era bastante mais equvoca - e extremamente reveladora.

A negao de Jesus

Em 1982 foi publicado um importante livro sobre este assunto, Constantine versus Christ, de Alistair Kee, professora conferencista snior em estudos religiosos na 
Universidade de Glasgow. Kee demonstra, de maneira muito convincente, que na verdade Jesus no desempenhou nenhum papel na religio de Constantino. Tendo escolhido 
o Deus dos cristos - Deus Pai - como seu patrono, ele simplesmente ignorou o Filho por completo. Para Constantino,  claro, Deus Pai no devia representar nada 
mais que uma nova denominao para Sol 1nvictus, o deus Sol que j era objeto de sua devoo pessoal.
Mas, ainda que ignorasse Jesus, Constantino certamente reconhecia o princpio do messiado - na verdade, no s o reconhecia como assumia ele prprio o papel do ungido. 
Em suma um messias era, para Constantino, precisamente o que fora para Jesus na Palestina no alvorecer da era crist: um governante, um soberano, um lder guerreiro 
como Davi e Salomo, que reinava com sabedoria sobre um reino temporal, estabelecia a unidade em seus domnios, consolidava uma nao e o povo, tendo em seu apoio 
a sano divina. Aos olhos de Constantino, ao que parece, Jesus havia tentado fazer exatamente essas coisas. E Constantino via a si mesmo como seguindo, com muito 
mais xito, as pegadas de Jesus - realizando o que Jesus no conseguira. Nas palavras de Kee: "A religio de Constantino nos leva de volta ao contexto do Antigo 
Testamento.  como se a religio de Abrao (...) fosse finalmente realizada, no em Jesus, mas em Constantino." E: "Constantino representou no seu tempo o cumprimento 
da promessa de Deus de enviar um rei como Davi para salvar seu povo.  esse modelo, to forte e to pr-cristo, que melhor descreve o papel de Constantino."
A posio de Constantino no  to surpreendente num potentado essencialmente pago de disposio guerreira. O significativo, como Kee aponta,  que a Igreja catlica 
tenha endossado o papel que Constantino se arrogou. A Igreja catlica da poca mostrou-se bastante disposta a reforar a concepo que Constantino tinha de si mesmo 
como genuno messias, e mais bem-sucedido que Jesus. E disposta tambm a reconhecer que o messias no era um pacfico, etreo e meigo salvador, mas um rei legtimo 
e colrico, um lder poltico e militar que regia no um nebuloso reino dos cus, mas domnios bastante terrenos. Em suma, a Igreja reconheceu em Constantino precisamente 
o que o messiado devia implicar para Jesus e seus contemporneos. Assim, por exemplo, Eusbio, bispo de Cesaria, um dos expoentes da teologia de seu tempo e intimamente 
ligado ao imperador, diz: "Ele se fortalece em seu modelo de poder monrquico, que o soberano de Todos concedeu apenas  raa do homem entre as da Terra." De fato, 
Eusbio  bastante explcito e enftico quanto  importncia da monarquia: "A monarquia excele todos outros tipos de constituio e governo. Pois da alternativa, 
uma poliarquia fundada na igualdade, tendem a resultar a anarquia e a guerra civil.  esta a razo por que h Um Deus, no dois ou trs ou ainda mais.''?
Mas Eusbio vai ainda muito mais longe. Numa comunicao pessoal ao imperador, declara que o Lagos est encarnado em Constantino. Na verdade, confere efetivamente 
a Constantino uma posio e uma virtude que deveriam, teoricamente, estar reservadas unicamente a Jesus: "... soberano mui temente a Deus, o nico, entre todos que 
por aqui j passaram desde o incio dos tempos, a quem o Deus Universal que Tudo Rege deu poder de purificar a vida humana."
Como diz Kee, ao comentar essa comunicao de Eusbio, "Desde o incio do mundo  apenas a Constantino que o poder de salvao foi dado. Cristo  posto de lado, 
Cristo  excludo e agora Cristo  formalmente negado." E: "Constantino passa a figurar sozinho como o salvador do mundo. O cenrio  o sculo IV, no o sculo I. 
O mundo, espiritual e material, no havia sido salvo antes de Constantino."
Kee ressalta que no h a menor meno a Jesus. As implicaes so inevitveis: "...  claro que a vida e a morte de Cristo no tm eficcia alguma nesse esquema 
de coisas (...) a salvao do mundo  agora forjada pelos eventos da vida de Constantino, simbolizada pelo
seu sinal de salvao. "

A destruio final do Jesus histrico

Por que teria a Igreja catlica da poca de Constantino adotado tal posio, teologicamente to escandalosa? Durante quase trezentos anos, os cristos haviam desafiado 
o poderio do imprio, haviam-se recusado firmemente a transigir em suas convices, haviam-se exposto ao martrio, haviam encontrado consolo na perspectiva de uma 
glria maior no cu. Por que se teriam agora disposto a reconhecer como messias precisamente a autoridade imperial que, trs sculos antes, crucificara Jesus e que 
continuava a punir com a crucificao os que se rebelavam contra o Estado?
Pelo menos uma resposta  simples e bvia. A Igreja, afinal de contas, era composta de seres humanos, e estes haviam sofrido cruelmente por suas crenas no passado. 
Agora tinham uma oportunidade de conseguir aceitao, respeitabilidade, um lugar estabelecido na estrutura social - em troca de certas contemporizaes e abrandamentos 
no dogma. Teria sido difcil recusar a negociao. Aps prolongada perseguio, a perspectiva no apenas de uma trgua, mas tambm de poder, parecia evidentemente 
valer as concesses.
 bem provvel que uma outra razo, mais sutil, tenha tambm determinado a posio da Igreja. Ter do seu lado um poder secular como o de Constantino representava, 
para a ortodoxia da poca, dispor de um poderoso bastio contra qualquer tentativa dos verdadeiros herdeiros de Jesus de fazer valer seus direitos. Se estvamos 
certos na nossa hiptese sobre o casamento e os filhos de Jesus, ou simplesmente se ela fosse considerada verdadeira na poca, teramos aqui uma boa explicao para 
a relao pactuada entre Constantino e a Igreja Catlica. A existncia, em algum lugar do imprio ou em sua periferia, de uma linhagem descendente de Jesus ou de 
sua famlia teria representado uma ameaa para a hierarquia da Igreja que se consolidava - formada por propagadores do cristianismo especificamente paulino. E a 
melhor defesa contra um novo messias davdico, avanando com suas legies, seria um messias bem estabelecido, j presidindo o imprio um messias pr-paulino, que 
se apropriara na prtica das prerrogativas de rivais judeus.
Seja como for,  extraordinrio constatar que a Igreja catlica (1) aceitava a total indiferena de Constantino para com Jesus;  (2) consentia que Constantino se 
qualificasse como o messias; (3) admitia a definio do messiado - isto , uma figura militar e poltica - encarnada por Constantino. Por outro lado, talvez no sculo 
IV isso nada tivesse de extraordinrio, afinal de contas. Talvez, no sculo IV, tais atitudes no fossem to incongruentes com a crena crist como hoje pareceriam. 
Talvez os cristos do sculo IV percebessem, muito mais claramente que os de hoje, o quanto essas atitudes estavam de acordo com os fatos histricos.
No tempo de Constantino, a tradio crist ainda no se cristalizara num dogma imutvel. Muitos documentos que posteriormente se perderam ou foram destrudos estavam 
ainda intactos e em circulao. Interpretaes alternativas ainda prevaleciam. E o Jesus histrico ainda no desaparecera por completo sob o peso de acrscimos ulteriores. 
Na Igreja do sculo IV deve ter havido quase certamente alguma admisso, pesarosa e relutante, de que Constantino era um messias que havia tido xito ali onde Jesus 
fracassara, e que o messias, tal como representado tanto por Constantino quanto por Jesus, era de fato uma figura militar e poltica - no um deus, mas um rei com 
mandato para governar.
 preciso lembrar que no chegou at ns nenhuma verso completa do Novo Testamento anterior ao reinado de Constantino. O Novo Testamento, tal como hoje o conhecemos, 
 em grande parte produto do Conclio de Nicia e de outros conclios realizados pela Igreja na mesma poca. Mas os prprios doutores da Igreja que compilaram o 
Novo Testamento atual tinham conhecimento, ou acesso, a outras verses, anteriores e historicamente confiveis. At ento, elas no tinham sido oficialmente consideradas 
"no cannicas".
De todo modo, mesmo o Novo Testamento tal como  hoje d testemunho, se o examinarmos de perto, de Jesus como um messias militar e poltico - em outras palavras, 
de Jesus como um precursor de Constantino. Vale a pena examinar parte desse testemunho.

4
JESUS COMO UM REVOLUCIONRIO

A tradio crist posterior enfatizou a imagem de um salvador manso e meigo, que evita a violncia e nos manda dar a outra face. Como vimos, contudo, para Constantino 
e a Igreja catlica do sculo IV, bem como para Jesus e seus contemporneos, um messias era uma figura bem diferente: um lder e libertador implacvel e marcial, 
inteiramente disposto a afirmar seu direito pela fora e, se necessrio, a usar de violncia contra seus inimigos. Nos prprios Evangelhos encontramos,  claro, 
base suficientemente slida para tal imagem.
Em 6 d. C., alguns anos aps a morte de Herodes, a Judia foi anexada e incorporada ao Imprio Romano na condio de provncia procuratria, tendo por capital Cesaria. 
Um censo foi determinado, para fins de cobrana de impostos. O sumo sacerdote judeu da poca acatou a ordem e pediu a colaborao do povo. Quase imediatamente, contudo, 
irrompeu nos montes da Galilia uma violenta resistncia nacionalista, comandada por um impetuoso profeta. Esse homem ficou conhecido na histria como Judas da Galilia, 
ou Judas de Gamala. Acredita-se que morreu bastante cedo na prolongada srie de atividades guerrilheiras que inaugurou contra Roma. Mas o movimento que criara sobreviveu 
e seus adeptos tornaram-se conhecidos como zelotes. O termo parece ter sido usado pela primeira vez por Josefo, que escreveu trs quartos de sculo mais tarde, entre 
75 e 94 d.C. Segundo Josefo, os zelotes passaram a ser assim chamados por serem "zelosos no cumprimento de bons servios". Nos anos de sua militncia, porm, esses 
homens eram freqentemente referidos como lestai [bandoleiros] ou sicarii [homens do punhal], designao que deriva de sica, pequeno punhal curvo que gozava da preferncia 
dos zelotes em assassnios polticos.
 preciso frisar que os zelotes no eram uma seita ou corrente religiosa. No eram uma subdiviso do judasmo a propor essa ou aquela posio teolgica. Em outras 
palavras, no eram equivalentes dos saduceus, fariseus ou essnios.  possvel que tenham obtido apoio em efetivos, dinheiro e material de todos os trs; mas eles 
prprios tinham orientao essencialmente poltica. A posio dos zelotes era bastante clara. O inimigo era Roma. Nenhum judeu devia pagar tributo a Roma. Nenhum 
judeu devia reconhecer o imperador romano como seu senhor. No havia outro senhor seno Deus. Deus conferira a Israel um direito inato nico, celebrara um pacto 
com Davi e Salomo. A misso patritica e religiosa de todo judeu era lutar pela restaurao desse direito, desse pacto - a restaurao de um soberano legtimo, 
que governaria o Reino de Israel.
Em nome desses objetivos, todos os meios eram admitidos. Quando as circunstncias o permitiram, os zelotes empreendiam operaes militares convencionais de grande 
escala. Em outras ocasies, travavam uma incessante guerra de guerrilha, atacando guarnies romanas isoladas, assaltando caravanas, interrompendo rotas de suprimento. 
No hesitavam ante o assassnio e, nos limites em que a tecnologia da poca o permitia, empregavam tcnicas que hoje seriam associadas ao terrorismo. Muitas vezes 
eram cruis e exibiam aquela espcie de destemor que s o fanatismo confere. Nas palavras de Josefo: "Tambm no se intimidam ante nenhum tipo de morte, nem do 
importncia  morte de seus parentes e amigos, nem qualquer desses temores  capaz de faz-los chamar algum homem de Senhor..."
A julgar pelas poucas informaes que chegaram at ns, parece ter havido um forte elemento dinstico envolvido na chefia zelote. Dois dos filhos de Judas da Galilia 
foram mortos por sua condio de comandantes zelotes. Outro filho, ou talvez neto, foi responsvel pela tomada da fortaleza de Massada, quando da deflagrao da 
revolta, em 66 d.C. E durante o famoso cerco romano a Massada, que no terminou antes de 73 d.e., a guarnio que resistiu na cidadela foi comandada por um homem 
chamado Eleazar, tambm descendente de Judas da Galilia. Infelizmente, dispomos de muito poucos dados confiveis para podermos estimar em que grau essa famlia 
pode ter centralizado a autoridade sobre contingentes zelotes por toda a Terra Santa.  impossvel inferir se a atividade zelote tinha origem num nico quartel-general 
ou se consistia de uma multiplicidade de grupos que operavam independentemente. No h dvida, porm, de que a famlia e os descendentes de Judas da Galilia parecem 
ter estado envolvidos em muitas das aes mais ambiciosas, mais coordenadas e mais profissionais dos zelotes.
   
Os zelotes com Jesus

Ao longo dos sculos, telogos e estudiosos da Bblia tm sido atormentados por problemas de traduo - ou, para ser mais precisos, por erros de traduo. Quando 
um nome, uma palavra, uma expresso, uma frase, uma declarao chegam a passar do hebraico ou do aramaico falados para o grego escrito, ou o latim escrito, e depois 
para essa ou aquela lngua moderna, muitas vezes j esto completamente divorciados do seu significado original. J comentamos a deturpao de "Jesus, o Nazareno" 
em "Jesus de Nazar". Um processo similar de deturpao pode ser detectado no tocante a vrios outros nomes do Novo Testamento, inclusive o do prprio Jesus. Convm 
lembrar que "Jesus" no  um nome judaico, mas grego. Entre seu prprio povo, ele devia ser chamado Yeshua, o que nada mais  que o conhecido nome bblico Josu.
Em nosso livro anterior, j discutimos a figura de Simo Zelote, que aparece no Evangelho de Lucas e nos Atos dos Apstolos, e parece desnecessrio insistir no bvio. 
Simo Zelote, ao que tudo indica,  Simo, o Zelote. Em tradues mais recentes do Novo Testamento ele  chamado assim, o que deixa explcito, at para leigos, que 
Jesus contava pelo menos um zelote - isto , um extremista poltico entre seus seguidores mais prximos. Que isso continua sendo fonte de embarao pode ser visto 
na New English Bible, em que Simo  apresentado, com eufemstica cautela, como "Simo, o Patriota".
Mas, sejam quais forem os circunlquios feitos em torno dele, Simo parece ser muito mais intrometido do que alguns tradutores poderiam desejar. Assim, por exemplo, 
na "Verso do rei Jaime": h referncias, em Mateus e Marcos, a "Simon the Canaanite" [Simo, o Cananeu]. Mas se a alcunha "Cananeu" podia ter sentido nos tempos 
do Antigo Testamento, cerca de 2 mil anos antes, no tem simplesmente nenhum sentido no contexto do Novo Testamento. Mais uma vez, houve um processo de deturpao 
no processo de traduo. Na verdade, a palavra aramaica para zelote era qannai, que foi vertida para o grego como kananaios. "Simo, o Cananeu" vem a ser, portanto, 
exatamente o mesmo que Simo Zelote ou "Simo, o Zelote", que aparece em Mateus e Marcos sob a primeira designao, e em Lucas e nos Atos sob a segunda.

No Evangelho de Joo figura ainda um outro Simo, Simo Bar Jonas. Em geral isso  entendido com "Simo, filho de Jonas", embora o pai desse homem seja identificado 
em outra passagem como Zebedeu. "Bar Jonas" , de novo, uma traduo errnea de outra palavra aramaica, barjonna, que, como kananaios, significava "bandido", "anarquista" 
ou zelote. Mais uma vez, parece claro que estamos tratando de um mesmo indivduo, cujo nacionalismo militante se julga conveniente ocultar.
De todos os Simos que povoam o Novo Testamento, o mais importante  inquestionavelmente Simo Pedro, o mais famoso dos discpulos de Jesus e aquele sobre quem Jesus 
teria fundado sua Igreja. Os prprios Evangelhos deixam claro que ele no  "Simo Pedro", e sim "Simo chamado Pedro". "Pedro", de fato, no  um nome, mas um apelido, 
mais uma alcunha. Significa simplesmente "semelhante a pedra", no sentido de "duro". (Um equivalente moderno seria de fato "Ptreo".) Se Pedro  na verdade um "duro", 
cujo apelido significa "Ptreo", no seria possvel identific-lo com aquele sujeito violento conhecido como Simo Zelote ou Simo, o Cananeu - ou seja, identific-lo 
com Simo, o Zelote? Se o mais importante dos discpulos de Jesus, aquele sobre quem teria este fundado sua igreja, era um zelote, podemos fazer inferncias extremamente 
interessantes.
H mais uma pea do quebra-cabea a encaixar. No Evangelho de Joo, Judas  identificado como o filho de Simo. Nos Evangelhos sinpticos,  identificado como Judas 
Iscariotes. Durante sculos, confundidos por denominaes gregas, os comentadores bblicos acreditaram que "Judas Iscariotes" indicava "Judas de Kerioth". Mas, como 
demonstrou convincentemente o falecido professor S.G.F. Brandon, da Universidade de Manschester, "Judas Iscariotes"  mais provavelmente uma deturpao de "Judas, 
o Sicrio" - ou Zelote.

Um Jesus militante

Se Jesus tinha personagens como Simo, o Zelote, e Judas, o Sicrio entre seus seguidores, estes dificilmente podem ter sido to plcidos e pacficos como sustenta 
a tradio posterior. Ao contrrio, provavelmente estavam envolvidos precisamente no tipo de atividade poltica e militar de que Jesus, segundo essa tradio posterior, 
est dissociado. Mas os prprios Evangelhos confirmam que Jesus e seu crculo, como seria de esperar do messias, eram nacionalistas militantes que no se furtavam 
 violncia.
No  necessrio discutir aqui a crucificao; basta observar que, fosse qual fosse a sua ligao com os zelotes, Jesus foi com certeza crucificado pelos romanos 
como um revolucionrio poltico. Isto  o que nos afirma o cronista romano Tcito, no que constitui a nica afirmao segura sobre Jesus proveniente de uma fonte 
no bblica, embora contempornea. No h dvida de que os romanos viram Jesus como urna figura militar e poltica e o trataram estritamente de acordo com essa percepo. 
A crucificao era a pena reservada para a violao da lei romana, e Roma no se daria o trabalho de crucificar um homem que pregasse uma mensagem puramente espiritual, 
ou urna mensagem de paz. Jesus no foi executado pelo Sindrio judaico - que podia, mediante permisso, apedrejar um homem que violasse a lei judaica -, mas pela 
administrao romana. E os dois homens que teriam sido crucificados com ele so explicitamente qualificados de lestai, isto , zelotes. No eram, ao contrrio do 
que pretende a tradio, criminosos comuns, mas combatentes polticos - ou "revolucionrios .
O prprio Jesus, nos Evangelhos, d mostras de um militarismo agressivo, bastante em desacordo com as imagens convencionais. Todos conhecem a passagem notoriamente 
incmoda em que ele declara que no viera para trazer a paz, mas uma espada. Em Lucas 22:36, instrui aqueles de seus seguidores que no possuem tal espada a comprar 
uma, mesmo que para isso tenham de vender suas roupas. Quando Jesus  preso em Getsmani, pelo menos um de seus discpulos est de fato empunhando uma espada, e 
faz uso dela para cortar fora a orelha de um servidor do Sumo Sacerdote; no quarto Evangelho, o homem que tem a espada  especificamente identificado como Simo 
Pedro.  difcil conciliar tais referncias com a tradio de um amvel e pacfico salvador.
J mencionamos a entrada triunfal de Jesus em Jerusalm montado num jumento, em meio a uma multido que brandia folhas de palmeira, estendia seus mantos sobre a 
estrada  sua frente e invocava bnos sobre o filho de Davi, o legtimo rei. Essa cena, como observamos acima, fora prevista para o messias pelo profeta Zacarias. 
O fato de Jesus protagonizar um evento profetizado e esperado, havia muito, do legtimo messias certamente no reflete nenhum acanhamento de sua parte. Ele est 
encenando de maneira bastante ostensiva um espetculo pblico - um espetculo pelo qual sabia que seria ou estigmatizado como um presunoso e um blasfemo, ou reconhecido 
precisamente pelo que se dizia ser. De maneira bastante significativa, foi reconhecido por uma populao plenamente inteirada do simbolismo de sua ao; e at o 
mais ctico dos modernos estudiosos da Bblia considera esse incidente nos Evangelhos historicamente autntico. Mas como poderia tal espetculo no ser pleno de 
implicaes e conseqncias polticas? Trata-se de um ato explcito de desafio a Roma, um ato de provocao deliberada, militante. O messias era visto como um libertador. 
Para ser aceito como o messias, Jesus tinha de estar necessariamente preparado para empunhar a espada do libertador.
Como fica evidente no que os Evangelhos contam sobre o que se passou alguns dias depois, a entrada de Jesus em Jerusalm foi de fato plena de implicaes polticas. 
Se o Antigo Testamento havia profetizado a entrada do messias em Jerusalm montado num jumento, havia previsto tambm sua limpeza e purificao no Templo.6  isso, 
evidentemente, o que Jesus vai fazer no famoso episdio em que derruba as mesas dos vendilhes.  pouco provvel que se tenha tratado de um incidente irrelevante. 
Tampouco pode ter sido isento de violncia. A simples considerao da natureza humana j revela as conseqncias (sem registro nos Evangelhos) do comportamento de 
Jesus. No  verossmil que os cambistas, os circunstantes ou os discpulos de Jesus tenham ficado inertes, ou que se tenham lanado num debate teolgico, enquanto 
moedas rolavam para todos os lados. Considerando-se o tamanho e a importncia do Templo, bem como o papel proeminente dos cambistas, o fato de Jesus derrubar suas 
mesas deve ter provocado um completo tumulto. Tampouco se pode admitir que Jesus esperasse qualquer outra coisa. Aqui, mais uma vez, ele est adotando uma linha 
de confronto, uma linha de desafio deliberado  autoridade estabelecida.
Nesses dois casos de destaque - talvez os dois atos mais pblicos de sua carreira - Jesus se comporta de um modo fadado a provocar violncia.  nesses dois exemplos 
que os Evangelhos provavelmente chegam mais perto de nos conceder um vislumbre do Jesus histrico, um homem que, de maneira flagrante, at ostentosa, encena espetculos 
pblicos que o afirmam implicitamente como o messias profetizado e legtimo de Israel. Esses espetculos, ademais, foram atos calculados de provocao, que refletem 
uma militncia indisfarada, uma bvia disposio de apoiar o uso da fora. Mais ainda, ambos os incidentes deixam claro que Jesus tinha um squito considervel, 
que inclua bem mais do que os doze discpulos originais.
A deturpao no processo de traduo tendeu a obscurecer mais do que nomes. Por acidente ou propositalmente, serviu tambm para ocultar informaes histricas de 
considervel importncia. Uma nica palavra pode ser um manancial de dados histricos; e se o sentido dessa palavra  alterado, a revelao que ela oferece se perde. 
Um dos mais expressivos exemplos disso ocorre no relato da priso de Jesus no jardim de Getsmani. Gira em tomo de uma nica e simples questo: quantos homens foram 
prender Jesus no jardim? Muitas vezes fizemos essa pergunta em palestras e conferncias, e as respostas do nosso pblico foram bastante uniformes. A maioria das 
pessoas tem uma imagem mental da cena ocorrida em Getsmani, inculcada, por assim dizer, tanto pelo relato evanglico como pela tradio. Segundo essa imagem, cerca 
de dez a trinta homens foram prender Jesus - um ou dois funcionrios judeus, alguns representantes do Sumo Sacerdote (um dos quais teve a orelha ferida pela espada 
de Simo Pedro), presumivelmente um contingente da guarda do Templo, talvez um ou mais funcionrios romanos, e at, quem sabe, uma pequena unidade das tropas de 
Pilatos. Por que os leitores modernos tendem a pensar em termos de dez a trinta homens? Sem dvida porque a expresso usada na Authorised Version - "a band of men"[um 
bando de homens]  vaga. Mesmo em tradues inglesas mais recentes da Bblia, a expresso usada  "a number of men" [alguns homens]. Realmente, "um bando de homens" 
ou "alguns homens" sugere de fato no muito mais que trinta.
Os catlicos, no entanto, no lem a Authorised Version do Novo Testamento. At recentemente, segundo o preceito catlico estrito, eram obrigados, sob pena de punio, 
a ler a Vulgata. E na Vulgata, como em algumas tradues mais modernas, o termo usado para designar os que foram prender Jesus est corretamente traduzido - e  
consideravelmente mais preciso. Jesus, lemos ali, foi preso em Getsmani no por um "bando de homens" de nmero indefinido, mas por uma "coorte". Isso  apenas uma 
discrepncia pedante ou reflete algo de mais significativo?
Se remontarmos aos gregos, encontraremos o termo speiran, uma traduo precisa de "coorte". No ingls moderno; o termo "cohort"  vago, implicando um nmero bastante 
grande, mais ainda assim no especfico. Mas para os autores e os primeiros tradutores dos Evangelhos, era um termo muito preciso, que denotava um nmero bastante 
exato. Assim como os exrcitos modernos esto organizados em companhias, batalhes, regimentos, brigadas e divises, o exrcito romano estava organizado em centrias, 
coortes e legies. Uma legio romana era pouco maior que uma brigada atual do exrcito britnico em tempo de paz - 6 mil soldados. Uma coorte era um dcimo de uma 
legio - seiscentos soldados. Isto, se fossem soldados romanos regulares. Uma coorte composta por auxiliares, como eram as da Terra Santa, somaria pelo menos quinhentos 
soldados, chegando por vezes a 2 mil - 760 de infantaria e 1.240 de cavalaria.
A esta altura, podemos formular algumas questes simples, de senso comum. Seria plausvel que Pilatos, ou qualquer outro governante militar em sua situao, enviasse 
mais de quinhentos ou seiscentos homens para Getsmani com o nico objetivo de prender um homem - um profeta solitrio que exaltava o amor, acompanhado por doze 
discpulos? A idia  obviamente absurda. No s teria sido um exemplo ridculo de desperdcio de foras como constituiria um convite  perturbao da ordem. A menos, 
 claro, que essa perturbao j existisse e a coorte tivesse sido mobilizada para sufoc-la.
Devemos imaginar quinhentos ou seiscentos soldados apinhados no jardim de Getsmani. Devemos tambm ter em mente que Jesus, pouco tempo antes, instrura seus discpulos 
a se armarem com espadas. No devemos esquecer ainda o golpe dado por Simo Pedro na orelha do servidor do Sumo Sacerdote. A partir desses diferentes detalhes, comea 
a emergir o quadro do que se passou em Getsmani naquela noite - algo de vulto considervel, de escala maior do que geralmente se supe, e que envolveu muito mais 
do que um "bando de homens". Parece claro que houve no "jardim" uma agitao civil de considerveis propores.  bem possvel que tenha havido luta. Mas, quer tenha 
ou no havido de fato luta, a situao era obviamente percebida como uma ameaa militar pela administrao romana, que reagiu com uma ao militar de vulto.
A priso de Jesus no jardim de Getsmani no se resumiu, evidentemente, a um discreto episdio em que um pequeno "bando" de uma ou duas dzias de homens avanou 
sorrateiramente para prender um profeta. Vez por outra, alguns telogos notaram a anomalia dos nmeros. Muitas vezes ela causou embarao. Um escritor, ao comentar 
a presena de uma coorte em Getsmani, declarou, de modo no muito convincente: "Que homenagem ao poder de Jesus!"

5
O MOVIMENTO ZADOQUITA DE QUMRAN

Quem eram os integrantes do squito de Jesus? Quem formava a multido que, na sua entrada em Jerusalm, o aclamou como o filho de Davi, o legtimo rei, o ungido, 
o messias? Quem, em meio  populao da Terra Santa na poca, desejava o xito de sua aventura?
 claro que mesmo aqueles seguidores nomeados e identificados de Jesus representam um espectro amplo e diverso. Ele parece ter conquistado apoio de pessoas de classe 
social, nveis de educao e condio econmica radicalmente diferentes. Como observamos, havia entre seus seguidores alguns extremistas polticos. Havia tambm 
camponeses pobres dos montes da Galilia, e pescadores - talvez pobres, talvez abastados - das margens do lago de Genesar. Havia mulheres ricas, cujos maridos ocupavam 
importantes cargos oficiais. Havia cidados importantes e influentes de Jerusalm, como Nicodemo e Jos de Arimatia. Havia pessoas que lhe cediam casas - como aquela 
de Betnia - grandes e confortveis o bastante para acomodar, no mnimo, seu crculo mais imediato. Parece ter havido um nmero considervel de adeptos espalhados 
entre a gente do povo por toda a Galilia e a Judia. Mas como se situavam esses diferentes indivduos em relao ao contexto do judasmo do sculo I? Alguma coisa 
os distinguia dos "outros judeus", por vezes hostis, por vezes tolerantes, que circulavam em segundo plano como figurantes? At que ponto estava difundida a disposio 
de pegar em armas, se preciso fosse, para restaurar o legtimo rei de Israel?

Saduceus e fariseus

Na Terra Santa do tempo de Jesus, fervilhavam diferentes religies, diferentes seitas e cultos, em grande parte importados do estrangeiro em conseqncia da ocupao 
romana. Os ritos romanos - a Jpiter, por exemplo - foram transplantados para a Palestina, bem como,  claro, a adorao formal ao imperador, que constitua a religio 
oficial de Roma. Religies, cultos, seitas e mistrios. de outras partes do Imprio - especialmente da Grcia, da Sria, do Egito, da Mesopotmia e da sia Menor 
- tambm conseguiram penetrar na Terra Santa, deitar razes e florescer. Assim, por exemplo, o culto  deusame - como a egpcia sis, a fencia Astartia, a grega 
ou cipriota Afrodite, a mesopotmica Istar, ou Cibele, da sia Menor - contava muitos fiis seguidores. Havia tambm resqucios de cultos politestas a deusas no 
prprio mbito do judasmo: cultos dedicados  antiga deusa canania Mriam ou Rabath. Na Galilia, o prprio judasmo s se estabelecera a partir de 120 a. C., 
e muito do pensamento prjudaico ainda sobrevivia. Havia tambm formas de judasmo que os prprios judeus se recusavam a reconhecer: a religio cismtica dos samaritanos, 
por exemplo, que insistiam em que o seu judasmo era a nica forma verdadeira. Finalmente, e para completar a confuso, havia as vrias diferentes escolas ou seitas 
- e at mesmo, ao que parece, seitas dentro de seitas - que constituam a ortodoxia judaica da poca, se  que se pode falar de ortodoxia nesse caso. Entre essas 
escolas, os saduceus e os fariseus so conhecidos pela tradio crist, ainda que apenas de nome.
Os saduceus - ou pelo menos seu ramo principal - devem ser vistos basicamente em relao ao sacerdcio oficial, o Templo e o sacrifcio ritual que a adorao no,Templo 
envolvia. Os saduceus eram a casta sacerdotal. Forneciam ao Templo seus dignitrios e funcionrios. Exerciam um verdadeiro monoplio sobre as atividades e o aparato 
material do Templo. Todo o pensamento saduceu estava orientado para o Templo, e quando este foi destrudo, na revolta de 66 d.C., sua existncia formal terminou. 
Exerceram pouca ou nenhuma influncia sobre a evoluo e o desenvolvimento subseqentes do judasmo.
Alm disso, os saduceus ocupavam muitos dos cargos civis e administrativos do pas, o que envolvia, forosamente, um entendimento com Roma. E, desde que suas prerrogativas 
sacerdotais e o Templo fossem deixados intactos, os saduceus estavam dispostos a tais arranjos. Conformaram-se com a presena romana em seu pas, fizeram as pazes 
com as autoridades romanas. Em assuntos seculares, eram homens do mundo, sofisticados e cosmopolitas, adaptados aos valores greco-romanos, s atitudes, maneiras 
e costumes do imprio. Nessa medida, os romanos os viam como colaboradores. E, embora enfatizassem a pureza e o respeito  tradio na religio, no seria descabido 
comparar a posio que assumiam em outras esferas como, por exemplo, a do governo de Vichy na Frana ocupada durante a Segunda Guerra Mundial.
J para os fariseus, a religio era bem mais flexvel, mais sujeita a crescimento, modificao e desenvolvimento, menos exclusivamente dependente do Templo e de 
seus ritos. Por esta razo, o pensamento fariseu sobreviveu  queda do Templo e forneceu o solo em que finalmente brotaria o judasmo rabnico. Se o retrato que 
os Evangelhos pintam dos saduceus no deixa de ter alguma justificao histrica, o dos fariseus  muitas vezes gravemente distorcido. Hoje, nenhum estudioso responsvel 
da Bblia negaria que os fariseus foram atrozmente caluniados e denegridos pela tradio crist. Os maiores nomes do pensamento judaico no tempo de Jesus - o clebre 
mestre Hillel, por exemplo - eram fariseus. Segundo a maioria dos especialistas atuais, o prprio Jesus foi provavelmente criado e instrudo num contexto fariseu. 
A maior parte de seus ensinamentos, a maior parte das palavras que lhe so atribudas esto de acordo com princpios do pensamento farisaico. Na verdade, alguns 
dos seus mais conhecidos pronunciamentos so parfrases, e por vezes quase citaes diretas, de Hillel. Este declarou, por exemplo: "O que  odioso para ti mesmo, 
no o faas a teu prximo."
Jesus foi visto - com razo, afirmamos ns - como uma ameaa a Roma e foi executado como tal. H tambm registros de que desafiou os sacerdotes e atacou a instituio 
da adorao no Templo. Em conseqncia, os saduceus - que tinham atrelado seus interesses a Roma e desfrutavam de prerrogativas exclusivas no Templo - teriam reagido 
a Jesus precisamente da maneira descrita pelos Evangelhos. Mas os fariseus provavelmente forneceram a Jesus alguns dos seus mais fervorosos seguidores e estavam 
entre os primeiros a v-lo como o Messias.

Os essnios ascticos

A terceira maior subdiviso do judasmo na poca era a dos essnios, a cujo respeito nosso conhecimento  muito mais ambguo, muito menos claramente definido. At 
meados do sculo XX, a maior parte das informaes que se tinha sobre os essnios provinha de dois historiadores da poca, Plnio, o Velho, e Flon, o Judeu, e do 
comentador judeu do fim do sculo I, Josefo, que muitas vezes no  fidedigno. Com a descoberta dos manuscritos do Mar Morto, contudo, um corpus de material essnio 
tomou-se disponvel pela primeira vez e agora  possvel avaliar os essnios em seus prprios termos.
Tanto no seu estilo de vida como em seus ensinamentos religiosos, os essnios eram mais rigorosos e austeros do que os saduceus ou os fariseus. Eram tambm muito 
mais misticamente orientados, tendo muito em comum com os vrios mistrios que prevaleciam no mundo mediterrneo da poca. Em contraste com outras escolas do judasmo, 
parece que admitiam alguma forma de reencarnao. Refletem influncias tanto egpcias quanto gregas e tm vrios pontos em comum com os seguidores de Pitgoras. 
Nutriam interesse pela medicina e produziram tratados sobre as propriedades teraputicas de ervas e minerais. Estavam mergulhados no que hoje poderamos chamar de 
"estudos esotricos", como astrologia, numerologia e as vrias disciplinas que mais tarde se combinariam na cabala. Tudo que assimilavam de outras culturas e tradies, 
porm, eles aplicavam a um contexto especificamente judaico. A certa altura, Josefo diz a seu respeito: "[Alguns] se dedicam a prever coisas futuras, lendo os livros 
sagrados e usando vrios tipos de purificao, e se mantendo permanentemente versados nas falas dos profetas..."
Para os nossos objetivos, uma das mais importantes caractersticas dos essnios foi a sua viso apocalptica - sua insistncia em que o Final dos Tempos estava prximo 
e que o advento do messias era iminente. Sem dvida a expectativa do messias estava espalhada por toda a Terra Santa naquele tempo. Mas, como conclui o professor 
Frank Cross, "os essnios provaram ser os portadores, e, em medida no desprezvel, os produtores da tradio apocalptica do judasmo. "3 A partir do material que 
veio  luz no nosso prprio sculo, fica claro que os essnios tinham uma organizao mais frouxa e difusa, menos centralizada e uniforme do que os saduceus e os 
fariseus. Nem todos os essnios aceitavam ou praticavam exatamente as mesmas coisas. O que tinham em comum era, mais uma vez, uma orientao essencialmente mstica 
- atribuam mais valor a um conhecimento de Deus direto, em primeira mo, experiencial, do que a uma adeso escrupulosa ao dogma e  lei. Evidentemente, esse conhecimento 
tomava suprfluo o papel do sacerdote como intrprete, como intermedirio entre Deus e o homem. Conseqentemente, os essnios, como a maior parte das seitas msticas 
ao longo da histria, eram indiferentes ao clero estabelecido, seno ativamente hostis a ele.
Apesar das recentes descobertas relativas aos essnios, quatro antigos equvocos ainda pairam a seu respeito. Acredita-se que residiram exclusivamente nos desertos, 
em comunidades isoladas, de estilo monstico. Acredita-se que seu nmero era extremamente reduzido. Acredita-se que eram avessos  violncia, aderindo escrupulosamente 
a um pacifismo transcendente.
As pesquisas feitas desde a descoberta dos manuscritos do Mar Morto demonstraram que todas estas crenas sobre os essnios so errneas. Eles no viviam apenas em 
remotas comunidades no deserto, mas tambm em centros urbanos, onde mantinham casas no s para si prprios como para irmos peregrinos de toda parte e para outros 
viajantes. Na verdade, a rede de casas essnias parece ter sido no s muito difusa como de extrema eficincia. Essas casas, que estavam bem integradas com a comunidade 
circundante, assentavam-se numa slida base de artesanato, trocas e comrcio. Como comprova a existncia dessa rede de casas, os essnios eram muito mais numerosos 
do que sugerem os relatos tradicionais. Na verdade, o domnio absoluto do pensamento essnio na Terra Santa naquele tempo  mais uma prova de que a congregao estava 
longe de se reduzir a uns poucos punhados de ascetas isolados no deserto.
A idia de que todos os essnios eram solteiros deriva de Josefo. Ocorre que o prprio Josefo se contradiz e declara, como num adendo, que havia essnios que se 
casavam. Nem nos manuscritos do Mar Morto, nem em qualquer outro documento essnio conhecido h qualquer meno a celibato. Ao contrrio, entre os manuscritos encontrados 
na comunidade de Qumran h regras especficas para os membros da seita casados e com filhos. Tmulos de mulheres e crianas foram tambm encontrados no cemitrio 
que fica prximo aos muros orientais de Qumran.
Quanto ao suposto pacifismo dos essnios, h indcios significativos que o negam. Depois que Jerusalm foi arrasada pelos romanos em 70 d.C., a resistncia organizada 
de Israel foi sistematicamente aniquilada, com exceo da fortaleza de Massada, junto ao Mar Morto. Massada resistiu durante dois anos. S6 em 73 d.C., dizimada pela 
fome e ameaada de uma investida geral em grande escala dos romanos, os defensores da cidadela capitularam, cometendo suicdio em massa.
Em geral se afirma que os defensores 'de Massada foram zelotes. Josefo, que esteve presente ao cerco, refere-se a eles como sicrios. Durante dois anos eles conseguiram 
manter  distncia um exrcito romano, com comandantes experientes, tropas bem disciplinadas e farto equipamento de cerco. Ao longo da ao, impuseram pesadas baixas 
aos atacantes e se provaram guerreiros implacveis e engenhosos - no amadores, mas profissionais com habilidade comparvel  do adversrio romano. Em seu relato 
da queda da fortaleza, Josefo conta que os nicos sobreviventes ao cerco foram mulheres e cinco crianas que haviam-se escondido "em cavernas subterrneas". Foram 
elas, ao que parece, que relataram a alocuo pela qual os defensores foram exortados ao suicdio coletivo. Como no  de espantar, a temtica desse discurso  em 
parte nacionalista. Em geral, contudo, seu teor  explicitamente religioso. E a orientao religiosa que reflete  inequivocamente essnias
Os registros arqueol6gicos reforam nosso ponto de vista. Quando Massada foi escavada, na dcada de 1960, encontraram-se alguns documentos idnticos queles descobertos 
na comunidade essnia de Qumran. A comunidade de Qumran tampouco era pacifista. Encontrou-se l uma forja para a fabricao de armas. Pontas de flechas e outros 
vestgios descobertos nas escavaes das runas indicam que tambm Qumran se ops aos romanos pela fora das armas.
Se os ensinamentos de Jesus devem muito ao pensamento farisaico estabelecido, devem ainda mais  tradio essnia. H pouca dvida de que Jesus estava impregnado 
da doutrina e da prtica essnias - inclusive, a de "se manter perpetuamente versado nas falas dos profetas", como diz Josefo. Pode at ter sido ele pr6prio um essnio. 
H claros indcios de que, em algum momento antes de se engajar na sua misso pblica, Jesus recebeu uma espcie de formao essnia. A este respeito, vale a pena 
observar a chamada "Regra messinica" dos essnios, encontrada em Qumran. De acordo com esse regulamento, todos os membros masculinos da comunidade eram obrigados 
a esperar at os vinte anos para casar-se e ter filhos; aos trinta, deviam ser considerados maduros e ser iniciados aos nveis mais elevados da seita. Teria sido 
por mero acaso que, segundo se diz, Jesus iniciou seu sacerdcio aos trinta anos?

Os "Filhos de Zadoc"

Alm dos saduceus, fariseus e essnios, o judasmo inclua, no tempo de Jesus, vrias dissidncias e seitas menores, menos conhecidas, duas das quais comearam a 
figurar cada vez mais nos estudos bblicos h duas dcadas e meia. A primeira  a seita chamada dos "filhos de Zadoc", ou dos zadoquitas. A primeira vista, os zadoquitas 
parecem ter muito em comum com os essnios, chegando a se confundir com eles. Pelo menos um eminente autor sustentou que Jesus e seus seguidores eram zadoquitas, 
embora outros insistam numa distino. 
A outra importante sub-seita a figurar com destaque nos estudos bblicos recentes era conhecida havia muito tempo, mas sob um nome diferente. Tradicionalmente, era 
chamada de "a Igreja primitiva", ou "a Igreja de Jerusalm". Seus membros referiam a si mesmos como nazarenos. O dr. Hugh Schonfield adota a conveniente denominao 
de "o partido nazareno". Este se compunha especificamente dos seguidores mais prximos de Jesus.
A existncia de sub-seitas como as dos zadoquitas e dos nazarenos gerou considervel confuso e incerteza entre estudiosos da Bblia. Jesus era inquestionavelmente 
um nazareno. Parece ter sido tambm um zadoquita - mas ser que isso significa que nazarenos e zadoquitas eram a mesma coisa? Nesse caso, como explicar os aspectos 
farisaicos convencionais dos ensinamentos de Jesus? E como explicar os inequvocos indcios de que teve uma formao essnia? Seriam os nazarenos e os zadoquitas 
ramificaes ou subdivises dos essnios? Quem sabe os prprios essnios nada mais eram que uma manifestao de um movimento nico e mais amplo? Esse emaranhado, 
e as aparentes contradies que ele envolve, obscureceram a percepo da atividade poltica e militar de Jesus. Mais ainda porque os esforos dos especialistas para 
traar distines entre as vrias seitas religiosas desviaram sua ateno da importncia dos zelotes, caracterizados por sua orientao poltica.
Em 1983, um novo estudo sobre a questo foi publicado pelo dr. Robert Eisenman, chefe do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade da Califrnia, Long Beach. 
Apesar do ttulo desajeitado, Maccabees, Zadokites, Christians and Qumran, o trabalho de Eisenman muito contribui para aclarar a confuso reinante e constitui, na 
nossa opinio, uma das mais importantes abordagens do assunto at agora. Embora os indcios especficos sejam complexos, as concluses so no apenas notavelmente 
convincentes como de uma belssima simplicidade. De fato, Eisenman parece ter focalizado um holofote sobre a simplicidade subjacente ao que at ento parecera uma 
situao complicada.
Trabalhando a partir de documentos originais, e pondo em questo a fidedignidade de comentadores de segunda mo, como Josefo, Eisenman segue a pista dos vrios nomes 
que os membros da comunidade de Qumran - os autores dos manuscritos do Mar Morto - usaram para se referir a si mesmos. Isso o leva a concluir que os filhos da luz, 
os filhos da verdade, os filhos de Zadoc, ou zadiquim (zadoquitas),
os homens de Melquizedeque (essa terminao, z-d-q, refletiria uma variao de Zadoc), os ebionim (os pobres), os hassidim (os essnios) e os nozrim (os nazarenos) 
so ao fim e ao cabo a mesmssima coisa - no diferentes grupos, mas diferentes metforas ou designaes para o que era essencialmente um mesmo grupo, ou um mesmo 
movimento. Ao que parece, o objetivo primordial desse movimento estava orientado para a legitimidade dinstica do alto sacerdcio. No Antigo Testamento, o sumo sacerdote 
tanto de Davi como de Salomo  chamado Zadoc, o que podia ser um nome pessoal ou um ttulo oficial. Tradicionalmente, est muito associado com o messias, o ungido, 
o rei legtimo. Mais especificamente, est associado ao messias davidico.
Como Eisenman demonstra, a legitimidade do alto sacerdcio de Zadoc ou do Zadoc - foi restaurada pelos macabeus, a ltima dinastia de reis judeus, que governaram 
Israel desde o sculo 11 a.C. at os tempos de Herodes e da ocupao romana. (Como j indicamos, Herodes tentou se auto legitimar casando-se com uma princesa macabia, 
para mais tarde assassinar a ela e a seus filhos, extinguindo assim a linhagem.)  na dinastia macabia que Eisenman encontra a origem primeira do movimento, que 
foi ganhando crescente impulso durante o tempo em que Jesus viveu e nos anos seguintes. Eisenman atribui a origem dos saduceus tambm  mesma fonte, indicando que 
o termo "saduceu"  na verdade uma variante ou talvez uma deturpao de "Zadoc"ou "zadiquim". Em outras palavras, os saduceus originais teriam sido uma devota dinastia 
de sacerdotes, intimamente ligada pelo menos ao princpio da espera de um messias davdico.
Com a ascenso de Herodes, porm, segundo Eisenman prope, a maioria dos saduceus - que conhecemos como tais a partir de fontes bblicas e de Josefo - traram sua 
lealdades originais e tomaram o partido do usurpador. Essa traio parece ter provocado uma ampla oposio - uma espcie de sacerdcio "fundamentalista" alternativo, 
em luta com a classe estabelecida de sacerdotes, que se havia prostitudo aderindo a um rei ilegtimo. Por um lado, portanto, haveria os chamados "saduceus pr-Herodes", 
que se aferraram aos seus privilgios e prerrogativas no Templo sob o reinado de Herodes e, depois de sua morte, entraram em acordo com a administrao romana. Por 
outro lado, haveria um movimento saduceu "verdadeiro" ou "purista", integrado por saduceus que se recusavam quela colaborao e permaneciam leais ao princpio do 
messias davdico. Foram esses saduceus posteriores que se tornaram conhecidos como essnios, zadoquitas ou zadiquim, alm das vrias outras designaes que at hoje 
confundiram os pesquisadores.

Mas a tese de Eisenman no se esgota a. Ao contrrio, ela se amplia para abarcar tambm os zelotes. O nome adotado ou adquirido pelos zelotes indicava os que "zelam 
pela lei". A expresso  uma pista, servindo como meio para identificar adeptos do mesmo movimento. Ela aparece numa srie de contextos bastante precisos e extremamente 
decisivos, desde o regime macabeu at o sculo I d.C. Assim, o sumo sacerdote no perodo de Judas Macabeu (que morreu em 160 a.C.)  mencionado como Zadic e qualificado 
como tendo sido "um zelador da lei". Matatias, pai de Judas Macabeu, conclama "todos os que zelam pela lei" a segui-lo e a tomar posio no pacto.
Judas da Galilia, a quem em geral se atribui a fundao da seita zelote no limiar da era crist,  tambm um "zelador da lei" - e  assistido por um sumo sacerdote 
chamado Zadoc. E nos Atos dos Apstolos (Atos, 21: 20), os nazarenos de Jerusalm - os chamados "cristos primitivos" - so mais uma vez qualificados de "zeladores 
da lei". O texto grego  at mais revelador. Ali eles so chamados "zelotai da lei" - em outras palavras, zelotes.
O que emerge disto  uma espcie de sacerdcio dinstico fundamentalista, associado ao princpio de um messias davdico e que se teria estendido do sculo 11 a.C. 
at o perodo coberto pelos Evangelhos e os Atos dos Apstolos. Esse sacerdcio estava em guerra com os romanos. Estava tambm em guerra com os saduceus "pr-Herodes". 
Segundo as atividades que exercessem num dado momento e a tendncia do cronista, esse sacerdcio recebeu o nome de zelote, essnio, zadoquita e uma srie de outros 
- e at, da parte de seus inimigos, os nomes de "bandoleiros" e ''bandidos". Os essnios no so msticos passivos. Ao contrrio, como diz Eisenman, tm uma viso 
"violentamente apocalptica", que  o corolrio da ao violenta atribuda aos zelotes. Uma violncia semelhante - ao mesmo tempo teolgica e poltica - pode ser 
discernida nas carreiras de Joo Batista e Jesus. De fato, Eisenman chega a sugerir que as famlias de Jesus e Joo Batista talvez fossem aparentadas com a de Judas 
da Galilia, lder dos zelotes na poca do nascimento de Jesus. 
Se Eisenman est correto - e os indcios pesam fortemente a favor -, a confuso que at hoje reinou fica efetivamente sanada. Essnios, zadoquitas, nazarenos, zelotes 
e vrios outros supostos grupos emergem como meras designaes diferentes - ou, no mximo, manifestaes diferentes - de um nico movimento que se espalhou por toda 
a Terra Santa, penetrando bastante pela Sria, do sculo 11 a.C. em diante. Os nomes que anteriormente confundiam os estudiosos teriam sido o equivalente da variedade 
de nomes que usamos para designar, digamos, um partido poltico contemporneo, ou, no mximo, para o espectro de grupos e indivduos que compunham um nico movimento 
-  como a resistncia francesa durante a ocupao alem. Para Eisenman,  no h distino alguma entre zelotes e nazarenos, essnios e zadoquitas. Mas, mesmo que 
tivesse havido, esses grupos ainda assim teriam estado unidos por seu envolvimento comum numa nica e ambiciosa misso, num nico esforo supremo - livrar sua terra 
da ocupao romana e restaurar a antiga monarquia judaica, juntamente com seu legtimo sacerdcio. E se Jesus era o legtimo pretendente a esse trono, teriam estado 
unidos no apoio a ele,  sua famlia,  sua casa.
Os nazarenos, ou o partido nazareno - chamados (equivocadamente) os "primeiros cristos" ou "Igreja primitiva" -, no parecem ter diferido, doutrinariamente, dos 
grupos geralmente conhecidos como essnio ou zadoquita. Se alguma diferena havia, ela teria residido apenas nos seus integrantes - em indivduos ou personalidades 
especficos. No sabemos o nome de nenhum zadoquita ou essnio. Sabemos o nome de membros do partido nazareno. So pessoas que ou conheceram Jesus pessoalmente, 
ou foram instrudas, talvez em segunda ou terceira mo, por outras que o tinham conhecido. Mas, afora isso, os nazarenos so indistinguveis do movimento mais amplo 
de que faziam parte. O partido nazareno no deve, portanto, ser visto como uma unidade isolada, mas antes como um ncleo - o equivalente a um estado-maior, um conselho 
privado ou um gabinete.
Devemos agora examinar mais atentamente esse gabinete - suas atividades, suas personalidades de destaque, seu destino final - e o processo pelo qual as circunstncias, 
a histria e so Paulo conspiraram para releg-lo ao esquecimento.

6
A FORMAO DO CRISTIANISMO

Alm dos Evangelhos propriamente ditos, o mais importante livro do Novo Testamento  o intitulado "Atos dos Apstolos". Na verdade, para o historiador, os Atos podem 
ser, sob certos aspectos, at mais significativos.
Os Evangelhos, como j dissemos, no so fidedignos como documentos histricos. O primeiro deles, o de Marcos, foi escrito no antes da revolta de 66 d.C. e provavelmente 
o foi um pouco depois. Todos os quatro Evangelhos falam de um perodo muito anterior ao de sua composio, talvez em sessenta ou setenta anos. Do pouca ateno 
ao contexto histrico, voltando-se essencialmente para a figura de Jesus e seus ensinamentos. So mais obras poticas e de devoo do que crnicas. Comparativamente, 
os Atos, embora extremamente tendenciosos em seu ponto de vista, no deixam de refletir um esforo de preservar um registro histrico, de relatar o "que realmente 
aconteceu" em seu contexto histrico. Narram uma trama complexa de maneira mais ou menos coerente. Parecem ter sofrido muito menos alteraes posteriores do que 
os Evangelhos. Refletem com freqncia uma experincia em primeira mo dos acontecimentos que descreve. E foram compostos pouco tempo depois desses eventos, ou por 
algum que deles participou, ou, mais provavelmente, por algum que tinha acesso direto a uma testemunha ocular dos mesmos. 
O perodo coberto pela narrativa dos Atos comea pouco depois da crucificao e termina em algum momento entre 64 e 67 d.C. Segundo a maioria dos especialistas, 
a prpria narrativa foi composta entre 70 e 95 d.C.  portanto, grosso modo, contempornea do primeiro dos Evangelhos, se no for anterior aos quatro. O autor dos 
Atos se identifica como um homem chamado Lucas e os estudiosos modernos esto de acordo em considerar que se trata do mesmo Lucas que escreveu um dos Evangelhos. 
Que esse homem seja tambm o mesmo "Lucas, o Doutor", que esteve em Roma com Paulo e com este foi preso (Colossenses, 4:14),  mais duvidoso, mas a maioria dos comentadores 
est disposta a admiti-lo.
O relato de Lucas gira basicamente em tomo de Paulo. Fica bastante claro que Lucas conheceu Paulo pessoalmente, de uma maneira em que nem ele, nem os autores dos 
outros Evangelhos conheceram Jesus.  por Lucas que ficamos sabendo da converso e da misso de Paulo. Ao mesmo tempo,  com Lucas que aprendemos um bocado sobre 
o partido nazareno. Por fim, os Atos oferecem um relato histrico razoavelmente confivel da contenda de Paulo com o partido nazareno, que culminou em nada menos 
que a criao de uma religio inteiramente nova. Vale a pena, portanto, resumir o pano de fundo histrico que a narrativa dos Atos abrange.
Tudo indica que Joo Batista foi executado por Herodes ntipas algum tempo depois de 28 d.C., mas no depois de 3S d.C. A data fixada para a prpria crucificao 
de Jesus varia entre 30 e 36 d.C. e parece ter ocorrido aps a morte de Joo. No pode ter sido depois de 36 d.C. porque nesse ano Pilatos foi chamado de volta a 
Roma.
Em 35 d.C., ou no incio de 36, ocorreu em Samaria uma rebelio liderada por um messias samaritano. A rebelio foi impiedosamente sufocada e muitos samaritanos, 
entre os quais o lder, foram exterminados. Ao mesmo tempo, a perseguio aos discpulos mais prximos de Jesus parece ter-se intensificado. Em 36 d.C., por exemplo, 
Estvo, em geral aclamado como o primeiro mrtir do cristianismo, foi lapidado em Jerusalm e muitos nazarenos fugiram da cidade. Nessa altura - provavelmente menos 
de um ano e meio aps a morte de Jesus - eles j deviam ser numerosos e estar espalhados, porque Paulo, agindo em nome do sacerdcio saduceu estabelecido e devidamente 
autorizado pelo Sumo Sacerdote, foi at nada menos que Damasco na tentativa de ca-los. Em outras palavras, j havia enclaves nazarenos na Sria e estes eram considerados 
suficientemente ameaadores para justificar uma extirpao. A Sria, evidentemente, no era parte de Israel. As autoridades judaicas s podiam estender seu poder 
to ao norte com a aprovao da administrao romana. E Roma, para consentir nessa caa s bruxas, devia estar ela prpria se sentindo ameaada. Ademais, se, em 
data to precoce, j existiam enclaves nazarenos considerveis em local to distante quanto a Sria, no podemos ignorar a possibilidade de que se tivessem implantado 
antes da morte de Jesus e j estivessem estabelecidos na poca da crucificao.
Cerca de 38 d.C., Jesus j estava sendo abertamente proclamado como o messias - no o Filho de Deus, mas simplesmente o rei legtimo e ungido - por refugiados nazarenos, 
ou talvez por comunidades estabelecidas, em locais to remotos quanto Antioquia. Foi ali, na capital Sria, bem ao norte de Damasco, que o termo "cristo" lhes foi 
aplicado pela primeira vez. At ento, haviam sido chamados simplesmente nazarenos. E continuaram a ser chamados nazarenos por toda parte - especialmente em Jerusalm 
- por muitos anos.
Em 38 d.C., um poder nazareno centralizado j estava bem estabelecido em Jerusalm. Essa hierarquia administrativa viria a ser conhecida, atravs de cronistas cristos 
posteriores, como "a Igreja primitiva". Seu membro mais clebre foi,  claro, Pedro. Seu chefe oficial, no entanto, flagrantemente desprezado pela tradio posterior, 
foi o irmo de Jesus, Jac, mais tarde conhecido como so Tiago, ou "Tiago, o Justo". Nessa poca, Madalena, a Virgem e outras pessoas da intimidade de Jesus j 
haviam desaparecido e no h mais uma meno sequer a elas nos relatos bblicos.  certamente razovel supor que afirmaes feitas mais tarde estavam corretas e 
que buscaram refgio no exlio. O significativo, contudo,  que a "Igreja" em Jerusalm seja presidida no por Pedro, mas pelo irmo de Jesus, Tiago. Muito claramente, 
algum princpio de sucesso dinstica est em jogo.  tambm difcil atribuir  coincidncia o fato de Tiago ser referido como "Zadoc".
   
O Partido Nazareno

O prprio Jesus,  claro, no tivera inteno de criar uma nova religio. Tiago e o partido nazareno, em Jerusalm, tampouco o pretenderam. Como Jesus, teriam ficado 
escandalizados com a simples idia, que lhes pareceria a mais hedionda blasfmia. Como Jesus, eram acima de tudo judeus devotos, que agiam e oravam em estrita obedincia 
aos ditames da tradio judaica estabelecida.  verdade que estavam buscando a renovao de algumas prticas, certas reformas e certas mudanas polticas. Pretendiam 
tambm depurar sua religio de alguns elementos exticos recm-adquiridos e restaur-la no que julgavam ser sua pureza original. Mas nem sonhariam em criar um novo 
sistema de crena que pudesse se tomar um concorrente do judasmo - e muito menos seu perseguidor.
Fica claro, no entanto, que o partido nazareno em Jerusalm era considerado subversivo, tanto pelos romanos quanto pela corporao saducia estabelecida, pois logo 
se viu s voltas com as autoridades. Como j observamos, pouco tempo aps a crucificao, Estvo morreu apedrejado e Saul de Tarso partiu em perseguio aos nazarenos 
em Damasco. Por volta de 44 d.C., Pedro, depois Joo, depois todos os outros foram presos, aoitados e proibidos de pronunciar o nome de Jesus. No mesmo ano, o discpulo 
conhecido como Tiago, irmo de Joo, foi preso e degolado - forma de execuo que s os romanos tinham permisso de aplicar. No ano seguinte, a atividade de guerrilha 
dos zelotes j se intensificara a tal ponto que Roma foi obrigada a combat-la com rigor. Em 48-49 d.C. o governador romano da Judia prendeu e crucificou indiscriminadamente 
tanto zelotes quanto nazarenos. Apesar disso, os distrbios aumentaram. Em 52 d.C., o legado romano da Sria - o superior imediato do governador da Judia - teve 
de intervir pessoalmente para evitar uma insurreio geral.
Na verdade, a insurreio no foi evitada, apenas adiada. Em 54-55 d.C. a atividade militante j voltara a assumir propores epidmicas. O sumo sacerdote saduceu, 
designado pelos romanos, foi assassinado pelos zelotes e uma grande campanha terrorista foi iniciada contra outros saduceus que se haviam aliado a Roma. Durante 
57-58 d.C., apareceu outro messias, que teria vindo da comunidade judaica do Egito. Tendo angariado substancial apoio na Judia, tentou ocupar Jerusalm pela fora 
das armas e expulsar os romanos da Terra Santa. Como seria de se esperar, sua iniciativa foi violentamente abortada, mas os distrbios continuaram. Finalmente, por 
vota de 62-65 d.C., Tiago, chefe do partido nazareno em Jerusalm, foi preso e executado.
Mais uma vez, o princpio dinstico de sucesso parece ter prevalecido claramente entre os nazarenos. Com a morte de Tiago, seu lugar foi ocupado por um sujeito 
chamado Simeo, que  identificado como primo de Jesus. Por um breve tempo, Simeo manteve a hierarquia administrativa em Jerusalm. Mas para ele, como para toda 
a gente na capital, a essa altura certamente j era possvel prever o curso inevitvel dos acontecimentos. Assim, por volta de 65 d.C., Simeo conduziu os nazarenos 
para fora da Cidade Santa. Ao que se diz, estabeleceram seus comandos na cidade de Pela; ao norte de Jerusalm; e na margem leste do rio Jordo.6 Estudiosos modernos 
encontraram prova de que, a partir dali, continuaram a se afastar na direo nordeste, tendo alguns grupos se dirigido finalmente para as vizinhanas da bacia do 
Tigre-Eufrates, regio que hoje forma a fronteira entre a Sria e o Iraque. Ali, divorciados do que a essa altura se tomara a principal corrente do cristianismo 
em desenvolvimento, conseguiram sobreviver por muitos sculos, preservando suas tradies. Chegou-se a sugerir que o pai de Maom teria sido membro da seita nazarena 
e que o prprio Maom teria sido educado nas tradies nazarenas. Alega-se que uma de suas esposas era judia e, por implicao, nazarena. O certo  que o tratamento 
dado no Coro  figura de Jesus  de orientao essencialmente nazarena.
A prudncia de Simeo em abandonar Jerusalm foi plenamente justificada. Na primavera de 66 d. C., a luta eclodiu em Cesaria. Pouco depois, tropas romanas corriam 
furiosas por Jerusalm, matando todos os judeus em que conseguiam pr as mos, inclusive mulheres e crianas. Na onda de indignao que se seguiu, os sacerdotes 
do Templo foram obrigados a abolir os sacrifcios solenes a Roma e ao imperador - um desafio declarado que tornou inevitvel a guerra aberta. Depois de uma semana 
de guerra civil, Jerusalm foi capturada pelos rebeldes. Nesse meio tempo, contingentes zelotes comandados por um descendente de Judas da Galilia tomou a fortaleza 
de massada, junto ao mar Morto, exterminou a guarnio romana e preparou um aparato defensivo que iria resistir ao cerco dos inimigos at 73 d.C.
De incio, a reao romana foi um tanto lerda. Uma legio enviada da Sria e reforada por auxiliares foi rechaada de Jerusalm e acabou se retirando em debandada. 
Estimulados por essa vitria, os rebeldes comearam a organizar uma rede defensiva por toda a Terra Santa.  interessante notar que o comandante de uma das regies, 
que se estendia de Jerusalm at a costa,  chamado de Joo, o Essni07 - mais uma indicao de que os essnios no eram em absoluto pacifistas.
Em 70 d.C., no entanto, a situao j se tornara desesperada. Um imenso exrcito romano tomou Jerusalm de assalto, destruindo por completo o Templo e no deixando 
pedra sobre pedra na cidade. Esta haveria de ficar em runas por mais 61 anos. A maior parte dos habitantes foi assassinada ou morreu de fome. Os sobreviventes foram 
em sua maioria vendidos como escravos. Massada ainda resistiu por mais trs anos, mas a sua queda era um desfecho inevitvel.

Paulo como o primeiro herege

 contra esse turbulento pano de fundo que a carreira de Paulo, registrada nos Atos, deve ser situada. Paulo aparece em cena cerca de um ano aps a crucificao. 
Sob o nome de Saulo ou Saul de Tarso, participa, como saduceu fantico ou agente dos saduceus, de ataques ao partido nazareno em Jerusalm. De fato, participa to 
ativamente que, ao que parece, esteve envolvido na lapidao de Estvo, formalmente considerado o primeiro mrtir cristo (embora o prprio Estvo certamente se 
considerasse, claro, um piedoso judeu). Paulo  bastante explcito. Admite francamente que perseguira suas vtimas "at a morte".
Pouco depois da morte de Estvo, Paulo (que at essa altura ainda era Saul de Tarso), inspirado por um fervor fantico e sdico, parte para Damasco, na Sria,  
caa de nazarenos.  acompanhado por um bando de homens, presumivelmente armados, e leva ordens de priso assinadas pelo sumo sacerdote. Como j observamos, a autoridade 
do sumo sacerdote no se estendia at a Sria. Para poder cumprir um mandado ali, Paulo certamente tinha a autorizao da administrao romana, o que indica que 
Roma estava interessada na erradicao dos nazarenos. Em nenhuma outra circunstncia ela teria tolerado que um bando de justiceiros militantes agisse impunemente 
to alm da sua prpria jurisdio.
Ao que parece, nessa poca o sol do meio-dia tinha efeitos ainda mais extraordinrios do que mais tarde teria sobre cachorros loucos e ingleses. A caminho, Paulo 
sofre uma espcie de trauma que, segundo a interpretao dos comentadores, pode ter sido desde uma insolao ou um ataque epilptico at uma experincia mstica. 
Ao que se conta, uma "luz vinda do cu" derrubou-o do cavalo e "uma voz" cuja origem no se podia definir perguntou: "Saul, Saul, por que me persegues?" Saul pede 
 voz que se identifique. Ela responde: "Sou Jesus, o Nazareno, e ests me perseguindo." E prossegue, instruindo-o a seguir at Damasco, onde lhe ser dito o que 
dever fazer depois. Finda essa experincia, e mais ou menos de posse da sua antiga conscincia, Saul constata que est cego. Em Damasco, sua viso lhe  devolvida 
por um nazareno.
Um psiclogo de hoje nada veria de excepcional nesse incidente. Ele de fato pode ter sido causado por insolao ou por um ataque epilptico. Pode igualmente ser 
visto como uma alucinao, uma reao histrica ou psictica, bem como se reduzir a uma mera questo de conscincia pesada. Paulo, no entanto, interpreta o episdio 
como uma apario de Jesus, a quem nunca vira pessoalmente, e com ele inicia sua converso. Abandonou seu nome anterior de Saul e tornouse Paulo. A partir desse 
momento, seria to fervorosamente fantico na propagao do pensamento nazareno quanto o fora at ento na tentativa de esmag-lo.
Por volta de 39 d.C., Paulo volta a Jerusalm. Ali, segundo os Atos,  formalmente admitido no partido nazareno. De acordo com a relato do prprio Paulo em sua "Epstola 
aos Glatas", contudo, sua acolhida pelo partido nazareno nada teve de entusistica. Conta que no confiaram nele e o evitaram. Recebe, porm, algum tipo de apoio 
relutante de "Tiago, o irmo do Senhor", que o envia para Tarso, para ali pregar. De Tarso, Paulo continua sua jornada missionria, que dura cerca de catorze anos, 
levando-o praticamente por todo o mundo mediterrneo oriental - no s pela Terra Santa, mas tambm pela sia Menor e, cruzando o mar, at a Grcia. Seria de esperar 
que tamanho entusiasmo lhe valesse a aprovao da hierarquia nazarena em Jerusalm. Ao contrrio: s lhe valeu seu desagrado. Tiago e a hierarquia nazarena enviaram 
seus prprios missionrios na esteira de Paulo, para anular sua pregao e desacredit-lo aos olhos de seus prprios convertidos - pois a pregao que Paulo faz 
agora  muito diferente daquela autorizada pelos prprios nazarenos, presididos pelo irmo de Jesus. Atormentado pelos emissrios de Tiago, Paulo finalmente volta 
a Jerusalm, onde tem lugar uma desavena total. Finalmente, aps muitos atritos, Tiago e Paulo chegaram a um vago acordo, mas logo depois Paulo foi preso - ou posto 
sob custdia. Valendo-se da sua condio de cidado romano, Paulo pede que seu caso seja ouvido pessoalmente pelo imperador e  enviado como prisioneiro para Roma. 
Acredita-se que morreu ali em algum momento entre 64 e 67 d.C.
Em termos de quilmetros percorridos e energia despendida durante suas viagens missionrias, os feitos de Paulo so estupendos.  fora de dvida que agia com o dinamismo 
de um "possesso". Fica claro, no entanto, que as coisas no foram to cristalinas quanto a tradio crist posterior deseja que acreditemos. Segundo essa tradio, 
Paulo estava "disseminando fielmente a mensagem de Jesus pelo mundo romanizado de seu tempo". Nesse caso, por que suas relaes com o prprio irmo de Jesus foram 
to embaraosamente tensas? Por que teria havido esses atritos com os nazarenos de Jerusalm, alguns dos quais tinham conhecido Jesus pessoalmente e estavam certamente 
mais prximos dele do que Paulo jamais estivera? Por que a pregao de Paulo irritou a hierarquia nazarena a ponto de lev-la a enviar seus prprios emissrios no 
seu rasto, para desacredit-lo? Parece claro que Paulo estava fazendo alguma coisa que o prprio Jesus teria reprovado.
Como dissemos, nem Jesus nem a hierarquia nazarena tinham qualquer inteno de criar uma nova religio. Apregoavam uma mensagem especificamente judaica para adeptos 
do judasmo. Como disse o prprio Jesus (Mateus, 5:17): "No pensem que vim para abolir a Lei ou os Profetas. No vim para abolir, mas para completar." Para Tiago 
e o partido nazareno em Jerusalm, o importante nos ensinamentos de Jesus era a sua condio de messias no contexto estabelecido da poca - como rei legtimo e libertador. 
Jesus  menos importante em si mesmo do que pelo que diz e representa. No se pretendia transform-lo, pessoalmente, em objeto de adorao. Certamente no se pretendia 
consider-lo divino.
Quando Tiago envia Paulo e outros em expedies missionrias, seu desejo  que convertam pessoas  forma de judasmo de Jesus. A "nao de Israel", como Jesus, Tiago 
e seus contemporneos a concebiam, no era meramente uma entidade geogrfica. Era tambm uma comunidade, que abarcava todos os judeus, onde quer que residissem. 
O processo de converso visava ampliar as fileiras da nao de Israel.  possvel at que Tiago visse esse programa como um meio de criar um contingente de reserva, 
a partir do qual se poderia criar um exrcito, como no tempo de Judas Macabeu. Se uma revolta organizada estava fermentando em Jerusalm, suas chances de xito seriam 
imensamente aumentadas se pudesse ser sincronizada com, digamos, sublevaes de comunidades judaicas em todos os quadrantes do Imprio Romano.
Ou Paulo no conseguiu compreender os objetivos de Tiago, ou se recusou a colaborar. Em 2 Corntios 11 :3-4, ele declara explicitamente que os emissrios nazarenos 
de Tiago esto apregoando "um outro Jesus", um Jesus diferente do que ele prprio proclama. Na verdade, Paulo trai a misso que lhe fora confiada por Tiago e a hierarquia 
nazarena. Para ele, os ensinamentos e a condio poltica de Jesus eram menos importantes do que sua prpria pessoa. Em vez de converter pessoas ao judasmo, Paulo 
promove converses ao seu prprio culto pessoal e "pago" de Jesus, ao passo que o judasmo, como tal, toma-se secundrio, seno irrelevante. O que importa  simplesmente 
a profisso de f em Jesus como manifestao de Deus, e essa profisso de f  por si s suficiente para assegurar a salvao. Enquanto isso, exigncias bsicas 
para a converso ao judasmo, como a circunciso, a observncia do sab e a obedincia a leis alimentares so abandonadas. Jesus, Tiago e os nazarenos de Jerusalm 
pregavam o culto a Deus, no sentido judaico estrito. Paulo substitui isso pelo culto a Jesus como Deus. Nas mos de Paulo, Jesus se transforma em objeto de venerao 
religiosa - o que o prprio Jesus, como seu irmo e os outros nazarenos de Jerusalm, teriam considerado uma blasfmia.
A incompatibilidade entre Jesus e Paulo suscita questes de considervel importncia nos nossos dias. Quantos "cristos" tm hoje, por exemplo, conscincia da discrepncia 
entre os dois homens? E em que consiste o "cristianismo" para eles? No que Jesus ensinou? Ou no que Paulo ensinou? Exceto por meio de sofisma e distoro do fato 
histrico, as duas posies no podem ser harmonizadas.

O culto de Paulo

 a partir de Paulo, e apenas de Paulo, que uma nova religio comea a emergir - no como uma forma de judasmo, mas como um concorrente e, em ltima anlise, um 
adversrio do judasmo.  medida que Paulo vai divulgando sua mensagem pessoal, o judasmo que ela contm vai-se metamorfoseando. Funde-se com o pensamento greco-romano, 
com tradies pags, com elementos originrios de vrios mistrios.
Assim que comeou a se cristalizar como uma religio  parte, e no como uma forma de judasmo, o culto de Paulo passou a prescrever certas prioridades que no haviam 
vigorado enquanto Jesus vivera e que o prprio Jesus teria indubitavelmente deplorado. Em primeiro lugar, esse culto tinha de competir com religies j estabelecidas 
em regies onde era difcil ganhar terreno - com as religies da Sria, da Fencia, da sia Menor, da Grcia, do Egito, em suma, de todo o mundo mediterrneo, e 
mais, de todo o Imprio Romano. Para isso, Jesus tinha forosamente de assumir um grau de divindade comparvel ao dos deuses que agora, postumamente, estava destinado 
a substituir. Como muitos outros desses deuses, Tamuz - a divindade das antigas doutrinas secretas da Sumria e da Fencia - fora gerado por uma virgem, morrera 
com uma chaga no flanco e, trs dias depois, levantara-se do tmulo, deixando-o vazio, com a pedra que o fechava a um lado. Para que Paulo pudesse desafiar com xito 
os adeptos de Tamuz, Jesus tinha de poder fazer frente a esse deus mais antigo, milagre por milagre. Em conseqncia, certos aspectos da histria de Tamuz foram 
enxertados na biografia de Jesus.  significativo que Belm fosse no apenas a cidade de Davi, mas tambm o antigo centro do culto a Tamuz, com um santurio que 
permanecia bastante ativo ainda nos tempos bblicos.
A origem de muitos outros elementos especficos dos Evangelhos pode ser descoberta no na histria, mas nas tradies que envolviam Tamuz, Osris, tis, Adnis, 
Dionsio e Zoroastro. Muitas dessas divindades, por exemplo, teriam supostamente nascido da unio de um deus com uma virgem. O mitrasmo exerceu influncia particularmente 
forte na composio da tradio crist. Ele postulava o apocalipse, um dia do juzo, uma ressurreio da carne e uma segunda vinda do prprio Mitra, que iria finalmente 
derrotar o princpio do mal. Dizia-se que Mitra tinha nascido numa caverna ou numa gruta, onde pastores o haviam visitado, levando presentes. O batismo tinha papel 
de destaque nos ritos mitrastas. A refeio comunal tambm. H na comunho mitrasta uma passagem particularmente interessante: "Aquele que no comer da minha carne 
e no tomar do meu sangue de modo a poder se tomar um comigo e eu com ele, no se salvar."
Quando Tertuliano, um dos primeiros doutores da Igreja, foi confrontado com essa passagem, insistiu em que era obra do Diabo que, sculos antes, teria parodiado 
a comunho crist para desmerecer as palavras de Jesus. Se esse foi mesmo o caso, o Diabo deve ter feito uma boa lavagem cerebral em Paulo. Como um comentador atual 
observa:
Mesmo com o conhecimento relativamente insignificante que temos hoje sobre o mitrasmo e sua liturgia,  evidente que muitas das frases de Paulo [em suas epstolas] 
lembram muito mais a terminologia do culto persa do que a dos Evangelhos.
Mas o cristianismo no tinha apenas de competir - de oferecer um deus capaz de se contrapor a seus rivais, milagre por milagre, maravilha por maravilha, episdio 
sobrenatural por episdio sobrenatural. Tinha tambm de se tomar respeitvel e aceitvel aos olhos de um mundo que era, afinal de contas, parte do Imprio Romano.
Intrinsecamente, o cristianismo nada tinha disso. Jesus havia sido executado por crimes contra Roma, nos termos estritos da lei romana. Seus discpulos originais 
tinham sido considerados subversivos, seno revolucionrios declarados, ativamente empenhados em derrubar a autoridade romana sobre a Palestina. ATerra Santa era 
h muito uma fonte de exasperao para Roma e, aps a revolta de 66 d.C., a hostilidade romana contra o judasmo se intensificara. Nenhuma religio que contivesse 
vestgios de nacionalismo messinico judaico podia ter esperanas de sobreviver dentro do Imprio Romano. Portanto, todos os sinais desse nacionalismo messinico 
tinham de ser erradicados ou transformados.
Para se difundir pelo mundo romanizado, o cristianismo se transformou - e, ao faz-lo, reescreveu as circunstncias histricas em que nascera. No seria conveniente 
exaltar um personagem que tinha sido executado pelos romanos por crimes contra o Imprio. Por conseguinte, a responsabilidade pela morte de Jesus foi transferida 
para os judeus - no s para a corporao saducia, que indubitavelmente tivera participao nela, mas para o povo da Terra Santa em geral, que reunia tantos fervorosos 
defensores de Jesus. E o prprio Jesus teve de ser dissociado do seu contexto histrico, transformado numa figura no poltica - um messias no mundano, espiritual, 
que no representava desafio algum para Csar. Assim, todas as pistas da atividade poltica de Jesus foram atenuadas, diludas ou apagadas. E, na medida do possvel, 
todos os indcios do seu judasmo foram deliberadamente obscurecidos, ignorados ou tornados irrelevantes.

Simo Pedro

O ritmo do triunfo ideolgico de Paulo sobre Tiago e a hierarquia nazarena, e sua magnitude final, podem ser avaliados pela lenta mudana de atitude que se observa 
em Simo Pedro. De fato, Simo Pedro fornece uma espcie de barmetro da situao. Sua posio pessoal certamente espelha a situao de muitos outros que gravitavam 
entre Tiago e Paulo, entre uma forma de judasmo e a nova religio, cada vez mais autnoma, mais tarde chamada de cristianismo.
Em O santo graal e a linhagem sagrada, descrevemos o crculo mais prximo de Jesus como composto por dois ou mais grupos distintos: "adeptos da linhagem" e "adeptos 
da mensagem". Os "adeptos da linhagem" deviam formar um crculo relativamente pequeno, provavelmente de casta aristocrtica ou patrcia, membros da prpria famlia 
de Jesus e de famlias aparentadas. Para estes, o interesse primordial devia ser a legitimidade dinstica - a instaurao no trono de Israel de seu legtimo rei 
e, se isso no fosse possvel, a perpetuao da linhagem real intacta. Os "adeptos da mensagem" deviam ser consideravelmente mais numerosos, formando os "soldados 
rasos" do movimento. Suas prioridades deviam ser muito diferentes - mais mundanas, de mbito mais limitado, mais pragmticas. Provavelmente reagiam basicamente  
mensagem de Jesus, que, por sua prpria natureza, despertava, simultaneamente, emoes de medo e de esperana. Por um lado, deviam estar atemorizados pela urgncia 
da situao, tal como Jesus a pintava - a perspectiva de um apocalipse iminente, um dia do juzo, a distribuio de punies e recompensas. Por outro, deviam estar 
inspirados pela promessa de que eles, como leais adeptos do messias, faziam jus a uma recompensa singular por sua fidelidade e por qualquer sofrimento que tivessem 
experimentado. Esse apelo conjunto ao medo e  esperana atuava provavelmente como uma fora magntica.
Pelo que dele sabemos, Simo Pedro era um tpico "adepto da mensagem". Ao que parece, no era um homem particularmente instrudo. Parece ter pouca noo das questes 
mais amplas envolvidas, polticas ou teolgicas. No participa do conselho secreto de Jesus e muitas decises so tomadas s suas costas ou por sobre a sua cabea. 
Como j observamos,  bem possvel que fosse um militante nacionalista que no se acovardava ante a violncia. Podia muito bem ser um zelote, ou um ex-zelote - e 
podia at, na verdade, ser o pr6prio Simo Zelote. Durante toda a vida pblica de Jesus, Simo Pedro se mantm ao lado de seu mestre, quase como um guarda-costas 
- uma funo bem de acordo com seu apelido de "Ptreo" ou "Duro". Embora ostensivamente valente,  inabalvel na sua devoo, quase servil em certas ocasies. Quando 
Paulo entra em atividade, Tiago podia ser o chefe formal do partido nazareno em Jerusalm; era Simo Pedro porm, em virtude da misso a ele confiada por Jesus, 
ou em virtude do seu carisma, quem exercia a maior influncia e despertava a mais fervorosa fidelidade.
No incio dos Atos, Simo Pedro  um aliado inquestionvel de Tiago e da hierarquia nazarena em Jerusalm. Gradualmente, porm, comea a gravitar para a posio 
de Paulo. No final dos Atos, sua orientao tornou-se inteiramente paulina. Como Tiago, Simo Pedro  de incio um judeu devoto, que compreende os ensinamentos de 
Jesus num contexto exclusivamente judaico. No final de sua carreira, n6s o vemos, como Paulo, pregar uma mensagem transjudaica ao mundo gentio. Anacronicamente, 
a tradio o proclama como o primeiro papa - o primeiro chefe da Igreja que deveria consagrar o triunfo de Paulo e transformar num edifcio o pensamento paulino.
Em seu romance The Illusionist, Anita Mason recria de maneira magnfica e como vente as provaes pessoais por que Simo Pedro e muitos outros como ele devem ter 
passado. Como simples pescador da Galilia, ignorante e fanfarro, de incio deve ter tomado as afirmaes de Jesus ao p da letra.  assim que o vemos nos Evangelhosum 
sujeito leal, mas um tanto bronco, que certamente no pensava em termos religiosos ou polticos sofisticados. Jesus lhe era muito afeioado, mas no se pode dizer 
que confiava nele. Como Anita Mason mostra, Simo Pedro devia estar a princpio plenamente convencido de que o mundo iria literalmente acabar com a morte de Jesus 
- que um holocausto apocalptico iria consumir toda a criao, que cataclismos como os narrados pelos profetas do Antigo Testamento iriam varrer a Terra, que Deus 
desceria para pronunciar seu severo juzo.
Nos dias que se seguiram imediatamente  crucificao, Simo Pedro deve ter ficado, como Anita Mason o descreve, cada vez mais espantado - e no pouco alarmado - 
ao constatar que o mundo  sua volta permanecia intacto. No incio do perodo relatado nos Atos, sua atitude estava apenas ligeiramente modificada. Como muitos outros 
nazarenos, Simo Pedra ainda esperava o fim da criao. O apocalipse fora adiado, provavelmente por obscuras razes tcnicas inescrutveis por simples mortais, mas 
o adiamento era apenas temporrio.
Simo Pedro no tinha dvida de que o fim do mundo continuava iminente e iria ocorrer ainda durante sua vida.  essa convico, essa ardente esperana, que constitui 
a sua razo de ser.
Mas passam-se os anos e nada acontece. No s no h nenhum apocalipse, nenhum cataclismo csmico, como no h sequer uma mudana significativa na situao local. 
Altos funcionrios romanos so empossados, depois demitidos. Reis-fantoches so instalados no trono, depois afastados. Agitaes cvicas aumentam, mas provavelmente 
so fruto mais de impacincia do que de qualquer outra coisa. Tudo continua mais ou menos como era antes, e torna-se cada vez mais evidente que a morte de Jesus 
no produziu efeito algum. Para um homem como Simo Pedro, isso constitui,  claro, uma perspectiva aterradora. Ele se comprometera definitivamente com a crena. 
Aps considervel perplexidade, empenhara nela sua vida e seu futuro, e agora ela comeava a parecer cada vez mais duvidosa. Para Simo Pedro, o crescente peso da 
dvida, a crescente desconfiana de que seu empenho fora em vo, deve ter sido, como Anita Mason descreve, um horrvel tormento psicolgico. Deve t-lo lanado  
beira no s da desiluso, mas de um desespero quase suicida; e se Pedro persiste na disseminao da mensagem, o faz quase como um sonmbulo, como uma maneira de 
afugentar suas prprias incertezas.
Paulo,  claro, oferece a Simo Pedro uma oportunidade irresistvel de cumprir sua promessa; de justificar tudo a que se devotara. Para Simo Pedro, a posio de 
Paulo aparece como uma alternativa vivel ao desespero. No comeo,  claro, toma o partido de Tiago, vendo o trabalho de Paulo como extremamente suspeito, seno 
blasfemo. Pouco a pouco, contudo, a posio de Paulo se torna a nica a dar algum sentido  situao. Em suma, a posio de Paulo fornece a Simo Pedro uma explicao 
possvel para o fato de o mundo ainda no ter acabado, poder no acabar antes de mais mil ou 2 mil anos, ao mesmo tempo em que continuava a justificar seu devotamento. 
Jesus se torna consubstancial com Deus. E se Jesus e Deus tm uma nica substncia, o reino do cu no precisa ser algo que ser inaugurado na Terra no futuro imediato; 
pode ser algo exterior - um outro reino, uma outra dimenso, em que podemos esperar encontrar uma boa acolhida e um lugar reservado quando morrermos. Mas, se o apocalipse 
est adiado indefinidamente, permanece a certeza de que acabar por vir, no final dos tempos; nesse meio tempo, h recompensas a colher no cu.
A partir desse elaborado raciocnio, Simo Pedro ganha um novo alento, uma nova inspirao que lhe permite continuar pregando e segundo os relatos tradicionais - 
enfrentar bravamente seu martrio. Em virtude desse suposto martrio, ele se torna verdadeiramente a pedra sobre a qual uma Igreja - a paulina - seria depois fundada. 
E uma tradio subseqente, a posteriori, proclamou Simo Pedro o primeiro bispo de Roma e o fundador do papado.
Como dissemos, as vicissitudes de Simo Pedro, como descritas por Anita Mason, podem no ter sido nicas. Ao contrrio, provavelmente muitos adeptos fervorosos de 
Jesus poderiam ser encaixados num modelo semelhante - vacilando  beira da desiluso dilacerante, depois encontrando em Paulo uma nova justificao. No  difcil, 
portanto, entender por que o culto essencialmente "pago" de Paulo pode ter sido to persuasivo, e por que teria triunfado mais tarde sobre a posio menos confortadora 
da dinastia nazarena - de Tiago e, em ltima anlise, do prprio Jesus. Com a queda de Jerusalm em 70 d.C., a influncia nazarena praticamente desapareceu da maior 
parte do mundo mediterrneo. O pensamento paulino ainda teria concorrentes,  claro, mas nenhum deles seria capaz de concentrar o poder, assegurado pela sucesso 
dinstica, de Tiago.

Judas Iscariotes

 medida que se disseminou, o pensamento paulino modificou muito da histria original em que os Evangelhos se' baseiam. Enxertou-lhe novos elementos. Adaptou-a ao 
mundo em que estava sendo propagada. Nesse processo, algumas figuras tiveram de pagar um preo, pelo menos aos olhos da posteridade.
Simo Pedro , sem dvida, o personagem mais conhecido e famoso do crculo original de Jesus - aquele que a tradio estabeleceu como quase sinnimo do prprio cristianismo. 
Sob muitos aspectos,  o "discpulo de Jesus que apresenta traos mais bem-definidos. E, em sua fraqueza,  o mais cativantemente humano. Outro dos primeiros discpulos 
de Jesus, porm, nos permite perceber com muito mais clareza o que o mestre estava realmente fazendo. Sua relevncia foi obscurecida pelo pensamento paulino.
Durante quase vinte sculos, o personagem conhecido como Judas Iscariotes - Judas, o Sicrio - foi amaldioado e desprezado, lanado no rol dos mais odiosos viles. 
Em relao a Jesus, a tradio popular lhe atribuiu uma das mais antigas e mais arquetpicas funes - a do eterno adversrio, o antagonista funesto, a encarnao 
de todos os vcios e iniqidades que o heri no possui. Em termos sim blicos, Judas  um "mau irmo", o reverso escuro da luz que  Jesus. Na tradio judaico-crist, 
a anttese entre eles  mais uma manifestao do velho conflito entre Caim e Abel. Encontramos conflito semelhante em outras culturas, outras mitologias, outras 
cosmologias. No mito egpcio, por exemplo, a mesma dualidade  refletida pelo eterno conflito entre Set e Osris. Nos ensinamentos zorostricos - que, atravs de 
seus vestgios mitrastas, influenciaram fortemente o cristianismo - ele era dramatizado por Ahura-Mazda, ou Ormuz, e Arimo Podemos encontrar rivalidades anlogas 
por todo o globo, seja nas crenas astecas e toltecas no Mxico ou nos mitos da ndia, da China ou do Japo. Subjacente a todos eles est a mesma oposio arquetpica 
entre deus e o mal, a luz e as trevas, a criao e a destruio, Deus e o Demnio. Se Jesus, na cultura crist posterior, torna-se sinnimo de Deus, Judas - arrastando 
consigo "o; judeus" em geral- torna-se a prpria encarnao do adversrio de Deus.
Judas  mostrado como um falso amigo que, por razes puramente mercenrias, trai seu mestre e provoca sua morte. O quadro  implacavelmente sinistro, no h circunstncias 
atenuantes. Uma leitura mais atenta dos Evangelhos, porm, revela o desenrolar de um drama muito mais complexo.
Como vimos, Jesus estava impregnado das profecias do Antigo Testamento - especialmente as de Zacarias referentes ao messiase repetidamente modelou por elas suas 
aes, de modo muito estrito. Vezes sem conta, essas profecias ditam e determinam suas decises, suas atitudes, sua linha de ao. Na verdade, grande parte da sua 
vida pblica e da sua histria conhecida parecem pouco mais que uma concretizao e uma ratificao das profecias. E,  claro, quanto mais profecias ele cumpre, 
mais fora ganha sua reivindicao messinica. "Isto aconteceu para cumprir a profecia"  um refro constante ao longo do Novo Testamento - o refro de um polemista 
a apresentar triunfante a sua prova.
Durante sculos, apesar de haver indcios contrrios nos prprios Evangelhos, a tradio crist sustentou que a convergncia entre a vida de Jesus e as profecias 
do Antigo Testamento era "mera coincidncia" - no fora pretendida por Jesus, tendo ocorrido espontaneamente, segundo um plano divino. Hoje, no entanto, tal afirmao 
 absolutamente insustentvel. Para os estudiosos modernos, no h dvida de que Jesus estava impregnado de ensinamentos bblicos, especialmente os dos livros profticos. 
No se conformou ao padro das profecias por um "acidente milagroso". Ao contrrio, dedicou-se cuidadosamente, deliberadamente, muitas vezes metdica e trabalhosamente, 
a modelar sua carreira e suas atividades segundo as declaraes dos profetas. Ele prprio diz isso. Houve obviamente, da parte de Jesus, a deciso consciente e a 
determinao de fazer da sua vida uma realizao de declaraes profticas.
Como vimos, as profecias de Zacarias com relao ao messias tm particular interesse e relevncia para Jesus. Sua entrada triunfal em Jerusalm, por exemplo, representa 
uma tentativa de cumprir uma delas. Mas Zacarias profetizou tambm que o messias, descendente de Davi, seria trespassado e morto, e seus seguidores dispersos. Alm 
disso, numa passagem um tanto opaca, o messias era comparado a um alegrico "bom pastor", que seria vendido pelo preo de trinta siclos de prata. Pelos Evangelhos, 
fica bastante claro que Jesus decidiu que tambm estas profecias deviam ser cumpridas - no espontaneamente, mas por um plano adrede preparado. Para executar esse 
plano, era preciso um traidor.
Em todos os quatro Evangelhos, a ltima ceia ocupa posio de destaque. E em todos os quatro Evangelhos Jesus anuncia publicamente, ao grupo ali reunido, que ser 
trado por um deles - porque " chegado o tempo", porque sua "hora est prxima" e tambm, muito explicitamente, porque "a profecia tem de se cumprir". Em Marcos 
e Lucas, o traidor no  nomeado na prpria ceia, mas em Mateus e Joo, sim. Em Mateus, por exemplo, Judas pergunta abertamente, diante de todos os seus companheiros: 
"Seria eu, Rabi?", e Jesus confirma. No Evangelho de Joo, quando lhe pedem que identifique o homem que o trair, Jesus responde: "Aquele mesmo a quem eu der o pedao 
de po que vou molhar no prato." Tendo-o molhado, estende o pedao de po a Judas, dizendo: "O que tens a fazer, faze-o depressa." E o Evangelho de Joo, de maneira 
bastante incongruente, acrescenta que nenhum dos outros presentes sabia ao certo por que Jesus disse isso aJudas.
A seqncia, tal como  descrita, no pode deixar de suscitar questes. Uma  bvia: se Judas  identificado como o traidor de seu mestre, por que permitem que parta 
em sua misso de traio? Por que no  impedido - por Simo Pedro, por exemplo, que, bem pouco tempo depois, aparece no s armado mas se mostra violento o bastante 
para atacar um servidor do sumo sacerdote? Por que nenhuma outra precauo  tomada?
A resposta a estas questes  que a misso de Judas  necessria. Como Mateus declara, "tudo isso aconteceu para cumprir as profecias das Escrituras". E mais uma 
vez, no captulo seguinte: "As palavras do profeta (...) foram ento cumpridas. E eles pegaram as trinta moedas de prata, soma pela qual o Precioso era apreciado 
pelos filhos de Israel. "
No  que Judas esteja realmente traindo Jesus. Ao contrrio, foi deliberadamente escolhido por Jesus, provavelmente para sua prpria consternao, para desempenhar 
uma penosa tarefa, de tal modo que o drama da Paixo pudesse se desenrolar em conformidade com a profecia do Antigo Testamento. Quando Jesus oferece o po molhado, 
est de fato impondo a Judas uma misso.  quase como se o homem destinado  tarefa tivesse sido escolhido por sorteio, com a diferena de que o resultado parece 
ter sido predeterminado. E quando Jesus ordena a Judas que faa logo o que tem de ser feito, no est expressando uma resignao clarividente, mas dando instrues 
explcitas.
Uma coisa emerge com clareza de qualquer exame atento da ltima ceia. H sem dvida uma espcie de conluio entre Jesus e Judas. A "traio" no pode ocorrer sem 
esse conluio, uma participao voluntria da parte de Jesus, uma determinao de ser trado, mais que uma mera disposio de s-lo. Em suma, toda a transao foi 
cuidadosamente planejada, ainda que os outros discpulos paream no estar a par dela. Ao que parece, apenas Judas gozou da confiana de Jesus nesse assunto.
Fadado a ser estigmatizado e amaldioado pela posteridade, Judas demonstra na verdade ser to mrtir,  sua maneira, quanto Jesus. Para o escritor grego Nikos Kazantzakis, 
o papel de Judas  talvez at mais difcil. Em The Last Temptation, pouco antes da ltima ceia, desenrola-se o seguinte dilogo, secretamente, entre Jesus e Judas:
- Lamento, Judas, meu irmo - disse Jesus -, mas  necessrio. - J lhe perguntei antes, Rabi... no h nenhum outro meio?
- No, Judas, meu irmo. Eu tambm teria gostado. Eu tambm desejei e esperei isso at agora... mas em vo. No, no h outro meio. O fim do mundo se aproxima. Este 
mundo, este reino do Demnio, ser destru do e vir o reino do cu. Eu o trarei. Como? Morrendo. No h outro meio. No tremas, Judas, meu irmo. Em trs dias eu 
me erguerei de novo.
- Falas assim para me consolar e dar-me coragem para trair-te sem despedaar meu corao. Dizes que tenho sangue-frio... dizes isso para me dar foras. No, quanto 
mais nos aproximamos desse terrvel momento... no, Rabi, no serei capaz de suportar!
- Sers capaz, Judas, meu irmo. Deus te dar toda a fora de que precisares, porque  necessrio...  necessrio que eu seja morto e que tu me traias. Ns dois 
temos de salvar o mundo. Ajuda-me.
Judas baixou a cabea. Passado um momento, perguntou: - Se tivesses de trair teu mestre, tu o farias?
Jesus refletiu por um longo tempo. Por fim, disse: - No, acho que no seria capaz. Foi por isso que Deus teve piedade de mim e me deu a tarefa mais fcil: ser crucificado.
Evidentemente, este dilogo  uma recriao ficcional. Fica claro, contudo, que algo semelhante ao que Kazantzakis descreve deve ter realmente acontecido. Comentadores 
do Novo Testamento h muito reconheceram o quanto Judas  crucial, indispensvel para toda a misso de Jesus. Sem Judas, o drama da Paixo no pode ser encenado. 
Diante disso, Judas deve ser visto como algo muito diverso do vilo indecente da tradio popular. Ele emerge como precisamente o oposto - uma figura nobre e trgica, 
que consente com relutncia em representar um papel desagradvel, penoso e imprescindvel num roteiro preestabelecido. Como Jesus diz a seu respeito: "Olhei por 
eles e nenhum s se extraviou, exceto aquele que escolheu se perder, e isso para cumprir as Escrituras. "
O que fica impreciso  se Jesus estava realmente convencido de que teria de morrer literalmente, ou se pensava que seria suficiente parecer morrer. Como discutimos 
em O santo graal e a linhagem sagrada, h um substancial corpo de dados em favor da ltima alternativa. A verdade,  claro, provavelmente nunca ser conhecida. Mas 
sem dvida  pelo menos possvel que Jesus tenha sobrevivido  crucificao - mesmo que ele prprio tenha estado na cruz de incio, e no um substituto, como pretendem 
o Coro e muitas outras heresias dos primeiros tempos.

Judas

Como vimos, o pensamento paulino parece ter alterado consideravelmente as atitudes e a orientao de Simo Pedro. As tradies originadas do pensamento paulino difamaram 
o nome de Judas e obscureceram o papel do prprio irmo de Jesus, Tiago, como chefe da hierarquia nazarena em Jerusalm. H ainda um outro personagem cuja importncia 
foi distorcida e diminuda aos olhos da posteridade.
No cnon do Novo Testamento, h uma nica epstola de Tiago, que nela se identifica como "o irmo do Senhor". H tambm uma carta de um homem chamado Judas, que 
se identifica como "um servo de Jesus Cristo e irmo de Tiago". A primeira vista isso poderia sugerir que Judas, assim como Tiago, era irmo de Jesus.
De fato, os estudiosos modernos da Bblia concordam em que a carta atribuda a Judas  de uma data demasiado tardia para ter sido escrita por um contemporneo de 
Jesus. Acredita-se que foi composta no incio do sculo II, muito provavelmente por uma pessoa que realmente se chamava Judas e que, juntamente com um irmo, chamado 
Tiago, presidia o partido nazareno na poca. Mas, segundo o mais antigos historiadores da Igreja, o Tiago e o Judas do sculo II eram netos de um outro Judas, que 
era irmo de Jesus.
Os prprios Evangelhos deixam claro que Jesus tinha um irmo. chamado Judas, ou Jud. Tanto o Evangelho de Lucas quanto os Atos falam de um certo "Judas de Tiago", 
o que  geralmente traduzido como "Judas, filho de Tiago."  muito mais provvel, contudo, que "Judas de Tiago." designasse originalmente "Judas, irmo. de Tiago." 
Se Lucas  vago a este respeito, Mateus e Marco.s so. ambos bastante explcito.s. Ambos dizem que Jesus tinha quatro irmos - Jos, Simo, Tiago e Judas -, bem 
como pelo menos duas irms. O contexto em que so mencionados  curioso.  dito que repreenderam Jesus no.s seus primeiro.s dias de pregao. na Galilia. Nenhuma 
razo para tanto  sugerida. Fosse o que fosse, a crtica durou pouco, pelo menos no tocante a Tiago. Pouco tempo depois da morte de Jesus ele j havia tomado o 
lugar do irmo, assumido a chefia da hierarquia nazarena em Jerusalm e alcanado ele prprio a condio. de homem santo. H abundantes indcios de que Judas seguiu 
o exemplo.
No entanto, muito curiosamente, no h meno A Judas nos Atos ou em quaisquer outros textos do Novo Testamento. - pelo menos sob esse nome. Na verdade, sob outro 
nome que ele deve ser procurado. Quando encontrado, demonstra ter desempenhado um papel sem dvida muito importante.

7
OS IRMOS DE JESUS

Vrios textos essnios e zadoquitas seminais falam no de um messias esperado, mas de dois. Segundo essas fontes, a identidade e a integridade da nao repousam 
sobre duas sucesses dinsticas unidas entre si por muitos vnculos. Os dois messias so denominados especificamente o messias de Aaro e o messias de Davi.! O messias 
de Davi seria um personagem real, que presidiria a administrao secular do novo reino, que ele implantaria com suas proezas militares. O messias Aaro, descendente 
do primeiro sumo sacerdote de Israel no Antigo Testamento, seria um personagem clerical, um "intrprete da Lei", que presidiria a vida espiritual do povo.
Ironicamente, esse princpio de autoridade secular e espiritual veio a encontrar expresso mais tarde na Europa ocidental, atravs do Sacro Imprio Romano Germnico, 
em que o imperador detinha um cetro temporal e se proclamava descendente de Davi, enquanto o papa exercia autoridade espiritual, como intrprete da lei de Deus. 
Como observamos vrias vezes, contudo, em Israel a poltica e a religio estavam nessa poca inextricavelmente associadas - eram, de fato, essencialmente, manifestaes 
da mesma coisa. Em conseqncia, o messias rgio e o messias sacerdotal teriam de ser to intimamente ligados quanto possvel - como haviam sido no tempo dos Macabeus, 
por exemplo, quando ambos eram membros da mesma famlia. Cismas entre os poderes espiritual e temporal, como os que mais tarde caracterizaram o Sacro Imprio Romano, 
seriam inadmissveis.
Pode-se sem dvida alegar que o tema do duplo messias aparece no Novo Testamento, embora numa forma drasticamente modificada e provavelmente deturpada. Os estudiosos 
bblicos atuais concordam em que, entre os incidentes historicamente mais plausveis dos Evangelhos, os que menos provavelmente foram inventados por escritores e 
revisores posteriores, est o batismo de Jesus no Jordo por Joo.
Trata-se sem dvida do evento isolado mais significativo de que temos conhecimento na carreira pblica de Jesus antes da sua entrada triunfal em Jerusalm; e a tradio 
crist refora a importncia de Joo nessa histria. Ele  o desbravador, o precursor, a "voz que clama no deserto", que "prepara o caminho". Na verdade, muitos 
dos contemporneos de Joo estavam dispostos a ver nele prprio o messias. Lucas relata que"... um sentimento de expectativa cresceu no seio do povo, que comeava 
a pensar que Joo podia ser o Cristo". E durante os trs primeiros sculos da era crist, sobretudo na regio da bacia do TigreEufrates, floresceram certas seitas, 
mandianas ou joanitas, que veneravam Joo, e no Jesus, como seu profeta. Na verdade, uma dessas seitas ainda existe. Segundo sua concepo, Joo foi "o verdadeiro 
profeta", enquanto Jesus foi "um rebelde, um herege que levou os homens para o mau caminho, revelou doutrinas secretas".
Estudiosos da Bblia no vem razo para duvidar da afirmao de Lucas de que Joo e Jesus eram primos em primeiro grau. Hoje geralmente se admite que a me de Jesus 
era irm de Isabel, a me de Joo. Lucas deixa claro tambm que Joo Batista, atravs de sua me, era descendente da sucesso dinstica sacerdotal de Aaro - o que 
implicaria, obviamente, que Jesus tambm o era. Ao mesmo tempo, Lucas enfatiza que, por parte de pai, Jesus era descendente de Davi. Assim, na qualidade de descendente 
de Aaro, Joo podia reivindicar o ttulo de messias sacerdote. Jesus, descendendo tanto de Aaro quanto de Davi, fazia jus ao duplo ttulo de messias sacerdote 
e messias real. Isso parece explicar a afirmao de Lucas (Atos 2: 36) de que Deus fez Jesus "ao mesmo tempo Senhor e Cristo".
   O parentesco entre Joo e Jesus deve ter conferido maior prestgio, plausibilidade e credibilidade aos seus respectivos papis. Se, em meio  atmosfera apocalptica 
da poca, judeus devotos estavam aguardando ansiosamente o advento de dois Messias - um real, da casa de Davi, e um sacerdotal, da casa de Aaro -, provavelmente 
mantinham os olhos fixos num nmero limitado de famlias. Se os personagens esperados apareceram como primos em primeiro grau, o quanto isso no deve ter parecido 
notvel e convincente! Quase certamente, deve ter sido percebido como um sinal, um pressgio, uma manifestao palpvel da mo de Deus.
Se Jesus fosse o messias real e Joo o sacerdotal, o batismo no Jordo teria sido ainda mais significativo - o messias sacerdotal teria confirmado formalmente sua 
contrapartida real, que ademais, por obra manifesta de um plano divino, vinha a ser seu parente prximo. As duas linhagens, messinica e familiar, se teriam reforado 
mutuamente. O fato de funes espirituais e temporais estarem unidas na mesma casa, pelo mesmo sangue, tornaria essa unio duplamente sagrada, duplamente santificada, 
e a unidade da nao ainda mais abenoada. Fora isso, como mencionamos, que ocorrera durante o reinado da dinastia macabia, a ltima dinastia de Israel. E, como 
observamos, ao que parece Jesus e seus seguidores viam o regime macabeu como paradigma de suas prprias aspiraes.
Se Joo fosse o messias sacerdotal de Aaro, e Jesus o messias real de Davi,  possvel que Jesus, depois que Joo foi executado por Herodes ntipas, tenha assumido 
os dois papis, incorporando a condio e as funes do profeta morto.  possvel tambm que Joo, antecipando seu fim iminente, tenha selado com ele um acordo desse 
tipo, talvez na cerimnia do' Jordo. Parece haver claramente algum significado no fato de Jesus s ter iniciado resolutamente seu sacerdcio aps a morte de Joo. 
Seja como for, uma coisa  certa: entre os seguidores de Jesus incluam-se ex-adeptos de Joo. E se Jesus incorporava em sua pessoa o duplo papel de messias real 
e sacerdotal, merecia de fato essa adeso.

Tom, o Gmeo

O princpio do messiado dual tem contudo outras implicaes, ainda mais intrigantes. Estas envolvem no Joo Batista, mas uma figura muito mais elusiva, que a tradio 
crist posterior certamente relutou em admitir. Faz-lo seria suscitar considerveis complicaes.
   Em todos os quatro Evangelhos, e tambm nos Atos,  mencionado o discpulo conhecido como Tom. Ao mesmo tempo, porm, pouca importncia lhe  conferida. No 
nos  dito praticamente nada a seu respeito. Nada o individualiza em relao aos demais seguidores de Jesus. Parece atuar como um figurante absolutamente perifrico. 
Apenas no Evangelho de Joo ele faz uma declarao, curiosa e extremamente interessante. Quando Jesus recebe a notcia de que Lzaro est doente, Tom insiste em 
que todos voltem para a casa do doente, em Betnia, "para que possamos morrer com ele". Afora isso, Tom no diz nem faz nada digno de nota at depois da crucificao. 
Ento numa passagem do Evangelho de Joo que  provavelmente uma interpolao posterior - ele de incio duvida de que Jesus havia de fato ressuscitado em carne e 
osso.
Se examinarmos outras fontes alm das escrituras cannicas, o papel de Tom assume propores mais amplas. Segundo Eusbio, que escreveu sobre a histria crist 
no sculo IV, Tom migrou na direo nordeste, tendo evangelizado entre os partos - o povo "brbaro" que ocupava a regio que ia da bacia do Tigre-Eufrates at o 
Ir atual. Segundo um texto apocalptico datado do sculo III, a misso de Tom o levou ainda mais longe.  dito que morreu na ndia, trespassado por lanas, e que 
o tmulo em que o enterraram foi mais tarde encontrado vazio.3 Tradio semelhante existe numa seita de cristos srios, que se auto denominam "cristos de so Tom". 
Dizem eles que foram convertidos por Tom, que teria finalmente morrido em Mylapore, perto de Madrasta.
Se esses relatos contm alguma verdade, Tom emerge como um dos mais ativos e influentes de todos os discpulos. Se Paulo foi o principal apstolo do cristianismo 
na Europa ocidental, T om teria sido, praticamente sozinho, o responsvel pela sua disseminao no Oriente. O que Tom disseminou, contudo, no foi o cristianismo 
paulino. O que pregou foi uma forma de ensinamento nazareno, como o que teramos podido esperar de Tiago e da hierarquia nazarena de Jerusalm.
Mas quem era exatamente Tom? Sabemos que Simo Pedro e seu irmo Andr, bem como os dois filhos de Zebedeu, eram pescadores da Galilia. Temos alguma informao 
sobre a origem de vrios outros discpulos. Sobre Tom, no entanto, nada nos  dito. E a questo torna-se ainda mais pertinente porque "Tom" no  de maneira alguma 
um nome. Assim como "Pedro" era o apelido de um pescador, significando "semelhante a pedra" ou "ptreo", assim tambm "Tom" era uma alcunha, sendo pura e simplesmente 
a palavra hebraica para "gmeo".
Na verso do rei Jaime do Evangelho de Joo,  primeira vista parece haver uma pequena elucidao. O discpulo  mencionado a como "Tom Ddimo" ou "Tom chamado 
Ddimo". Na verdade, contudo, isso s obscurece ainda mais a questo .- pois a palavra grega ddymos tambm significa "gmeo". * Traduzindo "Tom Ddimo" chegamos 
 redundncia "Gmeo Gmeo". "Tom chamado Ddimo" fica ainda mais grotesco: "Gmeo chamado Gmeo". Tradues mais recentes, que falam de "Tom chamado o Gmeo", 
tampouco so mais esclarecedoras e novamente nos pem diante de um disparate: "o Gmeo chamado o Gmeo".
Que estaria sendo escondido aqui de maneira to desajeitada? Qual era o verdadeiro nome de Tom? E de quem ele era gmeo?
Estas perguntas so parcialmente respondidas, de maneira bastante explcita, pelo Evangelho apcrifo de Tom, obra muito antiga, que remonta provavelmente ao final 
do sculo I. Aqui, Tom  identificado como "Judas Tom", cuja traduo  "Judas, o Gmeo". Em outro texto apcrifo ligeiramente posterior, os Atos de Tom, a questo 
 ainda mais esclarecida. Aqui tambm Tom  especificamente chamado de J udas T om. E quando Jesus aparece para um jovem: "... ele viu o Senhor Jesus  imagem 
do Apstolo Judas Tom... O Senhor lhe disse: 'No sou Judas, que  tambm Tom, sou o irmo dele."'

O Testemunho Apcrifo

Estudiosos contemporneos da Bblia admitem que as igrejas que se desenvolveram na Sria, na sia Menor e no Egito representavam uma forma de "cristianismo" no 
menos vlida que a de Roma, por mais que dela diferissem.
Na verdade, pode-se afirmar que as igrejas desses lugares eram herdeiras de uma tradio "mais pura" que a de Roma, porque no diluda ou distorcida pelo pensamento 
paulino; ela estava mais prxima do que o prprio Jesus, Tiago e a hierarquia nazarena original teriam propagado. No h dvida de que a Igreja do Egito, para tomar 
apenas um exemplo, possua textos pelo menos to antigos e fidedignos quanto os que integram o Novo Testamento cannico - textos que os compiladores do Novo Testamento 
excluram deliberadamente. Este ponto  sublinhado pelo professor Helmult Koester, da Escola de Teologia da Universidade de Harvard, que afirma: "... no vasto tesouro 
da literatura evanglica no cannica h pelo menos alguns escritos que no encontraram o lugar que lhes era de direito na histria de seu gnero literrio." Entre 
esses escritos, o professor Koester cita especificamente o Evangelho de Tom. Quando entrevistado na srie televisionada Jesus: the Evidence, Koester foi bastante 
categrico em suas declaraes. Com base nos dados mais recentes, haveria muito pouca dvida de que Judas Tom era de fato irmo de Jesus - o irmo mencionado nos 
Evangelhos como Judas.
Se Judas Tom, ou "Judas, o Gmeo", fosse de fato irmo gmeo de Jesus, qual teria sido sua posio entre seus contemporneos? Nos Atos de Tom, h a seguinte citao: 
"Irmo gmeo de Cristo, apstolo do Altssimo e confrade iniciado no mundo oculto de Cristo, que recebe suas confidncias..." E novamente, de maneira ainda mais 
explcita, numa invocao ao Esprito Santo (o qual, muito significativamente,  feminino): "Vinde, Esprito Santo... Santa Pomba que concebestes os meninos gmeos. 
Vinde, Me secreta... "
Num fragmento de outro escrito apcrifo, Jesus, aproximando-se de Simo Pedro e Judas Tom, fala-lhes "na lngua hebraica". Parece haver uma confuso, talvez deliberada, 
na traduo do texto original cptico, mas, ao que tudo indica, o que Jesus diz : "Saudaes, meu venervel guardio Pedro. Saudaes, Tom [Gmeo], meu segundo 
messias. "
A partir de referncias como estas, a figura de Judas Tom emerge no s como Judas, o irmo gmeo de Jesus. Emerge tambm como um messias reconhecido por direito 
prprio.

O Culto aos Gmeos

A idia de que Jesus teve um irmo gmeo foi uma das mais persistentes e tenazes "heresias" antigas. Alis, jamais desapareceu por completo, apesar das repetidas 
tentativas feitas para extirp-la. Durante o Renascimento, por exemplo, ela veio  tona vrias vezes, ainda que de forma um tanto confusa.  notria em certas obras 
de Leonardo da Vinci, especialmente a ltima ceia.9 O tema' reaparece em pintores posteriores, entre os quais Poussin. Ocupa tambm lugar de relevo nos nossos dias, 
na obra de Michel Tournier, uma das vozes mais respeitadas da cultura francesa contempornea e provavelmente o mais importante romancista que a Frana produziu depois 
de Proust. Finalmente, na decorao encomendada por Brenger Sauniere para a igreja de Rennes-le-Chteau, Maria e Jos aparecem, um de cada lado do altar, ambos 
segurando o Menino Jesus.
Para a maioria dos cristos da atualidade,  claro, e at para a maioria dos agnsticos da atualidade, a idia de que Jesus tinha um irmo gmeo parecer, na melhor 
das hipteses, forada; na pior, blasfema. Mas  importante,  realmente vital, ter em mente um fato decisivo. Os textos em que Judas Tom aparece como gmeo de 
Jesus foram, em certa poca, amplamente usados por congregaes crists no s no Egito e na Sria mas tambm, como veremos, em lugares to distantes quanto a Espanha 
e, ao que tudo indica, a Irlanda. Eles eram aceitos como livros das Escrituras, to legtimos quanto os Evangelhos cannicos do Novo Testamento ou os Atos dos Apstolos. 
Isso s pode significa. que, nessa poca, a idia de um gmeo parecia perfeitamente aceitvel por cristos devotos. Em suma, houve homens e mulheres piedosos que 
no apenas no viam nesse fato uma blasfmia como o tomavam como parte integrante de sua crena - to integrante quanto, digamos, o papel de Pedro na Igreja de Roma.
A esta altura, vale a pena fazer uma breve digresso por um territrio puramente especulativo - territrio que no fornecer nenhuma prova, num sentido ou noutro, 
mas que permite pelo menos uma considerao superficial. No mundo antigo, os processos da procriao humana no eram compreendidos  nossa maneira atual. Em muitos 
aspectos, a compreenso que os antigos tinham deles era menor que a nossa.  duvidoso, por exemplo, que os fatores biolgicos envolvidos no nascimento de gmeos 
fossem inteiramente ou mesmo corretamente apreciados. Por esta simples e bvia razo, o nascimento de gmeos, especialmente de gmeos idnticos, devia parecer aos 
antigos algo de miraculoso - um fenmeno que atestaria uma interveno divina. O tema dos irmos gmeos , entre todos os motivos culturais/religiosos, dos mais 
antigos e dos que mais encontram eco. Desde os primrdios da histria registrada, o mundo mediterrneo, em particular, criara o culto a Dioscuros, os gmeos divinos. 
Sob os nomes de Castor e Plux, esses gmeos desempenharam papel de extrema importncia na elaborao e evoluo do pensamento mtico grego. Rmulo e Remo foram 
venerados como o par que propiciou a fundao de Roma. Por sua prpria natureza, o nascimento de gmeos era visto como um evento com dimenso mtica, que ligava 
o homem a algumas das suas mais antigas e vigorosas concepes mticas e finalmente aos seus deuses. Embora esses gmeos, como vimos, fossem freqentem ente arquiinimigos, 
isso no era fatal. Muitas vezes se completavam pacificamente um ao outro para formar uma s unidade.
Assim, por exemplo, dessa, hoje Urfa, na Turquia, h muito tempo era um centro do culto aos gmeos, adorando o par sob os nomes de Momim e Aziz. Esse par foi suplantado 
por Jesus e Judas Tom, e dessa tornou-se um centro do novo culto dos messias gmeos. Foi em dessa, segundo se acredita, que os Atos de Tom foram escritos. Foi 
tambm ali que a igreja mais antiga de que se tem notcia foi erguida, para ser depois destruda em 201 d.C. E h indcios convincentes de que Judas Tom visitou 
a cidade em pessoa, levando seus ensinamentos diretamente a Abgar, o rei ento no poder.        .
Os judeus do tempo de Jesus esperavam ansiosamente pelo advento do messias - e, no caso de muitos deles, pelo advento de dois messias. Como o messiado era considerado 
de natureza dinstica, algo que dependia em parte de uma linhagem, a ateno das pessoas, como observamos antes, devia estar focalizada numa rede relativamente pequena 
de famlias interligadas que podiam se proclamar descendentes tanto de Davi quanto de Aaro. Se um par de gmeos nascesse numa dessas famlias, no teria isso parecido 
muito significativo - um sinal divino, um pressgio, uma confirmao das expectativas? Um messias real e um messias sacerdotal, ambos nascidos simultaneamente na 
mesma famlia - no teria isso parecido um eloqente testemunho da
benevolncia de Deus?
        
Os Descendentes da Famlia de Jesus

Em O santo graal e a linhagem sagrada, falamos detidamente sobre a probabilidade de uma descendncia direta de Jesus. Poderia tambm ter havido uma descendncia 
da famlia de Jesus? Fontes confiveis admitem que de fato houve. Assim, por exemplo, o historiador Jlio Africano, que viveu entre 160 e 240 d. C. e manteve estreitas 
relaes com a casa real de dessa, escreve:

Herodes, que no tinha uma gota de sangue israelita em suas veias e era atormentado pela conscincia de sua baixa origem, queimou os registros das famlias deles... 
Algumas pessoas cuidadosas tinham seus prprios registros privados, tendo recordado os nomes ou conseguido recuper-los a partir de cpias, e se orgulhavam de preservar 
a memria da sua origem aristocrtica. Entre elas est a gente (...) conhecida como Desposyni [i.e., o Povo do Mestre] por causa de seu parentesco com a famlia 
do salvador.

Dois eventos muito diversos, separados por setenta anos, parecem ter sido confundidos ou condensados nesta passagem. Por um lado, havia provavelmente a prpria genealogia 
aristocrtica e real de Jesus, que, como j discutimos, Herodes, sendo um usurpador, considerava uma ameaa  sua legitimidade. Entre outras coisas, isso teria gerado 
a tradio do massacre dos inocentes perpetrado por Herodes. Por outro lado, afirma-se que a queima de registros genealgicos a que Jlio Africano se refere foi 
cometida no por Herodes, mas pelos romanos, aps a revolta de 66 d.C. Mais ou menos como Herodes, eles deviam se sentir ameaados pela sobrevivncia de uma linhagem 
real legtima, em torno da qual os judeus rebeldes poderiam se unir.
Segundo ele mesmo declara, Paulo fora casado e, na poca de sua converso, era vivo. O certo  que no havia nenhuma proibio ao casamento e  paternidade, nem 
no crculo mais prximo de Jesus nem na chamada "Igreja primitiva". Segundo Clemente de Alexandria, o discpulo Filipe e Simo Pedro casaram-se e geraram filhos. 
Por fim, na Epstola as Corntios, Paulo parece indicar claramente que os prprios irmos de Jesus eram casados: "No temos todo direito a comer e a beber? E direito 
a ter uma mulher crist ao nosso lado, como todos os demais apstolos e os irmos do Senhor...?"
Embora no haja meno especfica a um descendente de Tiago, ele  repetidamente qualificado de fervoroso seguidor da lei, e um dos ditames da lei era casar, frutificar 
e multiplicar. Embora no haja referncia a filhos de Tiago nos documentos que se preservaram,  certamente razovel supor que ele os teve. No caso de Judas - ou 
Judas Tom - , h a confirmao de uma linhagem. Como notamos antes, a hierarquia nazarena foi comandada no incio do sculo II por dois irmos, Tiago e Judas, que 
so identificados especificamente como netos do irmo de Jesus. Segundo Eusbio, que por sua vez cita uma autoridade ainda mais antiga:

(...) ainda sobreviviam, da famlia do Senhor, os netos de Judas, que era tido na conta de Seu irmo, humanamente falando. Estes foram delatados como sendo da linhagem 
de Davi e levados (...) perante Domiciano Csar... Domiciano perguntou-lhes se eram descendentes de Davi e eles o admitiram. . . 

Eusbio conta que os Desposyni - os descendentes da famlia de Jesus e possivelmente do prprio Jesus - sobreviveram e vieram a se tornar chefes de vrias igrejas 
crists, nos termos, ao que parece, de uma sucesso dinstica rigorosa. Eusbio segue suas pegadas at o tempo do imperador Trajano, 98-117 d.C. Um especialista 
catlico atual narra uma histria que os traz at o sculo IV - o tempo de Constantino. Em 318 d.C., o ento bispo de Roma (hoje conhecido como papa Silvestre) teria 
encontrado pessoalmente oito lderes Desposyni - cada um dos quais na chefia de uma ramificao da Igreja no palcio de Latro. Conta-se que teriam pedido: (1) que 
fosse revogada a confirmao dos bispos cristos de Jerusalm, Antioquia, feso e Alexandria; (2) que esses bispados fossem conferidos aos Desposyni; e (3) que as 
igrejas crists "voltassem" a enviar dinheiro para a Igreja Desposyni em Jerusalm, que deveria ser considerada a Igreja-Me definitiva.
Como no  de espantar, o bispo de Roma se negou a atender esses pedidos, afirmando que a Igreja-Me era agora Roma e que Roma tinha autoridade para designar seus 
prprios bispos. Consta que este foi o ltimo contato entre os nazarenos judaico-cristos e a ortodoxia que se consolidava com base no pensamento paulino. Dali em 
diante, segundo a crena geral, a tradio nazarena teria desaparecido. A verdade, porm,  bem outra.

8
A SOBREVIVNCIA DO ENSINAMENTO NAZARENO

Depois da revolta de 66 d.C. e da queda de Massada, oito anos depois, o movimento messinico de orientao poltica encarnado por Jesus, seus irmos e seguidores 
imediatos foi seriamente desarticulado. Mas, embora tivesse realmente perdido seu mpeto, ainda conseguia congregar adeptos em nmero suficiente para gerar distrbios 
importantes na Terra Santa. Assim, entre 132 e 135 d.C., a Palestina novamente se sublevou. O lder dessa insurreio foi um homem chamado Simeo bar Kokhba. H 
indcios de que era descendente de Judas da Galilia, lder dos zelotes um sculo e um quarto antes, e dos zelotes que haviam comandado a tomada de Massada e a resistncia 
ao cerco que se seguiu. O dr. Robert Eisenman, que j citamos antes, acredita na existncia de um parentesco prximo entre a famlia de Simeo e os descendentes 
de Jesus - se  que no eram de fato uma s famlia. Mais uma vez o principio da sucesso dinstica  digno de nota.
Quando deu incio  sua rebelio, Simeo procurou apoio junto aos agora bem-estabelecidos "cristos" paulinos. Isso nada tem de surpreendente. Como j sugerimos, 
Tiago, o irmo de Jesus, e os outros membros da hierarquia nazarena em Jerusalm pareciam ver sua evangelizao como uma forma de recrutamento - um instrumento para 
a criao de um exrcito da nao de Israel. Era perfeitamente natural que Simeo bar Kokhba esperasse que os adeptos de um messias anterior - o legtimo rei empenhado 
em libertar seu pas do jugo romano - o ajudassem nessa empreitada. Mas os "cristos" paulinos, a essa altura, j tinham desenvolvido sua prpria doutrina, em torno 
de um messias no poltico, inteiramente espiritual. Irado com o que lhe deve ter parecido uma monstruosa traio, ou uma demonstrao de desprezvel covardia, Simeo 
se voltou contra eles e os perseguiu como traidores.

A revolta de Simeo, como aquela que a precedera 66 anos antes, foi implacavelmente esmagada, mas no antes que a Terra Santa fosse mais uma vez devastada. Mais 
uma vez no sobrou pedra sobre pedra em Jerusalm. Quando ela foi reconstruda, os judeus foram proibidos de l voltar ou de estabelecer residncia em seus limites. 
Os sobreviventes do exrcito de Simeo fugiram, alguns para o norte, rumo  Sria e  Mesopotmia, outros para o sul, rumo ao Egito. E seria nesses locais que a 
tradio nazarena iria continuar.
No incio da revolta de Simeo, os adeptos da antiga hierarquia nazarena devem ter se visto sob crescente presso em trs frentes. Aos olhos de Roma eles eram,  
claro, bandidos rebeldes, a ser perseguidos, intimidados e implacavelmente eliminados. Por essa poca, tinham comeado a despertar animosidade tambm entre judeus. 
Embora a velha corporao sacerdotal saducia do tempo de Jesus e de Herodes tivesse desaparecido, uma nova forma de judasmo, orientada para o ensinamento rabnico, 
comeava a tomar corpo. Esse judasmo rabnico, o precursor do judasmo na sua forma moderna, havia, em sua desiluso, repudiado o movimento messinico, repudiado 
os projetos polticos ambiciosos e - para assegurar a prpria sobrevivncia - entrincheirara-se atrs do cultivo do saber, da erudio e da observncia do ritual. 
Para o judasmo rabnico, a atividade militante representava mais que mero inconveniente. Era tambm uma ameaa, que podia "virar o barco" e provocar a ira romana 
e outra desastrosa retaliao. Os "cristos" paulinos adotavam atitude semelhante. Tambm eles estavam empenhados na prpria sobrevivncia e, para assegur-la, em 
apaziguar Roma. Tambm eles julgavam que a atividade poltica e militar tinha de ser escrupulosamente evitada. Alm disso, tinham agora suas prprias doutrinas sobre 
quem fora Jesus e o significado do termo "messias". No estavam dispostos a ver essas doutrinas abaladas, nem sequer por descendentes de Jesus ou de sua famlia.
O resultado  que os seguidores da antiga hierarquia nazarena de Jesus e seus irmos - se viram espremidos entre diversas faces e cada vez mais relegados pela 
histria ocidental registrada. Tratou-se, de fato, de uma espcie de "exlio da histria". Embora tivessem anteriormente representado o verdadeiro repositrio do 
judasmo, e embora fornecessem ao cristianismo o verdadeiro foco de seu culto, eram agora repudiados tanto por judeus quanto por cristos. Sua prpria definio 
do messias lhes fora roubada e distorcida, tomando-se alguma coisa radicalmente diferente. Esta  talvez uma das mais cruis ironias na evoluo e no desenvolvimento 
de qualquer das grandes religies.

No sculo II, o pensamento nazareno j era rotulado como uma forma de heresia. Na verdade,  assim que muitos "cristos" o veriam hoje. Mas:l prpria palavra "heresia" 
 com freqncia mal empregada e deve ser restaurada na sua perspectiva correta. Entre os fiis de hoje, existe a crena geral de que existiu certa vez uma forma 
"pura" de cristianismo, pregada por Paulo, da qual ocorreram posteriormente vrios "desvios" - isto , "heresias". De fato, nada poderia estar mais longe da verdade. 
Se heresias h, a primeira verdadeira "heresia" foi a de Paulo. A pregao de Paulo e o pensamento paulino constituram o "desvio", ao passo que a tradio nazarena 
- que Paulo desafiou e o pensamento paulino suplantou - foi a coisa mais prxima de um cristianismo "puro" que jamais existiu. Mas o pensamento paulino, desde que 
consolidou sua prpria posio, tornou-se automaticamente a "ortodoxia estabelecida" e a partir desse momento tudo que colidia com ele passou a ser considerado, 
por definio, uma "heresia". O absurdo de aplicar esse rtulo ao pensamento nazareno - absurdo comparvel a chamar Marx de "marxista hertico" ou Freud de "freudiano 
hertico" - foi convenientemente negligenciado.
Embora repudiados, condenados e perseguidos, os ensinamentos nazarenos continuaram vivos, por muito mais tempo do que em geral se supe. Durante os sculos seguintes, 
esses ensinamentos voltaram  tona sob uma desnorteante variedade de nomes. Autores mais antigos freqentemente empregavam o termo ebionitas. Vrios estudiosos atuais 
os chamam de zadoquitas, nome que periodicamente aparece nos prprios ensinamentos. Outros pesquisadores usam a designao
judaico-cristos, que na verdade  equvoca, enganosa e contraditria. Com base no papel evangelizador de Judas Tom, o dr. Herman Koester fala de uma tradio tomasina, 
em contraste com a tradio paulina do que hoje chamamos de cristianismo. Houve tambm,  claro, acrscimos, desenvolvimentos e modificaes, bem como amlgamas 
posteriores com outras doutrinas, e tudo isso gerou uma pletora de nomes: gnsticos, maniqueus, sabetas, mandeanos, nestorianos, elcesatas. Para os nossos objetivos, 
e para efeito de maior simplicidade, ser mais fcil conservar o termo "nazareno". No entanto, em vez de implicar como antes um corpo especfico de indivduos, ele 
passar a denotar um modo de pensar e uma orientao em face de Jesus e de seus ensinamentos derivada, em ltima anlise, da posio nazarena original, tal como 
articulada pelo prprio Jesus e depois propagada por Tiago, Judas ou Judas Tom e seu crculo imediato. Essa orientao pode ser caracterizada por certas atitudes 
bsicas, entre as quais se destacam: (1) a fidelidade permanente e estrita aos preceitos da lei judaica; (2) o reconhecimento de Jesus como messias no sentido judaico 
original da palavra; (3) o repdio  Imaculada Conceio de Maria e a insistncia em que Jesus teria sido gerado por processos naturais, sem nenhuma interveno 
divina; e (4) a hostilidade combativa a Paulo e  estrutura do pensamento paulino. Ali onde estas atitudes aparecem juntas, podemos discernir vestgios da posio 
nazarena original - a posio do prprio Jesus, de Tiago, Judas e a hierarquia de Jerusalm.
Assim Justino, o Mrtir, escrevendo por volta de 150 d.C., fala daqueles que vem Jesus como tendo sido o messias mas, ao mesmo tempo, tambm um homem. Eles seguem 
a lei judaica em matrias como a circunciso, a observncia do sab e as restries alimentares. E so evitados pelos cristos gentios, isto , paulinos.
Cerca de meio sculo mais tarde, Irineu, bispo de Lyon, desfechou seu violento e dogmtico ataque s heresias reinantes na poca: Adversus haereses. Irineu era o 
porta-voz da ortodoxia que se consolidava, e sua rotulao das heresias, bem como sua seleo de obras cannicas, deixariam uma marca indelvel na Igreja de Roma. 
Em seu opus, Irineu fulmina um grupo que chama de os "ebionitas" - termo que os escritores dos textos de Qumran usaram para se qualificar a si mesmos e que pode 
ser traduzido simplesmente por "os pobres". Segundo Irineu, os ebionitas insistiam em que Jesus fora homem, no Deus, e que no nascera de uma virgem. Sustentavam 
que ele s se tornara o messias por ocasio do seu batismo - isto , a sua uno ou coroao. Usavam apenas o Evangelho de Mateus e, como o prprio Jesus, e tambm 
como os essnios ou zadoquitas de dois sculos antes, faziam interpretaes a partir dos livros profticos do Antigo Testamento. Cumpriam escrupulosamente a lei 
judaica. Rejeitavam as epstolas paulinas e "o apstolo Paulo, a quem chamam de apstata da Lei".
Um sculo mais tarde, no tempo de Constantino, o ensinamento nazareno ainda florescia e era disseminado. Como j observamos, conta-se que o bispo de Roma teve, em 
318 d.C., um encontro com lderes nazarenos ou Desposyni, descendentes diretos da famlia de Jesus. Ao mesmo tempo, o historiador cristo Eusbio acusava os nazarenos 
(a quem, como Irineu, chamava de ebionitas) de hereges. Segundo Eusbio, eles sustentavam que"... as epstolas do Apstolo [Paulo] deviam ser inteiramente rejeitadas, 
chamando-o de desertor da lei; e usando apenas o 'Evangelho dos hebreus', tratavam o resto com desrespeito". 
Passados mais cem anos, no final do sculo IV ou incio do sculo V, outro escritor da Igreja, Epifnio, lanou novo ataque ao que chamava de heresias. Usa os termos 
"ebionita" e "nazareno" como equivalentes. Como Irineu, Epifnio condena os ebionitas ou nazarenos por negarem a Imaculada Conceio, ensinarem que Jesus era um 
homem nascido de homens, declararem que ele s se tornara messias em virtude do seu batismo e usarem verses alternativas do Ato dos Apstolos. Eles "no se envergonham", 
escreve Epifnio com indignao, de denunciar Paulo, que acreditam ser pseudapostolorum - um "falso apstolo". 
Num texto nazareno, Paulo  chamado "o inimigo". O texto afirma insistentemente que o legtimo herdeiro de Jesus era seu irmo Tiago, e faz um enorme esforo para 
demonstrar que Simo Pedro nunca se "desviara" de fato para o pensamento paulino. Atribui-se a a Simo Pedro uma advertncia contra qualquer autoridade fora da 
hierarquia nazarena: "Portanto mantenhais a maior cautela e no acrediteis em nenhum mestre, a menos que ele traga de Jerusalm a recomendao de Tiago, o irmo 
do Senhor..."
Na dcada de 1960, o professor Schlomo Pines, um medievalista, encontrou, numa coleo de manuscritos rabes datados do sculo X e conservados numa biblioteca de 
Istambul, vrias citaes literais, longas e detalhadas, de um texto anterior, do sculo V ou VI, que o escritor rabe atribui a "al-nasara" - os nazarenos. Acredita-se 
que o texto anterior fora escrito originalmente em siraco e encontrado num mosteiro cristo no Cusisto, no sudoeste do Ir, perto da fronteira com o Iraque. Ele 
parece refletir uma tradio que remontaria, sem nenhuma ruptura,  hierarquia nazarena original fugida de Jerusalm imediatamente antes da revolta de 66 d.C. Mais 
uma vez, afirma-se que Jesus  homem e rejeita-se qualquer sugesto de sua divindade. A importncia da lei judaica  de novo enfatizada. Paulo  criticado e seus 
seguidores acusados de "ter abandonado a religio de Cristo e abraado as doutrinas religiosas dos romanos". Os Evangelhos so repudiados como relatos de segunda 
mo pouco confiveis, que contm apenas "muito pouco dos ditos e preceitos de Cristo e de informaes a seu respeito". Mas isso no  tudo. O documento rabe do 
sculo X chega a afirmar que a seita que produziu o texto nazareno ainda existia, sendo considerada uma elite entre os cristos. 
Um dos principais repositrios da tradio nazarena foi a "heresia" hoje conhecida como cristianismo nestoriano. Ela tomou esse nome de Nestrio, que em 428 foi 
designado patriarca de Constantinopla. Como mais recentemente o bispo de Durham, Nestrio no perdeu tempo em explicitar sua posio. No mesmo ano em que assumiu 
seu posto, declarou sem rodeios: "Ningum deve chamar Maria de me de Deus. Pois Maria foi apenas humana. " Como seria de esperar, isso provocou um escndalo imediato. 
Trs anos depois, Nestrio foi condenado e excomungado. A carta que lhe comunicava a sentena pronunciada contra ele trazia o seguinte cabealho: "Do Santo Snodo 
para Nestrio, o novo judeu".
Em 435, Nestrio foi para o deserto egpcio, exilado, mas sua influncia no diminuiu. A Igreja persa adotou uma orientao nestoriana. E quando, em 451, Nestrio 
foi oficialmente declarado herege, a Igreja egpcia, embora no concordando com ele, se recusou a aceitar o decreto. Separou-se tambm da ortodoxia romana e acabou 
por se amalgamar com a Igreja copta. Enquanto isso, o pensamento de Nestrio no s sobrevivia em outro lugar, como mostrava espantoso vigor. O sculo XX ainda o 
encontrou ativo, mantendo uma escola teolgica em Nisibis, no norte da Mesopotmia. Mais recentemente, o patriarca oficial e muitos dos seus adeptos emigraram para 
San Francisco, na Califrnia, onde a Igreja nestoriana existe hoje.
Mas a Igreja nestoriana no foi o nico veculo que permitiu ao pensamento nazareno sobreviver at uma poca posterior; houve tambm outros. Nas fontes do Prieur 
de Sion, encontramos sugestes de que alguns de seus membros mais antigos, e de sua ramificao, a Ordem dos Templrios, tinham estabelecido contato com certas seitas 
essnias/zadoquitas/nazarenas que ainda existiam no tempo das Cruzadas, mais de mil anos depois da poca de Jesus. Como essas sugestes, embora plausveis, no eram 
corroboradas por nenhuma prova slida, inicialmente relutamos em lhes dar crdito. Parecia ser impossvel chegar a confirm-las definitivamente.
Pouco depois da publicao de O santo araal e a linhaaem saarada, no entanto, recebemos uma carta do dr. Hugh Schonfield, autor de The Passo ver Plot e de vrios 
outros trabalhos importantes sobre as origens do cristianismo. Numa srie de encontros que em seguida tivemos com ele, o dr. Schonfield nos relatou algo realmente 
surpreendente. Algum tempo antes, ele havia descoberto um sistema de criptografia - ao qual chamava "cdigo Atbash" - que fora usado para disfarar certos nomes 
em textos essnios/zadoquitas/nazarenos. Esse sistema de codificao figurava, por exemplo, em alguns dos manuscritos encontrados em Qumran.
Em O santo graal e a linhagem sagrada, o dr. Schonfield explica com detalhes precisos como o cdigo Atbash era utilizado. Em seu livro mais recente, The Essene Odyssey, 
ele descreve como, aps ler nosso livro em 1982, ficou intrigado com o princpio misterioso que era supostamente cultuado pelos Templrios sob o nome de "Baphomet". 
Aplicando os princpios criptogrficos a "Baphomet", o dr. Schonfiel conseguiu facilmente decodificar a palavra enigmtica como "sophia" - o termo grego para "sabedoria". 
Isso dificilmente podia ser atribudo a uma mera coincidncia. Ao contrrio, provava de maneira indubitvel que os Templrios conheciam o cdigo Atbash e o empregavam 
em seus prprios ritos obscuros e heterodoxos. Mas como teriam podido os Templrios, em ao no incio do sculo XII, ter adquirido tal familiaridade com um sistema 
criptogrfico que datava de mil anos antes e cujos usurios tinham aparentemente desaparecido havia muito do palco da histria? S h uma explicao realmente plausvel. 
Parece bvio que pelo menos alguns desses usurios no haviam desaparecido em absoluto e ainda existiam no tempo das Cruzadas. E parece igualmente bvio que os Templrios 
tinham estabelecido contato com eles. A partir do uso do cdigo Atbash pelos Templrios, torna-se provvel que alguma forma de seita nazarena ou neonazarena tenha 
sobrevivido no Oriente Mdio at o sculo XII, o que teria permitido que seus ensinamentos chegassem ao Ocidente.

Os Nazarenos do Egito

At agora, seguimos as pegadas da migrao e da sobrevivncia do pensamento nazareno na direo nordeste, da Terra Santa at a Sria, a sia Menor, a Turquia, partes 
do sul da Rssia e do subcontinente indiano - regies que tanto a tradio como o dr. Koester acreditam terem sido evangelizadas por Judas Tom, o irmo gmeo de 
Jesus. Mas essas regies - em sua maior parte isoladas da corrente central das idias ocidentais - no foram o nico refgio do pensamento nazareno. Este foi transmitido 
tambm na direo sudoeste, at o Egito e ao longo da frica do Norte, onde entrou em contato muito mais direto com a ortodoxia romana em consolidao - e, apesar 
das tentativas feitas por Roma para sufoc-lo, exerceu uma influncia mais clara na evoluo do cristianismo na Europa ocidental.
Desde os tempos do Antigo Testamento tinha havido um constante comrcio, tanto de mercadorias como de idias, entre a Palestina e o Egito. Na poca de Jesus, Alexandria 
era a cidade mais ecltica, ecumnica e tolerante de todo o Imprio Romano - a mais importante encruzilhada das rotas comerciais mediterrneas e, como tal, uma espcie 
de carteira de compensao central no somente de bens mas tambm de modos de pensar. Mistrios originrios do antigo Egito coabitavam cordialmente com mistrios 
gregos, com a filosofia helenstica, com ensinamentos religiosos oriundos da Palestina e da Sria, com miscelneas de tradio zorostrica e mitrasta, e com seitas 
e cultos de todos os quadrantes do Mediterrneo, e at com derivaes do hindusmo e do budismo, importadas da longnqua ndia. A grande biblioteca de Alexandria, 
a mais afamada e completa do mundo conhecido, por si s fazia da cidade um centro de estudos.
No surpreende que Alexandria constitusse um porto natural para judeus vindos da Terra Santa - seja por razes comerciais, nos perodos de estabilidade, seja como 
um refgio, em tempos de perturbao e guerra. Na verdade, estima-se que nada menos que um tero da populao de Alexandria no sculo I era judaica. Segundo os Evangelhos, 
Jesus e sua famlia, ao fugirem da perseguio de Herodes, procuraram segurana no Egito, onde certamente no lhes deve ter faltado o apoio solidrio de companheiros 
de crena. De fato, Flon fala de uma seita ou enclave judaico -  qual d o nome de Therapeutae cujas atitudes e prticas so idnticas s dos essnios ou zadoquitas 
na Terra Santa, ou seja, idnticas s dos seguidores subseqentes de Jesus. Relata-se ainda que, aps as duas grandes revoltas ocorridas na Palestina- a de 66-74 
e a de 132-135 -, nmeros considerveis de militantes judeus derrotados fugiram para Alexandria.
Se Judas Tom no viajou pessoalmente at o Egito, o ensinamento nazareno, tal como ele o propagava na Sria, sem dvida chegou at l. Foi no Egito que o Evangelho 
de Tom foi encontrado pela primeira vez - juntamente com o tesouro de outros documentos gnstico-tomasinos ou nazarenos, no corpus dos manuscritos de Nag Hammadi. 
O pensamento nazareno deixou uma marca indelvel no desenvolvimento do cristianismo egpcio. Mesmo um doutor da Igreja to rspeitado como Clemente de Alexandria 
estava de fato, sob muitos aspectos, mais prximo da doutrina nazarena do que da ortodoxia paulina de Roma. As chamadas "heresias" que, na Sria e em terras mais 
a nordeste, serviram de repositrios para o pensamento nazareno, tambm existiram no Egito. Outras "heresias - a de rio, que via Jesus como homem, no como Deus, 
por exemplo - surgiram l mesmo e tambm refletiam a influncia nazarena.
No sculo V, a ortodoxia paulina de Roma ainda lutava para impor sua hegemonia no Egito. A grande biblioteca de Alexandria foi incendiada por "cristos" em 411 d. 
C. Hipcia, mulher que foi o ltimo grande expoente da filosofia neoplatnica, foi lapidada quando voltava de uma conferncia na biblioteca - novamente por "cristos" 
- em 415 d.C. Nada disso, porm, eliminou o carter heterodoxo do cristianismo egpcio. Em 435, como j mencionamos, Nestrio foi destitudo de seu cargo em Constantinopla 
e degredado no deserto egpcio. Por fim, em 451, a Igreja egpcia se recusou a aceitar a crescente autoridade de Roma.
Em ltima anlise, contudo, o efeito mais duradouro do cristianismo egpcio foi menos a mera perpetuao do pensamento nazareno do que seu desenvolvimento num sistema 
administrativo apto a salvaguardar e transmitir esse pensamento. Esse sistema foi o monasticismo. Se Roma, durante o tempo de Constantino, comeou a assumir as caractersticas 
do antigo sacerdcio saduceu do tempo de Herodes, o cristianismo egpcio fora dos centros urbanos foi-se aproximando cada vez mais do tipo de estrutura que os zadoquitas 
ou essnios adotavam no tempo de Jesus. Parece claro que o sistema monstico egpcio, com sua rede de comunidades espalhadas no deserto, era estritamente modelado 
segundo prottipos como Qumran.
A primeira comunidade no estilo Qumran foi implantada no deserto por Pacmio por volta de 320 - precisamente a poca em que a ortodoxia paulina de Roma obtinha de 
Constantino sua sano formal. O mosteiro de Pacmio logo se multiplicou. Quando ele morreu, em 346, vrios milhares de monges j se espalhavam pelo deserto egpcio, 
e os princpios que norteavam o sistema monstico comeavam a se propagar para outras regies. Talvez a figura mais clebre do monasticismo egpcio seja santo Antnio. 
 significativo que tanto Pacmio como Antnio tenham evitado a ordenao sacerdotal. O xis da questo  que o sistema monstico no era apenas uma ocorrncia espontnea. 
Representava uma forma de oposio s estruturas rigidamente hierarquizadas de Roma.
 sem dvida verdade que Alexandria teve alguns bispos paulinos. Mas, apesar da superestrutura nominalmente romana, o verdadeiro comando do cristianismo egpcio 
opunha-se  hierarquia eclesistica paulina e  administrao de Roma e encontrava sua mais autntica expresso no sistema monstico. De fato, os mosteiros passaram 
a representar um tipo de estrutura administrativa alternativa, que nada devia a Roma e com freqncia se chocava frontalmente com ela. Tornaram-se repositrios de 
uma tradio paralela, muitas vezes especificamente nazarena.
Enquanto Roma aspirava com ambio crescente a um novo ideal imperial, os mosteiros egpcios se orgulhavam de preservar um registro muito mais puro, muito mais fidedigno, 
do prprio Jesus, sua famlia e seus ensinamentos. E enquanto a Igreja de Roma se organizava num complexo tabuleiro de xadrez de dioceses ou bispados, presididos 
por bispos e arcebispos, o sistema monstico no Egito permitia um desenvolvimento muito mais solto, muito mais flexvel - bem como maior nfase no conhecimento. 
Embora o abade de um mosteiro exercesse certa autoridade administrativa sobre seu rebanho, no estava afinal de contas acima deste "espiritualmente". Ao contrrio 
do bispo ou do arcebispo, o abade no gozava de prerrogativas especiais que lhe teriam sido conferidas por Deus, nem detinha qualquer poder civil. Era eleito por 
seus confrades para uma finalidade puramente utilitria, continuando a ser, aos olhos de Deus, um humilde servo como os demais. O sistema monstico era essencialmente 
no hierrquico. E enquanto a hierarquia de Roma prescrevia os textos que deveriam compor o Novo Testamento cannico, os mosteiros do Egito incorporavam um corpo 
de ensinamentos muito mais diversificado, como atestam o Evangelho de Tom e outros textos encontrados em Nag Hammadi. 

A Heresia Espanhola de Prisciliano

A partir da Sria e do Egito, a tradio nazarena comeou a se difundir para terras ainda mais longnquas. A maior parte do comrcio mediterrneo, tanto com a Glia 
quanto com a Espanha, estava sob o controle srio. Navios zarpavam diariamente de Alexandria para a costa atlntica da Europa. No surpreende, portanto, que vestgios 
substanciais do pensamento nazareno tenham encontrado seu caminho para essa costa. Quando o cristianismo paulino ali chegou, movendo-se por terra a partir de Roma, 
j os encontrou ali, consolidados.
Provavelmente, o personagem mais importante no desenvolvimento do cristianismo espanhol primitivo foi o mestre Prisciliano de  vila, que viveu no final do sculo 
IV. De uma famlia da alta nobreza, Prisciliano permaneceu leigo, nunca recebendo a ordenao de Roma. Seu movimento, embora tenha comeado no sul da Espanha, logo 
se difundiu pelo oeste e o norte, acabando por deitar suas mais tenazes razes na Galiza, que se tomaria sua sede. Instalado ali, na costa atlntica, no noroeste 
da Espanha, o movimento parece ter recebido um influxo constante de reforo e estmulo atravs das rotas de comrcio martimo procedentes do Egito e do Mediterrneo 
oriental. Pouco a pouco, atravessou os Pireneus para se infiltrar na Glia e se tornou a forma de cristianismo dominante na Aquitnia. Ao mesmo tempo, Prisciliano 
se empenhava ativamente em incorporar elementos de fora do domnio da Igreja romana. Assim, entre 381 e 384, um dos seus principais seguidores, uma mulher chamada 
Egria, empreendeu uma viagem especial ao Oriente Mdio. Estava em busca de textos no cannicos. Visitou dessa, o centro do ensinamento tomasino. Fez uma extensa 
peregrinao pelas igrejas da Mesopotmia que adotavam sua orientao nazarena e nestoriana. A importncia deste fato no deve ser minimizada. Ele indica de que 
maneira uma forma de cristianismo completamente desviante em relao  ortodoxia paulina de Roma comeou a se implantar na Europa ocidental.
Os ensinamentos do prprio Prisciliano se caracterizavam por uma marcante influncia do pensamento nestoriano, com uma mistura de maniquesmo gnstico. Ao mesmo 
tempo, ele se inspirava fortemente num corpo de conhecimentos estritamente judaicos, entre os quais a numerologia e outras formas de cabalismo primitivo - que, como 
observamos anteriormente, estavam firmemente enraizados nas fontes essnias/zadoquitas/nazarenas. Ao que parece, Prisciliano pregava tambm a adeso a pelo menos 
certos preceitos da lei judaica. Em contraste com o cristianismo paulino, observava o sab no sbado. Negava a Trindade. Ademais, recorria a um grande nmero de 
livros de orientao especificamente nazarena, entre os quais os Atos de Tom. Como seus precursores no Egito, Sria e sia Menor, Prisciliano ensinava que Judas 
Tom era irmo gmeo de Jesus.
Em 386, Prisciliano e pelo menos cinco de seus discpulos foram os primeiros hereges a ser executados. A sentena foi cumprida em Trier, mas o corpo de Prisciliano 
foi levado de volta para a Espanha e queimado na Galiza. Ali, foi celebrado como mrtir e seu tmulo se transformou num santurio, um stio sagrado, centro de peregrinao. 
Pelo menos uma autoridade no assunto, o professor Henry Chadwick, de Oxford, afirma que o santurio de Santiago de Compostela  de fato o tmulo de Prisciliano.
Santiago de Compostela  um testemunho da fora com que a tradio nazarena se implantou na Espanha. Como vimos, a Igreja paulina de Roma considerava Tiago, o irmo 
de Jesus, uma espcie de estorvo e, sempre que possvel, procurava um meio de neg-lo, ou a seu papel. No Novo Testamento cannico, tudo que restou de Tiago foi 
o fragmento de uma carta. Afora isso, ele figura apenas brevemente, de passagem, nos Evangelhos, aparecendo nos Atos em segundo plano, como um personagem perifrico. 
No entanto, Santiago de Compostela - a igreja de So Tiago, em Compostela - tornou-se, depois da prpria Roma, o mais importante santurio e centro de peregrinao 
da cristandade na Idade Mdia. Foi de Santiago que partiu a "Reconquista" - a cruzada para reconquistar a Espanha dos mouros. Na verdade, Santiago gerou sua prpria 
ordem militar de cavalaria, a Ordem de Santigo, nos moldes das ordens dos Templrios e dos Hospitalrios.
Segundo uma tradio espanhola do sculo VII, so Tiago teria realmente visitado a Espanha e ali pregado. Rezava ainda a tradio que seu corpo, aps a sua morte, 
fora levado de Jerusalm para Santiago e ali enterrado. Ambas as afirmaes, embora questionveis, atestam a popularidade de que Tiago gozou no que  em geral considerado 
como uma esfera de influncia puramente paulina. Santiago de Compostela pode ser legitimamente considerado um monumento  permanncia do pensamento nazareno, em 
implcita oposio a Roma.
No incio do sculo IX, ossos humanos foram exumados em Santiago. Na poca, acreditava-se que eram de Tiago. Escavaes recentes, feitas entre 1946 e 1959, revelaram 
vrios tmulos dos sculos IV e V. As tumbas estavam voltadas para o leste, na direo de Jerusalm - a mesma direo em que os nazarenos se voltavam quando rezavam. 
Hoje se acredita que os tmulos so os dos primeiros cristos espanhis, construdos nas proximidades do mausolu a algum santo reconhecido. Como dissemos, pelo 
menos uma autoridade moderna sustenta que o mausolu em questo  o de Prisciliano, opinio amplamente compartilhada pela populao local. Na verdade, diz-se que 
o clebre caminho de Santiago, a estrada de peregrinao que l conduz, seria aquele pelo qual o corpo de Prisciliano foi trazido de volta de Trier, para ser queimado.
A Igreja Celta da Irlanda

Em ltima anlise, a Espanha foi um degrau na transmisso e na conservao da tradio nazarena, que continuou sua migrao rumo ao norte, bordejando o permetro 
atlntico da autoridade da Igreja romana, at que, entre meados do sculo V e meados do sculo VII, encontrou sua mais plena expresso europia na Igreja celta da 
Irlanda.
Durante os dois primeiros sculos da era crist, a Irlanda permaneceu praticamente isolada do resto da Europa. A geografia e a topografia asseguravam por si s a 
imunidade do pas contra as invases teutnicas - dos saxes, por exemplo, que iriam se alastrar pela Inglaterra, lanando Wotan e o panteo germnico contra um 
cristianismo ainda incipiente. Insulado pelo mar da Irlanda, o pas permaneceu um refgio, um porto. Durante o'apogeu (ou nadir) da chamada "Idade das Trevas", a 
Irlanda se tornou o verdadeiro centro do saber de toda a Europa. Enquanto o continente, e at a Inglaterra, eram devastados por desordens e conflitos, a Irlanda 
se manteve como o bastio do conhecimento, da cultura, da civilizao. Estudiosos afugentados por perturbaes em outros pases se congregaram l. Grandes quantidades 
de manuscritos foram para l levados, para serem salvaguardados e copiados. Com suas abrangentes bibliotecas, os mosteiros irlandeses atraam estudiosos do mundo 
todo. Embora o trabalho missionrio tivesse sem dvida seu lugar, o saber detinha uma prioridade ainda maior. Cristos convergiam para a Irlanda no para impor seu 
credo a outros, mas para mergulharem eles prprios nos ensinamentos do passado - e descobrir, no isolamento e na paz da ilha, sua prpria comunho interna com Deus, 
independentemente da hierarquia eclesistica. Clrigos de todo o mundo cristo afluam  Irlanda. O mesmo faziam membros de vrias casas nobres e reais. Em meados 
do sculo VII, Dagoberto 11, uma das figuras centrais no mistrio de Rennes-Le-Chteau, foi criado e educado no mosteiro de Slane, pouco ao norte do que  hoje Dublin.
Durante esse perodo, o contato com Roma era em geral difcil e tnue. Nunca esteve, porm, completamente interrompido, como por vezes afirmaram historiadores da 
religio do sculo XIX na tentativa de explicar o carter heterodoxo da Igreja celta. Ao contrrio, a orientao da Igreja celta era voluntria e deliberada, e no 
conseqncia do isolamento forado e da ignorncia. Mas Roma, separada da Irlanda por um continente em sublevao, tinha poucos meios para ali implementar seus decretos 
ou assegurar sua execuo. A Irlanda permaneceu livre para absorver as idias que lhe chegavam de todos os quadrantes do mundo conhecido, como as mercadorias que 
comprava. O comrcio com a Irlanda se fazia exclusivamente por mar; e o trfego martimo a ligava no s  Inglaterra e  Glia, mas tambm  Espanha e  frica 
do Norte, bem como ao Mediterrneo oriental.
No se sabe quando o cristianismo foi introduzido na Irlanda nem, alis, em qualquer das ilhas britnicas. Segundo o cronista Gildas, do sculo VI, havia "cristos" 
na Inglaterra no tempo do imperador Tibrio, que morreu em 37 d.C. Isto no pode ser verificado e a data parece um tanto precoce, mas, dado o constante trfego martimo, 
no  de todo impossvel. Seja como for, uma ou outra forma de "cristianismo" deve ter chegado s ilhas britnicas alguns anos depois da data especificada por Gildas.
O historiador da Igreja Tertuliana deixa claro que, em 200 d.C., havia um tipo de comunidade crist bem estabelecida nas ilhas britnicas - no s na Inglaterra 
romanizada, mas tambm em regies "inabordveis aos romanos".  pouco provvel que esta expresso fosse uma referncia  Esccia; quase certamente designava Gales 
e, muito possivelmente, a Irlanda. Seja como for, cerca de um sculo mais tarde, em 314, trs bispos britnicos estavam presentes no Conclio de Arles, o que comprova 
a existncia de algum tipo de congregao organizada. No Conclio de Arminium, 45 anos mais tarde, havia quatro bispos britnicos, um dos quais parece ter pago a 
prpria viagem, o que indica certo grau de prosperidade. Nessa altura, tambm, afirmava-se que alguns dos apstolos originais haviam trabalhado nas ilhas britnicas.
No incio do sculo V o cristianismo certamente j se estabelecera na Irlanda. O mesmo ocorrera com o pelagianismo, heresia que, entre outras coisas, contestava 
a doutrina do pecado original e creditava ao homem maior grau de livre arbtrio do que o reconhecido pela ortodoxia romana. Cerca de 431, Paldio tornou-se o primeiro 
bispo da Irlanda. Um ano mais tarde, sucedeu-lhe o monge nortmbrio hoje conhecido como so Patrcio. Paldio presidiu uma congregao j organizada, que provavelmente 
se espalhava pela costa sudeste da Irlanda. Acredita-se que o trabalho evanglico de Patrcio se exerceu sobretudo no norte do pas, ainda em grande parte pago. 
Curiosamente, a atividade de Patrcio parece ter sido instigada tanto por fervor religioso como por desiluso ou frustrao pessoal. Seus superiores eclesisticos 
o haviam considerado inapto para o sacerdcio.18 Teria isso refletido pouca confiana na competncia de Patrcio? Ou em seu pensamento?
H certamente indcios de que Patrcio estava "contaminado" pela heresia ariana - que insistia, entre outras coisas, em que Jesus nascera como um mortal, por meios 
mortais. Lamentavelmente, no h indicao precisa do grau de adeso de Patrcio ao pensamento ariano.  significativo, contudo, que em nenhuma passagem do que restou 
de seus escritos haja qualquer meno  Imaculada Conceio - uma omisso digna de nota por parte de um evangelista nas suas circunstncias. Ao que parece, Patrcio 
no aceitava tampouco os pronunciamentos dos doutores da Igreja ou os cnones dos conclios. Na verdade, parece que resistia a qualquer tipo de mediao, fosse dos 
anjos, dos santos ou de uma hierarquia eclesistica. Ao que tudo indica, era apenas nas escrituras que buscava orientao.
Na esteira de recentes descobertas arqueolgicas, hoje  praticamente certo que o cristianismo celta, como se desenvolveu entre o tempo de so Patrcio e o Snodo 
de Whitby, em meados do sculo VII, pouco deveu a Roma. Em sua maior parte, passou ao largo de Roma, extraindo sua inspirao e orientao bsicas do Egito, da Sria 
e do mundo mediterrneo. Em alguns casos, essa inspirao foi filtrada atravs da Espanha. Assim, por exemplo, textos priscilianistas eram usados na Irlanda a despeito 
de seu carter hertico aos olhos de Roma. E, pelo menos a partir 569, a Igreja celta teve como S o bispado de Bretoia, instalado em Santa Maria de Bretoia, perto 
de Mondoiedo, na Galiza. Trata-se daquela regio a noroeste da Espanha que mais tarde teria por capital Santiago de Compostela e que havia permanecido basicamente 
fiel aos ensinamentos priscilianistas. Mas, se parte da inspirao da Igreja celta provinha da Espanha, muito dela derivava diretamente de fontes muito mais antigas. 
Nas palavras do escritor sueco Nils Aberg: "Somos obrigados (...) a admitir uma influncia direta entre o distante mundo mediterrneo e a Irlanda. "
Sabe-se que monges irlandeses visitaram o Egito. H at dirios de viagem, contendo descries das pirmides, por exemplo, e instrues precisas sobre como chegar 
at a Terra Santa. Por outro lado, um martirolgio irlands registra que sete monges egpcios foram enterrados em Disert Ulidh, em Ulster.  possvel discernir a 
influncia egpcia nas designaes irlandesas de burgos e parquias - Desertmartin, perto de Londonderry, ou Desert Oenghus, em Limerick, por enquanto, quando na 
Irlanda no h desertos propriamente ditos. Hoje se acredita que esses nomes eram usados para designar comunidades monsticas que tinham por modelo genunos prottipos 
do deserto, no Egito.
Os indcios de contato irlands com o Egito so abundantes demais para permitir uma anlise detalhada. Alguns exemplos sero suficientes para ilustrar a tese. Assim, 
parte do texto irlands conhecido como o "Salthair na Rann"  uma cpia feita no sculo XI ou XII do "Livro de Ado e Eva", escrito no Egito no sculo Vedo qual 
no se encontraram traos em nenhum outro pas europeu.24 Motivos e decoraes inconfundivelmente egpcios foram encontrados em livros e manuscritos irlandeses. 
A liturgia celta continha elementos egpcios claramente discernveis. Episdios narrados num "Livro dos Santos" irlands derivam diretamente de uma fonte alexandrina. 
Missas e preces de textos apcrifos usados no Egito tambm o eram na Irlanda. A Igreja celta celebrava os dias consagrados  Virgem nas mesmas datas que a Igreja 
egpcia, e no naquelas determinadas por Roma. Clices de vidro idnticos aos usados no Egito foram encontrados no condado de Waterford. O "sino de so Patrcio", 
do sculo V,  uma clara imitao de sinos usados no Egito. H muitos outros exemplos deste tipo, que treze sculos de ortodoxia paulina romanizada no conseguiram 
erradicar. 
Se o cristianismo celta deveu muito ao Egito, inspirou-se tambm intensamente nas tradies mais explicitamente herticas da Sria, sia Menor e Mesopotmia. J 
mostramos que o pensamento nestoriano foi uma espcie de repositrio de certas tradies nazarenas. J em 430 - a poca de so Patrcio - um livro que explicava 
o pensamento de Nestrio estava circulando no Ocidente. O prprio Nestrio tinha estudado na escola teolgica de Antioquia, onde seu mentor fora um homem conhecido 
como Teodoro de Mopsuestia. Em 553, no Quinto Conclio Ecumnico, Teodoro e suas obras foram oficialmente anatematizados e declarados herticos. Em conseqncia, 
a maior parte de seus ensinamentos h muito desapareceu. No entanto, muito do que sabemos atualmente a seu respeito vem da Irlanda. Um de seus mais impoi1:antes 
comentrios das Escrituras s chegou at ns atravs de um velho manuscrito irlands.26 Textos adicionais de Teodoro foram encontrados em outros manuscritos, datados 
dos sculos VIII e IX e, num caso, do final do sculo X - mais de quatrocentos anos aps sua condenao. J se sugeriu que as obras de Teodoro teriam sido traduzidas 
e levadas para a Irlanda por ningum menos que so Colombano.
 no monasticismo irlands que a influncia oriental, no romana, sobre a Igreja celta se manifesta com maior evidncia. Como a Igreja egpcia, a Igreja celta se 
organizou menos em torno da diocese do que em torno da abadia ou do mosteiro. Era to grande o prestgio dessas instituies que os chamados "abades mitrados" gozavam 
na Irlanda de uma posio oficial excepcionalmente elevada - equivalente, na hierarquia eclesistica,  posio de um bispo. Na verdade, no era raro que abades 
irlandeses tivessem efetivamente dioceses sob sua jurisdio.
A organizao dos mosteiros irlandeses muito se assemelhava  dos mosteiros do Egito, da Sria e das demais regies do mundo mediterrneo que estavam fora da esfera 
de influncia romana. Em muitos casos, a disposio fsica e a ordenao da comunidade monstica eram idnticas. A "Regra dos Anacoretas"  essencialmente anloga 
aos regulamentos que regiam a prtica anacoreta no Egito, na Sria e na Terra Santa. E, como os monges do Oriente Mdio, parece que os monges irlandeses se casavam, 
sob os auspcios da Igreja celta.
Como dissemos, a Irlanda, entre os sculos V e VII, era um centro de conhecimento e investigao. Com a possvel exceo de Roma, no havia lugar comparvel na Europa. 
De fato, sob muitos aspectos, a Irlanda s era igualada por Bizncio. Ali, como no Oriente Mdio, o saber e a investigao eram parte integrante do sistema monstico, 
e as bibliotecas irlandesas tornaram-se repositrios de textos vindos de toda parte do mundo conhecido. No incio do sculo VII, os mosteiros irlandeses praticamente 
detinham o monoplio do ensino do grego. Muitos escritores pagos eram tambm estudados. A Igreja celta no repudiava tampouco a prpria herana cultural da Irlanda 
pr-crist. Tradies bardas, por exemplo, encontraram certa acolhida na Igreja celta e graas a isso se preservaram. O prprio so Colombano, aps se tornar monge, 
morou e estudou com um bardo em Leinster. Mais tarde, foi um defensor da causa dos bardos, quando suas escolas e ensinamentos passaram a ser combatidos.
   Portanto, em sua organizao, no uso que faziam de certos textos, em muitos dos seus aspectos exteriores, a Igreja celta se afastou da Igreja de Roma e atuou 
como um repositrio dos elementos da tradio nazarena oriunda do Egito, da Sria e da sia Menor. Mas qual era a posio doutrinria da Igreja celta? Como ela se 
situava em relao a Roma? Seria ela uma forma de heresia que Roma, por razes prprias, no ousava estigmatizar abertamente como tal? E que bases havia para a mxima 
surgida no sculo VII de que "a Igreja celta traz o amor enquanto a Igreja romana traz a lei"?
Em 664, o Snodo de Whitby dissolveu na prtica a Igreja celta e a Irlanda foi introduzida no aprisco romano. Em Whitby, a Igreja celta abriu mo de suas ltimas 
pretenses  autonomia e  independncia. Dali em diante, o cristianismo foi estabelecido na Irlanda e definido por Roma, e todos os documentos conciliatrios foram 
destrudos ou confiscados. Em conseqncia de Whitby, Roma passou a ser a nica voz a se pronunciar a respeito de qualquer diferena que tivesse existido anteriormente 
entre as duas igrejas.
Segundo essa voz oficial, essas diferenas eram mnimas e facilmente superveis. Dizia ela que houvera um desacordo quanto  cerimnia de sagrao dos bispos, uma 
vez que Roma exigia a presena de pelo menos trs outros bispos, ao passo que a Igreja celta exigia a presena de apenas um - atitude bastante plausvel, dadas a 
dificuldades das viagens na Irlanda da poca, sem falar no pequeno nmero de bispos. Dizia que houvera discordncia quanto aos ciclos dos calendrios pelos quais 
a Pscoa era fixada a cada ano. Dizia que houvera discordncia sobre o formato da tonsura clerical, Roma insistindo numa variao da tonsura que hoje conhecemos 
enquanto a Igreja celta raspava toda a seo frontal da cabea, desde as tmporas at o meio do couro cabeludo, deixando o cabelo pender atrs, longo - a imagem 
atual estereotipada do druida. Finalmente, segundo Roma, teria havido divergncia quanto a detalhes tcnicos da cerimnia do batismo. Ao que parece, a Igreja celta 
considerava suficiente uma imerso, enquanto Roma exigia trs. Roma exigia ainda que o ritual se realizasse numa igreja consagrada - coisa que, tendo a Irlanda na 
poca relativamente poucas igrejas, em geral concentradas em certas reas, nem sempre era possvel.
Por irrelevantes que paream, so estes os pontos de divergncia convencionalmente citados entre as igrejas celta e romana. No entanto, as duas eram to diferentes 
em tantos outros aspectos cruciais que no se pode evitar a suspeita de que alguma outra coisa esteve em jogo - algo que os quatro tpicos listados acima visavam 
apenas mascarar aos olhos da posteridade.
De fato, futuros comentadores se mostrariam compreensivelmente desconfiados. John McNeill, por exemplo, afirma que"... a questo entre romanos e celtas foi a nveis 
muito mais profundos do que o indica a troca de argumentos registrada".  Conclui que"... a questo decisiva foi a autonomia eclesistica celta em oposio  integrao 
no sistema eclesistico romano".  De fato, a questo decisiva era ainda muito mais profunda e de mais amplas implicaes.

O exame mais atento da Igreja celta revela um desvio em relao a Roma muito maior do que geralmente se sabe ou mesmo se admite. A Igreja celta tinha, por exemplo, 
seu prprio rito para a ordenao de sacerdotes e esse diferia acentuadamente do romano. Tinha sua prpria liturgia e sua prpria missa, que incorporam elementos 
claramente orientais, no romanos. Tinha at sua prpria traduo da Bblia uma traduo que Roma julgava inaceitvel. Em flagrante violao do credo niceno, a Igreja 
celta parece ter procurado persistentemente atenuar o dogma da Trindade, tendo chegado por vezes a contest-lo. Posteriormente, sacerdotes da Igreja celta parecem 
ter seguido so Patrcio na negao da Imaculada Conceio. Em data to avanada quanto 754, quase um sculo depois do Snodo de Whitby, fizeram-se queixas ao papa 
de que missionrios irlandeses "ignoravam os cnones da Igreja, rejeitavam os escritos dos Doutores e desprezavam a autoridade dos snodos". 
Mas isso ainda no  tudo. Para Roma, o Antigo Testamento se tornara cada vez mais secundrio e a lei mosaica suprflua; acreditavase que Jesus havia efetivamente 
revogado a lei mosaica. Na Igreja celta, o Antigo Testamento continuava a desfrutar do mesmo prestgio que o Novo. E dizia-se que Patrcio, sempre que consagrava 
uma Igreja, nela deixava uma cpia dos Evangelhos e uma da lei mosaica. Esta era ativamente propagada como um componente fundamental do cristianismo celta. A usura 
era proibida, quando no o era por Roma. Relaes sexuais com mulher menstruada eram proibidas. As mulheres eram consideradas impuras durante o parto e no perodo 
imediatamente posterior. O casamento era estritamente regido pelos ditames do Antigo Testamento.
O sab judaico era observado. O Pessach judaico era oficialmente celebrado. O abate de animais para alimentao era realizado em conformidade com os requisitos judaicos. 
E os missais e outros documentos da Igreja celta que se preservaram revelaram-se permeados de passagens de livros judaicos apcrifos e textos adicionais que tinham 
sido, havia muito, rigorosamente proibidos por Roma. Na verdade, a orientao judaica da Igreja da Irlanda era to marcada que h registro de que a Igreja celta 
foi explicitamente acusada de judasmo, e seus adeptos, de serem judeus.
Como seria de esperar, no foi preservado - ou, pelo menos, nunca pde vir  luz - nenhum documento que indique que a Igreja celta diferiu significativamente de 
Roma na sua atitude em relao a Jesus. Depois do Snodo de Whitby, todas as provas devem obviamente ter sido suprimidas ou destrudas. Mas, dado o carter judaico 
da Igreja celta,  razoavelmente seguro supor que essas suas atitudes com relao a Jesus eram, no mnimo, extremamente questionveis aos olhos de Roma. Em quase 
todos os demais aspectos, a Igreja celta parece ter sido algo mais que um mero repositrio do pensamento nazareno como era o cristianismo nestoriano, por exemplo. 
A Igreja celta parece ter sido de fato nazarena, de uma maneira mais pura, menos diluda, que qualquer outra instituio comparvel de seu tempo.

A Silenciosa Invaso Romana

Pelos padres romanos, a Igreja celta era indubitavelmente hertica.  sabido que outras formas de cristianismo, em outros lugares, foram estigmatizadas como herticas 
por desvios menores em relao  ortodoxia paulina. Por que Roma no fez logo o mesmo com a Igreja celta? Provavelmente porque no podia, se alimentava a esperana 
de estender seu domnio tambm at a Irlanda. Estigmatizar a Igreja celta como hertica teria sido o mesmo que fazer uma declarao de guerra; e se essa guerra ocorresse, 
Roma no teria qualquer perspectiva de vitria. Ela no tinha exrcito prprio. Os exrcitos seculares que a ajudavam a impor sua hegemonia no continente no estavam 
em condies de empreender uma campanha militar total contra a Irlanda. De fato, Roma no dispunha de um aparato, nem militar nem poltico, que lhe permitisse se 
impor  Irlanda pela fora. Qualquer tentativa ostensiva de conquista - pela palavra ou pela espada - teria podido ser facilmente neutralizada ou repelida. No havia 
tampouco qualquer poder poltico centralizado na prpria Irlanda - um "homem forte", por exemplo, que pudesse fazer o trabalho de Roma para ela. Era impossvel, 
portanto, fazer um pacto como o que fora selado com Clvis, na Frana.
Por fora desses fatores, qualquer tentativa de condenar a Igreja celta como hertica teria acarretado apenas a completa perda da Irlanda. Diante disso, Roma recorreu 
 diplomacia e  negociao. Em vez de ser coagida ou forada  submisso, a Igreja celta foi simplesmente cooptada. O processo no foi muito diferente daquele pelo 
qual, em nossos dias, uma grande empresa pode engolir seus pequenos concorrentes. Em conseqncia, a Irlanda foi poupada do tipo de violncia com que Roma imps 
sua soberania em outros lugares.
Por causa disso, parece no ter havido na Irlanda nenhuma perseguio de hereges em grande escala. Tampouco parece ter havido queimas indiscriminadas de livros e 
manuscritos. Ao que tudo indica, a maior parte dos textos sagrados da Igreja celta continuou em uso por algum tempo, passando depois a ser gradativa e silenciosamente 
recolhidos s bibliotecas e abadias e mosteiros irlandeses ortodoxos. As implicaes disso so potencialmente significativas.
Como observamos, a Igreja celta fazia uso de um amplo espectro de textos que escapavam  esfera de influncia romana - textos nazarenos, nestorianos, priscilianos, 
gnsticos e maniquestas, livros apcrifos tanto judaicos quanto "cristos". Num deles, o Livro de Cerne, foi encontrada uma orao cuja origem remonta a um texto 
que faz parte do corpus descoberto em Nag Hammadi. Outras obras so exclusivas da Irlanda, tendo-se preservado somente ali. Outras ainda so mencionadas, estiveram 
sabidamente em circulao, mas nunca foram vistas. Sabe-se que centenas dessas obras foram destrudas pelos viquingues durante seus ataques  costa irlandesa. Mas 
sabe-se tambm que outros foram preservados. H informaes de que alguns foram contrabandeados para fora da Irlanda durante o perodo das pilhagens viquingues, 
e transportados em segurana para mosteiros galeses.  possvel, portanto, que exista hoje, em algum arquivo, biblioteca ou mosteiro da Irlanda ou do Pas de Gales, 
um corpus de documentos de valor comparvel ao daquele encontrado em Nag Hammadi ou ao dos manuscritos do Mar Morto. 




9
FINAL DOS TEMPOS

Na infncia, somos com freqncia induzidos a acreditar que o cristianismo apareceu de sbito, como um edifcio de pensamento coerente, abrangente e plenamente desenvolvido, 
diretamente emanado de Jesus e organizado em torno dele por seus seguidores. Somos levados a imaginar que a doutrina crist foi formulada de maneira to ordenada, 
definitiva e incontestvel quanto uma lei de Newton. Na verdade, somos induzidos a pensar que o mundo - pelo menos o mundo do Oriente Mdio - teria descoberto uma 
religio inteiramente nova de uma hora para outra, num movimento nico de conscincia, de uma maneira que lembra muito a anedota segundo a qual Newton teria descoberto 
a lei da gravidade graas  queda de uma ma na sua cabea. Somos tambm levados a imaginar que Paulo disseminou a nova religio mais ou menos como a Coca-Cola 
ou a Pepsi-Cola ganhariam mercados no Terceiro Mundo: um golezinho e os nativos esto fisgados. Muita gente, quando chega a pensar um pouco no assunto, continua 
alimentando essas idias durante a vida adulta.
Certamente houve escolas de pensamento e sistemas de crena que surgiram, pelo menos at certo ponto, dessa maneira. Determinadas escolas do islamismo, por exemplo, 
se mantm hoje substancialmente tal como foram inicialmente promulgadas. Determinadas escolas de budismo tiveram origem, de maneira mais ou menos semelhante, em 
ensinamentos do Buda colhidos em primeira mo. No nosso tempo, h pessoas que cultuam e pregam Marx e/ou Lenin como se seus ensinamentos fossem imutveis, ou como 
se o mundo no tivesse mudado desde que morreram - e como se o mundo tivesse de fato se refletido com exatido em suas doutrinas.
Mas no passaria pela cabea de ningum que conhea os fatos histricos fazer esse tipo de afirmao a respeito do cristianismo. Ningum contestaria que o que hoje 
chamamos de cristianismo - em todas as suas mltiplas formas, muitas vezes irreconhecveis -  resultado de um processo prolongado, gradual, freqentemente aleatrio, 
que envolveu muito ensaio e erro, muita incerteza, muito cisma, muita contemporizao, muita improvisao, muito acrscimo a posteriori - e um bocado de contingncia 
histrica. Cada passo na consolidao do cristianismo foi co-determinado por fatores aleatrios, elementos arbitrrios, distores e modificaes ditados pelo acaso 
ou por simples convenincia social e poltica.
Alguns cristos fervorosos alegariam certamente que esse processo, apesar de tudo, reflete um plano divino - um padro projetado e moldado por mos mais poderosas 
que as do homem. De fato, os prprios caprichos, vicissitudes, iniciativas malogradas, impasses e avanos errticos do cristianismo podem ser interpretados como 
provas da existncia de tal plano. Pode-se at afirmar que somente um poder sobre-humano teria podido extrair da mixrdia humana algo prximo.
No  nossa inteno endossar nem rejeitar essas afirmaes. No nos arrogamos nenhum conhecimento dos desgnios da Providncia, ou do cosmo, ou de qualquer outro 
princpio que se possa responsabilizar pelo curso da histria humana. No obstante, mantemos uma profunda conscincia do quanto o cristianismo tem, de fato, de acidente 
histrico, da facilidade com que o acaso ou as circunstncias teriam podido alterar seu desenvolvimento, ou mesmo sufoc-lo por completo. Tivesse o rumo das coisas 
sido apenas ligeiramente diferente, talvez a humanidade tivesse vivido por dois milnios, ou mais, inspirada nos ensinamentos de Pitgoras, ou Plato, ou Hillel, 
ou Apolnio de Tiana, ou qualquer outro sbio, profeta ou mestre do mundo antigo. O equilbrio foi sempre precrio. O equivalente histrico de uma pluma poderia 
t-lo levado a favorecer qualquer um de vrios caminhos alternativos, e o que hoje chamamos de cristianismo teria podido perfeitamente se desenvolver em linhas, 
digamos, arianas, ou maniquestas, ou nestorianas, ou nas de vrias outras "heresias" assim como teria podido simplesmente no se desenvolver. O triunfo do cristianismo 
romano ocorreu to "por um triz" quanto a vitria de Waterloo, segundo a clebre frase de Wellington.
Entre todos os numerosos fatores que convergiram para assegurar a coalescncia, o desenvolvimento e a sobrevivncia do cristianismo, h um que, na nossa opinio.., 
 absolutamente crucial. Esse fator  o clima psicolgico, a ambincia ou meio de que Jesus provinha, e que lhe permitiu causar tamanho impacto durante sua via. 
Pois Jesus foi em grande parte o produto de uma poca especfica na histria de seu povo. Aludimos a essa poca antes, ainda que de passagem. Jesus e seus contemporneos 
a chamavam de o Final dos Tempos.
O messias fora profetizado, e aparecera, antes de Jesus. Como observamos, Davi foi um messias. Salomo tambm. Messias foram ainda os descendentes desses reis que 
ocuparam subseqentemente o trono de Israel, at os Macabeus. Tambm foram messias os membros da linhagem sacerdotal de Zadoc, que se consideravam descendentes de 
Aaro. A expectativa messinica do tempo de Jesus foi singular porque se associou inextricavelmente com uma espcie de histeria apocalptica.
No tempo de Jesus, a Terra Santa estava atravessando uma aguda crise de sentido. Os repositrios de f existentes estavam sendo questionados e se mostrando invlidos, 
inadequados, no confiveis. Joo Batista exortava os homens a se arrepender porque o Dia do Juzo Final estava prximo, e por todo o mundo judaico os homens estavam 
convencidos de que realmente estava. Ao mesmo tempo, estavam tomados por um sentimento de medo, tanto pelo mundo como por si mesmos, e batiam no peito por erros 
passados, angustiados pela culpa. Reinava a desiluso com os valores materiais dominantes, importados da Grcia e de Roma. Acusaes de decadncia, de imoralidade, 
de degradao, de lassido moral e depravao eram disseminadas indiscriminadamente, de mistura com os perigos da ira e da retaliao divinas. Novos profetas apareciam, 
repetindo os pronunciamentos de seus predecessores, a cujas palavras, datadas de. sculos antes, suas interpretaes emprestavam relevncia atual. Em meio a essa 
retrica assustadora, predominava um sentimento geral de derrocada - as leis, os cdigos e as escalas de valor reinantes pareciam em estado de desintegrao. As 
instituies sociais e polticas estavam em desordem. O terrorismo ganhava um mpeto cada vez mais atemorizante. E, sob a superfcie de crescente turbulncia, havia 
uma busca desesperada de sentido, que levava a um anseio renovado pelos valores espirituais. Que fazer para que Deus cumprisse Sua promessa e enviasse um messias 
para libertar Seu povo?
Tirando proveito do renovado anseio pelos valores do esprito, o fundamentalismo religioso reafirmava seus ditames intransigentes, em consonncia com poderosas foras 
sociais e polticas. A antiga lei mosaica adquiriu um novo valor - j no era apenas uma doutrina religiosa, mas tambm uma cola que mantinha o tecido social numa 
ordem coerente. Ao lado do fundamentalismo, proliferava o misticismo. Novas maneiras de entrar em contato com Deus eram desesperadamente buscadas. Seitas e cultos 
de atordoante variedade surgiam e floresciam, muitas vezes como que da noite para o dia. Esoterismosmagia, astrologia, adivinhao, outras formas de "ocultismo" 
-, exercidos em geral no mais superficial dos nveis, constituam um negcio altamente lucrativo. Milagres eram rotineiramente esperados de magos, profetas e mestres 
religiosos. A humanidade vivia  sombra cada vez mais escura de um clmax iminente, um acontecimento apocalptico. E, cada vez mais, a humanidade ansiava por um 
lder espiritual genuno, que encamasse um mandato ou sano divinos, para gui-la e assegurar a salvao.
Os mecanismos subjacentes a essa situao eram bastante simples. Aos olhos de Jesus e seus contemporneos, Deus no possua apenas os atributos da bondade, da onipotncia, 
da oniscincia e do cime. Acreditava-se que, segundo as palavras do Antigo Testamento, Ele tinha uma inclinao especial pelo povo de Israel - e o via com benevolncia 
muito especial. Os judeus eram, em suma, o povo eleito. Deus fizera um pacto nico com eles. Sua elevada posio aos olhos de Deus estava fora de dvida. No entanto, 
era cada vez mais impossvel ignorar o fato de que o povo de Israel estava numa situao deplorvel, privado de sua monarquia legal, oprimido por um usurpador tirnico. 
Os judeus tinham sido sujeitados s agruras e  humilhao impostas por um exrcito de ocupao e uma administrao estrangeira sem nenhum respeito por seu pas, 
seus valores, sua cultura, sua religio, sua herana.
Se Deus era mesmo todo-poderoso, como explicar a desgraa de Israel? Se Deus era mesmo todo-poderoso, como explicar que tivesse permitido a profanao de Seu Templo? 
Como explicar que tivesse deixado que Sua prpria autoridade fosse desafiada por um soberano secular em Roma, que arrogava a si mesmo a condio de Deus? Em ltima 
anlise, s havia duas explicaes possveis. Ou Deus afinal de contas no era onipotente - idia que teria sido no s inadmissvel como impensvel -, ou o infortnio 
de Israel estava ocorrendo, seno pela vontade ativa de Deus, pelo menos com Seu consentimento tcito. Parecia bvio na poca que, fosse qual fosse a estima de Deus 
por Seu povo, essa estima estava sendo negada ou retirada. Em suma, Israel estava sendo abandonada por seu Deus.
Por qu? Era inconcebvel que Deus pudesse ter rompido seu pacto. Se o pacto fora rompido, a culpa s podia ser do homem. As concluses lgicas eram inevitveis. 
O homem violara o pacto. O homem incorrera na insatisfao de Deus. Porisso Deus, em Sua ira, o estava punindo.
No contexto da poca, isso no era uma questo teolgica complicada. Bastava a pessoa olhar em volta para ver a situao do mundo em que vivia. Aos mestres religiosos 
restava apenas traar os paralelos bvios com profecias antigas. A situao geral coincidia com as descries que os profetas haviam feito do perodo imediatamente 
anterior ao fim do mundo. Parecia bvio, portanto, que Deus estava preparando o fim do mundo - fosse por exasperao em face de uma experincia malograda, fosse 
no intuito de criar um mundo novo e melhor para aqueles que Lhe tinham permanecido fiis.
Tais concluses traziam  tona foras emocionais avassaladoras. As pessoas estavam tomadas,  claro, de medo - tanto pelo mundo como por si prprias. O sentimento 
de culpa, por erros tanto reais quanto imaginrios, tambm grassava. Por sua vez, a culpa gerava nas pessoas um desejo de expiao, de arrependimento - na esperana 
ou de evitar um cataclismo geral, se possvel, ou de pelo menos assegurar a sua prpria salvao.
Foi desse turbulento cadinho de emoes que o movimento messinico do tempo de Jesus extraiu seu mpeto. E esse mpeto instilou no movimento um elemento que o fez 
precisamente provocar a desgraa profetizada, o que se pretendia evitar. A crena no fim iminente do mundo ajudou a provocar a revolta do ano 66 d.C. E nessa revolta, 
com a destruio do Templo, o saque de Jerusalm, a disperso da populao da cidade e o prximo extermnio do judasmo na Terra Santa, o mundo de fato acabou - 
pelo menos para os judeus da poca.
Por outro lado, fora tambm profetizada a sobrevivncia de uma elite pequena e leal. Alterando seu fundamento original e adotando a idia de um messias puramente 
espiritual, Paulo e seus adeptos puderam ver a si mesmos como essa elite. E, vendo-se como uma elite cuja sobrevivncia fora prometida por Deus, empenharam-se, ao 
longo dos sculos subseqentes, em se transformar no que imaginavam ser.

II
A BUSCA DE SENTIDO


10
A ATIVAO DO SMBOLO

Por mais diferente que o nosso mundo moderno possa ser do mundo de dois mil anos atrs,  espantoso o quanto nossa poca tem em comum com o que Jesus e seus contemporneos 
viam como o Final dos Tempos. Talvez hoje sejamos tecnologicamente mais competentes e dotados de um conhecimento consideravelmente maior. Mas, lamentavelmente, no 
parecemos em nada mais sbios, mais inteligentes ou mais prximos dos nossos deuses. Na verdade, j nem sabemos mais seus nomes.
Estamos de novo atravessando uma aguda crise de sentido, uma incerteza sobre nossa direo e nossas metas. Os vrios sistemas, ideologias e programas que, h menos 
de um sculo, pareciam to promissores se provaram todos ocos, em maior ou menor grau. Como no tempo de Jesus, h uma conscincia difusa de que algo est desastrosamente 
errado. Cada novo atentado terrorista, cada novo desastre de avio, cada nova calamidade natural produz um arrepio de pnico. As profundas e rpidas mudanas da 
nossa civilizao, a insatisfao com nossos sistemas de governo, o crescente recurso ao assassnio e ao terrorismo indiscriminado como instrumento de protesto poltico 
- tudo isso fomenta um senso geral de colapso, uma desintegrao indiscriminada de valores. A sociedade se percebe refm. Muitas vezes, pela exploso de bombas ou 
o seqestro, se toma de fato refm. "Que significa tudo isso?", perguntamos. E, desiludidos pelo fracasso do materialismo em fornec-la, procuramos a resposta, como 
no tempo de Jesus, numa outra dimenso - uma dimenso espiritual.
No islame, no judasmo e em outras religies, bem como no cristianismo, um novo fundamentalismo est florescendo. Profetas e pregadores invectivam a decadncia, 
a imoralidade, a degradao, o relaxamento moral. Por outro lado, reclama-se uma restaurao da disciplina e um retorno aos cdigos morais mais rigorosos do passado. 
Seitas, cultos, disciplinas e terapias proliferam, atraem nmeros imensos de seguidores, recolhem somas fabulosas de dinheiro e gozam do apoio de poderosos interesses 
polticos.
Como no tempo de Jesus, vivemos, de maneira muito palpvel,  sombra de um evento apocalptico iminente. Fundamentalistas militantes podem proclamar que o fim do 
mundo est prximo. Mesmo para pessoas que no tm motivo para esperar a interveno da ira divina, a ameaa de um dedo semi-senil no boto nuclear  bastante real. 
Somos todos refns indefesos de uma realidade que j no controlamos inteiramente, do espectro de uma destruio que individualmente no temos como evitar. E, sob 
a ansiedade geral, o sentimento enlouquecedor de impotncia, a desiluso com polticos ineptos ou irresponsveis, h um profundo anseio por um lder espiritual autntico, 
um personagem todo sabedoria e bondade, que ir compreender, ir assumir o controle - sem violar as liberdades democrticas estabelecidas,  claro -, exercer o papel 
de guia, conferindo novamente sentido a vidas que se tornaram cada vez mais vazias.
No h dvida de que, nos dois ltimos milnios, houve outros perodos como este na histria ocidental, para no falar da histria mundial. As caractersticas do 
Final dos Tempos podem parecer igualmente aplicveis ao sculo XI, quando a Europa ocidental entrou em efervescncia na vspera das Cruzadas, ou ao incio do sculo 
XVI, quando se acreditou que uma conjuno de constelaes celestes era prenncio de um apocalipse iminente e, embora o mundo propriamente dito tenha permanecido 
mais ou menos intacto, a hegemonia catlica na Europa cedeu lugar  Reforma protestante. Um sculo mais tarde, com a aproximao do ano 1666, produziu-se outra onda 
de histeria. Os cristos antecipavam a chegada iminente do Anticristo, o que implicava a suposio de que ele media o tempo em estrita conformidade com o calendrio 
gregoriano. Ao mesmo tempo, judeus espalhados desde a Rssia, a Ucrnia, a Prsia e o Imprio Otomano at a Holanda e costa atlntica procuraram ver o messias profetizado 
no pretenso profeta Sabbatai Zevi - o que  hoje considerado um dos maiores constrangimentos na histria judaica. Estes no so os nicos exemplos de histeria messinica 
na histria ocidental. Muita gente, de ambos os lados, conseguiu ver tanto na Revoluo Francesa quanto na Revoluo Russa um apocalipse de dimenses tanto sociais 
quanto csmicas. A radical transformao da ordem social foi interpretada, segundo a casta e a posio poltica do observador, como uma bno ou uma maldio assinada 
por Deus.

Assim, sob certos aspectos, nossa poca no  singular em seus paralelos com o Final dos Tempos do sculo I. Mas em outros aspectos . Movimentos de massa fundados 
em pretensas profecias tendem, com inquietante constncia, a provocar o cumprimento dessas mesmas profecias. Como vimos, os contemporneos de Jesus estavam convencidos 
de que o fim do mundo viria a qualquer hora. Agindo com base nessa convico, passaram inadvertidamente a provocar o fim do mundo - seno o mundo in tato, pelo menos 
do seu mundo. De maneira semelhante, a histeria apocalptica do incio do sculo XVI precipitou o fim do mundo. a mesmo fizeram os movimentos que culminaram nas 
revolues francesa e russa. O que distingue nossa cultura desses antecedentes  que possumos, de maneira absolutamente literal, o poder de ocasionar o fim do mundo 
no apenas um mundo metafrico, no um mundo confinado a uma regio ou a um grupo especfico de pessoas, mas o mundo em sua totalidade fsica. Quando um presidente 
dos Estados Unidos comea a pensar em termos de Armagedon, somos obrigados a levar o problema a srio. No, certamente, porque o presidente em questo seja dotado 
de uma penetrao que nos falte. No porque ele seja em algum grau mais bem-informado do que ns sobre os divinos planos ou desgnios da Providncia. No porque 
suas concepes religiosas idiossincrticas imponham respeito. Mas simplesmente porque estamos de forma humilhante  sua merc; e, tecnologicamente, ele tem plenas 
possibilidades de precipitar um Armagedon, lanando ao mesmo tempo a responsabilidade sobre Deus.
O Final dos Tempos, ou o apocalipse, pode atuar como um smbolo imensamente poderoso, fazendo vibrar algumas das cordas mais profundas da psique humana, suscitando 
uma reao colossal. Mas smbolos como esse, precisamente em razo do poder que lhes  inerente, tendem com freqncia a ser apropriados por pequenos grupos, deliberadamente 
manipulados e usados na explorao de outrem. Mais ainda, esses smbolos, ao longo de toda a histria, revelaram inquietante tendncia a escapar das mos dos que 
tentavam control-los e a desembestar, tornando-se o que o escritor francs Michel Tournier chama "dibolos". Segundo Tournier, um "dibolo"  um smbolo que se 
tornou autnomo, que no se sujeita a nada, um Frankenstein s soltas, dominando - seno destruindo - as prprias pessoas a quem devia servir. Smbolos podem ser 
perigosos e, como diz Tournier, quem por smbolos peca por smbolos muitas vezes ser punido.
 nesse sereno contexto que a religio messinica atual, com sua doutrina de um novo Final dos Tempos, deve ser situada. Foi a esse contexto que vinte sculos de 
expectativa messinica, por errtica ou diluda que tenha sido, conduziram. Pois a religio messinica opera basicamente por meio da ativao e da utilizao de 
smbolos. Muitos indivduos, grupos e instituies fazem o mesmo. E  tambm isso, se o entendermos corretamente, que faz aquela elusiva sociedade semisecreta que 
figurou em lugar de destaque no nosso livro O santo graal e a linhagem sagrada, o Prieur de Sion.
Evidentemente, a questo decisiva  que tipo de sentido est sendo veiculado pelo uso de certos smbolos - o que pode ser ganho, ou perdido, e por quem. Quais poderiam 
ser, por exemplo, as repercusses de existncia comprovada de uma linhagem descendente de Jesus ou de sua famlia, e como se poderia tirar proveito delas? De que 
maneira outros prindpios, dotados de grande valor simblico, foram utilizados e explorados anteriormente em nosso sculo? O assunto merece que examinemos as relaes 
que existiram, nos ltimos cem anos, aproximadamente, entre a busca de sentido, o mpeto religioso, a construo de valores e o poder poltico.

11
11
A PERDA DA F

Nem s de po vive o homem, disse Jesus, citando o Deuteronmio. Mais recentemente, psiclogos como C. G. Jung afirmaram a existncia de necessidades internas, no 
materiais, to profundas, urgentes e bsicas quanto a necessidade de alimento, de abrigo ou de procriao. Talvez se possa at sustentar que essas necessidades internas 
constituem um critrio mais vlido que a "razo" para distinguir a humanidade do reino animal. Uma das mais bsicas dessas necessidades internas  a necessidade 
de sentido, a necessidade de encontrar um propsito para nossas vidas. A dignidade humana se funda na idia de que a vida humana  de algum modo importante. A dor, 
a privao, a angstia e todo tipo de males nos parecem mais suportveis quando servem a um propsito do que quando so gratuitos. Preferimos sofrer a no ter importncia.
Tradicionalmente, de maneira justificada ou no, a tarefa de definir sentido e propsito foi desempenhada - ora com maior, ora com menor sucesso - pela religio. 
Mesmo o Estado (que na forma do nacionalismo assumiu dimenses religiosas prprias) era concebido dentro de uma estrutura essencialmente religiosa. O Estado, ainda 
que fosse secular, podia ser racionalizado como uma unidade poltica que refletia um mandato divino, ou a garantia de certos direitos concedidos por Deus, ou o cumprimento 
de certas leis que tinham sua origem primeira no terreno religioso. Mesmo a Revoluo Francesa, que pretendeu de incio abolir por completo a religio organizada, 
perpetrou seus excessos em nome dos "direitos do homem", que em ltima anlise tinham um fundamento religioso. E finalmente Robespierre, embora continuasse repudiando 
a Igreja e toda divindade convencional antropomrfica, tentou implantar seu "Culto ao Ser Supremo".
A partir do final do sculo XIX e incio do sculo XX, houve uma desnorteante proliferao de campos do conhecimento humano. Esses campos tornaram-se cada vez mais 
especializados e no cessaram de se multiplicar. Isso gerou uma atitude em relao  realidade radicalmente diferente da realidade de nossos antepassados. Os nomes 
mais freqentemente associados  nova atitude so,  claro, Marx, Darwin e Freud - embora pudssemos citar muitos outros pensadores na sociologia, na psicologia 
e nas cincias. A partir de Darwin, as cincias ganharam na mentalidade popular uma ascendncia de que jamais tinham gozado. At meados do sculo XIX, a sociologia 
no existia como disciplina e a psicologia s adquiriu essa posio ainda mais recentemente. Mas isso no  tudo - cada uma dessas disciplinas ou campos de conhecimento'continua 
a gerar novas subdisciplinas e novos subcampos. Nesse processo, a estrutura todo-abrangente outrora fornecida pela religio foi inexoravelmente corroda.
Para Isaac Newton, um sculo e meio antes de Darwin, a cincia no estava separada da religio; ao contrrio, era um aspecto dela e, em ltima anlise, sua servidora. 
Para Newton, a cincia era um meio de descobrir e revelar o desgnio perfeito de Deus. Estava integrada  filosofia, sendo dela inseparvel. Era uma entre mltiplas 
atividades que operam em concerto umas com as outras para iluminar o lugar do homem no cosmo, bem como as leis que regiam o comportamento tanto do homem quanto do 
cosmo. Newton jamais teria sonhado, e menos ainda admitido, uma cincia que fosse autnoma, que s seguisse suas prprias leis. Foi precisamente isso, porm, que 
a cincia do tempo de Darwin se tornou, divorciando-se do contexto a que previamente pertencera e impondo-se como uma opositora absoluta, um repositrio alternativo 
de sentido. Em conseqncia, religio e cincia deixaram de trabalhar em harmonia, passando antes a se contrapor, e a humanidade se viu cada vez mais obrigada a 
escolher entre uma e outra. Assim, a cincia darwiniana passou a representar uma grande ameaa no s para as proposies teolgicas da religio, corno para sua 
utilidade funcional - sua capacidade de "unir as coisas", de conferir propsito e sentido.
Processo semelhante teve lugar nos campos hoje rotulados de sociologia e psicologia. Tambm eles se dissociaram aos poucos do contexto basicamente religioso em que 
tinham estado anteriormente embutidos. Tambm eles se impuseram como opositores absolutos, repositrios alternativos de sentido. Tambm eles passaram a contestar 
a posio da religio e a propor hierarquias de valor diferentes, muitas vezes conflitantes. As artes afirmaram igualmente sua independncia. Desde a Antiguidade, 
elas haviam estado inextricavelmente associadas ao impulso religioso do homem e aos rituais religiosos.
Desde as imagens babilnias, vistas como habitadas por deuses, passando pela pintura renascentista, at a msica de Bach e Hndel, as artes tinham estado, na verdade, 
subordinadas  religio. Afinal de contas, a palavra "cultura" tem a mesma raiz que "culto" - colere, "adorar". No sculo XIX, contudo, a cultura passou a cultuar 
a si mesma - um culto que buscava suplantar a religio estabelecida e se tornar um novo absoluto. Isso foi exemplificado pela doutrina da "arte pela arte". Refletiu 
na esttica de escritores como Flaubert, Joyce e Thomas Mann, que comparam explicitamente o artista a Deus e traam uma analogia entre o verbo (com minscula) como 
instrumento de criao e o Verbo (com maiscula), ou Lagos. Alcanou sua apoteose com os espetculos wagnerianos em Bayreuth, em que a arte se tornou um ritual ou 
festival religioso que suplantava a prpria religio. Assistir a O anel do Nibelungo em Bayreuth propiciava nada menos que uma experincia mstica - no s para 
uma elite culta como para mentes como a de Adolf Hitler:
Quando ouo Wagner, tenho a impresso de ouvir ritmos de um mundo perdido. Penso comigo mesmo que um dia a cincia haver de descobrir, nas ondas postas em movimento 
por O ouro do Rena, inter-relaes secretas com a ordem do mundo. A observao do mundo percebido pelos sentidos precede o conhecimento proporcionado seja pela cincia, 
seja pela filosofia.

A Traio da F

Nas vsperas da Primeira Guerra Mundial, a sociedade ocidental viuse numa situao sem precedentes. No passado, houvera um absoluto que tudo impregnava, um repositrio 
todo-abrangente de sentido que englobava todos os outros. Agora, havia uma multiplicidade de absolutos conflitantes e incompatveis, cada um com sua prpria pretenso 
de ser um repositrio de sentido, de possuir as respostas para as mais importantes questes, de ser a esperana definitiva para o futuro. Cada um afirmava sua supremacia 
sobre os outros. Cada um buscava tornarse ele prprio uma religio e ativar o impulso religioso no homem. No surpreende que a inteligncia humana, forada a avaliar 
esse emaranhado de pretenses conflitantes, estivesse perplexa. Que escolha se podia fazer entre eles? Com que se comprometer, sem que o compromisso parecesse arbitrrio? 
Uma concluso inevitvel, que caracteriza o nosso sculo, era que no havia sentido em se comprometer com o que quer que fosse, afora o interesse pessoal.
A magnitude dessa crise no se manifestou de imediato. Os anos que precederam a Primeira Guerra Mundial foram um perodo de entusistico otimismo - provavelmente 
o perodo mais intensamente, e sem dvida mais complacentemente otimista que a cultura ocidental jamais vivera. O futuro parecia sem dvida rseo. Os campos recm-abertos 
do conhecimento pareciam prometer um territrio genuinamente frtil a explorar, o que traria apenas beneficios  humanidade. Arte, cincia, psicologia e sociologia 
eram vistos como valiosos canais para o aperfeioamento da condio humana; acreditava-se que, atravs deles, as virtudes inerentes ao progresso,  cultura,  civilizao 
e  expanso desenfreada do capital produziriam uma Utopia verdadeira. Essa  a atitude refletida pelos escritores mais populares da poca, H.G. Wells e Julio Verne. 
Para ambos, a perfectibidade da humanidade era mera questo de tempo e de pura sintonia.
De fato, no perodo anterior a 1914, o progresso, a cultura e a civilizao tornaram-se, em si mesmos, uma forma de religio. Forneciam seu prprio contexto, aparentemente 
vivel, para o conflito dos conceitos absolutos que irrompiam e pareciam proporcionar um meio para sua conciliao e propsito. Em nome deles, tudo podia ser harmonizado 
e justificado. E, na medida em que de fato eram capazes de "unir as coisas" e proporcionar  humanidade sentido, propsito e justificao, pode-se dizer que realmente 
desempenhavam a funo tradicional de uma religio.
A prpria guerra,  claro, no somente estilhaou essa nova "religio" como a fez parecer, em retrospecto, cruel e amargamente traioeira. O progresso, a cultura 
e a civilizao pareciam ter trado a f neles depositada. A cincia, que parecera oferecer novas perspectivas para a melhoria da vida humana, produzira em vez disso 
novos e mais aterrorizantes meios para destru-la. Para a gerao que lutou na Grande Guerra, a cincia tornou-se praticamente sinnimo de inovaes como o submarino, 
o bombardeio areo e o ainda mais hediondo gs txico. O progresso ocorreu sobretudo na esfera da destruio. A cultura e a civilizao, em vez de humanizar a sociedade 
com sua influncia e compeli-Ia a atividades pacficas e benficas, conduzira de fato  mais sangrenta e insana guerra jamais vista. A prpria sanidade de seus lderes 
foi seriamente questionada. A religio do progresso, da cultura e da civilizao foi negada pelo que pareceu, aos que viviam na poca, a realizao de um desejo 
de morte acalentado havia muito pelos europeus.
Uma religio s  vivel na medida da maturidade de seus adeptos. A Primeira Guerra Mundial demonstrou que o desenvolvimento tecnolgico suplantara a maturidade 
psicolgica. Tecnologicamente, havamos avanado para uma nova era. Mentalmente, continuvamos a viver no sculo XVIII, seno antes. Em conseqncia, a tecnologia 
era como uma granada carregada nas mos de uma criana. Essa discrepncia persistiu at hoje, se  que no se acentuou ainda mais. A maturidade da sociedade cresceu 
consideravelmente, mas o perigo da granada que ela tem em mos cresceu ainda mais.
O perodo que se seguiu  Primeira Guerra Mundial foi marcado por uma profunda e amarga desiluso. O conflito de absolutos, longe de ser resolvido, irrompeu sob 
nova forma e avultou-se incoercivelmente, em toda a sua crua e desnorteante realidade. A sociedade ficou cada vez mais paralisada, incapaz de escolher entre as vrias 
e mutuamente exclusivas pretenses de campos do conhecimento cada vez mais especializados. Na esteira do trauma recente, nenhum deles parecia confivel ou digno 
de respeito. Tendo sido trados uma vez, tnhamos perdido nossa capacidade de confiar - exceto talvez no que era irrelevante. Podamos, por exemplo, dar crdito 
 teoria atmica; mas a teoria atmica no era de grande valia para a soluo dos problemas da vida, ou para a consolidao de valores. No final da dcada de 1920, 
uma inflao galopante e o craque da Bolsa de Nova Y ork tornara at o dinheiro instvel e indigno de confiana. O resultado foi uma queda no niilismo - no se acreditava 
em mais nada, restando apenas uma tentativa febril de se distrair do vazio representado pelo futuro. O mundo que se seguiu imediatamente  Primeira Guerra Mundial 
 conhecido como o mundo da "gerao perdida".
A situao era complicada e agravada por um outro fator, que de incio passou despercebido e emergiu na esteira da proliferao do conhecimento especializado. A 
medida que consolidaram suas respectivas posies, a cincia, a sociologia e a psicologia comearam a questionar quatro das mais importantes premissas subjacentes 
ao pensamento ocidental: tempo, espao, causalidade e personalidade. Concepes convencionais ou tradicionais tanto de tempo quanto de espao passaram a ser cada 
vez mais contestadas. A psicologia, por exemplo, desestabilizara as mensuraes externas ao insistir na importncia do tempo e do espao internos. O tempo no estava 
mais confinado exclusivamente ao calendrio e ao relgio, e o espao j no dependia apenas da rgua e do mapa. Cada um deles tinha tambm seu prprio contnuo interno. 
Em conseqncia, as mensuraes externas comearam a ser vistas no como verdades definitivas, mas como meras convenincias, em ltima anlise arbitrrias, meras 
invenes do intelecto humano. E at a validade dessas convenincias foi posta em questo pela teoria da relatividade de Einstein. Tempo e espao tomavam-se agora 
fluidos, mercuriais, incertos, fundamentalmente relativos.
O mesmo se passou com o princpio da causalidade. A psicologia havia estabelecido a impossibilidade de quantificar ou simplificar a motivao humana, insistindo 
em que o comportamento humano era marcado por uma ambivalncia que desafiava equaes lgicas de causa e efeito. Indeterminao, imprevisibilidade, elementos aleatrios, 
mutaes inesperadas e avanos revolucionrios comearam a impregnar cada vez mais o pensamento cientfico. E, evidentemente, se o espao e o tempo eram inteiramente 
relativos, a base temporal e espacial em que a causalidade repousava ficava inutilizada na prtica. Essa nova instabilidade da causalidade repercutiu em outras esferas, 
mais prticas. A moralidade, por exemplo, se fundava em grande medida nos conceitos de punio e recompensa. A punio e a recompensa, por sua vez, se fundavam na 
causa e efeito. Com causa e efeito comprometidos, as leis subjacentes que regiam a punio e a recompensa tomaram-se cada vez mais maleveis. A punio no era mais 
uma conseqncia inescapvel da transgresso, nem a recompensa da virtude. Ao contrrio, podia-se ter a esperana de escapar da punio merecida e de obter a recompensa 
imerecida.
Se tempo, espao e causalidade tinham constitudo trs dos mais importantes pilares do pensamento ocidental, a personalidade fora um quarto. Desde o tempo de Aristteles, 
o carter fora visto como uma qualidade mais ou menos fixa, o indivduo como uma entidade nica. Agora, o carter individual ou personalidade se viam subitamente 
confrontados com a traumtica descoberta da sua prpria instabilidade ou mesmo da sua inexistncia. A sociologia apresentava a personalidade no como algo fixo e 
nico, mas como um acrscimo, uma superposio de reflexos condicionados, regidos quase exclusivamente pelo ambiente e a hereditariedade. A cincia fornecia bases 
para essas alegaes. E a psicologia, ao postular a existncia do inconsciente, estava desfechando um golpe de misericrdia na personalidade tal como concebida no 
passado. Os sonhos, antes vistos como algo derivado de fontes externas, algo perifrico  identidade do indivduo, passavam a ser considerados uma expresso da identidade 
pessoal, tanto quanto a conscincia vgil. A loucura no era mais uma ocorrncia aleatria, nem mesmo uma doena no sentido convencional, e sim uma potencialidade 
que todo ser humano traria consigo. Vimo-nos cada vez mais forados a admitir que tnhamos dentro de ns muitos eus, muitos impulsos, muitas dimenses, nem todas 
conciliveis entre si. Se de algum modo existamos, ramos ao mesmo tempo mais do que tnhamos suposto e diferentes do que tnhamos suposto. O aumento do conhecimento 
fez de ns um mistrio ainda maior para ns mesmos.
A medida que o tempo, a causalidade e a personalidade foram-se tornando insustentveis como princpios fixos e imutveis, o mesmo ocorreu com o mundo em que vivamos. 
A crena em alguma coisa, at em ns mesmos, foi-se tornando mais e mais impossvel. A vida parecia cada vez mais destituda de sentido, desprovida de significado 
- um fenmeno inteiramente aleatrio, vivido sem nenhum propsito particular. Por toda parte entrou em uso a frase, hoje convertida em clich: "Tudo  relativo."
O clebre romancista austraco Robert Musil descreveu a poca como caracterizada por "uma relatividade de perspectiva que raiava pelo pWco epistemolgico". A expresso 
 de extrema pertinncia. O Ocidente vivia de fato num estado de pnico com relao ao conhecimento e ao sentido, as duas questes bsicas de que trata o ramo da 
filosofia chamado epistemologia. Por sob a frentica autocomplacncia da era do charleston e das melindrosas, ocultava-se um sentimento de desespero, um assombro 
muitas vezes angustiado diante da ausncia de sentido, da incerteza de todo conhecimento, da impossibilidade de defmir com clareza o que se sabia, ou mesmo que se 
sabia. Sentido e conhecimento tornaram-se to relativos, to mutveis, to provisrios quanto tudo mais.

12
FS SUBSTITUTAS: RSSIA SOVITICA E ALEMANHA NAZISTA

O estado de incerteza e desesperana  o mais propcio ao surgimento de um mpeto religioso.  exatamente nesse tipo de vcuo que a religio, ao propor um nova noo 
de sentido e coerncia, pode mais efetivamente fazer valer sua pretenses. O perodo imediatamente posterior  Primeira Guerra Mundial clamava intrpretes. As pessoas 
sentiam uma necessidade desesperada de saber "de que servira" tudo aquilo, "que sentido tivera". Mas a religio organizada no fez nenhuma tentativa sria de enfrentar 
o problema, nem para atender s necessidades da poca. Tentou simplesmente fingir que nada tinha acontecido, e continuar sendo o que fora durante sculos - mais 
uma instituio social, poltica e cultural do que um intrprete que confere novo sentido. Assim, nos anos 20, a religio organizada se viu amplamente desacreditada, 
vista como inapta para preencher o vazio que se abrira na sociedade ocidental.
Diante do fracasso da religio organizada em oferecer uma soluo para a crise de sentido, a sociedade, de maneira bastante compreensvel, procurou em outras direes. 
O resultado foi que dois novos princpios emergiram e comearam a assumir a condio abrangente de uma religio. De fato, esses princpios viriam a se tomar as religies 
- ou pelo menos as pseudo-religies - dos anos 30.

A religio de Lenin e Stalin

A primeira das novas religies foi o socialismo, particularmente em sua forma marxista-Ieninista, como exemplificada pela Unio Sovitica da poca e o Partido Comunista. 
O pensamento marxista estivera no ar por cerca de trs quartos de sculo, e o socialismo por mais tempo ainda. Mas, na precipitao de eventos desencadeada pela 
Revoluo Russa, a doutrina assumiu a condio de um credo e, no Ocidente, proporcionou aos intelectuais e idealistas a causa de que precisavam. Em sua defesa, muitos 
deles morreram na Espanha. Na Inglaterra, muitos se tornaram espies.
A doutrina marxista-Ieninista repudia oficialmente toda religio. Certos paralelos formais e funcionais entre o marxismo-Ieninismo e a religio organizada so contudo 
geralmente reconhecidos e demasiado bvios para que precisemos discuti-los aqui. Ao mesmo tempo, no  do conhecimento geral o quanto a doutrina sovitica se empenhou, 
num programa deliberado, no apenas por assumir a forma e a funo de uma religio, mas por realmente vir a s-lo. Lenin era, antes de mais nada, um manipulador 
extremamente sagaz, com uma penetrante compreenso das necessidades da psique. Reconhecia a necessidade de adaptao do seu sistema ao mpeto religioso do homem, 
por mais incrdulo que fosse pessoalmente.
Sob este aspecto, como em muitos outros, pode-se afirmar que o pensamento de Lenin deve mais a Bakunin do que a Marx. Em sua organizao, em suas tcnicas de recrutamento, 
em seus instrumentos para suscitar a lealdade de seus adeptos, em sua urgncia messinica, o partido revolucionrio de Lenin tem uma estrutura tomada diretamente 
de Bakunin, como alis o prprio Lenin reconhece em seus cadernos de notas. Para Bakunin, porm, a revoluo era mais que um fenmeno social e poltico. Seu carter 
era em ltima anlise csmico, teolgico, religioso. Tendo passado mais de vinte anos abrindo caminho por entre as fileiras da maonaria, Bakunin construra uma 
estrutura filosfica metafisica para suas idias sociais e polticas. Era um satanista declarado. Segundo um comentador, ele via Sat como "o chefe espiritual dos 
revolucionrios, o verdadeiro autor da libertao humana".  Sat no era apenas o supremo rebelde, mas tambm o supremo combatente contra o tirnico Deus do judasmo 
e do cristianismo. As instituies oficiais da Igreja e do Estado no passavam de instrumentos do opressivo Deus judaico-cristo e, segundo Bakunin, era uma obrigao 
moral e teolgica combat-los. Embora o prprio Lenin nunca se tenha entregado explicitamente a essas concepes cosmolgicas, no h dvida de que reconhecia a 
sua utilidade. Bakunin e Lenin "eram ambos zelotes apocalpticos, ao passo que seus rivais marxistas (...) eram - comparados a eles - fariseus".  Assim, nas mos 
de Lenin, o bolchevismo procurou se tornar algo consideravelmente maior que um partido poltico ou um movimento poltico. Procurou se tornar nada menos que uma religio 
secular e, como tal, atender  necessidade de sentido. Para alcanar esse objetivo, no hesitou em se munir de todos os apetrechos de uma f religiosa.
Stalin, talvez de maneira ainda mais dnica, fez questo de conservar esses apetrechos. Havia recebido formao sacerdotal num seminrio teolgico em Tiflis. Sabe-se 
tambm que vivera por algum tempo - em 1899 ou 1900 - com a famlia de G. I. Gurdjeff, um dos mais influentes "magos", mestres espirituais ou gurus do sculo XX.3 
A partir de fontes como essas, Stalin aprendera no s a reconhecer o impulso religioso como a ativ-Io e manipul-Io. Assim, no surpreende v-Io planejando eventos 
inconfundivelmente equivalentes a rituais religiosos. O texto litrgico que se segue, com seus coros  maneira de responsrio,  mais que uma mera pardia de um 
rito religioso. Pretende ser em si mesmo um rito religioso.
Ao nos deixar, o Camarada Lenin exortou-nos a manter sobranceira e pura a grande misso de Membro do Partido.
- NO VOS PROMETEMOS, CAMARADA LENIN, CUMPRIR HONROSAMENTE ESTA VOSSA ORDEM.
Ao nos deixar, o Camarada Lenin exortou-nos a preservar a unidade do Partido.. .
- No VOS PROMETEMOS, CAMARADA LENIN, CUMPRIR HONROSAMENTE ESTA VOSSA ORDEM.
Ao nos deixar, o Camarada Lenin exortou-nos a preservar e fortalecer a ditadura do Proletariado...
- NO VOS PROMETEMOS, CAMARADA LENIN, CUMPRIR HONROSAMENTE ESTA VOSSA ORDEM...
Stalin se empenhou sistematicamente em extrair, tanto quanto possvel, significado religioso da morte de Lenin. Assim, fez com que ele fosse velado no Salo das 
Colunas, na Casa dos Sindicatos. Durante quatro dias o corpo foi mantido ali em exposio, enquanto 10 mil pessoas faziam filas sob temperaturas abaixo de zero para 
ter a oportunidade de passar ao lado do caixo. Outros lderes bolcheviques ficaram pasmos com essa descarada efuso de emoo religiosa.
No II Congresso Geral dos Sovietes, foi decidido elevar Lenin a um status prximo ao da divindade. O aniversrio de sua morte foi declarado dia de luto nacional. 
Esttuas suas foram ergui das em todas as cidades importantes da Unio Sovitica. Seu corpo foi embalsamado e depositado numa estrutura de pedra de padro nitidamente 
religioso, lembrando as pirmides em degraus das antigas Babilnia e Assria. At 1991, o corpo de Lenin (ou uma convincente efgie dele) jazia em exibio na Praa 
Vermelha - o equivalente moderno de um centro medieval de peregrinao. A venerao dedicada ao cadver comparava-se quela concedida s relquias crists, e o tmulo 
de Lenin poderia ser equiparado ao de Santiago de Compostela. Tudo isso  espantosamente incongruente com um sistema racionalista de crenas, inteiramente secular, 
que se proclama no apenas ateu como hostil a toda forma de religio - bem como ao "culto da personalidade" .
A mstica associada ao pertencimento ao Partido Comunista, especialmente nos anos 30, era tambm de natureza essencialmente religiosa - ou pelo menos pseudo-religiosa. 
A admisso ao partido era to portentosa, to ritualstica, to repleta de ressonncias evocativas quanto a iniciao num mistrio da Antiguidade, ou na maonaria. 
Nas crianas, em especial, o impulso religioso era muitas vezes deliberadamente estimulado e depois sistematicamente canalizado para os interesses do partido. Assim, 
a admisso aos Pioneiros, aos nove anos de idade, era o grande acontecimento da vida de uma criana. Tratase de um completo rito de passagem, anlogo, digamos,  
primeira comunho - e possuindo uma vitalidade e uma importncia que a primeira comunho h muito deixou de ter. Em meio a vrios juramentos e compromissos, o novo 
Pioneiro recebia, como um talismsagrado, um leno vermelho. Esse pedao de pano era declarado o seu mais precioso bem. O menino era instrudo a guard-lo, reverenci-lo, 
preserv-lo do toque das mos de qualquer outra pessoa. O leno representava, diziam-lhe, o sangue de mrtires revolucionrios. Postular a presena simblica de 
sangue num pedao de pano no  significativamente diferente de postular a presena mais ou menos simblica de sangue no vinho. A premissa  essencialmente religiosa, 
e a inteno era dar ao leno vermelho do jovem Pioneiro uma funo muito semelhante  de um crucifixo, ou um tero, ou algum outro desses conhecidos talisms religiosos.
Em sua tentativa de consolidar sua posio tanto dentro como fora da Unio Sovitica, o Partido Comunista dos anos 30 alou a doutrina marxista-leninista a uma condio 
religiosa. Embora proclamasse ter abolido a religio, buscava de fato simplesmente substituir uma religio por outra. No entanto, toda religio deve fazer apelo 
a algo mais que o mero intelecto, suscitar algo mais que respostas intelectuais. Para usar um clich, deve conquistar tanto mentes quanto coraes, satisfazendo 
necessidades emocionais profundas ao mesmo tempo que fornece um sentido humanstico lgico. Deve enfrentar a dimenso irracional do homem, proporcionando respostas 
a indagaes que surgem dessa dimenso irracional; e deve pelo menos reconhecer, e se possvel solucionar, questes como o desejo de amor, o medo da morte, a angstia 
da solido.

H uma distino crucial entre uma religio, por um lado, e uma filosofia ou ideologia, por outro. A despeito de suas aspiraes, a doutrina marxista-Ieninista nunca 
foi na verdade mais que uma filosofia ou uma ideologia. Em suas abstraes, em sua esterilidade emocional, ela no conseguiu fazer jus s necessidades internas do 
homem - nem pelo reconhecimento dessas necessidades, nem por sua satisfao. Nessa medida, a doutrina marxista-Ieninista foi psicologicamente ingnua. Pressupunha, 
com considervel simplismo, que as necessidades internas poderiam ser aplacadas por uma barriga cheia e um credo logicamente coerente. Assim, ofereceu po e uma 
teoria sobre a produo, o valor econmico e a distribuio do po. Ofereceu tambm a histria, capitalizada como um absoluto sublime em si mesmo. E ofereceu o conceito 
de Povo.
Mais uma vez, no entanto, nem s de po vive o homem, e menos ainda s de teorias sobre o po. Princpios como a alienao do trabalho, a relao entre o trabalho 
e o capital, a dialtica, at a luta de classes e a distribuio desigual da riqueza no despertam qualquer resposta visceral, no oferecem satisfao alguma a formas 
de fome menos tangveis, menos bem-definidas mas no menos disseminadas e obsessivas entre os homens - a fome de "paz de esprito", de realizao emocional e espiritual, 
de uma compreenso do seu lugar no cosmo, de respostas para questes que escapam ao domnio da sociologia e da economia, escapam ao domnio do materialismo em geral. 
Ao mesmo tempo, o conceito de histria como um dado absoluto  inadequado para cingir o desejo e o senso do sagrado ou do divino no homem.
Ao abordar o problema do sentido, a doutrina marxista-Ieninista s ofereceu solues provisrias. Finalidade e direo foram estabelecidas apenas para um dado lugar 
num dado momento, sujeitas a permutao e mudana. Mas o impulso religioso busca algo mais duradouro. No  no tocante a questes sociais ou econmicas, mas a mistrios 
como o tempo, a morte, a solido, o amor e a conscincia que a necessidade de sentido  mais aguda. E foram precisamente esses mistrios - sendo o mistrio o verdadeiro 
domnio da religio - que a pseudo-religio do marxismo-Leninismo foi mais flagrantemente incapaz de enfrentar ou mesmo de reconhecer. Nessa medida, ela se provou 
cada vez mais inadequada s necessidades internas da humanidade.
No surpreende, portanto, que a religio organizada persista tenaz na Unio Sovitica, apesar da reprovao oficial, de perseguies e de ambiciosos programas de 
doutrinao destinados a neutraliz-Ia. Em pases como a Polnia e a Tchecoslovquia, a Igreja representa um crescente desafio ao regime, precisamente porque atende 
a necessidades mais profundas do que aquelas reconhecidas pelo regime. E, na prpria Unio Sovitica, o Politburo se v no s importunado por um cristianismo que 
teima em sobreviver, como tambm ameaado por uma enorme expanso do islame. Quer a religio seja ou no "o pio do povo", a dependncia nesse caso no pode ser 
curada pela simples supresso da droga, deixando a sociedade lutar sem auxlio algum com as agonias da abstinncia.

Adolf Hitler como sumo sacerdote

A segunda religio, ou pseudo-religio, dos anos 30 foi o espectro dos movimentos totalitrios hoje coletivamente chamados de fascismo. Na Itlia, a forma original 
do fascismo, tal como propagada por Mussolini, na verdade jamais conseguiu o status de uma religio, permanecendo, talvez mais que o marxismo-Ieninismo, uma filosofia 
poltica, uma ideologia. O papel tradicional da religio foi basicamente deixado para a Igreja. Uma conseqncia parcial disso foi que o fascismo italiano, sobretudo 
se comparado a desdobramentos ocorridos em outros lugares, mostrou-se algo um tanto vazio.
Na Espanha, a variante do fascismo promovida por Franco esforou-se por se aliar intimamente  Igreja, arrogando-se assim uma espcie de mandato divino. Isso lhe 
valeu muito mais energia, muito mais dinamismo do que a sua contrapartida italiana - e a singular crueldade de que s o fanatismo religioso  capaz. Sob muitos aspectos, 
pelo menos  distncia de quase meio sculo, h algo mais risvel em Mussolini. Franco, com o domnio que estabeleceu sobre a Espanha e o povo espanhol,  uma figura 
muito mais sinistra.
Mas o exemplo supremo de um totalitarismo de direita que alcanou a condio de religio est na Alemanha nazista. Diferentemente do fascismo na Itlia, o nazismo 
no foi apenas uma filosofia ou uma ideologia. Diferentemente da variante espanhola do fascismo, o nazismo no se aliou a interesses religiosos. Ao contrrio, procurou, 
de maneira bastante sistemtica, suplantar todos esses interesses e se impor como uma religio inteiramente nova.
Faz agora quase cinqenta anos que a Segunda Guerra Mundial terminou. Estes anos testemunham um infindvel caudal de comentrios histricos, exposies e explicaes 
sobre o fenmeno Adolf Hider, o Partido Nazista e o Terceiro Reich. Ainda assim, as questes persistem; ainda assim os mistrios persistem. Como pde um povo civilizado 
e culto - um povo que deu ao mundo Goethe e Beethoven, Kant e Hegel, Bach e Heine - seguir um canto da sereia to perverso e mergulhar em massa numa orgia de destruio 
to monstruosa, to demonaca? Escritores procuraram responder esta pergunta das mais diversas maneiras. O nazismo foi explicado como fenmeno social, fenmeno cultural, 
fenmeno poHtico, fenmeno econmico. Tentou-se ver como responsvel por ele o Tratado de Versalhes, a depresso fiscal, a inflao desbragada, uma perda da auto-estima 
nacional, a ascenso do comunismo, um desmoronamento da classe mdia, um sem-nmero de outras coisas.
Certamente todos esses itens, e muitos outros, desempenharam um papel essencial. Certamente, tambm, estavam todos inter-relacionados. Mas o elemento mais decisivo 
para qualquer compreenso do nazismo  a extenso em que ele insuflou deliberadamente o mpeto religioso do povo alemo. Despertou uma reao tanto emocional quanto 
cerebral, unindo,  sua maneira perversa, coraes e mentes. Tornou-se uma religio bem estabelecida e, como tal, redimiu a Alemanha ps-Primeira Guerra Mundial 
do purgatrio da falta de sentido. Foi a dimenso religiosa do nazismo que inspirou o dinamismo, o fanatismo histrico, a energia e a ferocidade demonacas que o 
fizeram transcender os movimentos totalitrios paralelos da Itlia e da Espanha. Seria plausvel afirmar que o Terceiro Reich foi o primeiro Estado na histria ocidental, 
desde Roma antiga, a ter como fundamento ltimo no princpios sociais, econmicos ou polticos, mas princpios religiosos, princpios mgicos. E seu pretenso Hder 
foi muito menos um poltico, ou mesmo um demagogo, do que um xam.
A ascenso do Terceiro Reich no "aconteceu" mais ou menos por acidente, como resultado do carisma maligno de um homem. Ao contrrio, foi cuidadosamente arquitetada 
e meticulosamente orquestrada. Com um grau assustador de conscincia e sofisticao psicolgica, o Partido Nazista se empenhou em estimular e manipular o el religioso 
do povo alemo, a responder  questo do sentido numa acepo religiosa. Tanto quanto uma filosofia e uma ideologia, a Alemanha nazista ofereceu uma cosmologia. 
Tanto quanto para o intelecto, apelou para o corao, para o sistema nervoso, para o inconsciente. Para ta~to, empregou muitas das mais antigas tcnicas religiosas 
- cerimonial elaborado, cantilenas, repetio rtmica, oratria encantatria, cor e luz. Os famosos comcios-monstro de Nuremberg no eram comcios poHticos como 
os que se realizam hoje no Ocidente, e sim espetculos teatrais habilmente encenados como aqueles, por exemplo, que faziam parte dos festivais religiosos gregos. 
Tudo - as cores dos uniformes e das bandeiras, a posio dos espectadores, a hora noturna, o uso de projetores e holofotes, o ritmo dos eventos - era precisamente 
calculado. Nos filmes da poca, vemos pessoas se inebriando, cantando at entrar num estado de arrebatamento e xtase, usando o mantra "Sieg Heil!" e embevecidas 
pelo Fhrer como se ele fosse um deus. Os rostos da multido esto marcados por uma beatitude idiota, um vazio, a mesma estupefao mesmerizada que podemos encontrar 
numa assemblia de uma igreja revivalista. No  uma questo de retrica. Na verdade, a retrica de Hitler  muito pouco convincente. O mais das vezes,  banal, 
pueril, repetitiva, sem substncia. Mas as palavras so proferidas com uma energia virulenta, tm uma pulsao rtmica to hipntica quanto o toque de um tambor; 
e isso, combinado com o contgio da emoo coletiva, com a presso de milhares de pessoas apinhadas numa rea restrita, com uma forma de pompa e circunstncia deliberadamente 
eclesistica, ampliada a propores wagnerianas, produz uma histeria coletiva, um fervor essencialmente religioso. O que testemunhamos nos comcios de Hitler  o 
tipo de "alterao de conscincia" que os psiclogos geralmente associam com a experincia mstica. E o prprio Hitler se toma um messias sinistro, servindo de receptculo 
para a energia religiosa que despertou. Nas palavras de um comentador, "o povo alemo no demorou a comear a ver Hitler como um messias da Alemanha. Assemblias 
pblicas - em especial o comcio de Nuremberg - assumiram uma atmosfera religiosa. Todas as encenaes tinham o propsito de criar uma atmosfera sobrenatural e religiosa. 
"
As dimenses religiosas do que Hitler estava fazendo no escaparam, alis, aos alemes da poca. Ao contrrio, eles no s a percebiam como, em alguns casos, a acolhiam 
com satisfao. Assim, hregistro de que o prefeito de Hamburgo teria dito: "No precisamos de sacerdotes. Podemos nos comunicar diretamente com Deus atravs de 
Adolf Hitler. " E, em abril de 1937, um conclave de cristos alemes declarou: "A palavra de Hitler  a Lei de Deus, os decretos e leis que a expressam possuem autoridade 
divina. "
Uma das mais valiosas fontes de informao sobre o pensamento do prprio Hitler  Herman Rauschning, um dos primeiros a aderir ao Partido Nazista, em 1926. Tendo-se 
tomado um dos mais fiis companheiros e confidentes de Hitler, Rauschning assumiu a presidncia do senado de Dantzig em 1933. J em 1935, contudo, sentindo-se verdadeiramente 
alarmado com o que estava acontecendo na Alemanha, fugiu primeiro para a Sua e depois para os Estados Unidos. Considerando essencial abrir os olhos do mundo para 
o Terceiro Reich, publicou, nos anos imediatamente anteriores  guerra, dois livros em que reporta muitas conversas que mantivera com o prprio Hitler. Neles, vrias 
passagens revelam que Hitler sabia perfeitamente o que estava fazendo, e que a insuflao do el religioso no povo alemo era parte de um plano meticulosamente traado. 
Citando Hitler, Rauschning diz: "Tornara as massas fanticas, dizia ele, para transform-Ias em instrumentos do seu programa. Havia despertado as massas. Elevara-as 
acima de si mesmas e lhes dera sentido e uma Juno [grifado por ns]."
Em seguida, cita Hitler diretamente:

Numa assemblia de massa (...) o pensamento  eliminado. E como este  o estado de esprito de que preciso, como ele me assegura a melhor caixa de ressonncia para 
o meu discurso, ordeno que todos compaream s assemblias, onde se tornaro parte da massa, quer queiram ou no, sejam eles "intelectuais" e burgueses ou trabalhadores. 
Eu aglomero as pessoas. S lhes falo quando formam uma massa.

Mais tarde, o prprio Hitler escreveu em Mein Kampf:
Em todos estes casos, enfrentamos o problema de influenciar a livre vontade humana. E isso se aplica especialmente s assemblias em que h homens cujas vontades 
se opem ao orador e que devem ser convertidos a um novo modo de pensar. De manh e durante o dia, parece que o poder da vontade humana se rebela com mais vigor 
contra qualquer tentativa de se lhe impor a vontade ou a opinio de outrem. Por outro lado,  noite ela sucumbe facilmente ao domnio de uma vontade mais forte (. 
. .) A misteriosa obscuridade das igrejas catlicas tambm serve a esse propsito, a luz de velas, o incenso... 

Hitler admitia que empregava tcnicas religiosas. Confessava tambm, pelo menos em parte, onde as adquirira. "Aprendi, antes de mais nada, com os jesutas. Alis, 
Lenin tambm, se no me falha a memria." E, aps um de seus caractensticos ataques  maonaria, acrescenta:

A organizao hierrquica [deles) e a iniciao atravs de ritos simblicos, isto , sem puxar pelo crebro, trabalhando apenas sobre a imaginao por meio da mgica 
e dos smbolos de um culto - tudo isso constitui o elemento perigoso que incorporei. No vem que nosso partido deve ter esse carter?.. Uma Ordem,  isso que ele 
deve ser - uma Ordem, a Ordem hierrquica de um sacerdcio secular. 

O nazismo no apenas adotou os adereos de uma religio. De maneira bastante literal, tornou-se uma religio tambm em sua substncia. Parte dessa substncia provinha 
de Richard Wagner, que, no sculo XIX, exaltara a qualidade singularmente sagrada do sangue alemo e, nas palavras de um comentador, "acreditara apaixonadamente 
no teatro como um templo da arte germnica, onde ritos msticos haveriam de redimir" o povo alemo e a alma alem.
Mas Wagner foi apenas uma entre muitas influncias, que convergiram para formar a viso do nacional-socialismo. Hitler se inspirou tambm no filsofo Friedrich Nietzsche, 
fazendo uso indevido de grande parte do seu pensamento, divorciando-o do seu verdadeiro contexto e torcendo-o segundo seus prprios fins. Nietzsche no estava vivo 
para protestar. Quando a hierarquia nazista tentou se apropriar da mesma maneira das obras do poeta Stefan George, ele estava vivo e protestou com contundente veemncia. 
Num gesto de repdio e desprezo, exilou-se imediatamente na Sua - no sem antes plantar as sementes da resistncia a Hitler na mente dos seus mais prximos discpulos, 
o jovem conde Claus von Stauffenberg, que mais tarde iria arquitetar o atentado a bomba feito em 1944 contra o Fhrer.
Hitler e seu crculo foram influenciados tambm por vrios pequenos grupos ocultistas e sociedades secretas - por exemplo, a chamada Ordem dos Novos Templrios, 
a Germanenorden, ou Ordem Germnica, e a Thulegesellschaft, ou Sociedade de Tule - que estiveram ativas entre o final da dcada de 1870 e o perodo posterior  Primeira 
Guerra Mundial. Nos ensinamentos desses grupos, encontramos uma hostilidade militante ao cristianismo e uma insistncia no antigo paganismo germnico.
Em que medida o prprio Hitler esteve pessoalmente ligado a grupos ocultistas  coisa que nunca foi bem esclarecida e talvez nunca venha a ser. No h dvida, porm, 
de que ele conhecia pessoas a eles vinculadas e, invariavelmente, o quadro de membros desses grupos coincidia em parte com o do Partido Nazista nos seus primeiros 
tempos. Sabe-se que Rudolph Hess e Alfred Rosenberg, por exemplo, estiveram envolvidos na Thulegesellschaft. Mein Kampf foi ditado a Dietrich Eckart, um poeta insignificante 
e demente que era uma figura de proa no somente da Thulegesellschaft como de outras organizaes do gnero.
Qual era, ento, a natureza da religio de Hitler? Como ele conseguiu reconquistar os coraes e as mentes que a Igreja tradicional perdera? Segundo um comentador 
do fmal dos anos 30, "o Weltanschauuno nacional-socialista totalitrio  uma f pag que no pode encarar o cristianismo seno como aliengena e antagnico."
Em 1938 o dr. Arthur Frey, chefe do Swiss Evangelical Press Service, publicou um livro que  at hoje uma das mais profundas anlises do nacional-socialismo como 
religio. Sem dvida  verdade que Frey, na qualidade de cristo, tinha seus prprios interesses a proteger, mas isso em nada prejudica a pertinncia de suas observaes. 
O Terceiro Reich, diz ele, pretendia ser "no somente um Estado, mas tambm uma comunidade religiosa, isto , uma igreja".  Diz ainda: "O Fhrer no  apenas um 
Kaiser secular, que desempenha no Estado a misso de governo;  ao mesmo tempo o messias, que  capaz de anunciar o reino da felicidade. "
Esta avaliao no  exagerada. De fato,  repetida quase literalmente por Baldur von Schirach, o diretor da Juventude Hitlerista, encarregado de educar uma gerao 
de jovens alemes: "... vemos o servio  Alemanha como genuno e sincero servio a Deus; a bandeira do Terceiro Reich nos parece ser a Sua bandeira; e o Fhrer 
do povo  o salvador que Ele enviou para nos libertar." Quanto ao cristianismo na Alemanha, o prprio Hitler disse:

Que podemos fazer? Exatamente o que fez a Igreja catlica quando impingiu suas crenas aos gentios: preservar o que pode ser preservado, e mudar seu sentido. Devemos 
fazer o caminho de volta: a Pscoa no  mais a ressurreio, mas a eterna renovao do nosso povo. O Natal  o nascimento do nosso salvador... Pensam que esses 
padres liberais, que j no tm f, somente um cargo, vo se recusar a pregar o nosso Deus nas suas igrejas? 

O dr. Frey resume o credo do nacional-socialismo da seguinte maneira: "Para a F Germnica o 'sangue'  sagrado... Ao longo dos sculos... o frtil mistrio do sangue 
herdado confere a si mesmo a forma da raa. "
A importncia do sangue  ilustrada pela cerimnia nazista que, segundo o escritor francs Michel Tournier, equivale a uma "inseminao de bandeiras". Nessa cerimnia, 
a bandeira nazista originalmanchada com o sangue dos que a tinham empunhado quando Hitler tentou tomar o poder pela primeira vez, em 1923 -, que fora preservada, 
era ritualmente exibida. Outras bandeiras, novas, deviam tocar nela, de modo a poderem receber - como numa forma grotesca de magia sexual - algo da sua prpria qualidade 
sagrada. Na passagem que se segue, um dos personagens de Tournier descreve a cerimnia:
Voc sabe o que aconteceu: a saraivada de tiros que matou dezesseis dos acompanhantes de Hitler; Goering gravemente ferido; Hitler obrigado a se arrastar no cho 
junto a Scheubner-Richter, que agonizava, e escapando com um ombro deslocado. Depois, a priso do Fhrer na fortaleza de Landsberg, onde ele escreveu Mein Kampf. 
Mas tudo isso  de somenos importncia. Do ponto de vista da Alemanha, o homem passaria a ser irrelevante a partir de ento. A nica coisa que contou nesse dia em 
Munique, 9 de novembro de 1923, foi a bandeira dos conspiradores, com a sustica, que caiu em meio aos dezesseis corpos e foi manchada e consagrada com seu sangue. 
Dali em diante, a bandeira de sangue - die Bluifahne - passou a ser a mais sagrada relquia do Partido Nazista. A partir de 1933,  sempre exibida duas vezes ao 
ano: uma em 9 de novembro, quando a marcha at o Feldherrnhalle em Munique  reencenada,  maneira de uma paixo medieval; mas sobretudo em setembro, no comcio 
anual do Partido em Nuremberg, que marca o apogeu do ritual nazista. Nessa ocasio a Bluifahne, como um garanho que fertiliza uina infinidade de fmeas,  posta 
em contato com novos estandartes que buscam a inseminao. Estive presente... e posso lhe dizer que quando encena o rito nupcial das bandeiras, o Fhrer faz o mesmo 
movimento que o criador de gado, guiando o pnis do touro para a vagina da vaca com a prpria mo. Em seguida, desfilam exrcitos inteiros em que cada homem porta 
uma bandeira e que so puros exrcitos de bandeiras: um vasto mar de estandartes, insgnias, pavilhes, emblemas e oriflamas, a sorguer-se e ondular ao vento.  
noite o fogaru completa a apoteose, pois a luz das tochas ilumina os mastros, as bandeiras e as esttuas de bronze, relegando s sombras da Terra a grande massa 
humana, condenada  escurido. Finalmente, quando o Fhrer sobe ao monumental altar, 150 holofotes se acendem subitamente, erguendo sobre o Zeppelinwiese uma catedral 
de pilares de mais de trezentos metros de altura para provar a importncia sideral do mistrio que est sendo celebrado. 
Essa cerimnia da "inseminao das bandeiras" era apenas uma das numerosas festas, festivais e comemoraes com que os nazistas reviam e adaptavam o calendrio cristo 
segundo seus prprios fins, especificamente pagos: "... celebramos festivais do Sol, do ano, do crescimento, da colheita, quando estes no foram destrudos por 
uma religio que  alheia ao mundo, hostil  terra." Um desses ritos de grande importncia era um antigo festival indo-germnico do jovem deus Sol. Em academias 
especiais dirigidas pela SS para o treinamento de meninos, o festival Yule era celebrado no como o nascimento de Cristo, mas como o ressurgimento do "Menino Sol" 
de suas prprias cinzas no solstcio de inverno. No  preciso repisar o carter religioso e especificamente pago desses rituais. O que eles envolvem  essencialmente 
uma variante do sculo XX do antigo culto a Sol ln victus , a que Constantino aderira cerca de 1.600 anos antes. A nica diferena real era que, para o nacional-socialismo, 
at o Sol, de alguma maneira no quantificvel, era exclusivamente germnico.
Se Hitler era o messias de uma nova religio, seu sacerdcio era uma elite de SchutztcifJel, SS vestidos de preto. Hitler se referiu a Heinrich Himmler, comandante-em-chefe 
da SS, como "meu lncio de Loiola" - sugerindo assim um paralelo entre os SS e os jesutas. Sob muitos aspectos a SS foi de fato modelada segundo a Companhia de 
Jesus e fazia um uso deliberado de tcnicas jesuticas em esferas como o condicionamento psicolgico e a educao. Os prprios jesutas, porm, haviam tomado muito 
da estrutura e organizao das ainda mais antigas ordens militares-religiosas-cavaleirosas como os Templrios e a Ordem Teutnica Deutschritten. O prprio Himmler 
concebia a SS como uma ordem, precisamente nesse sentido, vendo-a, muito especificamente, como uma reconstituio da Deutschritter - um equivalente moderno dos cavaleiros 
de capa banca, cruzes negras nas mos, que, sete sculos antes, haviam liderado a primeira Drang nach Osten [marcha para o leste] rumo  Rssia.
A SS original, de antes da guerra, era de fato to estritamente recrutada, organizada e ritualstica quanto a Deutschritter medieval. Os candidatos  admisso tinham 
de apresentar uma rvore genealgica que atestasse puro sangue "ariano" por pelo menos dois sculos e meio - ou, no caso de postulantes ao oficialato, trs sculos. 
Todos os candidatos tinham de se submeter a um noviciado de estilo religioso antes de serem aceitos na Ordem. Com a maonaria, os SS aprenderam a importncia das 
insgnias ritualsticas, de tal modo que anis e adagas tinham lugar de relevo. Runas tambm eram dotadas de especial significao. Nas mangas de toda tnica SS, 
havia uma inscrio rnica bordada com trancelim de prata. O prprio emblema da organizao, os dois esses em forma de rel~mpagos dentados, era apresentado como 
o caractere runa "Sig", a "runa do poder", pretensamente usado pelas antigas tribos germnicas para denotar o raio desfechado pelo deus da tempestade - Tor ou Donar, 
segundo alguns relatos, Odin ou Wotan segundo outros.
Himmler introduziu na organizao doses cada vez mais elevadas de esquisitice. Os casamentos dos SS tinham menos em comum com o casamento cristo do que com festas 
nupciais pags. Segundo Himmler, as crianas concebidas num cemitrio nasciam imbudas do esprito dos mortos ali enterrados. Assim, os membros da SS eram estimulados 
a gerar sua prole sobre lpides sepulcrais - lpides sepulcrais de nobres "arianos",  claro. Cemitrios que, segundo as pesquisas competentes, abrigavam comprovadamente 
os ossos dos tipos nrdicos apropriados eram devidamente recomendados, e listas de campos santos eram regularmente publicadas no jornal oficial da SS.
A sua volta, Himmler planejou instituir um quadro interno de sumos sacerdotes, um conclave de doze Obergruppnifhrer (o equivalente a generais-de-diviso) da SS, 
que deveriam constituir seu prprio grupo pessoal de "Cavaleiros da Tvola Redonda". Esse crculo quase mstico de treze membros - nmero que evocava deliberadamente 
os conclaves de bruxas, bem como,  claro, Jesus e seus discpulos deveria ter seu quartel-general no pequeno burgo de Wewelsburg, nas proximidades de Paderborn, 
na atual Alemanha Oriental. Os trabalhos de construo no chegaram a ser concludos antes do fim da guerra, mas Wewelsburg estava destinada a ser a capital oficial 
da SS, seu centro de culto. Era qualificada como o "Mittelpunkt der Welt" - o "miolo do mundo".
No centro de Wewelsburg havia um castelo em que, segundo os projetos, cada um dos treze altos dignitrios no comando teria seu prprio quarto, decorado no estilo 
de um perodo histrico determinado - segundo a maioria dos comentadores, os perodos corresponderiam s supostas encarnaes prvias dos vrios ocupantes. Na grande 
Torre Norte, os treze "cavaleiros" fariam suas reunies a intervalos ritualsticos. Abaixo, no centro exato da cripta sob a torre, numa base trs degraus acima do 
nvel do piso, arderia um fogo sagrado, e junto s paredes seriam colocados doze pedestais de pedra, cuja destinao exata no se conhece. Os nmeros doze e treze 
se repetem constantemente nos projetos arquitetnicos da reconstruo. O simbolismo era de extrema importncia: a cidade que se projetava construir em volta do castelo 
seria centrada na cripta, irradiando-se em crculos concntricos meticulosamente traados.
O prprio Himmler aludiu muitas vezes  geomancia, ou "magia da terra", s trilhas retas que antepassados pr-histricos teriam traado entre morros, e gostava de 
fantasiar acerca de Wewelsburg como um "centro de foras" ocultas semelhante ao que (segundo ele supunha) era Stonehenge. O jornal oficial do Ahnenerbe - o "departamento 
de pesquisa", por assim dizer, da SS - publicava freqentemente artigos sobre esses assuntos.
 interessante observar que nenhum dos aspectos "ocultistas" da Alemanha nazista foi includo no copioso corpo de provas e documentos examinados no Tribunal de Nuremberg. 
Por qu? Estariam os promotores Aliados na ignorncia disso na poca? Teriam desprezado esses elementos como irrelevantes ou circunstanciais? Na verdade, nenhuma 
das duas coisas ocorreu. Os promotores estavam mais do que cientes desses aspectos. E, longe de subestim-Ios, de fato temiam seu poder - temiam os efeitos psicolgicos 
e espirituais sobre o Ocidente da revelao de que um Estado do sculo XX se estabelecera e alcanara tamanho poder com base em princpios como esses. Segundo o 
falecido Airey Neave, um dos promotores nos julgamentos de Nuremberg, os aspectos ritualsticos e ocultistas do Terceiro Reich foram por isso deliberadamente declarados 
"indcios inadmissveis". 24 A justificao apresentada foi que um advogado de defesa habilidoso, apelando  racionalidade ocidental, teria condies de reduzir 
a responsabilidade dos criminosos de guerra que ele representava alegando sua insanidade mental.
Tratamos to extensamente os aspectos religiosos da Alemanha de Hitler porque so precisamente esses os aspectos mais relevantes para a busca de sentido em nossos 
dias. A cultura ocidental do aps-guerra acostumou-se a pensar no nacional-socialismo simplesmente como um partido poltico extremista e sobre o Terceiro Reich como 
um Estado governado por um pequeno conclave de loucos.  bem possvel que fossem loucos, mas no  isso que importa. O que importa  que foram capazes de transmitir 
sua loucura e de transmut-la numa forma de energia messinica. O nazismo, como dissemos antes, no foi meramente uma filosofia poltica ou ideologia que "ludibriou" 
o povo alemo. Foi uma religio, que exerceu tamanho domnio precisamente porque desempenhou a tradicional funo religiosa de infundir sentido e coerncia num mundo 
em que esses elementos fundamentais estavam claramente faltando.
 sob esse aspecto, talvez, que o Terceiro Reich oferece hoje a sua mais pertinente aula prtica, e a sua mais terrvel advertncia. Nos nossos dias, muita gente, 
desiludida com o materialismo, defende um Estado baseado fundamentalmente em prindpios espirituais. Esse parece ser um dos objetivos do Prieur de Sion. Teoricamente, 
trata-se de um objetivo bastante vlido, que provavelmente no seria contestado por um nmero demasiado grande de pessoas responsveis. O Terceiro Reich, no entanto, 
demonstra que um Estado fundado em prindpios espirituais no se torna necessariamente, por essa razo, intrinsecamente louvvel ou desejvel. Se os princpios "espirituais" 
so distorcidos, tem-se um potencial de destruio no mnimo maior que o do materialismo. O "esprito" desembestado  de longe mais perigoso que a mera matria. 
A "Guerra Santa" pode ser a menos santa de todas as guerras, seja ela travada pelos fundamentalistas islmicos no Oriente Mdio ou pelos fundamentalistas cristos 
no Estados Unidos.


13
A CRISE E O DESESPERO SOCIAL DO APS-GUERRA

A sua maneira perversa, Hitler deu ao povo alemo uma nova noo de sentido, outorgando-lhe uma nova religio e remindo-o da incerteza - da "relatividade de perspectiva 
que raiava pelo pnico epistemolgico". Com isso, irnica e paradoxalmente, deu tambm ao resto do mundo uma nova noo de sentido. Por causa de Hitler e do Terceiro 
Reich, o mundo teve sentido, pelo menos por algum tempo.
A Primeira Guerra Mundial foi uma guerra insana. O que a tomou particularmente terrvel foi que essa loucura era to desbragada, to difusa e penetrante quanto uma 
nuvem de gs txico. Nela no houve verdadeiros heris ou viles. Todos eram culpados e ningum era culpado; todos a tinham desejado e ningum a tinha desejado; 
e, uma vez deslanchada, a coisa toda ganhou impulso prprio, atemorizante e destrutivo, que ningum era capaz de controlar. A loucura da Primeira Guerra Mundial 
foi essencialmente sem forma e no h como combater o que no tem forma. No havia outra soluo possvel alm do atrito e a exausto.
A Segunda Guerra Mundial, ao contrrio, teve sentido. No foi apenas uma guerra sensata; talvez tenha sido a guerra mais sensata travada na histria modema. Foi 
sensata, no que diz respeito s potncias aliadas, precisamente porque a Alemanha tinha de fato tomado a si a carga da loucura coletiva da humanidade. Ao arcar com 
todo o horror, a infmia, a atrocidade e a bestialidade de que a humanidade era capaz, a Alemanha, paradoxalmente, devolveu a sanidade ao resto do mundo ocidental. 
Foi preciso Auschwitz e Bergen-Belsen para nos ensinar o significado do mal- no como proposio teolgica abstrata, mas como realidade concreta. Foi preciso Auschwitz 
e BergenBelsen para nos mostrar os atos de que ramos capazes, e despertar em ns a vontade de repudi-los. Diferentemente da guerra de 1914, a guerra contra o Terceiro 
Reich tornou-se uma legtima cruzada em nome da decncia, da humanidade, da civilizao.
Nessa medida, a Alemanha propiciou uma noo renovada de sentido no apenas ao seu prprio povo, iludido, como tambm, de maneira mais vlida, ao resto do mundo 
ocidental. No havia dvidas quanto a onde estava o mal. E tratava-se realmente do mal, no de mera imbecilidade, nem mesmo de tirania convencional como aquela que 
se poderia associar ao Kaiser, a Napoleo, ou at a Stalin. Em suma, a loucura coletiva do mundo, ao ser encarnada por um povo especfico, tomou forma; e, uma vez 
dotada de forma, podia ser combatida. A tomada de posio contra ela restaurou uma hierarquia de valores que se degenerara.
Lamentavelmente, o Ocidente no aprendeu tanto quanto devia com essa experincia. Vendo no Terceiro Reich apenas um fenmeno social, poltico e econmico, os historiadores 
no foram capazes de reconhecer ou avaliar as necessidades psicolgicas que, quando exploradas por Hitler e sua dique, o haviam engendrado. Assim, o Ocidente continuou 
a ignorar a realidade e a importncia dessas necessidades. Na verdade, a questo nunca foi encarada de frente. O resultado  que continua a se emboscar nos bastidores, 
no limiar da conscincia, de maneira subliminar. A Alemanha nazista tinha, ao que parecia, encarnado o irracional. Em conseqncia, a sociedade ocidental passou 
a desconfiar do irracional, a repudiar todas as suas manifestaes exceto naquelas poucas horas, rigorosamente circunscritas e contidas, destinadas  igreja no domingo. 
Fez-se at uma tentativa de desmistificar o servio religioso, com a adoo de verses simples, atualizadas, do livro de oraes e da Bblia. Como Hitler provara 
ser um falso profeta, a sociedade ocidental passou a desconfiar de todos os absolutos. Essa desconfiana veio finalmente a culminar, mais uma vez, num relativismo 
generalizado.
Isso no se evidenciou de imediato. Nos primeiros anos aps 1945 ainda era possvel aferrar-se aos valores que haviam prevalecido durante a cruzada - decncia, humanidade 
e civilizao. A eles veio ento conjugar-se uma nova f no progresso material. Afinal de contas, os recursos materiais  que tinham derrotado Hitler, e agora era 
possvel v-Ios como foras do "bem". Ao lado da decncia, da humanidade e da civilizao, eles pareciam genuinamente dignos de crdito. Assim, no fmal dos anos 
40, a bomba atmica foi encarada mais como um instrumento de paz do que como um perigo potencial.
A f no progresso ajudou a mergulhar o Ocidente num breve perodo de autocontentamento materialista, cujo melhor exemplo talvez seja a mentalidade do "terno de flanela 
cinza" da administrao Eisenhower e do sloean de Macrnillan: "Nunca foi to bom". A caracterstica mais destacada da nova poca foi a proliferao do que hoje chamamos 
"sociedade de consumo". Mas os valores, para cham-Ios assim, que sustentavam a "sociedade de consumo" eram fundamentalmente provisrios - no fundo, eram o equivalente 
da "obsolescncia programada" de Detroit. No eram promulgados como uma forma de absoluto. No tinham a pretenso de responder s qu,estes bsicas de sentido. O 
grande ideal da poca estava implcito numa palavra muito em voga, "normalidade" - que, na prtica, equivalia a mera uniformidade. Tudo que fosse "anormal", qualquer 
agitao de necessidades internas mais profundas - experincias ou anseios religiosos, colapsos nervosos, neuroses e at simples desvios do convencional -, era estigmatizado, 
visto como patolgico.
O que esse perodo ofereceu de mais prximo ao que poderamos chamar de sentido e propsito foi a chamada "Guerra Fria". Aos olhos de homens como o senador Joseph 
McCarthy, sentido e propsito para o Ocidente consistiam na manuteno de um "baluarte contra o comunismo". Em outras palavras, o Ocidente passou a se auto-definir 
essencialmente em funo da sua anttese, sem compreender plenamente o que era essa anttese. O resultado foi que o 'comunismo se tornou mais ou menos sinnimo da 
mais atroz aberrao, da "anormalidade" mxima da poca. Visto em retrospecto, tudo isso parece curioso e ingnuo. Mas era tambm perigosamente vazio. No basta 
saber contra o que estamos.  preciso saber a favor do que estamos. A definio de si mesmo como mero baluarte contra alguma coisa de natureza vaga  um alicerce 
frgil e escorregadio para nele se construir uma sociedade e dar-lhe sentido. No entanto, isso foi apresentado como o nico esteio disponvel para a nova f do materialismo 
orientado para o consumo. Na cultura ocidental do aps-guerra, no havia nenhuma energia criativa positiva em ao, nada para fornecer um senso abrangente de ordem 
e coerncia.
Em meados dos anos 60, o Ocidente encontrava-se tomado pela desordem, e seus valores (se valores havia) tinham cado em crescente descrdito. No mundo inteiro, movimentos 
nacionalistas haviam comeado a impressionar a conscincia popular e a desafiar o pressuposto de que a sociedade ocidental era "o que h de melhor". Os assassnios 
de John e Robert Kennedy e de Martin Luther King, ao pr a nu a precariedade das estruturas existentes, traumatizaram no s os Estados Unidos como todo o mundo 
ocidental. Uma gerao de jovens se revoltou, desafiando as idias preconcebidas dos mais velhos, proclamando sua desiluso contra o materialismo e se orgulhando 
das suas demonstraes de "anormalidade". A "anormalidade" deixava de ser "anormalidade" para se converter em "originalidade", "criatividade", "auto-expresso". 
As sublevaes sociais, desde os movimentos pelos Direitos Civis e contra a Guerra do Vietn nos Estados Unidos at a revolta estudantil de 1968 em Paris, puseram 
definitivamente  mostra a fragilidade e o vazio do consumismo materialista. A f do mundo do aps-guerra revelava no ter muito mais substncia do que a roupa nova 
do rei, na fbula.
Hoje, como durante o intervalo entre as duas guerras mundiais, a sociedade ocidental se v novamente em suspenso num limbo de incerteza. Mais uma vez, "tudo  relativo". 
Mais uma vez, no h direo positiva, as pessoas tm apenas uma nebulosa noo de que precisam "se virar" de algum modo e sobreviver; e isso passou a ser um fim 
em si mesmo. Mais uma vez, h crise de sentido. E a sensao subjacente de pnico  evidentemente intensificada por trs fatores no levados em conta antes, nas 
previses do futuro. Um deles  o perigo iminente de superpopulao, que parece mais ameaador a cada dcada. O segundo  a temida destruio do ambiente habitvel 
pela superindustrializao e a poluio. O terceiro  o espectro de um holocausto nuclear. Estes trs problemas projetam uma terrvel sombra sobre nossas vidas, 
uma sombra que efetivamente embaa, seno eclipsa, nossa crena no futuro, e sobretudo nossa viso do futuro. E, sem crena no futuro, somos empurrados de maneira 
ainda mais penosa para um presente cada vez mais catico. Assim arrastados de volta ao presente, comeamos a question-Io cada vez mais. E o presente no  capaz 
de responder satisfatoriamente a essas indagaes.
O resultado desse processo foi uma nova busca de sentido - de algo que possa, efetivamente, desempenhar a funo de uma religio, fornecendo propsito e direo. 
A religio organizada pouco se esforou para se mostrar  altura das circunstncias e preencher o vazio. Num nvel social, mantm-se bastante vigorosa, e s se pode 
aplaudir suas atividades humanitrias e filantrpicas. Mas atividades desse gnero no atendem s nossas necessidades internas. No que diz respeito a estas, a religio 
organizada parece em geral ter capitulado e abandonado a batalha.
Em alguns casos, ela permaneceu inerte, esttica, recusando-se a crescer, recusando-se a se adaptar e a se tornar apropriada para a poca, recusando-se a assumir 
a responsabilidade de propor princpios norteadores adequados para os problemas contemporneos. Assim, por exemplo, a Igreja Anglicana, j em condies bastante 
deplorveis, perde tempo e energia perseguindo maons e se enreda em tergiversaes tortuosas a respeito da ordenao de mulheres - precisamente quando poderia estar 
fazendo tantas coisas mais vlidas, e quando maons e sacerdotes mulheres s poderiam ajud-Ia nisso. Mas se a Igreja Anglicana est estagnada, a Igreja Catlica, 
sob o papa Joo Paulo II, tem-se mostrado em franco retrocesso. Durante os ltimos anos, Roma deu mostras de extrema obtusidade, tentando se entrincheirar por trs 
de valores superados que no apenas no se aplicam mais ao mundo contemporneo, mas impem um nus cada vez mais pesado  sua credibilidade e portanto  sua autoridade. 
Promulgar regras antiquadas, ignorando ao mesmo tempo questes relativas ao papel das mulheres, ao controle da natalidade e ao aborto,  perspectiva de superpopulao, 
 abdicar da sua prpria responsabilidade. Na verdade, a Igreja deixou de atender  sua congregao, deixou de cumprir suas obrigaes para com seu rebanho, de atend-Io 
no que ele necessita. Ao contrrio, est subordinando as necessidades dos fiis s suas prprias - ao seu programa de autopreservao e sobrevivncia. Nessa medida, 
no estapenas tornando seu rebanho cada vez mais vulnervel. Est tambm se lanando numa corrida autodestrutiva, num suicdio institucional.
No espanta que a sociedade ocidental, vendo-se diante dessa situao, tenha comeado a se voltar em outras direes, a procurar alternativas - alternativas que 
possam, de maneira mais efetiva que a religio organizada, responder  necessidade de sentido na sociedade contempornea. A natureza de algumas dessas alternativas 
revela o quanto essa busca  desesperada.

14
CONFIANA E PODER

Um dos componentes fundamentais de toda religio funcional  a confiana. Uma religio vlida deve servir de depositrio seguro de confiana. Deve tambm ser capaz 
de converter criativamente essa confiana na base da sua autoridade. S atravs do elemento confiana uma religio pode desempenhar sua misso de conferir sentido.
Temos uma necessidade instintiva, tanto individual quanto coletiva, de confiar - precisamos confiar a algum ou a alguma coisa certos aspectos da nossa natureza 
mais profunda. Na esfera mais intimamente pessoal, buscamos depositar nossa confiana na famlia, nos amigos, no cnjuge ou parceiro sexual, no psicanalista, no 
capelo, no padre confessor ou no cartomante. Mas a necessidade de confiar se estende tambm a esferas mais impessoais - a instituies de que dependemos ou que 
exercem um ou outro tipo de controle sobre nossas vidas. Empresas, exrcitos, governos, estruturas educacionais e religiosas so todos repositrios de confiana. 
E o diretor da empresa, o comandante militar, o chefe do Estado, o educador e o lder religioso tm de ser capazes de fazer jus  confiana no s de um indivduo, 
nem mesmo s de alguns, mas de muitos.
A natureza da responsabilidade, ou autoridade, conferida a essas figuras vai sem dvida variar. Um poltico, por exemplo, pode ser investido do poder de moldar o 
destino de um homem, mandando-o para a guerra, por exemplo; mas no necessariamente lhe ser confiada a carga de uma conscincia pesada. Uma religio, quando levada 
a srio, ser depositria de um espectro de confiana muito mais amplo do que qualquer outra instituio, uma vez que a sua autoridade abrange no somente esferas 
sociais e culturais como tambm a nossa vida interior - nosso sentimento de culpa, por exemplo, nossos mais secretos anseios e impulsos, nossas incertezas, nossos 
mais profundos temores e, por fim, nossa necessidade de sentido. Ao contrrio de um lder poltico, o padre ou o pastor podem oferecer a catarse do confessionrio, 
seja na forma ritual de um sacramento, como na Igreja Catlica, seja no quadro mais informal de outras religies.
O que tendemos a esquecer  que depositar confiana no  um processo passivo. Tendemos a falar, sem refletir a respeito, em "ato de confiana", e  isso, precisamente, 
que o processo de confiar envolve: um ato. Confiar  um processo ativo, no passivo. Algo  ativamente dado por uma parte e recebido por outra.
H uma correlao intrnseca, inescapvel, entre confiana e poder.  como se a confiana, no prprio ato de ser conferida, sofresse uma espcie de modificao qumica. 
Em conseqncia, o que comea como confiana ao deixar o doador  convertido em poder nas mos do receptor. Quando confiamos ativamente num indivduo, estamos dando 
a ele um grau de poder sobre ns. Se vinte pessoas realizam um ato semelhante de depositar confiana no mesmo indivduo, o poder deste cresce proporcionalmente. 
Quando 8 milhes de alemes depositaram ativamente sua confiana em Adolf Hitler, eles o estavam dotando de um imenso poder. De fato, o poder de Hitler - ou o poder 
do aiatol Khomeini, ou o de qualquer outro demagogo - pode ser definido simplesmente como a confiana ativamente depositada nele por uma multido de pessoas.  
impossvel fugir a esta inter-relao entre confiana e poder.
Trs perguntas-chave emergem naturalmente. A primeira : de que modo a confiana  adquirida em dada situao?  genuinamente merecida? Ou  obtida por algum outro 
meio - pelo embuste, por exemplo, ou por extorso? Alguns dos "grandes homens" da Histria, como, digamos, Abraham Lincoln, inspiram uma espcie de afeio respeitosa 
e em geral se considera (com razo ou no) que eles mereciam a confiana neles depositada. Outros, como Bismarck, indubitavelmente conquistaram confiana por meios 
mais duvidosos.
A segunda pergunta-chave diz respeito  natureza da confiana envolvida em dada situao. At onde ela se estende? Entre figuras pblicas que recebem a confiana 
de grandes nmeros de pessoas esto comandantes militares, polticos e lderes religiosos. Em geral, a natureza da confiana depositada em cada uma dessas categorias 
de lderes ser bastante diferente. Um catlico fervoroso, por mais patritico que seja, no v o governante de seu pas como v o Papa. Por outro lado, h exemplos 
ocasionais - o de Hitler, por exemplo, ou o de Khomeini - em que muitos diferentes tipos de confiana se fundem num s, por assim dizer. O resultado - no caso de 
Hitler ou no aiatol, ou ainda, h um sculo, no de Mahdi - ser em geral um personagem de propores messinicas.
A terceira questo-chave, evidentemente,  o que, precisamente, o receptor da confiana faz com o poder de que  beneficirio. Emprega-o para dar em troca e beneficiar 
os que assim o dotaram, ou os explora como meros pees num jogo ambicioso de interesses pessoais? No caso de Gandhi, ou de Martin Luther King, a confiana, quando 
convertida em poder, teve um uso muito diferente daquele que Stalin lhe deu.
A busca contempornea de sentido acarreta a busca de algum ou alguma coisa que merea receber o mais amplo espectro de confiana -em outras palavras, a busca de 
um princpio religioso. Ao fracassar em atribuir sentido, a religio organizada ou institucionalizada fracassa tambm em inspirar confiana; e, ao ser incapaz de 
inspirar confiana, torna-se cada vez mais impotente.  esta, obviamente, a situao hoje reinante no tocante  religio organizada. A conseqncia  que o grau 
de confiana que ela recebe diminuiu, enquanto mdicos, psiquiatras, polticos e vrios outros repositrios de confiana reivindicam fatias cada vez maiores do bolo.
O papado medieval, ou a Igreja Anglicana no sculo XVII, ou a f dos puritanos que fundaram os Estados Unidos exerceram, todos eles, um poder muito real, que abrangia 
todos os aspectos da vida das pessoas, desde assuntos de conscincia pessoal at negcios de Estado de grande alcance. Em parte por causa de abusos passados, o poder 
de seus equivalentes modernos  inteiramente nominal ou simblico, quando existe. O resultado foi que Deus passou a ter cada vez mais poder sobre cada vez menos, 
de tal modo que ficamos cada vez mais incertos quanto ao que significa exatamente sua suposta "onipotncia". A polcia, os tribunais e os governos podem cortar fora 
orelhas e membros, prender e torturar, confiscar propriedades, impor sentenas de morte - no em nome de Deus e sim em nome do cdigo penal, do partido, do Estado 
ou mesmo de uma frmula to vaga como "segurana nacional". Enquanto isso, Deus est reduzido a desfechar um iracundo raio ocasional contra uma infeliz catedral.

O Abuso da Confiana

Por que meios indivduos e/ou instituies adquirem a confiana dos que se tornam seus adeptos? Evidentemente, no contexto deste livro, no  possvel examin-Ios 
de maneira abrangente, e nem mesmo superficial. Vale a pena, porm, ressaltar algumas tcnicas especficas, por causa do modo como podem ser usadas na insuflao 
do impulso religioso.
Uma dessas tcnicas  o uso deliberado da intimidao e do medo. O mecanismo  bastante conhecido e requer pouca explicao. Um inimigo generalizado  postulado 
- como Sat, o Anticristo, o comunismo, o fascismo. Faz-se ento com que esse inimigo parea cada vez mais invasivo, cada vez mais monstruoso em suas propores, 
cada vez mais ameaador a tudo que  caro s pessoas - a famlia, a qualidade de vida, a ptria. Tendo gerado pnico suficiente, basta apresentar a si mesmo ou  
prpria instituio como um baluarte, um bastio, um refgio, um porto seguro. As chamadas "lies da histria" j deveriam nos ter ensinado, a esta altura, a desconfiar 
desses truques. No entanto, sua permanente eficcia  demonstrada por uma simples olhadela no mundo de hoje. Vivemos num mundo de rtulos e slogans, a maioria dos 
quais denota ou um suposto terrvel adversrio ou um suposto bastio de salvao contra ele.
Ao mesmo tempo, h estratagemas mais sutis. Polticos, por exemplo, costumam apelar para a razo ou para o bom senso - ou, muitas vezes, para o que pretende passar 
por razo ou bom senso. Costumam tambm, como todos sabem, ser prdigos em promessas. Essas promessas tm por alvo especificamente as expectativas e as necessidades 
das pessoas, e com freqncia tm pouca ou nenhuma probabilidade de serem cumpridas. Mesmo assim, tais promessas denotam o reconhecimento dessas expectativas e necessidades. 
E esse reconhecimento, com muita freqncia,  por si s suficiente. A promessa no precisa necessariamente ser cumprida. Na verdade, h uma aceitao geral de que 
pode ser descumprida, e em geral quem a sustentou no  chamado para explicar o descumprimento. O reconhecimento das necessidades e expectativas, implcito na promessa, 
 considerado prova suficiente de boa inteno. Estamos to desiludidos que um mero sinal de boa inteno no s nos satisfaz como nos proporciona um repositrio 
de confiana.
 um trusmo hoje que a poltica moderna se apia pesadamente na mdia. Na prtica, o que isso significa  que a poltica moderna depende da sua habilidade de usar 
o potencial da mdia para fazer publicidade. Durante o ltimo quartel de sculo, tornou-se cada vez mais patente que a conquista da confiana  em grande medida 
uma questo de promoo, publicidade e relaes pblicas. Idias, programas e polticos so apresentados hoje da mesma maneira que mercadorias. Em outras palavras, 
tm que ser "vendidos". Para esse fim, todas as tcnicas da publicidade so habilmente aplicadas, entre elas numerosas tcnicas de manipulao psicolgica.
H um risco,  claro, em reduzir a poltica ao nvel da publicidade. Estudos recentes mostram que telespectadores equipados com aparelhos de controle remoto tendem 
a mudar de canal, ou a tirar o som, durante os intervalos comerciais. Isto gerou certo alarme na indstria de publicidade e, ao que se diz, vrias "medidas defensivas" 
esto sendo discutidas. Ainda assim, a concluso inevitvel desses estudos  que os telespectadores acham grande parte dos comerciais de televiso enfadonhos, tolos 
ou mesmo francamente repulsivos. Os consumidores de bom nvel intelectual- e este  o caso da maioria dos consumidores atualmente - tendem a ser mais sofisticados 
do que supe a indstria da publicidade. No se deixam seduzir, engambelar ou persuadir to facilmente. Ao contrrio, tendem a ser cticos; e, se compram determinado 
produto,  pouco provvel que o faam por estarem genuinamente convencidos pelas afirmaes da publicidade. Fazer poltica no nvel da propaganda  fomentar um ceticismo 
semelhante nesse terreno. As pessoas podem votar por preguia, por curiosidade, por desejo de novidade. Mas o poder e o mandato adquiridos dessa forma sero muito 
diferentes do poder e do mandato fundados na confiana.
Por outro lado,  preciso admitir que as tcnicas de publicidade alcanaram alguns xitos notveis, ainda que questionveis. Nem todos esses xitos so de natureza 
poltica. Nos Estados Unidos, como veremos, tambm a religio est sendo vendida como laqu, desodorante ou chiclete. A salvao  mascateada pela televiso como 
se fosse uma espcie de flor espiritual, uma proteo garantida contra a degradao moral. As pessoas podem se salvar pelo reembolso postal ou por uma passada numa 
Igreja drive-in. Essas inovaes no produzem apenas certo grau de confiana. Tambm atraem fabulosas somas de dinheiro. Mais adiante, neste livro, tentaremos avaliar 
at que ponto elas cumprem a funo de conferir sentido - isto , avaliar se podem ser qualificadas como religies em algum sentido vlido, ou se so alguma outra 
coisa.

Ritual e Conscincia

Se o homem tem um desejo inato de confiar, tem tambm uma propenso inata a duvidar, a mobilizar seu intelecto e suas faculdades crticas a servio do ceticismo. 
Ao faz-lo, afirma sua individualidade, o sentido da sua prpria singularidade. Ao longo dos sculos, a religio procurou neutralizar a tendncia do homem ao ceticismo, 
anestesiando-lhe o intelecto, por assim dizer, apaziguando-o ou at subjugando-o. Para esse fim, muitas vezes se empreende um ataque aos sentidos. Luz, cor, som, 
aroma so empregados com tal intensidade que a conscincia de qualquer outra realidade fica efetivamente obliterada. Uma fascinante combinao de chamas tremeluzentes, 
cores, cnticos, repetio, efeitos rtmicos, fumaa de incenso  utilizada de maneira bastante deliberada para criar uma atmosfera geral de enlevo, uma dimenso 
divorciada da esfera mundana, uma qualidade de "encantamento". Na verdade, algumas dessas tcnicas operam de maneira bastante sutil. Pesquisas mostraram, por exemplo, 
que se as batidas de um tambor forem sincronizadas com as batidas do corao e depois aceleradas, sero acompanhadas pelo ritmo cardaco. Assim - como alguns astros 
do rock descobriram pelo menos desde os anos 60 - se produz excitao.
Tudo isso,  claro,  ritual. Sua funo  criar um estado mental essencialmente semelhante ao transe, ou a uma hipnose leve. Num tal estado, a auto-percepo do 
indivduo  mesmerizada, tornando-se inerte. Ele pode ento se deixar absorver por algo maior - a congregao ou a multido, a idia, a atmosfera, os valores que 
esto sendo promulgados. Muitas vezes, essa sensao de se libertar de si mesmo, de ser absorvido por uma outra entidade, gera uma excitao to intensa que se entra 
em xtase. Em sua dinmica psicolgica, seno necessariamente em seu contedo, esse xtase tem muito em comum com a chamada "experincia religiosa", ou "experincia 
mstica".  claramente isso que podemos ver em ao nos encontros evanglicos, por exemplo, quando as pessoas entram num estado de enlevo e comeam a "falar lnguas", 
ou caem em pranto, ou so tomadas por ataques epileptiformes.  isso que as seitas ou cultos de quase todas as religies praticam. Numa forma mais estruturada, controlada, 
regulada e cenicamente calculada, foi isso que caracterizou os comcios do Terceiro Reich em Nuremberg. Numa forma menos estruturada, muito mais imprevisvel,  
o que ocorre em muitos concertos de rock. Basta lembrar os efeitos inicialmente produzidos por Elvis Presley, os Beatles ou os Rolling Stones - a gritaria, o xtase 
beatifico, o frenesi, os desmaios.
Esses estados mentais envolvem uma alterao temporria, ou mesmo um apagamento, da conscincia. Como Adolf Hitler, o astro do rock atua como um xam, provocando 
uma forma de experincia religiosa em seu pblico. Na verdade, essa  uma manifestao do flautista mgico da lenda. E, como este, pode empregar seu poder para o 
bem ou para o mal. No incio da histria, o flautista  uma figura positiva, que livra a aldeia de Hamelin de seus ratos, atraindo-os para o rio com sua msica. 
No final, porm, revela-se demonaco, atraindo para a morte no mais os ratos e sim as crianas da aldeia. Hitler ilustra a ltimo trecho da histria. Muitos astros 
do rock desejam ilustrar o primeiro - embora, como no concerto dos Rolling Stones em Altamont, Califrnia, em 1969, o feitio possa se virar contra o pretenso feiticeiro.
Um ataque ao intelecto e aos sentidos pode induzir um estado de xtase religioso. Em algumas seitas islmicas, os nomes de Deus so ritmadamente recitados vezes 
sem fim, at que se tornem vazios de significado, meros sons que obnubilam a conscincia. Esse tipo de efeito pode ser produzido por uma cantilena ritmada, quer 
as palavras sejam "Jesus salva", ou "Aqui vamos ns, aqui vamos ns"... ou "Sieg Hei/". O estado mental resultante pode ser descrito como um estado de "porosidade", 
graas ao qual dados so assimilados, e reaes emocionais despertadas sem passar pelo filtro do aparelho crtico do intelecto. A renncia a esse aparelho crtico 
- o auto-abandono ou auto-abdicao temporria nela envolvidos -  um exemplo particularmente impressionante do ato de confiana. No estado mental que acabamos de 
descrever, a confiana  ativamente dada e recebida, e essa operao pode ser percebida no apenas pelos que nela esto envolvidos como por um observador neutro.
Era exatamente esse tipo de alterao de conscincia que o xam de uma "sociedade primitiva" procurava induzir; e quanto mais capaz de faz-lo se mostrasse, mais 
profundamente era venerado. Em culturas posteriores, sacerdotes de todas as religies tentaram provocar a mesma alterao de conscincia, e at hoje o fazem. O mesmo 
fazem certos idelogos e demagogos. O mesmo fazem militares.
O valor desse estado  que ele transforma temporariamente a mente numa tbula rasa, uma folha em branco. Toda a programao anterior  momentaneamente apagada. Isso 
pode no ter importncia especial para o astro do rock, mas tem para o lder religioso, o poltico ou o militar. Para ele, trata-se de uma oportunidade de, por assim 
dizer, introduzir no indivduo um "novo programa", que o deixar transformado em algum grau. Esse novo programa pode constituir o que em geral se chama converso 
religiosa. Pode tambm constituir uma forma de lavagem cerebral.
A questo seguinte, evidentemente,  a natureza do "novo programa" introduzido. No caso do militar, o "novo programa" consiste num cdigo de comportamento, uma srie 
de respostas e reaes reflexas, um nmero limitado de atitudes numa esfera rigorosamente circunscrita. No caso do lder poltico ou religioso, o "novo programa" 
pretende ser muito mais abrangente. Por vezes incluir uma resposta mais ou mesmo vivel, mais ou menos exeqvel- para a necessidade de sentido. Outras vezes, apenas 
distrair dessa necessidade.

Arqutipo e Mito

Vale a pena ressaltar uma outra tcnica que, ao longo dos sculos, foi usada para despertar confiana e responder - ou tentar responder  necessidade de sentido. 
 uma tcnica to antiga quanto o ritual, mas muito mais sutil. Por essa razo, foi de especial valia no s para instituies religiosas e polticas como tambm 
para organizaes como a maonaria, as vrias corporaes rosa-cruz... e o Prieur de Sion. Ela envolve o uso de smbolos de um modo que podemos definir - para usar 
a terminologia junguiana - como "ativao e manipulao de arqutipos".
 impossvel expor neste trabalho, mesmo de maneira sumria, uma sntese do pensamento de Jung. Para os nossos objetivos, ser suficiente definir a natureza e a 
funo do que Jung chamou de "arqutipos". Segundo ele, um "arqutipo"  uma experincia - ou padro de experincia - bsica, comum a toda a humanidade - uma experincia 
ou padro de experincia que os homens partilham desde tempos imemoriais. Assim definidos, os arqutipos e padres arquetpicos nos so bastante familiares. Na verdade, 
tendemos a considerar a maioria deles como bvios. Eles incluiriam eventos como o nascimento, a puberdade, a iniciao sexual, os traumas de guerra, o ciclo das 
estaes, bem como conceitos mais abstratos - o medo e o desejo, o anseio por uma "ptria espiritual" e,  claro, a prpria busca de sentido que estamos discutindo.
Como esses arqutipos formam a base das facetas mais elementares e primevas da natureza humana, seu significado muitas vezes desafia os recursos da linguagem. A 
linguagem  um produto do intelecto e da racionalidade; os arqutipos e os padres arquetpicos transcendem o intelecto e a racionalidade. Em conseqncia,  em 
geral por meio de smbolos que eles encontram sua expresso mais direta, porque um smbolo no faz apelo apenas ao intelecto, despertando ressonncias de nveis 
mais profundos da psique - daquilo que o psiclogo chama de "o inconsciente". Por isso mesmo, os smbolos sempre tiveram suprema importncia, no s para o sacerdote 
e o lder religioso como para o artista, o poeta e o pintor - especialmente quando estes ltimos assumem uma postura sacerdotal.
H, evidentemente, muitos nveis de smbolo. Cada indivduo, por exemplo, tem seus prprios smbolos pessoais - imagens associadas  sua prpria experincia singular 
e ntima. Assim, podemos ver determinada flor ou determinada pedra como uma espcie de talism; podemos preservar uma lembrana de uma pessoa amada; podemos guardar 
um trofu ganho numa competio esportiva como emblemtico de um triunfo ou conquista. H tambm smbolos culturais e nacionais mais generalizados - a antiga flor-de-lis 
da Frana, a cruz de Lorena adotada por Charles de Gaulle para as foras francesas livres durante a Segunda Guerra Mundial, a sustica nazista, a guia dos Estados 
Unidos. Determinadas pessoas podem tambm funcionar como smbolos coletivos. ]oana d' Arc, por exemplo,  muitas vezes tomada como a personificao de uma qualidade 
essencial da Frana, assim como o rei Artur da Inglaterra, El Cid da Espanha.
Os smbolos arquetpicos tm um quadro de referncia ainda mais amplo. Pertencem no s a indivduos mas  humanidade como um todo. A fnix, por exemplo, com sua 
sugesto de morte e renascimento,  um smbolo arquetpico caracterstico. O mesmo se pode dizer do unicrnio, tradicionalmente associado  pureza virginal e  iniciao 
mstica. O paraso da tradio crist, o Valhala das antigas tribos teutnicas, as ilhas dos abenoados na lenda cltica e os campos elseos dos gregos simbolizam 
essencialmente um mesmo arqutipo, ou um mesmo anseio arquetpico. Padres arquetpicos so tambm freqentem ente simbolizados por figuras antropomrficas - o heri, 
o viajante, a donzela perseguida, a femme fatale, os amantes unidos na morte, os irmos ou gmeos em luta, o deus que morre e revive, a velha sbia, o eremita na 
floresta ou no deserto, o alimento sagrado tocado por deus, o rei perdido ou esbulhado. Essas figuras encarnam princpios de pertinncia universal, aplicveis a 
todas as culturas e todas as pocas. Por vezes aparecem disfaradas, com caractersticas superficiais de determinada poca, mas sob a aparncia externa permanecem 
essencialmente as mesmas. Assim, por exemplo, o bandido virtuoso, como apresentado no filme, Bonnie and Clyde, de Arhtur Penn,  uma verso do sculo XX de uma figura 
muito mais antiga: Robin Hood. Assim tambm Kojak, ao "limpar" Manhattan, nada mais  que uma variao contempornea de Wyatt Earp "limpando" Dodge City; e Wyatt 
Earp, por sua vez,  uma derivao do cavaleiro andante medieval. O cavaleiro andante dos nossos dias j no anda a cavalo.
Dirige um automvel. Mas o padro bsico de suas condutas  essencialmente o mesmo de sculos atrs. Hoje a cidade moderna  a selva, a fronteira arriscada, a floresta 
encantada e traioeira, em que monstros - humanos ou no - armam emboscadas e o perigo espreita em cada trilha escura. Tendo destrudo as fronteiras e as florestas 
do passado, passamos a criar novas, no prprio mago de nossa civilizao. Sob as roupagens de determinada poca, porm, reside algo de perene - um smbolo ou imagem 
arquetpica que, por assim dizer, "reencarna" atravs dos sculos.
Smbolos podem operar isoladamente ou em conjunto. Uma cerimnia religiosa, por exemplo, envolve freqentemente uma multiplicidade de smbolos, que atuam harmonicamente, 
produzindo um conjunto de efeitos. Quando organizados numa narrativa coerente, ou num enredo, os smbolos se tomam o que chamamos "mito". A palavra "mito" no deveria 
ser usada no sentido de "fico" ou "fantasia", como j foi costume. Ela implica, ao contrrio, algo extremamente mais complexo e mais profundo. Os mitos no foram 
criados simplesmente para entreter e divertir, mas para explicar as coisas - para justificar a realidade. Para os povos do mundo antigo - babilnios e egpcios, 
celtas e teutes, gregos e romanos -, mito era sinnimo de religio e, como na Igreja Catlica da Idade Mdia, abrangia o que hoje classificamos como cincia, psicologia, 
filosofia, histria, todo o espectro do conhecimento humano. Com base nisso, podemos defini-lo como toda tentativa sistemtica de explicar ou justificar a realidade, 
passada ou presente. Por essa definio, todo sistema de crenas - cristianismo, darwinismo, marxismo, psicologia, teoria atmica - pode ser classificado como um 
mito, e a palavra no implica nenhum descrdito, nenhuma diminuio. Todos os sistemas de crena surgem e se desenvolvem para o mesmo fim: elucidar "a ordem das 
coisas", dar sentido ao mundo.
A mitologia clssica era a cincia, a psicologia e a filosofia do seu tempo, e estaremos sendo ingnuos se pensarmos que a cincia, a psicologia e a filosofia do 
nosso prprio tempo no so igualmente formas de mito e no sero vistas como tais em algum momento no futuro.
Como os smbolos que o compem, um mito, dependendo dos aspectos que enfatize, pode ser pessoal, arquetpico, ou se situar em qualquer ponto entre uma coisa e outra, 
sendo por exemplo nacional, ou tribal. O mito pessoal dispensa comentrios. Todo homem tem sua prpria explicao, implcita ou explcita, da realidade. Todo homem 
tem experincias e aventuras que, especialmente na memria, assumem propores mticas - episdios da infncia, por exemplo, antigos casos de amor, travessuras na 
escola. O estofo da nostalgia  com muita freqncia o estofo do mito. A distncia, tanto no tempo quanto no espao,  freqentemente um fator decisivo no processo 
de fabricao do mito. Por isso, todos ns mitificamos nosso prprio passado - nossa infncia, nossos pais, as figuras que envolviam nossas vidas muito tempo atrs. 
Tendemos tambm a mitificar coisas, lugares e pessoas de que estamos separados pela distncia geogrfica, por uma separao forada ou pela morte. Todos conhecem 
o relevo que amigos ou pessoas amadas ausentes chegam a assumir na nossa mente. Com freqncia elas so reduzidas a uma total simplicidade, num processo em que as 
complexidades desaparecem e acabamos por nos lembrar apenas de alguns traos marcantes que despertam forte reao emocional. Num nvel coletivo, figuras como John 
F. Kennedye Marilyn Monroe gozaram de uma condio mtica mesmo quando vivas. Em virtude de sua morte, sofreram uma transformao radical e sua condio mtica foi 
aumentada, intensificada.
A maioria dos mitos coletivos tem tanto um aspecto arquetpico quanto um aspecto puramente tribal. Qualquer deles pode ser enfatizado em detrimento do outro, e o 
prprio mito torna-se ento arquetpico ou tribal. Um mito arquetpico, como os smbolos arquetpicos que incorpora, reflete certas constantes universais da experincia 
humana. Seja qual for a sua origem especfica no tempo ou no espao, um mito arquetpico transcender esses fatores e remeter a alguma coisa partilhada pela humanidade 
como um todo. Uma virtude singular do mito  que ele pode ser usado para unir pessoas, ao ressaltar o que elas tm em comum. Os aspectos arquetpicos do cristianismo 
- por exemplo, a idia de um salvador, divino ou no, que se martiriza para conceder um prmio espiritual ao seu povo - podem comover tanto cristos como no-cristos. 
Na verdade, foi precisamente atravs do relevo dado a esses aspectos arquetpicos que o cristianismo, nas mos de seus missionrios, conseguiu se implantar em sociedades 
to exticas como o Mxico e o Japo do sculo XVI.
Os mitos tribais, em contrapartida, enfatizam no o que os homens tm em comum, mas o que os separa. Os mitos tribais no remetem aos aspectos universais e partilhados 
da experincia humana. Ao contrrio, servem para louvar e exaltar uma tribo, cultura, povo, nao ou ideologia especficos - e isso, necessariamente, em detrimento 
de outras tribos, culturas, povos, naes e ideologias. Em vez de levar  confrontao consigo mesmo e ao auto-reconhecimento, os mitos tribais apontam para fora, 
para a auto-glorificao e o ufanismo. Esses mitos extraem seu mpeto e energia da insegurana, da cegueira, do preconceito... e da inveno deliberada de um bode 
expiatrio. Como carecem de substncia prpria, precisam fabricar um adversrio externo a enfrentar - um adversrio que deve ser aumentado para que se possa lanar 
sobre suas costas tudo que se quer repudiar e projetar fora de si mesmo. Os mitos tribais refletem uma incerteza profundamente arraigada quanto  identidade interna. 
Definem uma identidade externa por meio do contraste e da negao. Assim, o branco passa a ser identificado como tudo que no  preto, e vice-versa. Tudo que o inimigo 
, ns no somos. Tudo que o inimigo no , somos.
Ao longo de toda a histria, as religies se valeram de mitos tanto tribais como arquetpicos. Ou melhor, usaram essencialmente o mesmo mito, enfatizando seus aspectos 
tribais ou arquetpicos, para gerar confiana e, em troca, conferir sentido ou pelo menos uma aparncia de sentido. O sentido conferido pelo mito arquetpico pode 
muitas vezes ser ao mesmo tempo vlido e vivel - como, por exemplo, quando a Igreja assume a condio arquetpica de "me" e desempenha o papel materno de curar, 
reconciliar, prover abrigo, refrigrio e compaixo. Em contrapartida, o aparente sentido fornecido pelo mito tribal  o mais das vezes esprio -  menos um sentido 
do que uma distrao ou derivativo da ausncia de sentido. Assim, durante as cruzadas, ou as guerras contra o protestantismo, a Igreja Catlica enfatizou os aspectos 
tribais de sua doutrina, definindo-se basicamente a partir do seu adversrio proclamado, transformando o "infiel" ou o "herege" num bode expiatrio. O que a Igreja 
ofereceu nesses casos no foi sentido mas, na melhor das hipteses, um paliativo para a falta de sentido e, na pior, um mero pretexto para a atrocidade, a conquista 
e a pilhagem. Quando opera nesse nvel do mito tribal, a religio perde por completo seu carter de religio, toma-se uma pseudoreligio.

O "Final dos Tempos" como um Arqutipo

Um dos motivos simblicos e mticos de mais forte ressonncia  o do apocalipse. Ele surge com freqncia na histria da maioria das grandes religies do mundo e 
 usado de diversos modos. Por vezes  empregado arquetipicamente - para induzir, como uma preliminar para o Juzo Final, o exame de conscincia e a auto-avaliao, 
seja de um indivduo ou de uma cultura. Por vezes  apresentado como explicao para os mais variados males, reais, imaginrios ou previstos. Por vezes  usado para 
intimidar as pessoas, para tirar proveito de sua culpa, quebrar sua resistncia e arrancar confiana. Por vezes  utilizado de maneira cruamente tribal, como instrumento 
para criar uma pretensa elite dos que asseguraram sua "salvao", em contraste com a massa dos "condenados". Por vezes chega mesmo a servir de pretexto para a perseguio 
dos supostos "condenados".
Discutimos na Parte I como o arqutipo do apocalipse, ou do "final dos tempos", foi explorado no sculo I - na poca em que viveram Jesus e seus irmos - e o quanto 
um arqutipo como esse pode ser poderoso quando insuflado e manipulado. Como veremos, essa fora tem considervel relevncia para o mundo contemporneo. Caso a atual 
necessidade de sentido do homem possa ser atendida apenas pelo arqutipo do apocalipse iminente, e caso esse apocalipse deva ser entendido literalmente, as implicaes 
so realmente graves.

A Sociedade Secreta como um Arqutipo

Um segundo arqutipo que merece destaque  o que poderamos chamar de cabala, ou a "junta invisvel", ou, para lhe dar seu nome mais popular, a sociedade secreta. 
 possvel encontr-la no mundo todo, em todas a culturas, em todas as pocas. Em geral, a sociedade secreta se caracteriza como um conclave de titereiros, um crculo 
clandestino de pessoas que trabalham nos bastidores para o bem ou para o mal, manipulando os outros, orquestrando eventos, fazendo presso, puxando cordes, "fazendo 
as coisas acontecerem". Na tradio esotrica judaica, por exemplo, h os doze (ou cerca disso, o nmero varia) sbios ou "homens virtuosos" que permanecem desconhecidos 
pela multido, que esto espalhados pelo mundo e cuja retido agrada tanto a Deus que  o nico fator que O convence a manter o cosmo intacto. Em outras palavras, 
so eles que, com seu poder, sustentam a realidade. Em certas formas de budismo, assim como na teosofia e na antroposofia, funo anloga  desempenhada pelos chamados 
"mestres secretos". Dotados de um poder e uma sabedoria sobrenaturais, eles reencarnariam a cada poca e supostamente residiriam numa cidade mstica no Himalaia.
Evidentemente, estas so verses extremas do tema. Outras mais atenuadas podem ser encontradas nas prprias instituies religiosas. Todo clero, por exemplo,  uma 
cabala ou sociedade secreta mais ou menos organizada. E todo clero tem seu prprio clero interno, ainda mais secreto. Assim, por exemplo, existe a ordem interna 
dos jesutas, a hierarquia misteriosa que orienta a congregao em seu conjunto e  considerada detentora de um poderoso segredo. At muito recentemente, o mais 
impressionante exemplo de cabala dentro do catolicismo era o Santo Ofcio - isto , a Inquisio. Hoje, a mstica associada tanto  ordem interna dos jesutas como 
ao Santo Ofcio foi, at certo ponto, apropriada pela Opus Dei, a forte e nebulosa organizao que hoje controla a Rdio Vaticano, possui vultosos investimentos 
fundirios e empresariais por todo o mundo ocidental e mantm uma rede de escolas cujos princpios drsticos foram tema de uma reportagem da BBC. Alm disso, h 
tambm ocasies - como a eleio de um novo papa - em que a prpria Cria assume o papel de uma cabala.
O elemento cabalstico associado aos Templrios  talvez a fonte primordial do fascnio que eles exercem sobre muita gente at hoje, quase oito sculos depois da 
sua dissoluo. O poder psicolgico da cabala como arqutipo  ilustrado pelos membros originais da RosaCruz no incio do sculo XVII. Eles - fossem quem fossem 
- anunciavam sua existncia "invisvel" atravs da publicao de panfletos incendirios. Sua existncia histrica como organizao ainda no foi satisfatoriamente 
elucidada. Seja como for, a crena em sua existncia foi suficiente para gerar uma onda de histeria por toda a Europa - e, como afirmou Frances Yates, para desempenhar 
um papel decisivo no desenvolvimento do pensamento, da cultura e das instituies polticas do sculo XVII. H ainda,  claro, a franco-maonaria, provavelmente 
o exemplo supremo de cabala arquetpica nos sculos XVIII e XIX. A maonaria no funcionava como cabala apenas junto aos no membros. Dentro das prprias fileiras 
da confraria, a hierarquia especialmente ao culminar em "superiores desconhecidos" - formava uma cabala dentro de uma cabala, uma pirmide enigmtica cujo pice 
estava envolto em nuvens.
O arqutipo da cabala desempenha um papel particularmente importante na sociedade ocidental contempornea. Est presente onde quer que o homem moderno busque encontrar 
uma conspirao clandestina, para o bem ou para o mal - na mfia, na maonaria (de novo), no governo e nos partidos polticos, nas atividades do terrorismo internacional, 
nas instituies das altas finanas, em organizaes como a Comisso Trilateral e o Bilderburg.  particularmente bvio nas modernas agncias de informao. As iniciais 
MI5 e M16, a CIA e a KGB bastam para evoc-lo. Elas denotam verdadeiras sociedades secretas, no sentido estrito da expresso. Mas a mstica cabalstica de que esto 
revesti das as torna tanto mais secretas quanto mais influentes. Os servios de informao atuais tornaram-se uma espcie de bicho-papo, cuja simples meno  capaz 
de atemorizar ou manipular grupos inteiros de pessoas, como se fossem crianas.
A partir desses exemplos  possvel depreender certas caractersticas da cabala como arqutipo. Acima de tudo, a cabala  organizada,  secreta e  pelo menos considerada 
poderosa. Se  de fato poderosa ou no, em ltima anlise no vem ao caso. Pode se tornar poderosa simplesmente em virtude da crena das pessoas em seu poder. Algumas 
cabalas - os servios de informao, por exemplo - detm inquestionavelmente um poder muito real, que  aumentado pelas crenas que as pessoas alimentam a seu respeito. 
Outras podem no ter qualquer poder alm do que lhes  atribudo - mas isso, por si s, lhes confere considervel fora. No incio do sculo XIX, certos personagens 
- como Charles Nodier, apontado como gro-mestre do Prieur de Sion na poca, e Filippo Buonarroti, um exmio conspirador que foi muito admirado por homens como 
Bakunin - houveram por bem inventar e disseminar informaes sobre algumas sociedades secretas inteiramente fictcias. Eram informaes to plausveis que pessoas 
inteiramente inocentes se viram molestadas e perseguidas sob a alegao de pertencerem a elas. Diante dessa perseguio, as vtimas, numa tentativa de autodefesa, 
comearam a se organizar numa sociedade secreta verdadeira, estruturada nos moldes da fictcia. Assim o mito gerou uma realidade.  esse o poder prtico de um arqutipo 
posto em andamento.
Obviamente, a cabala pode ser percebida como sinistra, louvvel ou ambas as coisas, segundo o grau em que seus objetivos coincidem com os objetivos de quem a avalia. 
Em qualquer dos casos, ela no deixa de exercer um fasanio e em geral desperta tambm algum tipo de reao emocional. Quando acontece de estarmos "do mesmo lado" 
que a cabala, sua existncia, ou mesmo sua suposta existncia, pode ser imensamente tranqilizadora. Quando acontece de estarmos "do lado oposto", ela provoca uma 
reao ainda mais forte, porque nesse caso alimenta nossa parania - e a parania com relao a cabalas e conspiraes tornou-se uma das modas psicolgicas e culturais 
do nosso tempo. (No que essa parania carea sempre de fundamento. Ao contrrio, este sculo nos ensinou muito bem do que  capaz um conclave pequeno e bem organizado 
trabalhando nos bastidores; e temos razo para desconfiar de qualquer concentrao de poder nas mos de tais conclaves - especialmente quando no sabemos como esse 
poder  usado.)
No entanto, mesmo que seja percebida como hostil, a cabala freqentemente possui um elemento tranqilizador. Por qu? Em parte porque  mais confortante pensar que 
as complicaes e perturbaes nos negcios humanos, pelo menos, so criadas por seres humanos, no por fatores acima do nosso controle. A crena numa cabala  um 
estratagema que nos reassegura que certas ocorrncias no so aleatrias e sim ordenadas - e ordenadas por uma inteligncia humana. Isso as toma compreensveis e 
potencialmente controlveis. Se uma seqncia de eventos pode ser atribuda a uma cabala, h sempre a esperana, por mais tnue que seja, de que  possvel sustar 
o poder da cabala - ou aderir a ela e partilhar desse poder. Finalmente, a crena no poder da cabala  uma afirmao implcita da dignidade humana uma afirmao 
muitas vezes inconsciente, mas necessria, de que o homem no  totalmente impotente e sim responsvel, pelo menos em certa medida, pelo seu prprio destino.
Em parte, este livro  sobre uma cabala - o Prieur de Sion. O que faz a importncia do Prieur e o distingue de muitas outras cabalas contemporneas  a sua profunda 
compreenso, e utilizao, exatamente dos mecanismos que descrevemos at agora. A medida que fomos conhecendo o Prieur em nossas pesquisas, deparamo-nos com uma 
organizao que, com plena conscincia do que est fazendo - e de fato segundo um projeto deliberado -, insufla, manipula e explora arqutipos. No s trafica com 
arqutipos conhecidos e tradicionais - o tesouro escondido, o rei perdido, o carter sagrado de uma linhagem, um assombroso segredo transmitido ao longo dos sculos. 
De maneira bastante deliberada, o Prieur de Sion usa tambm a si mesmo como um arqutipo. Procura orquestrar e regular as percepes que o pblico externo tem dele 
como uma cabala arquetpica - seno, de fato, como a cabala arquetpica. Assim, se a natureza e a extenso do seu poder social, econmico e poltico podem permanecer 
cuidadosamente veladas, sua influncia psicolgica pode ser ao mesmo tempo discernvel e substancial. Consegue dar a impresso de ser o que as pessoas pensam que 
, porque compreende a dinmica
pela qual impresses desse tipo se transmitem. Como ficar claro, estamos lidando neste caso com uma organizao de extraordinria sutileza e sofisticao psicolgica.

15
O ARTISTA COMO SACERDOTE, O REI COMO SMBOLO

Desde o sculo passado e mesmo antes, a religio tem sofrido golpes cada vez mais graves em sua credibilidade. Mas o senso religioso, o senso do "sagrado", do "numinoso", 
de um padro coerente que transcende nossa experincia - permanece essencialmente intacto para boa parte das pessoas. Os tradicionais guardies do "espiritual" podem 
ter perdido a confiana que neles era depositada, ou se mostrado indignos dela. Podemos at ter adquirido a preocupao de s usar a palavra entre aspas. Ainda assim, 
para a grande maioria das pessoas, o "domnio espiritual" continua sendo uma realidade, mesmo que a religio organizada j no o defenda. 
Toda uma faceta do pensamento e da cultura do sculo XX reflete uma aspirao de sentido e de "espiritual" fora do contexto e da moldura da religio institucionalizada. 
Assim, por exemplo, Einstein, seguindo os passos de Newton, tentou conciliar suas prprias monumentais e desnorteantes descobertas com um sereno senso do divino. 
Assim, um nmero crescente de pessoas, reconhecendo a falncia dos sistemas vigentes, tem buscado um ou outro instrumento vlido de sntese para reintegrar uma realidade 
fragmentada.
Exemplo desse processo  C. G. Jung, que, situado em perspectiva, foi no s um psiclogo como tambm um filsofo e at um profeta. As principais preocupaes de 
Jung foram fundamentalmente de natureza religiosa. A ateno que dedicou  experincia universal e o uso que fez dos instrumentos vitais de sntese, em vez de anlise, 
emanavam do seu desejo de agregar o mundo, de infundir-lhe novamente sentido. Mais ainda, Jung procurou fazer isso no apenas em termos puramente tericos (ou teolgicos), 
mas em termos que pudessem ser diretamente experimentados e no meramente aceitos como artigos de f - e que, traduzidos em dinmica psicolgica, pudessem ter aplicao 
prtica, no s aos domingos mas ao longo de toda a vida do indivduo.
Diferentemente de Freud, Jung no viu a psicologia e a religio como incompatveis. Ao contrrio, viu-as como complementares, uma ajudando a outra a gerar uma noo 
de sentido e coerncia. E Jung compreendeu a religio em seu sentido mais amplo, mais profundo e mais vlido -no como mera.estrutura de dogma conceitual~ no como 
uma seita ou credo particular, mas como algo que abrangia todos os credos, um elemento bsico na constituio da psique humana. Conseqentemente, empenhou-se em 
sintetizar, em comparar e identificar fontes comuns, denominadores comuns, dinmicas psicolgicas comuns, padres partilhados - no s nas grandes religies do mundo 
como tambm em muitas outras atividades do homem. O resultado foi algo que poderia realmente funcionar como um principio religioso vivel para a poca atual - um 
modo de pensar e compreender que de fato conferia sentido, ao mesmo tempo em que promovia a tolerncia, a flexibilidade e a humanidade.
Assim, para Jung, o Jesus da histria  secundrio, ao passo que o Jesus da f - o Jesus que existe no crente como uma realidade psicolgica - se torna um arqutipo; 
e episdios como, digamos, a tentao no deserto, ou as "penas do inferno", ou a Ressurreio tornam-se componentes de um padro arquetpico que  partilhado por 
toda a humanidade. A tentao, a descida aos infernos e a emergncia triunfante dos infernos so temas que ocorrem em todas as religies, todas as mitologias. Em 
virtude desses temas, Jesus entra em harmonia com outras figuras arquetpicas no mundo todo. Elas participam dele e ele delas, e todos vm a encarnar certas verdades 
duradouras, universais. Ao mesmo tempo, Jesus como arqutipo est tambm, de maneira bastante literal, dentro de cada indivduo, exatamente como proclama o cristianismo. 
Todo mundo pode experimentar a tentao em sua vida pessoal. Todo mundo pode experimentar a morte, seja literalmente ou no sentido metafrico da descida s profundezas 
da prpria psique - ao inferno que todo indivduo carrega em algum lugar dentro de si. Todo mundo pode experimentar uma forma de renascimento e renovao. Na medida 
em que partilhamos sua experincia, nos tornamos realmente um com Jesus e Jesus um conosco. Isso no envolve nenhum conflito com o fato histrico.
Durante grande parte de sua vida, e nos anos imediatamente seguintes  sua morte em 1961, Jung foi considerado suspeito pelo establishment psicolgico, predominantemente 
freudiano, que o via como um "mstico" e por isso o rejeitava. Hoje seu trabalho  por muitos considerado uma das mais originais e valiosas contribuies ao pensamento 
do sculo XX. Jung apontou tambm, em campos to diversos como a antropologia, a psicologia e o estudo comparativo das religies, o caminho para outros, que seguiram 
seus passos na busca de uma conciliao entre psicologia e religio, entre experincia pessoal e o sentido profundamente arraigado do sagrado.  significativo que 
Don Cupitt, falando da crise enfrentada pela religio neste final do sculo XX, diga a propsito de Jung: "Provavelmente iremos todos segui-lo."

O Repositrio do Sagrado

Mas o pensamento junguiano e suas ramificaes no so de modo algum as nicas tentativas vlidas de criar sentido no mundo contemporneo. Encontramos processo semelhante 
em desenvolvimento nas artes, entre muitas das figuras mais destacadas na cultura do sculo, que no se furtaram  responsabilidade tradicional do artista de enfrentar 
a questo do sentido, esforando-se para sintetizar, buscando unir fragmentos dspares numa realidade coerente. Em alguns casos, o artista faz isso espontaneamente; 
em outros, como parte de um programa cuidadosamente traado. Assim, por exemplo, em meados do sculo XIX, Flaubert criticou a religio organizada por abdicar de 
sua responsabilidade, por no mais conseguir atuar como um repositrio do sentido e do "sagrado". Para sanar essa falha, procurou sistematicamente situar o artista 
como uma nova espcie de sacerdote, investi-lo da responsabilidade de conferir sentido. Pessoalmente, Flaubert considerava que a arte sempre fora um repositrio 
do sentido e do "sagrado". A partir desse momento, julgou que ela devia passar a s-lo de maneira deliberada, como parte de um plano conscientemente aceito pelo 
artista. Ao mesmo tempo em que Flaubert formulava esses princpios em suas cartas, Richard Wagner, na Alemanha, enunciava publicamente os mesmos princpios. E, na 
Rssia, figuras como Dostoievski e Tolstoi comeavam a p-los em prtica.
Hoje Flaubert pode ser rejeitado como a expresso de um esteticismo anacrnico. No entanto, muitos dos maiores nomes da literatura do sculo XX - Joyce, Proust, 
Kafka, Thomas Mann, para citar s quatro exemplos - seguiram suas pegadas e reconheceram publicamente sua dvida para com ele. No se pode tampouco negar que as 
artes procuraram efetivamente desempenhar uma funo religiosa, servir de repositrio do "sagrado", conferir sentido, sintetizar, unir uma realidade fragmentada 
e dot-la de sentido. Em alguns casos - a poesia catlica mstica de Paul Claudel, por exemplo -, uma posio doutrinria especfica est explcita. Em outros, como 
no de Tolstoi, h uma orientao "crist" ampla que desafia categorias doutrinrias estabelecidas, mas nem por isso  menos profundamente religiosa. Outras obras 
- as de D.H. Lawrence, de Patrick White, de alguns escritores latino-americanos contemporneos -, embora nem sequer sejam necessariamente crists, manifestam um 
profundo senso religioso e uma viso essencialmente religiosa. E ainda que Proust, Joyce e Thomas Mann em geral no sejam considerados em absoluto "escritores religiosos", 
a verdade  que enfrentam as questes geralmente vistas como apangio da religio organizada. Todos estes escritores buscam enfrentar e resolver o problema do sentido. 
E o fazem por meio de uma orientao "espiritual" que s pode ser qualificada de religiosa.
Desde a dcada de 1880, tem-se atribudo grande valor aos livros que refletem a "tradio de sabedoria do Oriente" - livros como o Bhaaavadaita, o Ramayana, o Mahabharata, 
e o Tao te china. Pretensos msticos europeus e norte-americanos muitas vezes perguntaram por que no existe uma tradio comparvel no Ocidente. Na realidade existe, 
e reside na nossa herana cultural. O Ramayana e o Mahabharata so ambos poemas picos. O Bhaaavadaita  um hbrido de poema pico e dramtico. Nenhum deles  essencialmente 
diferente de obras como A divina comdia, O paraso perdido ou o Fausto de Goethe. E se diferem das peas de Shakespeare ou de Puchkin, dos romances de Tolstoi ou 
de Hermann Broch, a diferena est essencialmente na forma ou gnero literrio, no no contedo ou na viso. Do mesmo modo, o Tao te china consiste de uma srie 
de poemas lricos msticos. Seus equivalentes ocidentais podem ser encontrados tanto na poesia mstica de Yeats, de Eliot ou de Stefan George, como, mais particularmente, 
nos Sonetos a Orfeu de Rilke.
O Ocidente na verdade possui sua prpria "tradio de sabedoria", uma tradio que est em constante crescimento, transformao e desenvolvimento. Se esse corpo 
de elementos tomou-se dissociado da religio organizada, isso  basicamente uma conseqncia da estreiteza e da inadequao desta ltima. A imagem de Jesus apresentada 
num livro como A ltima tentao de Cristo de Kazantzakis , em ltima anlise, mais profundamente religiosa e mais profundamente "crist" do que o retrato expurgado 
em geral proposto pelas igrejas. Sob esse aspecto, podemos considerar que a meta de Flaubert foi cumprida. As artes de fato se tomaram um repositrio do sagrado, 
e do sentido.

Se a sociedade ocidental muitas vezes no consegue perceber isso,  por sua prpria culpa e em seu prprio prejuzo. Isso decorre, antes de mais nada, da preguia. 
No Ocidente industrializado, uma obra importante de literatura sria tem notoriamente pouca probabilidade de se tornar um best-seller. Ocasionalmente, se ganha algum 
prmio de prestgio, se gera controvrsia ou pode ser associada a um filme ou programa de tev muito divulgados, consegue sucesso comercial. Mesmo nesse caso, porm, 
continuar sendo vista basicamente como forma de entretenimento ou diverso; e se for considerada "dificil demais" - isto , se exigir maior concentrao do leitor 
- estar condenada. Nem sempre a sociedade ocidental tratou sua literatura de maneira to arrogante. Ainda recentemente, no sculo XIX, Goethe, Byron, Puchkin e 
Victor Hugo foram best-sellers enquanto ainda viviam, sendo devorados aos milhes, moldando os valores e atitudes de suas sociedades. E hoje, em outras partes do 
mundo supostamente "menos desenvolvidas" que a nossa, as artes so levadas a srio e tm espao para desempenhar a funo religiosa de conferir sentido.
Em 1968, Gabriel Garcia Mrquez publicou Cem anos de solido. To logo a traduo para o ingls foi publicada, o livro foi aclamado como um "clssico moderno", um 
dos romances "verdadeiramente grandiosos" do sculo XX - e rapidamente apropriado pelo establishment acadmico, onde gerou uma indstria exclusiva de teses. No entanto, 
at seu autor ganhar o Prmio Nobel, em 1982, tanto ele quanto o livro permaneceram desconhecidos pela maior parte do "pblico leitor". E, apesar do Prmio Nobel, 
ambos talvez continuem sendo. Muitos leitores ocidentais, que no hesitam em enfrentar mil pginas de Gurdjeff ou de Rudolf Steiner, ou tratados sobre o pensamento 
oriental, em busca de sentido ou "auto-aperfeioamento", pem Gabriel Garda Mrquez de lado como "difcil demais". No entanto, na prpria Amrica Latina, Cem anos 
de solido foi vorazmente devorado por todas as camadas cultas da sociedade de Caracas, ou de Santiago, ou da Cidade do Mxico. Vendeu numa escala s igualada pela 
Bblia. Era mencionado e citado nos bares, nos bilhares, na rua. Episdios do livro eram referidos como se fossem do conhecimento comum. As pessoas tinham com ele 
a mesma familiaridade que, na Gr-Bretanha ou nos Estados Unidos, teriam com os ltimos episdios dos seriados de tev Dinasty ou Dallas.
 verdade que, at certo ponto, um livro como esse deve obviamente falar de maneira mais imediata s pessoas cujo mundo ele reflete de maneira direta. Mas isso, 
por si s, dificilmente explica por que os leitores britnicos e norte-americanos o acharam to "difcil". Ou por que fomos obrigados a citar Dallas e Dinasty como 
ponto de referncia e comparao - em outras palavras, por que nenhuma obra da literatura inglesa ou norte-americana, clssica ou contempornea, goza em seu meio 
de uma familiaridade comparvel. Certa vez, durante uma conferncia, tivemos a oportunidade de fazer essas perguntas a um visitante da Amrica Latina. Sua resposta 
foi reveladora: "Porque estudamos a nossa literatura", disse ele orgulhosamente. "Ns a estudamos da maneira como as pessoas na Europa, alguns sculos atrs, estudava 
a primeira traduo da Bblia por Lutero. No a estudamos academicamente. Mas como uma guia de vida e compreenso. Livros como esse nos ajudam a dar sentido ao mundo 
moderno e s nossas vidas. Voltamo-nos para eles em busca de sentido, como outrora as pessoas se voltavam para a Bblia."
O respeito de que goza a literatura relevante na Amrica Latina reflete na posio conferida aos seus criadores. Escritores latinoamericanos tm sido constantemente 
investidos de importantes responsabilidades polticas. Pablo Neruda, o poeta contemplado com o Prmio Nobel, era amigo ntimo e conselheiro do presidente Salvador 
Allende no Chile. O romancista mexicano Carlos Fuentes serviu como embaixador de seu pas na Frana. Sergio Ramrez, atual vicepresidente da Nicargua,  tambm 
um clebre romancista. No Peru, o romancista Mario Vargas Llosa foi apontado como candidato  presidncia de seu pas.
O mximo que o governo britnico conseguiu realizar a este respeito  Jeffrey Archer. Quanto a Ronald Reagan, a melhor aproximao parece ser o senso, ou falta dele, 
por trs de Rambo.

O Aspecto Arquetpico da Monarquia

Tanto o pensamento junguiano quanto as artes so, portanto, esferas em que a tradicional funo religiosa de procurar, encontrar ou talvez criar sentido continua 
sendo realizada. Ao mesmo tempo, contudo, tanto o pensamento junguiano como as artes continuam sendo esferas circunscritas de interesse e atividade. Por vrias razes, 
complexas demais para serem convenientemente investigadas aqui, nenhuma delas afeta significativamente a populao em geral; nessa medida, nenhuma delas pode tampouco 
fornecer a espcie de "guarda-chuva" capaz de abranger toda a sociedade, como a religio fazia outrora.
Mas haver algum outro princpio positivo, amplamente aceito, operando na cultura contempornea? Haver, por exemplo, algum tipo de instituio consagrada - isto 
, padronizada - que seja genuinamente arquetpica, que afete, ainda que apenas subliminarmente, a conscincia coletiva e por isso atue, pelo menos em certa medida, 
como um repositrio de sentido? Pelo menos sob alguns de seus aspectos, a monarquia pode ser vista como uma instituio desse tipo.
Em seus piores aspectos, tal como exemplificados por muitos regimes autocrticos do passado, a monarquia pode ser sinnimo de tirania. Nos melhores, contudo, pode 
de fato ser vista como um repositrio de sentido - que, ainda que de maneira limitada, desempenha efetivamente pelo menos uma funo semi-religiosa. No h dvida 
de que a monarquia repousa numa base arquetpica. A realeza em si mesma  um arqutipo. A monarquia constitui por natureza a substncia do conto de fadas, que por 
sua vez  uma manifestao do mito - o mito tal como definido acima, isto , uma tentativa criativa de explicar a realidade. Seja qual for a forma de governo sob 
a qual vivemos, nossa mente continua sendo povoada, desde a infncia, por reis e rainhas, prncipes e princesas. Por mais "republicanos" que possamos ser, essas 
figuras so parte de uma herana cultural coletiva, com uma validade psquica prpria. Na ausncia de uma genuna realeza dinstica, tentamos criar uma realeza substituta 
com artistas de cinema ou cantores populares, por exemplo, ou ainda, nos Estados Unidos, com famlias como os Kennedys. No entanto, esses substitutos so sempre 
um plido simulacro dos originais em que, deliberadamente ou no, se baseiam. Por mais que fantasiemos o contrrio, no fundo sabemos que a imagem cinematogrfica 
que vemos no passa de celulide. E a condio aristocrtica de famlias como os Kennedys acaba por ser embaada pelo falso brilho da poltica.
s vsperas da Primeira Guerra Mundial, o presidente da Terceira Repblica francesa queixou-se de que ele, como presidente, envergando fraque e cartola, no inspirava 
respeito em seu povo, ao passo que qualquer principezinho sem importncia dos Balcs que visitasse Paris exibindo alamares dourados e plumas de avestruz conseguia 
fazer a populao se apinhar ao longo das ruas para v-lo passar em cortejo. Em outras palavras, o presidente francs teve a perspiccia de reconhecer o apelo intrnseco 
da monarquia e do espetculo, e o grau em que o povo francs estava sedento de ambos. Ao reconhecer a figura pouco sedutora que fazia em seus banais trajes civis, 
ao lado da majestade e do esplendor de outros chefes de Estado, ele no estava dando mostra de uma vaidade pessoal frvola. Tratava-se, antes, de uma questo de 
auto-estima nacional. Se os franceses se envergonhavam de ser franceses porque seu chefe de Estado parecia insignificante e pattico, havia de fato motivos de preocupao.
Cerca de 65 anos antes, um presidente francs enfrentara precisamente o mesmo dilema e reagira. Em dezembro de 1848, Lus Napoleo - sobrinho de Napoleo I - foi 
eleito presidente da Segunda Repblica, cargo que conferia poderes claramente limitados. Tambm ele se sentiu eclipsado pela pompa e grandeza de outros soberanos 
europeus. O resultado foi que, em 2 de dezembro de 1851, Lus Napoleo aplicou um golpe de Estado pelo qual assumiu efetivamente o governo e redefiniu de maneira 
radical, a seu favor, os poderes da presidncia. Em seguida, deu um passo sem precedentes. Submeteu seu ato ao julgamento do povo francs atravs de um plebiscito 
e obteve o apoio da maioria esmagadora. Um ano mais tarde, em 2 de dezembro de 1852, Lus Napoleo, tirando proveito do nome ilustre do tio, proclamou-se imperador 
dos franceses e, mais uma vez, submeteu seu ato a um plebiscito. Na verdade, Lus Napoleo perguntou ao povo francs o que preferia (o resto permanecendo igual): 
a mstica igualitria de uma repblica ou a pompa hierrquica e a magnificncia de um imprio. O povo francs escolheu enfaticamente o segundo, e Lus Napoleo, 
sob o ttulo de Napoleo III, assumiu o trono de um novo imprio que haveria de transformar a Frana na capital cultural do mundo.
Na poca em que Lus Napoleo se tomou imperador, o principal modelo de repblica revolucionria bem-sucedida era encarnado,  claro, pelos Estados Unidos da Amrica. 
Antes de mais nada, os Estados Unidos haviam empreendido uma verdadeira revoluo mais de uma dcada antes que a Frana; e, diferentemente do que se passou na Frana, 
a revoluo na Amrica no culminara nos excessos de um Reinado do Terror ou na ascenso de um novo ditador. Mas os Estados Unidos no foram criados como uma repblica 
do tipo que a palavra implica hoje. Os responsveis por sua criao eram, em sua maioria, maons convictos, e a nova nao foi originalmente concebida segundo a 
estrutura poltica hiertica ideal postulada por certos ritos da francomaonaria. O Estado em seu todo era concebido como uma extenso, e um macrocosmo, da loja 
manica. Mais ainda, os homens que conceberam a Declarao de Independncia foram eles mesmos, de incio, incapazes de imaginar qualquer coisa diferente de uma 
monarquia. Os americanos tendem a esquecer que, depois que George Washington conduziu  independncia, as treze colnias originais, foi-lhe oferecida, num gesto 
natural que contou com aprovao praticamente unnime, a condio de rei.

Sem dvida o mundo mudou drasticamente desde as vsperas da Primeira Guerra Mundial, e ainda mais radicalmente desde os tempos de Napoleo III e George Washington. 
Mas o apelo exercido pela realeza  evidente. Basta observar, por exemplo, como o prncipe e a princesa de Gales so vistos no exterior. Podem ser importunados pela 
mdia; podem ser alvo de mexerico e sensacionalismo; podem ser tratados como celebridades do show-business. Ainda assim, de uma maneira intangvel, impem e despertam 
um respeito, quase uma espcie de reverncia, que nem os mais aclamados dolos do cinema ou da msica popular suscitam. Esse efeito se estende at aos Estados Unidos, 
onde os principios republicanos esto firmemente sacramentados na Constituio e a "desigualdade" implcita na prpria idia de realeza  condenada. Em The Times 
de 8 de novembro de 1985, Michael Binyon escreveu sobre a histeria que cercava a iminente visita do prncipe e da princesa de Gales a Washington:

... Os americanos tm uma atitude ambgua diante da monarquia. Formados por pessoas cujos ancestrais fugiram das tiranias europias, criados numa tradio de igualdade 
e esprito republicano livre, os Estados Unidos ainda se ressentem de uma falta de smbolo no centro, de um foco vivo para suas tradies e valores. Tm uma bandeira, 
 claro, e a presidncia. Mas a bandeira no  capaz de satisfazer todo o sentimento patritico. E a presidncia, sendo poltico-partidria, no  capaz de unir 
e representar imparcialmente a nao to bem quanto um monarca.

E mais adiante:

Muitos americanos rejeitariam a idia de que anseiam pelos velhos smbolos europeus. Mas muitas vezes o fazem. A sra. Jacqueline Kennedy introduziu um pouco disso 
na Casa Branca e Nixon tentou vestir a guarda da Casa Branca com uniformes solenes, com pompons e passamanes. Ficaram to ridculos que o plano foi rapidamente abandonado. 
Mas h uma busca de cerimnia na pessoa do presidente...

que - poderia ter acrescentado o sr. Binyon - vem procurando cada vez mais, h cerca de 35 anos, assumir uma postura imponente, trajes imponentes e, privando com 
a realeza, tentou se apropriar do seu brilho. Mas a prpria natureza da presidncia americana milita contra uma condio majestosa. No s, como sugere o sr. Binyon, 
por ser poltico-partidria. Nem porque certos ocupantes recentes do cargo o lanaram em descrdito; muitos monarcas tambm honraram muito pouco os seus tronos. 
Em ltima anlise, a presidncia americana no pode alcanar a mesma ressonncia que a realeza porque esta implica continuidade e permanncia; e nem continuidade 
nem permanncia podem ser conciliadas com um mandato de quatro ou, no mximo, oito anos. Sob o conceito de realeza est o conceito de dinastia, que se estende no 
tempo e simbolicamente o subjuga. Em sua capacidade de transcender o tempo, com isso neutralizando-o, por assim dizer, uma dinastia desempenha a mesma funo que, 
digamos, a Igreja. Ela d testemunho de certos valores duradouros, um senso estvel de propsito e identidade, que no corre o risco de ser revisto ou at invertido 
nas eleies seguintes. Encarna, como nenhum mero governo enquanto tal  capaz de fazer, as conotaes msticas de expresses como a "Me Rssia", a "Ptria Alem", 
"Ja belle France". Essas conotaes residem numa esfera que est acima da poltica - uma esfera que beira o religioso.
Em 1981, o casamento do prncipe e da princesa de Gales despertou uma extraordinria efuso de lealdade e entusiasmo popular - uma efuso vinda precisamente do "Povo", 
em cujo nome no s o marxismo como at o republicanismo de estilo americano condenam a realeza. O ponto essencial  que essa efuso ocorreu especificamente em reao 
ao ritual de um casamento real, e a tudo que um casamento como esse implica - filhos, a continuao de uma linhagem, a perpetuao de uma dinastia, valores igualados 
 prpria Gr-Bretanha. Alguma coisa de arquetipicamente intemporal estava sendo celebrada: a cristalizao no presente de uma ordem ou coerncia particular, datada 
do passado distante, e a promessa do seu prolongamento no futuro. Todos os detalhes da cerimnia - o cenrio antiqssimo, as carruagens, os uniformes e at as palavras 
pronunciadas - ajudaram a acentuar a "intemporalidade" do momento. Em virtude dessa "intemporalidade", o prprio tempo, com tudo que tanto o presente quanto o futuro 
tm de inerentemente ameaador, foi temporariamente anulado.
Para grande parte da multido que afluiu para assisti-lo, em 1981, o casamento real representava, conscientemente ou inconscientemente, um bastio de estabilidade 
num mundo sob outros aspectos assustadoramente voltil. Em meio  queda acelerada da libra,  desiluso poltica,  inquietao social, a atritos raciais, ao desemprego 
crescente, a novas incurses na tecnologia dos microchips, a greves, a censuras parlamentares e outras manifestaes de mudana turbulenta, a monarquia - pela promessa 
de se renovar e se perpetuar atravs do casamento - constitua um baluarte. Atuava como um princpio de permanncia e continuidade. Permanncia e continuidade so 
ambas importantes aspectos do sentido. Na medida em que as reflete, a monarquia pode servir como um repositrio de sentido.
Para manter sua posio no mundo contemporneo, a monarquia tem de se adequar aos tempos. No pode,  claro, ser o tipo de instituio ainda exaltada por certas 
faces realistas no continente europeu. No pode envolver, seja explcita ou implicitamente, nenhuma idia de "direito divino". No pode implicar uma hierarquia 
social rgida como a que tantas vezes prevaleceu no passado. No pode defender o retorno a um despotismo ou absolutismo  maneira do ancien rgime. No pode sequer 
se macular com os processos degradados da poltica e do governo. Mas uma monarquia constitucional- como a da Gr-Bretanha ou da Espanha, da Holanda ou da Blgica, 
da Dinamarca ou da Sucia -  coisa bem diferente e pode servir a uma funo criativa muito verdadeira.
A essncia desse tipo de monarquia  repousar na base proposta pelo Prieur de Sion e atribuda  antiga dinastia merovngia da Frana. Para os merovngios, o rei 
reinava mas no governava. Em outras palavras, era fundamentalmente uma figura simblica. Na medida em que no se deixava conspurcar pelo brilho falso da poltica 
e do governo, seu status simblico permanecia imaculado. Como um dos escritores do Prieur de Sion declara num artigo, "o rei em - em outras palavras, sua prevalncia 
se funda no que ele encarna como um smbolo, no em qualquer coisa que faa, ou em qualquer poder real que possa ou no exercer. Os smbolos mais poderosos sempre 
exercem uma autoridade intangvel, que o exerccio de formas mais tangveis de poder s pode comprometer. Tanto  que o papado, durante os sculos em que gozou de 
uma soberania temporal, tornou-se cada vez mais desacreditado - a um grau to inacreditvel que em vrios momentos houve dois ou mais papas a se acotovelar vergonhosamente 
na disputa pelo trono de So Pedro. S quando parou de reivindicar um poder temporal o papado reconquistou certo respeito.
Por outro lado, em virtude da sua prpria falta de poder oficial, uma monarquia constitucional como a da Gr-Bretanha exerce na verdade uma influncia muito real, 
ainda que intangvel. Com uma simples frase, o prncipe de Gales pode gerar garrafais manchetes de jornal, angariar o apoio do povo, virar o mundo da arquitetura 
de cabea para baixo e liquidar com os projetos de ampliao da National Gallery. Com uma simples manifestao de interesse, ele  capaz de conferir nova legitimidade 
- a nosso ver merecida -  psicologia junguiana e a certas formas subsidirias de medicina. Mesmo quando citada incorretamente ou transcrita de maneira irresponsvel, 
sua opinio sobre a decadncia dos centros urbanos e o desencanto de uma gerao de jovens pode infundir novo estmulo  vontade de corrigir esses problemas.
A autoridade intangvel que a monarquia detm pode ir alm de questes desse tipo. Na Segunda Guerra Mundial, durante a ocupao alem na Dinamarca, todos os judeus 
receberam ordem de usar estrelas amarelas em seus palets, o que tornaria mais fcil identific-os e deport-os para campos de concentrao. Num sobranceiro desafio 
 potncia que ocupava seu pas, o rei Christian passou a usar ele prprio a estrela amarela, num gesto de compaixo e solidariedade com seus sditos judeus. Em 
apoio a seu rei, milhares de dinamarqueses nojudeus o imitaram. O anti-semitismo e as delaes de judeus aos ocupantes diminuram e incontveis vidas foram salvas.
   Exemplo mais recente de autoridade monrquica ocorreu em 1981. Em 23 de fevereiro daquele ano, certos contingentes da Guarda Civil tomaram de assalto o Corts, 
a sede do Parlamento espanhol e, em conjuno com uns poucos oficiais de alta patente que comandavam guarnies espalhadas pelo pas, tentaram desfechar um golpe 
militar. As conseqncias poderiam ter sido terrveis, se o rei Juan Carlos no tivesse aparecido na televiso e feito um apelo rgio para que suspendessem a ao 
e desistissem. Como rei, ele foi capaz de lanar seu apelo de uma posio acima da poltica, acima do conflito ideolgico de esquerda e direita. Como encarnao 
de um princpio de continuidade, pde falar para a Espanha como um todo, no para qualquer faco especfica. No fosse por seu monarca, a Espanha poderia ter mergulhado 
em outra guerra civil to onerosa e consternadora quanto a ocorrida no final dos anos 30 - ou, o que seria igualmente traumtico, numa ditadura militar de direita 
to perniciosa quanto a de Franco, ou a do general Pinochet no Chile, ou a da junta militar na Argentina at a Guerra das Malvinas.
Um importante aspecto da monarquia est hoje muito esquecido e, por enquanto, parece ter pouca probabilidade de ser reabilitado. Mas vale a pena destac-lo, porque 
pode voltar ao primeiro plano no futuro e porque, ao que parece, desempenha pelo menos algum papel no pensamento do Prieur de Sion. Trata-se do casamento dinstico.
Hoje em dia, evidentemente, a prpria idia de casamento dinstico - casamento por motivos polticos - parece repulsiva, um resduo repugnante do feudalismo. H 
sculos, prevalece no Ocidente a idia de que o casamento deve basear-se inteiramente no amor romntico. Ns mesmos sequer cogitaramos de atacar o amor romntico.
No entanto,  bastante bvio que atualmente as pessoas, por mais nobres que sejam seus sentimentos com relao ao assunto, se casam de Jato por motivos diferentes, 
dos mais diversos tipos. Casam-se por solido. Casam-se por segurana. Casam-se por razes de convenincia (para dar, por exemplo, direito de cidadania ou de residncia 
a um parceiro). Casam-se por dinheiro, status e prestgio. Nenhum desses motivos  particularmente nobre e, no entanto, todos so tacitamente tolerados ou at aceitos. 
Seria ento o caso de zombar da idia do casamento de duas pessoas - como muitas vezes ocorreu entre casas reais e aristocrticas do passado - para unir mais intimamente 
duas naes, ou para evitar uma guerra? Se, por exemplo, um casamento de alto nvel pudesse levar a paz ao Lbano, seria ele condenvel?
Desde os primrdios da histria registrada at o sculo XX, alianas dinsticas foram no s a norma como tambm uma das pedras angulares da poltica internacional. 
Apenas nos ltimos 75 anos, aproximadamente, o Ocidente passou a condenar um princpio poltico que antes prevalecera por cerca de trinta ou' quarenta sculos. Desde 
o antigo Egito e os tempos do Antigo Testamento at a Europa no limiar da Primeira Guerra Mundial, o casamento, como muitas das formas hoje mais aceitas de diplomacia, 
servia para criar laos entre povos dspares, naes e culturas dspares. No h dvida de que esses laos eram muitas vezes frgeis e muitas vezes se mostravam 
incapazes de sustentar a unidade que se destinavam a criar. Nem uma rede cerrada de laos dinsticos foi capaz de evitar a catstrofe de 1914. Mas, apesar desses 
fracassos, o princpio teve sucesso pelo menos com tanta freqncia quanto outras formas de diplomacia. Continua sendo algo que no pode ser completamente ignorado, 
mesmo hoje.
Consideremos um exemplo puramente hipottico. Suponhamos que, em algum momento entre meados e fim do sculo XXI, o herdeiro ou herdeira do trono britnico se case 
com o herdeiro ou herdeira do trono da Espanha. Na verdade, a conseqncia de uma aliana como essa seria um Reino Unido da Gr-Bretanha e Espanha.  evidente que 
isso no implicaria um retomo  autocracia, pois o rei, segundo os preceitos da monarquia constitucional, iria reinar mas no governar. No significaria tampouco 
que a Gr-Bretanha e a Espanha seriam foradas a uma unidade artificial. Ao contrrio, ambos os pases permaneceriam independentes como hoje, e o poder seria exercido 
pelos respectivos parlamentos. No entanto, uma relao muito especial seria estabelecida entre os dois pases - uma relao anloga, sob certos aspectos, "que existe 
entre a Gr-Bretanha e a Austrlia, onde a autoridade nominal da rainha continua sendo oficialmente reconhecida, desde que no seja exercida politicamente.
Iriam a Espanha ou a Gr-Bretanha opor-se a um. arranjo como esse? Parece improvvel. A julgar pela adulao que cerca os atuais prncipes" de Gales, poder-se-ia 
afirmar com segurana que a maioria das naes da Europa ficaria absolutamente encantada em aclamar descendentes do casal como os seus prprios monarcas - desde 
que, evidentemente, isso em nada comprometesse os seus valores, cultura, independncia constitucional, herana ou tradio. As bodas reais de 1981 e 1986 foram eventos 
internacionais da mdia, contos de fada de que participou toda a Europa ocidental, alis, o mundo todo. Qual seria o efeito de um evento similar envolvendo no uma 
dinastia real, mas duas?

16
RUMO A UMA ADESO AO ARMAGEDON

Para os que se dispem a conhec-Io, o pensamento de C.G. Jung e seus sucessores poderia fornecer um repositrio parcial de sentido ao integrar psicologia e religio 
- ao redefinir seu limites, expandir seus parmetros e com isso revitaliz-las ambas. queles que se dispem a abord-las como algo mais que um entretenimento ou 
um culto esotrico em si mesmas - isto , abord-las como "instrumentos de viso" e estud-las como no sculo XVI se estudava a traduo da Bblia feita por Lutero 
- as artes tambm poderiam oferecer um repositrio de sentido. O mesmo poderia fazer a monarquia, se repousasse em certas premissas bsicas, e isso numa escala muito 
mais ampla, muito mais acessvel. Em ltima anlise, no entanto, um repositrio de sentido ser to vlido ou to invlido quanto os prprios indivduos decidam. 
O cristianismo, por exemplo, s  to essencial, relevante, abrangente e funcionalmente arquetpico quanto seus seguidores lhe permitem ser. Se esperamos e exigimos 
uma genuna noo de sentido, freqentem ente conseguimos obt-la. Se esperamos e exigimos uma outra coisa, contudo, obtemos uma outra coisa.
A atual proliferao de seitas, cultos, disciplinas, terapias e programas de todo tipo atesta a urgncia da busca moderna de sentido. O que antes era procurado na 
igreja, ou na religio organizada, agora  buscado nas colunas das ltimas pginas do Time Out ou de The Village
Voice. Muitas vezes, a necessidade de sentido se manifesta numa srie de sintomas superficiais - solido, culpa, alienao, sentimento de inadequao, falta de direo 
ou de motivao, depresso, apatia, dvidas sexuais, crises de identidade. Embora superficiais, esses sintomas podem ser to perturbadores que muitas pessoas tentam 
lhes dar alvio imediato, negligenciando ao mesmo tempo a causa subjacente. E muitas das seitas, cultos, disciplinas, terapias e programas a que elas recorrem em 
seu desespero se voltam basicamente, seno inteiramente, para os sintomas, funcionando no como repositrios de sentido mas como meros sedativos.
Sempre houve,  claro, seitas, cultos e mistrios, alguns profundamente sinceros em suas aspiraes e psicologicamente vlidos em suas dinmicas, outros esprios 
numa ou noutra coisa, ou em ambas. Sempre houve tambm, na relao do homem com seus deuses e na sua busca de sentido, uma tendncia a procurar um atalho - a encontrar 
meios de poupar o trabalho, a energia, o investimento, os sacrifcios exigidos. No passado, essas tentativas de encontrar um atalho eram invariavelmente consideradas 
suspeitas. Hoje, contudo, sob a gide da sociedade de consumo, elas ganharam uma legitimidade sem precedentes. O consumismo deu respeitabilidade ao atalho em praticamente 
todas as esferas. Qualquer atalho  uma mercadoria que pode ser vendida.
Num nvel cotidiano, isso se manifesta na pletora de produtos destinados a poupar tempo, poupar trabalho, poupar energia. Evidenciase nas cadeias de fast-food, nas 
refeies congeladas, no caf "instantneo" e tudo mais que pode ser tomado igualmente "instantneo". A dcada de 1960 rotulou essas mercadorias de "matria plstica" 
e rejeitou-as. Ser de "plstico" tomou-se sinnimo de ser vagabundo. Implicava algo em desarmonia com um universo vivo e em transformao. Denotava falsificao. 
H, porm, um equivalente psicolgico ou "espiritual" do "plstico", que o poeta Stefan George, no incio deste sculo, diagnosticou como das Leichte - "o fcil". 
Ele grassa hoje entre as seitas e cultos que florescem na sociedade ocidental, enchendo as colunas de "terapia e desenvolvimento" das revistas. Programas prontos 
de "auto-realizao", conselhos tipo ferva-no-saquinho, "esclarecimento" pr-congelado ou supercongelado - estas so as promessas de organizaes que, em troca, 
arrancam milhes de libras ou de dlares de seus adeptos. Alardeiam-se "transformaes profundas" pelas quais - durante um fim de semana em que as pessoas gritam, 
choram, contemplam estrabicamente a ponta do prprio nariz, fazem amor substitutivo com travesseiros ou se deixam insultar - problemas de uma vida inteira podem 
ser sumariamente exorcizados. A sabedoria e a compreenso que em geral exigem anos de experincia so, a julgar por certos anncios, fornecidos como plulas que 
podem ser rapidamente engolidas com um copo de coca-cola e um sanduche de presunto. As promessas so sempre exorbitantes, implcita ou explicitamente - autoconfiana, 
sucesso (seja isso o que for), sade, riqueza, o sonhado parceiro romntico, poderes variados (desde leitura da mente  capacidade de tomar-se invisvel), unio 
essencial com o cosmo. E atravs de tudo isso,  claro, uma perspectiva de sentido.
Muitas dessas atividades e das organizaes que as promovem so inteiramente inofensivas - pelo menos to inofensivas como ir ao cinema, assistir a um jogo de futebol 
ou vrios outros meios de gastar dinheiro. Sob certos aspectos, algumas podem realmente ser benficas, desde que seus ensinamentos no sejam superdimensionados. 
Outras, porm, so bastante funestas. H alguns anos, os jornais e a televiso vm veiculando histrias de "lavagem cerebral", manipulao e intimidao psicolgica, 
seqestros, casamento forado, formas variadas de "vudu", retaliaes impostas a pretensos desertores, e at, de vez em quando, assassnio ritual. Um dos casos mais 
dramticos ocorreu em Jonestown, na Guiana, uma colnia fundada na Amrica do Sul pelo pretenso "reverendo" Jim Jones e sua congregao "Templo do Povo". Ali, em 
18 de novembro de 1978, quando Jones e seus seguidores estavam sob ameaa de investigao pelo Congresso norte-americano, trs jornalistas e um congressista norte-americano 
foram mortos a tiro, enquanto novecentas pessoas se suicidaram tomando suco de fruta com cianureto. O chamado "massacre de Jonestown" ilustra o tipo de poder que 
uma seita ou culto pode exercer sobre seus membros - um corolrio da confiana de que so depositrios e uma extenso da capacidade que tm de conferir sentido, 
ou aparncia de sentido.
   Outro atalho para o sentido - isto , outra falsa religio ou manifestao de das Leichte - foi a cultura da droga nos anos 60 e alguns de seus prolongamentos 
mais recentes. No podemos ignorar que drogas psicodlicas tiveram de fato um lugar legtimo em muitas tradies religiosas ou que se mostraram valiosas e reveladoras 
para muitos artistas e pensadores do Ocidente. Mas usar essas drogas como se fez nos anos 60 - isto , como tquetes para o "Nirvana instantneo" - nada mais , 
na verdade, que mais uma manifestao do "fcil". Na pior das hipteses, e sobretudo quando os rituais que acompanham seu uso so encampados em nome de uma seita 
ou culto, as drogas podem ser verdadeiramente assustadoras. Talvez o caso mais notrio de seita ou culto baseado na droga seja o "satanismo psicodlico" de Charles 
Manson e os tolos que formavam sua "famlia". Como o grupo de Manson ilustra, muitas vezes o limite entre um guru e um Fhrer, entre um discpulo e um escravo,  
muito tnue.
O espectro dos chamados "esoterismos" - magia em suas vrias formas, astrologia, alquimia, sistemas simblicos de adivinhao como o Tar ou o I China, disciplinas 
fsicas ou mentais como a ioga e a cabala -  to antigo quanto a prpria religio organizada, seno mais. Evidentemente, h pelo- menos trs sculos tomou-se moda 
zombar dos esoterismos. Entre cientistas e eclesisticos de hoje,  moda deplorar a avidez com que o esoterismo  freqentemente abraado. De tempos em tempos, ouvimos 
at pretensos "reformadores morais" queixarem-se amargamente da "feitiaria" e do "paganismo". Mas o ressurgimento dos esoterismos no nosso tempo no  um simples 
modismo, uma tendncia passageira.  sintoma de um mal-estar profundo e de uma necessidade muito genuna. E atesta, mais uma vez, a urgncia da busca de sentido 
na sociedade contempornea. Mas tambm os esoterismos se reduzem, com demasiada freqncia, ao fcil. Colunas de horscopo, manuais de bruxaria do tipo "faa voc 
mesmo" e outras formas de "ocultismo para as massas" so igualmente manifestaes de das Leichte.
Nos ltimos 25 anos, muita gente se voltou tambm para o pensamento oriental ~ para o hindusmo, o budismo e o taosmo.  certo que os ocidentais j tm os olhos 
voltados para o Oriente h pelo menos dois sculos, e muitos deles encontraram ali verdades mais profundas e viveis que as da tradio judaico-crist. No ltimo 
quarto de sculo, porm, um nmero crescente de pessoas recorreu ao pensamento oriental do mesmo modo que haviam recorrido aos esoterismos. Aceitaram-no sob formas 
fceis, abastardadas, pr-embaladas, aderiram a qualquer pretenso mestre ou guru que oferecesse uma variante apresentada de maneira atraente, ingressaram cegamente 
num eremitrio ou aceitaram algum outro estilo compulsrio de vida com uma passividade dcil, acrtica - e com expectativas to exorbitantes que chegam a ser engraadas. 
Falando sobre a gerao da juventude ocidental que afluiu  ndia em busca da iluminao, o escritor indiano Gita Mehta observa: "Nunca antes o Vazio fora buscado 
com tanto otimismo e tanto alvoroo. Todos acreditam que tudo que a Amrica deseja, a Amrica consegue. Por que no o Nirvana?"3 e ainda: "... a seduo estava no 
caos. Eles se achavam simples. Ns os vamos como non. Eles nos achavam profundos. Sabamos que ramos atrasados. Dos dois lados, uns julgavam os outros absurdamente 
exticos, e todos estavam enganados. "

Os Fundamentalistas

Entre as alternativas duvidosas  religio - isto , entre as vrias pseudo-religies - abraadas pela sociedade contempornea, temos de incluir o tipo de doutrina 
fundamentalista pregado por certas seitas e igrejas na Gr-Bretanha, na frica do Sul e nos Estados Unidos.
Como toda pseudo-religio, essas doutrinas se furtam a assumir tudo que uma religio genuna envolve, e oferecem uma outra coisa - algo de potencialmente perigoso 
- como paliativo.
No h dvida de que o cristianismo, como a maioria das religies, teve no passado seus fanticos, que abraavam mximas e proibies supersimplificadas, mais empenhados 
em impor obedincia ao prximo do que em consolidar sua prpria noo de sentido. Na verdade, pode-se afirmar que a histria social, cultural e poltica da religio, 
pelo menos no Ocidente,  at certo ponto a histria desse tipo de imposio. O judasmo, em vrios momentos do passado, e o islame, tanto no passado quanto hoje, 
incorrem na mesma culpa. Mas  perturbador ver esse mesmo fenmeno se desenvolvendo hoje no Ocidente em escala to ampla. Muitos sculos foram necessrios, e muito 
sangue teve de ser derramado, para que adquirssemos certo grau de tolerncia. A vergonha que podemos sentir diante de aberraes como a Inquisio, ou os julgamentos 
das bruxas, na Idade Mdia, no Renascimento e na Contra-Reforma, demonstram uma aprendizagem genuna, uma educao genuna no nvel em que a educao verdadeiramente 
importa - em valores e atitudes.  um mau pressgio que esses ganhos estejam ameaados por um retomo a simplismos fundamentalistas - em outras palavras, por um retomo 
ao uso da religio como mero mito tribal.
No passado, a simplicidade fundamentalista serviu muitas vezes de refgio para minorias oprimidas, ou mesmo para o povo de um pas ocupado. Por vezes assumiu uma 
forma violenta e agressiva - a do catolicismo polons, por exemplo, quando, no sculo XIX, a Polnia foi esmagada sob o jugo aliengena da Alemanha luterana e da 
Rssia ortodoxa. Eventualmente, e provavelmente o mais das vezes, forneceu consolo para os desamparados, pregando ao mesmo tempo a resignao e a esperana. Sob 
esse pretexto, a doutrina fundamentalista desempenhou um papel genuinamente teraputico nos guetos judaicos da Europa oriental no sculo XIX ou nas comunidades negras 
do sul dos Estados Unidos.
O que est acontecendo hoje, no entanto,  a adeso aos simplismos fundamentalistas no por uma minoria oprimida e perseguida, mas por gente de algumas das camadas 
mais ricas, mais afluentes, mais poderosas e, teoricamente, mais instrudas do mundo. Isto na verdade anula muito do que a cultura ocidental aprendeu a to duras 
penas no s em esferas puramente acadmicas como a dos estudos bblicos e das teorias da evoluo, mas tambm nas esferas mais relevantes e em ltima anlise mais 
importantes da humanidade e da tolerncia.
Desde os excessos do puritanismo do sculo XVII - o protetorado de Cromwell na Gr-Bretanha, os julgamentos de bruxas na Nova Inglaterra e na Europa ocidental -, 
nunca o fanatismo e a intolerncia religiosas se aliaram no Ocidente  riqueza e ao poder em to grande escala. Excetuando-se,  claro, o Terceiro Reich.
O fundamentalismo de hoje nos Estados Unidos emana em ltima anlise do puritanismo do sculo XVII, com seu conceito de "eleitos", beneficirios de um "pacto" especial 
com Deus. Entre esses "eleitos" estavam, evidentemente, os homens hoje venerados como "fundadores" dos Estados Unidos. Mas as razes mais imediatas do fundamentalismo 
atual residem na histria truncada e absurda montada por alguns propagandistas teolgicos do sculo XIX. Em 1840, por exemplo, um frenologista ingls com o inocente 
nome de John Wilson publicou um livro intitulado Our Israelitish Origin. Segundo Wilson, Deus teria cumprido fielmente Sua promessa de preservar a semente de Abrao. 
Levados para o exlio pelos assrios, afirmava Wilson, os israelitas tinham-se tomado os citas, que por sua vez eram os ancestrais dos saxes. Atravs desse tipo 
de lgica demente, Wilson acaba por concluir que os ingleses eram na verdade descendentes diretos da tribo de Efraim. Uma prova importante dessa portentosa descoberta 
histrica era o fato - pressupondo-se, ao que parece, que os antigos hebreus e citas falavam ingls - de a palavra "Saxon" derivar de "Isaac' s sons". 
Tudo isso seria encantadoramente idiota, no fosse pelo fato de que at hoje as afirmaes de Wilson continuam sendo apregoadas pelos manuais fundamentalistas.
Em 1842, Wilson publicou um segundo livro, The Millenium, em que, como talvez no seja de espantar, seu raciocnio o levou  concluso de que a Segunda Vinda se 
aproximava. A "volta prometida" de Jesus era iminente, ele afirmava, e esse evento seria seguido pela implantao do que hoje chamaramos de um Reich de mil anos. 
Primeiro,  claro, viria o Anticristo, e o mundo entraria num perodo de caos. Mas o Anticristo, por mais ameaador que fosse, estava fadado a priori  derrota. 
A civilizao europia era to magnfica, argumentara Wilson antes, que s podia ser o produto de um novo "povo escolhido" a quem Deus, fiel a seu pacto, jamais 
abandonaria.6 Ao longo dos 140 anos que se seguiram, essa afirmao de supremacia foi avidamente acatada pelos colonizadores africnderes na frica do Sul que, at 
hoje, fazem dela uma pedra angular do apartheid.
Wilson foi seguido por outros escritores mais ou menos do seu jaez. Em 1861, por exemplo, um certo reverendo Glover tentou associar o leo britnico ao leo da tribo 
de Jud. Mais tarde, imperturbvel diante da prpria contradio, fez eco a Wilson, relacionando a Inglaterra com a tribo de Efraim, mas vinculou os galeses e os 
escoceses  tribo de Manasss. Em 1870, Edward Hine, de Manchester, publicou The EngIish Nation Identified with the Lost House of Israel by Twenty-seven Identifications. 
Quatro anos depois, numa edio revista do livro, Hine acrescentou mais vinte "identificaes", perfazendo um total de 47. Para Hine, a Gr-Bretanha j no estava 
associada a uma ou duas das antigas dez tribos perdidas de Israel, mas a todas elas. Aparentemente ignorando que o "Tuatha de Danann" da tradio irlandesa significava 
simplesmente o povo da deusa Danu, Hine interpretou o nome como uma espcie de transliterao galesa de "tribo de Dan" um solecismo at hoje sustentado por fundamentalistas. 
Uma confirmao adicional dessa tese seria fornecida pela freqncia com que a palavra "Dun" - uma variante de "Dan", segundo Hine ocorria entre topnimos irlandeses. 
Na verdade, "Dun" significava simplesmente residncia fortificada - coisa obviamente muito comum na Irlanda.
Como Wilson, Hine previu uma Segunda Vinda iminente: "Armagedon assoma ao longe.  chegado o tempo em que o mundo quase todo se unir para lutar contra ns, e para 
o qual devemos estar preparados. "
 preciso lembrar,  claro, que as idias de homens como Wilson, Glover e Hine eram produtos bastante caractersticos da era vitoriana. Sem dvida, mesmo no contexto 
de sua poca, a maioria das pessoas as achava ridculas. Mas pareciam um pouco menos ridculas que hoje; e estavam, afinal de contas, afinadas com o esprito de 
autocontentamento e auto-exaltao reinante. O Imprio Britnico se aproximava do znite de sua grandeza, o perodo alcinico da Pax Britannica. O mundo todo reconhecia 
a grandeza da realizao britnica. Nada havia realmente para abalar a convico de que a civilizao, sob a gide benigna da Gr-Bretanha, alcanara um ponto que 
raiava a perfeio; havia margem para interpretar isso como o selo de aprovao de Deus, ou mesmo como produto de Seu divino plano.
Nem  preciso dizer que a subseqente eroso do imprio britnico ultramarino foi um desagradvel estorvo para os sucessores de Wilson, Glover e Hine, um dos quais, 
falando em 1969, declarou, de maneira muito pungente (ainda que no muito lcida): "Agora no podemos mais falar com desembarao da marca de identidade, dizer que 
possumos a chave das portas dos inimigos. No podemos falar com orgulho que uma das marcas de Israel  sermos a mais rica das naes, que empresta mas nunca pede 
emprestado; realmente no podemos mais falar com muita nfase da Gr-Bretanha."  Mas h,  claro, uma explicao para isso: "... a medida de nossa queda em desgraa 
e de nossas condies degradadas  a mesma medida do nosso afastamento de Deus Todo-Poderoso."
Mas se a Gr-Bretanha cara em desgraa, os Estados Unidos no. Enfatizando suas origens britnicas - isto , anglo-saxs, brancas, protestantes -, Hine j havia 
identificado os Estados Unidos com a tribo de Manasss. No final da Primeira Guerra Mundial, o pensamento de homens como Hine j tinha conseguido, mais ou menos 
como a epidemia de influenza do mesmo perodo, atravessar o Atlntico. A deteriorao dos produtos britnicos de exportao no  em absoluto um fenmeno atual.
O fundamentalismo norte-americano contemporneo repousa em premissas muitas vezes assustadoras pelo anacronismo, credulidade e ingenuidade. A Bblia  considerada 
imutvel, sendo a palavra indiscutvel e inaltervel de Deus, como se conclios como o de Nicia nunca se tivessem realizado e como se no existissem evangelhos 
alternativos. Nada jamais foi ou pode jamais ser acrescentado a ela ou dela subtrado. Em sua forma atual, ela contm todo conhecimento necessrio para a salvao 
individual. Sob esse aspecto,  claro, o fundamentalismo tem muito em comum com outras seitas crists, especialmente de carter evanglico. Certas premissas, porm, 
so especificamente fundamentalistas.
A primeira delas  que os Estados Unidos e o Reino Unido devem hoje ser vistos - por vezes de maneira simblica, mas o mais das vezes muito literalmente - como os 
vestgios dispersos da antiga Israel. Os judeus de hoje so considerados originrios da tribo bblica de Jud, mas os descendentes das demais tribos seriam os anglo-saxes 
brancos protestantes da Gr-Bretanha e dos Estados Unidos - e seus congneres no estrangeiro, em lugares como a frica do Sul. Esses so os novos "eleitos", o novo 
"povo escolhido".
A segunda premissa subjacente ao fundamentalismo contemporneo  que a profecia bblica tem importncia fundamental. Algumas obras especficas so repetidamente 
citadas, em especial o Apocalipse (datado do final do sculo I ou incio do sculo II d.C.) e os "clssicos" livros dos profetas do Antigo Testamento (compostos 
entre os sculos VIII e V a.C.). Acredita-se que essas obras foram escritas em grande parte para prever eventos do mundo atual - eventos "marcados" para ocorrer 
em nosso tempo. Apesar dos muitos disparates ditos pelos profetas do Antigo Testamento sobre sua prpria poca, acredita-se que teriam sido infalveis ao fazer prognsticos 
sobre a nossa. At as medonhas ameaas que faziam uns aos outros so retiradas do contexto histrico original e consideradas aplicveis aos dias de hoje. Vale a 
pena lembrar, contudo, pelo menos um dado do contexto histrico que os fundamentalistas ignoram tanto quanto desdenham. Israel na Antiguidade era, afinal de contas, 
uma entidade poltica frouxa, mal definida e muitas vezes ingovernvel, menor que o condado de Yorkshire ou o estado de New Jersey e com uma populao muitssimo 
menor que a de ambos. Ocupava uma parcela insignificante do que era, mesmo na poca, o mundo conhecido. Nada disso impede que os registros de suas disputas internas 
sejam vistos como guias infalveis para o que se passar neste final do sculo XX, em praticamente todas as esferas, desde a da conduta pessoal at a das relaes 
externas.  mais ou menos como se a viso do futuro exposta por um membro de um conselho do Yorkshire, ou da assemblia legislativa de New Jersey em 1986 fosse ser 
usada, de maneira bastante literal, para explicar atritos entre, digamos, o Canad e a China, ou entre colnias da Terra no espao, no sculo I ou II.
A terceira premissa subjacente ao fundamentalismo moderno envolve a mensagem especfica de certas profecias. Segundo ela,  claro, o apocalipse est prestes a ocorrer. 
Para os fundamentalistas, o mundo est vivendo o "final dos tempos", como supostamente estava tambm na poca de Jesus. O Anticristo aparecer a qualquer momento 
(se  que ainda no o fez) e perpetrar determinados tipos de estrago. A isso se seguir um perodo de "tribulao" que culminar na pica Batalha de Armagedon, 
quando o mundo ser completamente destrudo numa espcie de holocausto. Aps essa derrocada, ocorrer a Segunda Vinda - Jesus descer em glria dos cus, os mortos 
se erguero dos tmulos e o novo Reino ser inaugurado.  escusado dizer que nele s os "eleitos" ou os "salvos" tero visto de residncia.
Essa , em geral, a perspectiva divisada pelos pregadores fundamentalistas. Sobre determinados aspectos, aqui e ali, alguns deles se tomam mais precisos. Assim, 
por exemplo, o Anticristo  freqentemente identificado com a Unio Sovitica - o "imprio do mal" fustigado por Ronald Reagan. Uma das mais ricas e poderosas organizaes 
fundamentalistas, no entanto, identifica a temvel "Besta" dez vezes coroada do Apocalipse - isto , o Anticristo - muito precisamente como a Comunidade Econmica 
Europia e seus dez pases membros. (O fato de hoje eles serem doze  presumivelmente um novo, pernicioso e traioeiro estratagema da "Besta".) Est previsto que 
as naes da Comunidade Europia vo fazer guerra contra os Estados Unidos e o Reino Unido, derrot-los e em seguida escraviz-los.

A Gr-Bretanha e os Estados Unidos se tomaro satlites de uma nova potncia mundial com sede na Europa e essa potncia vai desencadear a Terceira Guerra Mundia1 
- presumivelmente contra a Unio Sovitica. Com base em profecias bblicas, prev-se que a guerra vai durar dois anos e meio e custar a vida de dois teros da populao 
da GrBretanha e dos Estados Unidos, tudo para que as pessoas se conformem  maneira de pensar de Deus. "Nesta terrvel, apavorante era atmica, a Terceira Guerra 
Mundial comear com a devastao nuclear, que ser desencadeada em Londres, Birmingham, Manchester, Liverpool, Nova York, Washington, Detroit, Chicago e Pittsburg, 
sem aviso!" Curiosamente, as grandes cidades da costa oeste dos Estados Unidos, que sem dvida parecem aptas a representar Sodoma e Gomorra do mundo contemporneo, 
so excludas deste rol de retaliao destrutiva. Novamente, porm, j que o Antigo Testamento jamais mencionou nenhuma das cidades em questo, o mais provvel  
que o erro seja do intrPrete atual. Teria sido uma desconsiderao de Jeremias no dizer nada sobre Hollywood, deixando seus residentes incertos quanto ao seu destino.
No clmax da Terceira Guerra Mundial, a Batalha de Armagedon ser travada em algum lugar do Oriente Mdio. O Anticristo voltar a aparecer ento - ou talvez um outro 
Anticristo - e lutar contra as foras de Deus. Como o resultado j est decidido de antemo, as foras de Deus, comandadas por Jesus no papel de marechal-de-campo, 
vo evidentemente triunfar - mas a coisa toda ter sido bastante confusa. No entanto, se nos arrependermos agora, se nos deixarmos "salvar", e sobretudo se dermos 
uma contribuio financeira para a igreja, seremos poupados de toda a carnificina e removidos para um local seguro at que o tumulto tenha passado. Numa variao 
deste tema, alguns pregadores fundamentalistas falam de um momento na gerao atual em que os que tm f sero "transportados" deste mundo. Sem aviso, todos os verdadeiros 
crentes vo subitamente se desmaterializar, evaporar, desaparecer num piscar de olhos de seus escritrios, casas, campos de golfe, automveis (que ficaro largados 
pelas ruas e estradas, sem motorista) e subiro como foguetes para uma entrevista com Jesus. De sua posio protegida, em sua ambincia celeste, podero observar 
imparcialmente o desenrolar do cataclismo, como se fosse uma partida de futebol.
 obviamente muito fcil zombar de convices como estas, diante das quais as crenas de muitas das chamadas "sociedades primitivas" parecem sem dvida sofisticadas. 
No entanto, um nmero extraordinrio e cada vez maior de pessoas nos Estados Unidos hoje as levam muito a srio, e no s esto resignadas a um apocalipse iminente 
mas efetivamente o desejam, em certo sentido, na expectativa de uma eternidade bem-aventurada no Reino milenrio da Segunda Vinda. Foi sugerido que, entre estes, 
estaria o presidente Ronald Reagan. Num artigo publicado tanto no Post de Washington quanto no Guardian, por exemplo, Ronnie Dugger, um destacado jornalista americano, 
escreve: "... Os americanos teriam razo em conjecturar que seu presidente... est pessoalmente predisposto pela teologia fundamentalista a esperar que uma espcie 
de Armagedon se inicie com uma guerra nuclear no Oriente Mdio."16 E mais adiante: "Caso surja uma crise no Oriente Mdio e ameace se converter num confronto nuclear, 
estaria o presidente Reagan predisposto a acreditar que est assistindo  chegada de Armagedon e que essa  a vontade de Deus?"
Segundo o prprio presidente, "telogos" inespecficos e no identificados lhe teriam dito que em nenhuma ocasio anterior da histria mundial "tantas profecias 
se cumpriram ao mesmo tempo".18 Numa entrevista transmitida pela tev durante sua campanha pela indicao de seu partido, em 1980, ele disse: "Talvez sejamos a gerao 
que ver Armagedon. " Durante a mesma campanha, num discurso a eminentes judeus de Nova Y ork, consta que teria dito: "Israel  a nica democracia estvel em que 
poderamos confiar caso o Armagedon pudesse ocorrer" .
Em 1983, o presidente declarou que, quando leu os profetas do Antigo Testamento e "os sinais que anunciam o Armagedon", teve dificuldade em deixar de pensar na semelhana 
da batalha que estava ocorrendo na gerao atual. No havia dvida, acrescentou, de. que os antigos profetas haviam descrito precisamente os tempos que o mundo contemporneo 
estava agora experimentando. Segundo o Times de Washington, James Mills, um poltico da Califrnia, se lembra de uma conversa em que o presidente discorreu longamente 
sobre o Armagedon. Aps citar profecias de Ezequiel, ele teria dito: "Tudo est se encaixando. No vai demorar muito. "
Numa carta que nos escreveu em maro de 1986, Ronnie Dugger declara a respeito de Reagan: "... agora estou convencido de que sua ideologia Armagedon est na raiz 
de suas polticas externa e militar nuclear em relao  Unio Sovitica." Ironicamente, a concluso de Dugger fora antecipada por Jerry Falwell, um dos mais destacados 
pregadores fundamentalistas, e presidente da soi-disant "Maioria Moral" dos Estados Unidos (agora absorvida pela "Federao da Liberdade"), que desempenhou importante 
papel nas campanhas eleitorais de Reagan: Reagan  um grande homem. Ele acredita no que a Maioria Moral acredita, no que Deus nos revela." Quando um entrevistador 
lhe perguntou se o presidente aceitava o uso da profecia bblica como guia para o futuro, Falwell respondeu: "Sim, ele aceita. Ele me disse, na poca da campanha: 
'Jerry, s vezes acredito que estamos caminhando muito rapidamente para o Armagedon neste instante mesmo. "'
O presidente no  o nico que d a impresso de pensar em termos de um prximo Armagedon. Na Universidade de Harvard, perguntaram a Casper Weinberger se esperava 
o fim do mundo e, em caso afirmativo, se achava que viria pelas mos do homem ou de Deus. Weinberger respondeu que conhecia as profecias bblicas, "... e, sim, acredito 
que este mundo vai acabar - por um ato de Deus, espero mas a cada dia penso que o tempo est se esgotando". O escritor americano Christopher Reed relata que Weinberger 
chegou a declarar onde achava que o Armagedon ocorreria. Citou a colina de Megido, cerca de 24 quilmetros a sudeste de Haifa, em Israel - embora no tenha explicado 
como um conflito de propores csmicas poderia ser confinado numa rea to restrita. A menos que tenha em mente um combate singular, em que Ronald Reagan e Mikhail 
Gorbachev se enfrentariam com espadas a laser sadas de Guerra nas Estrelas.
Outro adepto do pensamento apocalptico parece ser James Watt, ex-secretrio do Interior de Reagan, que se notabilizou por fazer declaraes sutis como uma locomotiva. 
A um comit da Casa Branca, Watt declarou: "No sei quantas geraes futuras poderemos contar antes do retorno do Senhor".  E Simon Winchester reporta no Sunday 
Times uma conversa com um auxiliar graduado de um senador americano, que teria dito: "Dezenas de jovens, homens e mulheres, no Capitlio, no Pentgono, nos vrios 
ministrios, insistem em que somos a gerao que ter a sorte de ver a volta de Cristo. " Em declaraes pblicas, o almirante James Watkins, chefe de Operaes 
Navais dos Estados Unidos, culpou as "foras do Anticristo" pelos bombardeios suicidas do Lbano, enquanto o general John Vessey, chefe do Comando Conjunto do Estado-Maior, 
conclamou os jovens a "se alistarem no Exrcito de Deus". Consta ainda que, num caf da manh com jornalistas, foi tomado por tal fervor messinico que comeou a 
dar "Hurras a Deus!"
Mais uma vez, tudo isto seria cmico se no fosse to sinistro. Todas as premissas subjacentes ao fundamentalismo levam a ver a auto-imolao coletiva como moral 
e teologicamente aceitvel, at desejvel. Um fundamentalista muulmano no Lbano, que o almirante Watkins rotula de agente do Anticristo, est plenamente convicto 
de que, ao destruir ao mesmo tempo seus inimigos e a si mesmo, est desferindo um golpe na sua verso de "Sat" - e, ao faz-lo, ganhando uma passagem expressa para 
o paraso. O fundamentalista cristo est convencido exatamente da mesma coisa, de um ponto de vista diametralmente oposto. Um  a imagem especular do outro e ambos, 
se acossados, reagiro da mesma maneira. Mas quando um homem tem o dedo num boto nuclear, seu ato de auto-imolao em nome de seu Deus arrastar com ele a humanidade 
inteira.
Mesmo excluindo-se o Armagedon, a imagem dominante para o fundamentalista  a imagem da guerra, racionalizada e justificada como uma cruzada. Entre as vtimas dessa 
guerra, incluem-se livros. Se pode servir para veicular a vontade de Deus, a palavra impressa pode tambm, acredita o fundamentalista, veicular a vontade do inimigo 
de Deus. Conseqentemente, os ltimos anos assistiram a uma nova onda de censura nos Estados Unidos. Em comunidades de mais de trinta estados, grandes obras, de 
fico ou no, foram banidas - no s de escolas, currculos e bibliotecas escolares, mas tambm de bibliotecas pblicas, de tal modo que nem adultos tm acesso 
a elas. Tudo isso  parte do que a entidade fundamentalista "Federao da Liberdade", a antiga "Maioridade Moral", chama de sua cruzada contra a "religio do humanismo 
secular". Teoricamente, as nicas bases para se impetrar uma ao judicial contra um livro seriam obscenidade, pornografia ou "inconvenincia para menores". Na prtica, 
livros foram condenados por conter sexo explcito (mesmo em manuais de biologia), por apresentar "modelos de famlia no ortodoxos", por representar as autoridades 
americanas de maneira pouco favorvel, por criticar a tica empresarial, por expor idias polticas questionveis e por "especular acerca de Cristo". A lista de 
obras que estiveram sob ataque inclui Slaughterhouse-Five, de Kurt Vonnegut, Soul on Ice, de Eldridge Cleaver, The Naked Ape, de Desmond Morris, The Bell Jar, de 
Sylvia Plath, Goodbye, Columbus e Complexo de Portnoy, de Philip Roth, Jaws, de Peter Benchley, The Abortion e outros romances de Richard Brautigan, Manchild in 
the Promised Land, de Claude Brown, Kramer vs. Kramer, de Avery Corman, O poderoso chefo, de Mario Puzo, Ardil 22, de Joseph Heller, 1984, de George Orwell, Admirvel 
mundo novo, de Aldoux Huxley, As vinhas da ira, de John Steinbeck, A arte da amar, de Erich Fromm, The Electric Kool-Aid Acid Test, de Tom Wolfe, O senhor das moscas, 
de William Golding, Adeus s armas de Ernest Hemingway, O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger, clssicos do sculo XIX da autoria de Mark Twain, Robert 
Louis Stevenson, Nathaniel Hawthorne e Edgar Allan Poe e (ainda mais espantosamente) Um dia na vida de Iv Denisovich, de Aleksandr Soljenitzyn ... para no falar 
do The American Heritage Dictionary e do The Dictionary of American Slang.
Como dissemos, os fundamentalistas se consideram engajados numa guerra contra o Anticristo, que em geral vm como encarnado pelo comunismo e a Unio Sovitica. No 
entanto, paradoxalmente, as conseqncias de muitas polticas fundamentalistas tendem a favorecer precisamente os objetivos do prprio" Anticristo" que dizem combater. 
Ao pregar o isolacionismo norte-americano, por exemplo, e ao fazer pronunciamentos desastrosos sobre a Comunidade Econmica Europia, o fundamentalismo est na verdade 
procurando afastar os Estados Unidos de seus mais importantes aliados, introduzindo uma cunha na OTAN. Ao proscrever livros como os listados acima, o fundamentalismo 
est de fato alienando os Estados Unidos da sua prpria herana cultural e dos seus mais inteligentes cidados - seno, na verdade, da inteligncia em geral. Nenhum 
plano deliberado poderia ser mais propcio aos objetivos da KGB. No seria despropositado dizer que o fundamentalismo est de fato fazendo o servio da KGB.

O Absurdo do Apocalipse

Apesar de estar "salvo" h 2 mil anos, o mundo de hoje no  consideravelmente mais seguro, sensato ou humano do que no tempo de Jesus, nem o homem est consideravelmente 
mais responsvel ou maduro. Dizer isto no , evidentemente, desabonar o cristianismo ou a sua validade no nvel da f individual. Contudo, no nvel dos fatos histricos, 
 difcil contestar que Jesus, como "salvador", revelou-se um retumbante fracasso.  claro que isso no deve ser culpa dele, j que no teve a inteno de atuar 
como um "salvador" no sentido em que mais tarde passou a ser visto. Durante 2 mil anos, porm, as pessoas depositaram nele uma expectativa impossvel e lanaram 
mo de racionalizaes para explicar sua incapacidade de preench-la. Foi preciso procurar algum ou alguma coisa  qual pudessem culpar por sua frustrao.
Sob este aspecto, muito pouca coisa mudou, muito poucas "lies da histria" foram aprendidas, e a mentalidade dominante no "final dos tempos" do sculo I est mais 
vigorosa do que nunca. Hoje, como ento,  impossvel no perceber que alguma coisa est deploravelmente errada. Agora, como ento, conclui-se instintivamente que 
se a culpa no pode ser de Deus, tem que ser da humanidade. O resultado  que agora, como ento, h um sentimento difuso de culpa. Essa culpa, porm, as pessoas 
a transferem, a projetam em outras, cujos valores e atitudes diferem dos seus e que podem portanto ser rotuladas de "ms" sem perigo. Inocentando-se, a conscincia 
culpada condena o resto da humanidade a sofrer o destino que, secretamente, teme para si mesma. "Que os maus vo para o inferno", proclama-se como lema, mas no 
eu .
Falamos antes sobre a distino entre mitos tribais e arquetpicos. Discutimos como os mitos arquetpicos nos induzem a olhar para dentro de ns,  auto-confrontao 
e ao reconhecimento do que os homens tm em comum, ao passo que os mitos tribais, ao fabricar um bode expiatrio para servir de "inimigo" nos levam a olhar para 
fora,  autoexaltao,  auto-glorificao, ao conflito e  acentuao das diferenas. Qualquer mito, como dissemos, pode se tornar tribal ou arquetpico, dependendo 
dos aspectos que se enfatize e do uso que dele se faa.
Em seu carter essencial, a mitologia do cristianismo  arquetpica.  nessa dimenso arquetpica que reside fundamentalmente a mais profunda validade do cristianismo. 
Quer se acredite ou no na divindade de Jesus, a sua histria - e seus ensinamentos, tais como contados nos Evangelhos e no Atos dos Apstolos -  um manancial de 
implicaes arquetpicas. Nesse nvel o cristianismo tem muito a ensinar - sobre a natureza e o significado do sacrificio, sobre a relao da humanidade com seus 
deuses, sobre integridade pessoal, sobre a solido do visionrio, sobre a incompatibilidade de aspiraes espirituais com o mundanismo, sobre decncia, caridade, 
perdo, humanidade e inmeros outros valores que representam ou refletem o que h de melhor no homem. Quando esses aspectos do cristianismo so enfatizados - como 
o so, para citar apenas um exemplo, por uma mulher como madre Teresa de Calcut -, o prprio cristianismo se torna arquetpico, algo que visa e engloba toda a humanidade. 
Tornase uma genuna religio no sentido estrito da palavra, dando sentido ao caos da experincia, promovendo a compreenso, conduzindo o homem no s ao conhecimento 
mas a uma sabedoria muito real sabedoria sobre si mesmo, sobre os outros, sobre o mundo.
Por outro lado,  igualmente possvel sublinhar os aspectos tribais do cristianismo - os elementos que reforam no homem um impulso autocrtico a impor aos outros 
seus prprios valores, que reforam sua convico elitista da prpria superioridade, que reforam um senso de
hipocrisia, santimnia e auto-contentamento. Esta  a tendncia do fundamentalismo dos Estados Unidos e das crenas congneres em outros pases. O fundamentalismo 
se funda no nas virtudes crists reconhecidas da caridade, do perdo e da compreenso, mas na guerra - num conflito pico imaginrio entre as pretensas "foras 
de Deus" e as de Seu inimigo. A realidade  reduzida a uma simples questo de "ns" e "eles". A crena se define em funo do seu oposto, so seus aliados tudo e 
todos que no esto do outro lado. Qualquer coisa que parea se opor a certos preceitos bsicos - no de Jesus, em geral, mas da congregao e baseado na sua prpria 
interpretao idiossincrtica das Escrituras - , ipso facto, amaldioada.
Por fora desse processo, o cristianismo  de fato esvaziado de sua aplicabilidade universal. Torna-se, ao contrrio, uma mera ratificao de algo muito mais limitado. 
Passa a ser, na verdade, sinnimo dos valores da classe mdia norte-americana; Deus  percebido como um protetor de, digamos, Peoria, Illinois, e um lugar como esse 
passa a ser visto como um projeto, por assim dizer, do Paraso. A famosa parbola de Dostoievski sobre o Grande Inquisidor torna-se at mais apropriada do que h 
mais de cem anos, quando Os irmos Karamazov foi escrito. Se Jesus voltasse, aparecesse nas ruas de Peoria e comeasse a pregar, seria imediatamente preso como no-americano 
e subversivo (entre outras coisas). Mesmo que o reconhecessem e o identificassem, seria fatalmente despachado para longe, amordaado, contido. No h dvida de que, 
no mnimo, ele representaria um grave estorvo para o credo promulgado em seu nome. Como instituio social, cultural e poltica, esse credo no poderia correr o 
risco de ser comprometido por sua presena, ou, o que seria mais provvel, de ser publicamente repudiado por ele.
Mas ainda que o fundamentalismo de hoje tenha muita coisa que o prprio Jesus - seja o Jesus histrico, seja o Jesus da f - acharia abominvel, estarrecedor, claramente 
blasfemo e positivamente imoral segundo seus prprios preceitos, h de todo modo uma coisa que ele haveria de reconhecer e julgar familiar. Trata-se da expectativa 
messinica, da histeria apocalptica que lembra o Final dos Tempos em que ele viveu.  assim, de um modo quase pitorescamente simplista - um modo que tem 2 mil anos 
de idade e h muito foi superado pelos desenvolvimentos histricos -, que boa parte dos americanos de hoje procuram infundir sentido no mundo contemporneo. O mero 
fato de poderem faz-lo reflete a penria de alternativas, de outros princpios para conferir coerncia a uma realidade que parece estar saindo fora de controle.
Como observamos, a histeria apocalptica pode desempenhar um papel funcional, proporcionando um mito norteador a uma poca e algum tipo de sentido a uma realidade 
sob outros aspectos fragmentada. No h dvida de que fez isso no passado, com maior ou menor eficcia, segundo as circunstncias. Mas no podemos tolerar que se 
tome o mito norteador da nossa prpria poca porque, como observamos antes, a humanidade hoje  perfeitamente capaz de criar seu prprio apocalipse, seu prprio 
Armagedon, e de lanar a culpa da tragdia sobre Deus. Se permitirmos que a histeria do fundamentalismo norte-americano se tome uma dessas profecias que promovem 
a prpria realizao, adotada ou perfilhada em nveis to altos quanto os da Casa Branca, o resultado poderia ser, muito literalmente, o fim do mundo - na forma 
no de um esplndido retomo de zadoquitas h muito falecidos a saltitar de mos dadas pelos Campos Elsios, mas da lenta e asfixiante agonia de um inverno nuclear. 
O fato de ns, os autores, podermos escrever sobre essa possibilidade sem nos sentirmos excessivamente dramticos indica at que ponto a humanidade, como um todo, 
passou a aceitar, e at a esperar, a eventualidade de um suicdio coletivo. Se esse for o nico sentido que pode ser encontrado na atualidade, a humanidade est 
de fato falida, e Deus - no importa na concepo de que crena - ter simplesmente perdido Seu tempo.
No entanto, devemos ser mais precisos. O que est em jogo, em ltima anlise, no  a possibilidade de "a humanidade se destruir a si mesma". A "humanidade" no 
tem nenhum desejo de fazer tal coisa. Se a "humanidade" for destruda, isso no ser obra do "homem", mas de um punhado de indivduos cujo poder, derivado da confiana 
neles depositada, foi malbaratado e mal usado. Os rabes "em massa" no desejam destruir Israel, nem os israelenses "em massa" desejam ocupar o Lbano. Os argentinos 
no decidiram coletivamente invadir as Ilhas Malvinas, nem os russos o Afeganisto, nem os americanos lutar no Vietn. Alis, os americanos tambm no apiam "em 
massa" todos os atos de Ronald Reagan, ou os russos os de Mikhail Gorbachev, os britnicos os de Margaret Thatcher, os franceses os de Franois Mitterrand. Em ltima 
anlise, no  a "humanidade", mas um conclave assustadoramente pequeno de polticos - alguns eleitos de maneira mais ou menos "democrtica", outros no - que detm 
poder de vida e morte sobre todo o planeta. Alguns deles so inteligentes e
responsveis; outros, porm, carecem de imaginao, de sensibilidade, ou so pura e simplesmente obtusos. Alguns so obviamente incompetentes. Outros parecem insanos, 
em maior ou menor grau. No entanto so eles que, assinando um documento, ou mesmo dizendo uma nica palavra, podem nos enviar para o campo de batalha, determinar 
nossa nacionalidade, ditar as circunstncias em que vivemos, decretar onde podemos ou no podemos ir, o que podemos ou no podemos fazer. So eles que podem, por 
exemplo, traando uma linha num mapa de papel, fabricar uma "fronteira", barreira to restritiva e intransponvel quanto um muro. Podem at ordenar a construo 
de um muro de verdade para marcar as "fronteiras" fictcias que inventaram. So eles, no a "humanidade", que vo produzir o apocalipse, se ele vier de fato a ocorrer.
Nem  preciso dizer que essa situao envolve algo de monstruosamente absurdo. H algo intrinsecamente errado, no mais profundo sentido moral da palavra, no fato 
de se permitir que pessoas como essas, e em nmero to pequeno, no apenas representem a "humanidade", mas efetivamente lhe determinem o futuro - em especial quando 
elas tm sido sistematicamente incapazes de demonstrar sua aptido ou qualificao para o oficio. Ao mesmo tempo,  muito pouco provvel que haja alguma mudana 
no atual estado de coisas. Muitos regimes, passados e presentes, no oferecem o luxo da escolha; e mesmo ali onde houve escolha, esta freqentem ente ficou circunscrita 
a diferentes formas de mediocridade. Nas "democracias" ocidentais, passamos a aceitar cada vez mais a nossa impotncia, mais ou menos como aceitamos as vicissitudes 
do clima. Quanto mais distante e inacessvel se toma, mais o governo assume o carter inexorvel de uma fora da natureza. Conformamo-nos) resmungando) com uma escassez 
de sentido e de "esprito", assim como nos conformamos com uma estiagem.
Mas ali onde elas so afortunadas o bastante para ter pelo menos alguma voz na questo) as pessoas no deveriam sancionar, com seu silncio) a inpcia. Mesmo secas 
(ou fomes) causadas pelo clima podem ser amenizadas, como demonstra, por exemplo, a cruzada "LiveAid", de Bob Geldof - uma cruzada vlida) proclamada em favor do 
que a humanidade em seu conjunto partilha, e no de diferenas tribais, ou contra algum bode-expiatrio. Se somos capazes de despertar a energia exemplificada pelo 
"Live-Aid" para enfrentar a enormidade de um "desastre natural", por que no poderamos mobilizar esforo semelhante para enfrentar os desastres que ns, com a nossa 
prpria negligncia, criamos em nossos prprios assuntos? Isto no significa,  claro, "revolues", greves, marchas, peties ou outros "movimentos de massa" baseados 
essencialmente em slogans - slogans to vazios quanto a poltica retrica a que pretendem se opor. Significa assumir responsabilidade pessoal pela criao e disseminao 
de sentido.
Em sua maioria, os lderes religiosos e polticos de hoje esto eles prprios atemorizados, inseguros, carentes de uma noo de sentido. Muitos s podem oferecer 
aos seus seguidores substitutos fceis para o sentido. Se aceitarmos esses substitutos de maneira acrtica, continuaremos presos  nossa prpria impotncia. Se for 
conferida de maneira demasiado negligente e prdiga, a confiana ser trada e o poder se dilatar em detrimento daqueles que, atravs de sua confiana, o estabeleceram. 
 tempo de as pessoas assumirem a responsabilidade de criar sentido para si prprias, a partir de si prprias, deixando de aceitar passivamente sucedneos de segunda 
mo. Quanto mais passarmos a tomar nossas prprias decises, menos espao haver para que outros as tomem por ns.
Ao mesmo tempo, ns, como autores, reconhecemos que exortaes como estas vm sendo feitas "desde tempos imemoriais", e no serviram para mudar coisa alguma. No 
somos ingnuos a ponto de pensar que as nossas prprias exortaes podem ter um grau maior de sucesso. A sociedade continuar a desejar que suas realidades, e o 
sentido de suas realidades, sejam pr-fabricadas. Continuar a buscar atalhos. Continuar a se valer de uma ou outra "muleta". Diante disto, que pelo menos essas 
"muletas" sejam escolhidas com sabedoria. O que resta definir  o tipo de muleta que o Prieur de Sion pode ter a oferecer, se  que tem algum.

                                                        III
A CABALA


17
FRAGMENTOS NO CORREIO

Enquanto O santo graal e a linhagem sagrada estava no prelo, j nos chegavam novas informaes - informaes que s puderam ser includas no livro como notas de 
ltima hora ou simplesmente ficaram de fora. Algumas provinham das prprias fontes do Prieur de Sion, particularmente de uma srie de panfletos da autoria do marqus 
Philippe de Chrisey. Outras eram resultado de nossas prprias investigaes. Outras ainda foram fornecidas por pessoas que, estando a par do nosso projeto, haviam 
feito suas prprias-pesquisas e nos apresentavam suas concluses.
Depois da publicao, o afluxo de informao comeou a ganhar propores torrenciais. O material procedente do Prieur de Sion adquiriu contornos mais ntidos, menos 
difusos. Nossa prpria pesquisa,  claro, continuou. E alguns dos nossos leitores nos ofereceram prontamente os dados de que por acaso dispunham. Na verdade, o simples 
volume da correspondncia que recebemos nos surpreendeu e seu teor geral nos encantou. Em sua grande parte, era inteligente, racional e ponderada; e certas cartas 
continham novos e valiosos elementos de prova, extrados de uma multiplicidade de fontes.
No  preciso dizer, contudo, que a publicao inaugurou tambm uma temporada no prevista de disparates, e algumas das cartas mais excntricas que recebemos mereceriam 
um livro  parte. Pelo menos uma dezena de pretensos messias se apressaram em entrar em contato conosco, por razes que nenhum deles elucidou satisfatoriamente. 
Um deles, irritado, se plantou nos escritrios dos nossos editores. Outro nos enviou uma foto sua em que aparentemente pairava no ar, as mos agarradas a uma trave 
de futebol... "para no ser carregado pelo vento". Um terceiro encaminhou-nos uma genealogia que pretensamente provaria a sua descendncia no s de Jesus como tambm 
de Robin Hood. "Sou a pessoa que os senhores esto procurando", declararam vrios deles, embora ns mesmos no soubssemos que estvamos procurando algum. Outros 
ainda, mergulhados no eterno jogo de "localizar o Anticristo"; acusaram-nos de ser seu(s) avatar(es). Alguns nos rogaram pragas, no s nos acusando de blasfmia 
como nos responsabilizando por males sociais e morais de toda sorte, do desemprego a praias de nudismo. Alguns reivindicaram, de maneira corts ou presunosa, um 
ou outro tipo de "direito" - uma parte de um suposto "tesouro", um percentual dos nossos royalties ou simplesmente, num dos casos, uma inespecfica "participao 
nos lucros". Alguns queriam de ns uma confirmao ou reconhecimento oficial, ou um certificado ou selo de aprovao. Em meio s impertinncias dos candidatos ao 
messiado, foi um prazer receber uma carta do prprio Deus, que nos escreveu em ingls de uma cidade do litoral da Inglaterra. Seu nome mundano, informou-nos ele, 
era Ian. Embora um pouco deficiente em ortografia, Deus se mostrou de um comedimento impecvel - e, no conjunto, muito mais simptico do que certas figuras pblicas 
que aspiram  divindade sob um ou outro disfarce altrusta.
Alm dos pretensos messias, muitos correspondentes afirmaram pertencer  linhagem merovngia, em geral com base num sobrenome derivado ou derivvel de alguma palavra 
francesa - ou, num dos casos, com base num pergaminho ilegvel do sculo XVIII, que finalmente se revelou um documento que ratificava o engajamento de algum no 
exrcito de Lus XV. Alguns desses neomerovngios tambm pediram uma participao em qualquer "tesouro" que pudesse estar envolvido, declarando-se seus legtimos 
donos. Um insistiu em que o ajudssemos a divulgar seu direito ao trono francs. Outros pediram simplesmente uma carta de apresentao ao Prieur de Sion e ao seu 
gro-mestre, Pierre Plantard de Saint-Clair.
Fomos tambm incomodados por caa-tesouros e por ocultistas. Os primeiros tinham enchido as vizinhanas de Rennes-Le-Chteau, munidos de todo tipo de equipamento, 
de detectores de metal a ps. Ao que saibamos, nada encontraram no cho alm de buracos, e alguns sem dvida cavaram novos. Vrias pessoas nos escreveram, ou entraram 
em contato conosco por intermedirios, para anunciar a descoberta de uma caverna. Uma vez que a regio  toda pontilhada de cavernas, minas abandonadas e passagens 
subterrneas, esses achados no chegavam a constituir um grande feito.
Certa vez, ns mesmos estivemos explorando as runas encobertas por vegetao de umas construes antigas, talvez fragmentos de um tempo romano, ou mesmo pr-romano, 
num local de acesso particularmente difcil da regio. Fizemos uma pausa para preparar um caf com um pequeno aquecedor a combustvel slido. De repente ouvimos, 
vindo das moitas do abrupto talude coberto de vegetao da colina abaixo de ns, um forte rudo que se aproximava num ritmo regular. Descobrimos que se tratava de 
dois senhores idosos, ainda que em boa forma, um deles brandindo furioso um faco e segurando  sua frente uma velha bssola de lato que poderia ter feito parte 
do kit distribudo para a Linha Maginot. Tendo lanado um olhar casual para ns, passaram e seguiram animadamente floresta acima, abrindo caminho a golpes de faco 
em meio ao emaranhado da vegetao, interessados no em meras runas mas em alguma outra coisa - presumivelmente coordenadas que os pudessem conduzir a algum tipo 
de "tesouro". Voltamos a encontr-los depois, na mesma tarde. Dessa vez pararam para conversar. Confirmaram que de fato havia anos que mourejavam nas florestas e 
montanhas dos arredores em busca de um "tesouro". Tinham usado todo tipo de equipamento, inclusive detectores de metal e walkie-talkies. Tinham rastejado por centenas 
de metros por galerias de antigas minas romanas adentro, sob a constante ameaa do desabamento de um teto, em locais de no mais que setenta centmetros de p-direito. 
Tinham enfrentado precipcios, fendas e penhascos. Tinham esquadrinhado inmeras cavernas. At aquela data, seu empenho no lhes permitira encontrar nada de mais 
sensacional do que ossos de cabra no entulho de uma velha mina. Embora admitissem isso de bom grado, continuavam inabalveis na sua tenaz procura e logo a recomeariam.
Os ocultistas, por sua vez, se recusavam a acreditar que no estvamos a par de algum hermtico segredo mstico que teramos deliberadamente ocultado dos nossos 
leitores, contentando-nos em espalhar, aqui e ali, algumas pistas pressagas para os "iniciados". Nesse caso, tambm, recebemos uma carta de um pretenso "mgico" 
quedeclarando ter aprendido seu oficio com certo ilustre mentor (cujo nome no nos disse nada) - se dizia disposto, em vista do nosso louvvel trabalho, a nos aceitar 
como seus aprendizes. Uma semana depois, recebemos uma carta do citado ilustre mentor, que nos perguntava se o poderamos aceitar como nosso aprendiz. Se fosse nossa 
inteno implantar o nosso prprio culto, cabala ou sociedade secreta, recrutas no nos teriam faltado.
Houve tambm muitas pessoas que, de maneira bastante inexplicvel, insistiram em nos confrontar com o sudrio de Turim. "Que dizer sobre o sudrio de Turim?", perguntaram-nos 
vrias vezes. (De fato, que dizer?) Ou: "Como o sudrio de Turim afeta sua tese?"
A freqncia com que esse non sequitur ocorreu  extraordinria.  verdade, sem dvida, que um de ns tinha participado do premiado filme de David Rolfe sobre o 
sudrio, The Silent Witness, escrevendo o roteiro.  tambm verdade que h indcios de que o sudrio esteve, em certa poca, na posse dos Templrios. Afora isso, 
porm, o sudrio no tem relao alguma com o nosso assunto. O que ele prova ou refuta continua, at o momento, duvidoso. E que venha finalmente a provar ou refutar, 
seja o que for, no tem qualquer relevncia para a atividade poltica de Jesus, ou a possibilidade de uma linhagem que dele descenda.
Houve tambm cartas de difcil classificao. Um exemplo veio de uma mulher dos Estados Unidos que vira a frase Et in Arcadia Ego aparecer em flash na tela de sua 
televiso. Tratava-se do trailer da transmisso americana de Brideshead Revisited, mas a nossa correspondente estava convencida de que, atravs de mensagens subliminares 
lanadas no ar, o Prieur de Sion estava iniciando uma tentativa de submeter a civilizao ocidental a uma lavagem cerebral.
No conjunto, contudo, coisas desse gnero foram exceo. Em sua maioria, as cartas que recebemos eram sensatas, srias e, mesmo quando nos criticavam, bastante coerentes. 
No foram poucas, alis, as que forneceram fragmentos de informao genuinamente valiosos.
O santo graal e a linhagem sagrada parece ter gerado tambm um modesto filo para os editores sobre o tema Rennes-le-Chteau. Poucas semanas aps o lanamento de 
nosso livro, um volume fino mas com farta ilustrao foi publicado na Frana. Intitulado Rennes-leChteau: capitale secrete de l'histoire de France, a obra teve 
uma tiragem de 200 mil exemplares e foi vendida nas bancas de jornal, como uma revista. Vrias pessoas ligadas ao Prieur de Sion participaram da sua produo. Segundo 
algumas declaraes, a disposio das fotografias no livro  uma mensagem cifrada. Se for mesmo, ao que parece at agora ningum a decifrou.
Em ingls, foi lanado um pequeno volume com o ttulo The HoIy Grail Revealed que, segundo a propaganda, era uma "contundente refutao" ao nosso trabalho. Na verdade, 
nem era contundente nem refutava coisa alguma. Ao contrrio, simplesmente sugeria, de maneira bastante vaga, que o Graal poderia ser algum tipo de objeto concreto 
- talvez um estranho artefato ou uma "fonte de energia" criada por uma "tecnologia antiga, h muito esquecida", que teria sido trazido para a Terra por uma nave 
espacial.
Uma abordagem um tanto parecida foi adotada em The Sion of the Dove, de Elizabeth van Buren, que classificou a si mesma como uma espcie de neozoroastriana e o nosso 
livro como uma falsa interpretao da batalha csmica entre a luz e as trevas. Jesus, a dinastia merovngia e seus descendentes foram apresentados como agentes conscientes 
das foras da luz. Ao que parece, o quartel-general dessas foras estaria situado, em ltima anlise, numa esfera transgalctica. O "quinotauro", criatura marinha 
mtica que figura em lendas sobre os merovngios, seria, segundo Elizabeth van Buren, "quase certamente um astronauta extraterrestre que aportou em um dos oceanos 
deste globo".
Noutro magro volume, Rebirth of a Planet, Ruth Leedy revelou uma preocupao diferente. Seu livro nos foi enviado com uma carta impressa que anunciava que o destinatrio 
- no caso, ns mesmos tinha sido "cuidadosamente escolhido" para ajudar a pr fim " maior e mais perniciosa farsa do nosso tempo". Essa farsa consistiria numa conspirao, 
da parte de autoridades constitudas, para ocultar a verdade da chamada "teoria da Terra oca". Em seu texto, a autora afirmava que ns, com nosso livro, podamos 
ser vistos - se lidos "nas entrelinhas" - como defensores da teoria em questo. Grande parte do seu raciocnio derivava de uma meticulosa anlise crtica do poema 
de Jehan l'Ascuiz que usamos como dedicatria em O santo graal e a linhagem sagrada.
Finalmente, numa obra luxuosamente produzida sob o ttulo de Genisis (sic), David Wood combinou um pouco de clculo geomtrico rigoroso com numerologia, mitologia 
egpcia, uma mistura de tradies esotricas variadas e referncias platnicas  Atlntida. Usando esses elementos como se compusessem um teste de Rorschach, passou 
a demonstrar que Rennes-le-Chteau  uma prova da existncia histrica da Atlntida, bem como de uma "super-raa" - extraterrestre de que a humanidade descenderia.
De nossa parte, ficamos lisonjeados pela patente compulso que parece ter conduzido tanta gente aos domnios da fico cientfica. A nosso ver, os mistrios com 
que estvamos lidando estavam inteiramente contidos na esfera da histria humana. O fato de no haver explicao documentada para alguns deles no autorizava um 
mergulho na crena em alguma outra dimenso. O certo  que nunca encontramos em nossa pesquisa qualquer indcio que apontasse para o envolvimento de alguma coisa 
ou algum fora do plano humano. O fato de tanta gente se mostrar to ansiosa por acreditar na interveno de algo sobre-humano - na forma de visitantes galcticos 
ou de mestres secretos do Himalaia - parece, na nossa opinio, ser mais uma prova da crise contempornea de sentido. Como a religio organizada e suas concepes 
dogmticas de Deus continuam perdendo a credibilidade, as pessoas comeam a buscar uma "inteligncia superior" noutro lugar - fora da galxia, se preciso for.  
como se, sentindo-se abandonadas pelas divindades do passado, fossem impelidas pelo simples pnico a fabricar uma nova maneira de se convencerem de que "no estamos 
ss".  precisamente essa forma de "redirecionamento" do impulso religioso para a fico cientfica que explica o sucesso de filmes como Guerra nas estrelas, com 
sua "fora" mstica, quase taosta, e Contatos imediatos do terceiro grau. Mais uma vez, as pessoas esto buscando soluo fora, quando deveriam estar olhando para 
dentro de si mesmas.

Um Copidesque Invisvel

Como dissemos, muitas das cartas que recebemos continham elementos verdadeiramente importantes. Nossa investigao de alguns deles nos conduziu, por vezes, a um 
territrio intrigante, ainda que de natureza extremamente especializada. Contudo, como no  de espantar, o conjunto mais intrigante de novos materiais veio do prprio 
Prieur de Sion, ou de fontes direta ou indiretamente ligadas a essa ordem.
No final de 1981, por exemplo, recebemos vrios pacotes de documentos do marqus de Chrisey, amigo ntimo e colaborador do gromestre do Prieur de Sion. Parte 
do material de Chrisey tinha interesse puramente histrico, referindo-se a eventos ou personagens especficos citados no livro que acabramos de concluir. Outros 
itens, porm, tinham carter mais contemporneo e relevncia mais imediata. Um deles se referia especificamente aos pergaminhos supostamente encontrados por Brenger 
Sauniere na igreja de Rennes-leChteau em 1891. Tnhamos ouvido histrias conflitantes sobre o que fora feito desses documentos, mas todas eram vagas demais para 
serem verificadas. Embora mais tarde tenha ficado claro que Chrisey no os vira pessoalmente, ele pelo menos apresentava pistas que pareciam ser tangveis. Segundo 
Chrisey, as pistas em questo lhe haviam sido reveladas por um idoso aristocrata, Henri, conde de Lenoncourt. Segundo Chrisey, Lenoncourt teria dito, acerca da 
descoberta de Sauniere:

Sauniere os encontrou - e nunca se separou deles. Sua sobrinha, a sra. James, de Montazels, herdou-os em fevereiro de 1917. Em 1965, ela os vendeu para a Liga Internacional 
de Livreiros Antiqurios. Nunca ficou sabendo que um dos dois respeitveis advogados era o capito Ronald Stansmore, do Servio de Informaes britnico, e o outro 
era sir Thomas Frazer, a "eminncia parda" de Buckingham {sic}. Os pergaminhos de Branca de Castela encontram-se atualmente num cofre do Lloyds Bank Europe Limited. 
Desde o artigo publicado no Dai/y Express, um jornal com tiragem de 3 milhes de exemplares, ningum na Gr-Bretanha ignora o pedido de reconhecimento dos direitos 
merovngios feito em 1955 e 1956 por sir Alexander Aikman, sir John Montague Brocklebank, major Hugh Murchison Clowes e dezenove outros homens no tabelionato de 
P. F. J. Freeman, notrio por designao real.

Com o desenrolar de nossa investigao, todos esses nomes viriam a assumir uma importncia crescente. Mais tarde, ficou claro tambm que alguns dados obtidos por 
Chrisey (ou Lenoncourt), e pelo menos um nome, estavam embaralhados. Apesar disso, ele nos dera uma pista tangvel a seguir, ainda que sua plena relevncia no 
fosse imediatamente clara. Forneceu-nos tambm algo ainda mais intrigante e mais desconcertante.
Nosso primeiro encontro com Pierre Plantard de Saint-Clair, em 1979, fora arranjado por Jania Macgillivray, uma jornalista que morava em Paris e fazia pesquisas 
para a BBC. Em nossa primeira conversa com os representantes do Prieur de Sion, Jania estivera presente. Estivera presente tambm durante a filmagem do nosso programa 
para Chronicle, da BBC, transmitido no outono de 1979 sob o ttulo The Shadow of the Templars.
No final do vero de 1979, quando The Shadow of the Templars ainda estava sendo editado, Jania escreveu um artigo, segundo seu prprio ponto de vista. Mantendo um 
distanciamento jornalstico, ctico mas intrigado, descreveu seu papel como intermediria e narrou as entrevistas que fizera por conta prpria com representantes 
do Prieur de Sion que se haviam disposto a receb-la. Uma cpia desse artigo foi entregue a uma agncia de notcias, que o passou a uma revista francesa, Bonne 
Soire, para traduo em francs e possvel publicao. Outra cpia da verso original em ingls foi enviada para ns, aos cuidados do nosso produtor na BBC - o 
qual, no sabemos por que, nunca o encaminhou para ns. Em conseqncia, ignorvamos o que Jania dissera, e mesmo que tinha escrito um artigo, at que, em 1981, 
o marqus de Chrisey nos enviou uma cpia da traduo francesa. O texto era espantoso. Entrando em contato com Jania, pudemos confirmar nossa suspeita - outras 
mos haviam trabalhado nele.
Das doze pginas do texto francs, as onze primeiras correspondiam mais ou menos - embora inclussem vrios pequenos acrscimos - ao que Jania escrevera em ingls. 
A ltima, porm, absolutamente no era da jornalista. Segundo a pgina de rosto, a verso inglesa fora traduzida por um certo Robert Suffert - que at hoje no conseguimos 
encontrar, apesar de muito esforo. A revista Bonne Soire e a agncia de notcias, bem como a prpria Jania, negaram conhec-lo ou ter qualquer informao a seu 
respeito. No est claro nem mesmo se Suffert realmente existe ou se no passa de um pseudnimo - talvez do prprio marqus de Chrisey. Tambm no est claro se 
as alteraes no texto de Jania foram feitas por Suffert ou por outra pessoa. Seja como for, a ltima pgina do artigo era obra de uma mo inteiramente estranha. 
Nem ns nem Jania conseguimos descobrir em que momento um artigo inteiramente inocente oferecido a uma revista francesa teria podido sofrer tamanha adulterao.
Um ponto de grande interesse no texto adulterado dizia respeito a uma questo que nos desnorteara durante algum tempo - a saber, a identidade do gro-mestre do Prieur 
de Sion entre 1963 e 1981. De acordo com declaraes e documentos do prprio Prieur de Sion, Jean Cocteau havia presidido a ordem na posio de gro-mestre de 1918 
at sua morte, em 1963. Em 1981, Pierre Plantard de SaintClair fora eleito para o cargo, e isso fora noticiado pela imprensa francesa na poca. Mas quem tinha sido 
o gro-mestre nesse intervalo - isto , durante o perodo crucial em que rumores sobre a existncia do Prieur e muitos de seus documentos tinham "vazado" pouco 
a pouco para o pblico? Em 1979, tnhamos sido informados de que o gro-mestre era um influente eclesistico e beletrista francs, o padre Franois Ducaud-Bourget. 
Essa sugesto suscitava indagaes e contradies de toda sorte, pois o prprio Ducaud-Bourget negara esse envolvimento, tanto para ns como para um entrevistador 
da Bonne Soire. Por outro lado, o marqus de Chrisey, numa carta enviada a ns, afirmara que Ducaud-Bourget no fora eleito "por quorum pleno", tendo em seguida, 
de todo modo, se declarado incapacitado.
A ltima pgina introduzida no artigo de Jania respondia parcialmente  dvida sobre a chefia suprema do Prieur de Sion entre 1963 e 1981.

No se sabe quem  o atual gro-mestre, embora se acredite que, desde a morte de Cocteau, o poder foi exercido por um triunvirato composto por Gaylord Freeman, Pierre 
Plantard e Antonio Merzagora.

Segundo o elusivo tradutor e copidesque do artigo de Jania, portanto, no houvera de fato um gro-mestre nico nos dezoito anos que tanto nos interessavam. Ao contrrio, 
as funes do cargo haviam sido desempenhadas aparentemente por trs pessoas. Nessa altura, os nomes Gaylord Freeman e Antonio Merzagora nada nos diziam. Merzagora 
at hoje no diz. Gaylord Freeman, no entanto, no tardou a ganhar uma importncia fundamental.
O acrscimo mais importante feito ao texto de Jania era talvez uma citao de uma pessoa referida apenas como "lorde Blackford". Jania jamais o havia entrevistado, 
jamais estivera com ele, jamais ouvira falar dele. Segundo a verso alterada de seu texto, porm, havia feito as trs coisas:

Alguns anos atrs, tive a oportunidade de entrevistar um dos 121 membros graduados do Prieur de Sion, o Honourable lorde Blackford.

Na declarao que se segue, atribuda a ele, Blackford se revela inusitadamente familiarizado com o Prieur de Sion, bem como inusitadamente disposto a falar a respeito. 
Chega at a insinuar um cisma potencialmente grave no interior da Ordem, datado de 1955 ou 1956:
Uma associao chamada Prieur de Sion foi de fato constituda na Frana por volta de 1956, com objetivos especficos. Teve existncia legal, foi registrada no Journal 
Officiel e dissolvida aps os eventos de 1958 na Frana, quando Plantard de Saint-Clair foi secretrio-geral dos Comits de Salvao Pblica. Essa nova organizao 
de 1956 refletia uma crise interna do venervel Sionis Prioratus, fundado por volta de 1099 em Jerusalm. Foram as reformas introduzidas por Jean Cocteau em 1955, 
ao negar aos membros da ordem seu anonimato, que provocaram a criao [da nova organizao]. Nessa ocasio, todos os membros foram compelidos a fornecer uma certido 
de nascimento e uma assinatura registrada em cartrio. Uma necessidade, talvez... mas uma violao da liberdade.

Quando lemos esta declarao pela primeira vez, em 1981, o nome Blackford, assim como Antonio Merzagora e Gaylord Freeman, nos eram inteiramente desconhecidos. Tanto 
Blackford quando as palavras a ele atribudas, porm, logo se tomariam de fato extremamente importantes.

Conversa com o sr. Plantard

Enquanto trabalhvamos em nosso livro, no revelamos nada do seu contedo aos representantes do Prieur de Sion com quem tivemos contato. No podamos antecipar 
a reao deles, mas tnhamos todas as razes para acreditar que no seria de todo simptica. Pelo que sabamos, talvez fssemos divulgar coisas que o Prieur no 
queria ver divulgadas; talvez fssemos at perturbar algum cronograma segundo o qual a Ordem estaria trabalhando.
Uma vez concludo o livro, porm, ficamos naturalmente bastante curiosos para conhecer a reao do Prieur. Chegamos a aventar, de brincadeira, a possibilidade de 
o sr. Plantard, o sr. Chrisey ou algum dos outros citados como possveis descendentes sangneos de Jesus, tentar nos processar de algum modo. Em que base? Difamao? 
Seria possvel interpretar como difamante para uma pessoa a sugesto de que ela  descendente de Jesus? Poderamos criar um estranho precedente legal, para dizer 
o mnimo. E, de passagem, popularizar a palavra "merovngio".
As primeiras reaes que nos chegaram do Prieur foram no s ambguas como surpreendentemente desencontradas. Em 1979, em nosso primeiro encontro com o sr. Plantard, 
o contato fora feito pelo escritor Jean-Luc Chaumeil- que no era, segundo ele prprio declarou, membro da Ordem. Na poca em que nosso livro foi lanado, o sr. 
Chaumeil no estava mais em cena e o papel de embaixador do Prieur estava a cargo agora de um outro escritor, Louis Vazart. O sr. Vazart visitou um amigo nosso 
em Paris e, afirmando estar transmitindo as idias do sr. Plantard, declarou que este estava "satisfeito". Mas, ao mesmo tempo em que o sr. Vazart endossava assim 
o livro, recebemos uma carta bastante rude do sr. Chrisey e outra, altivamente irritada, do prprio sr. Plantard. Este se dizia particularmente aborrecido porque 
havamos reproduzido o moto de seu braso erroneamente. Ele aparecia como Et in Arcadia Ego, quando na verdade, insistia o sr. Plantard, essas palavras deveriam 
ter sido seguidas por reticncias: Et in Arcadia Ego...  claro que, num nvel, esta objeo podia ser interpretada como insignificante. Noutro, porm, ela nos fornecia 
uma pista intrigante. Seguida de reticncias, as palavras enigmticas se tornavam, como assinalou o sr. Plantard, o incio de uma frase.
Evidentemente no estvamos nada dispostos a censurar, corrigir ou ajustar nosso livro de acordo com os ditames do Prieur de Sion. Por outro lado, no tnhamos 
objeo a que o sr. Plantard chamasse nossa ateno para quaisquer erros que pudssemos ter cometido com relao  Ordem, de tal modo que os pudssemos corrigir 
em edies futuras ou em lngua estrangeira. Alm disso, no correr de nossos encontros anteriores, tnhamos nos afeioado ao sr. Plantard; no desejvamos em absoluto 
contrari-lo gratuitamente. Finalmente, queramos manter aberto nosso canal de comunicao com ele, em proveito de futuras investigaes. Assim, resolvemos tentar 
consertar as coisas com diplomacia.
Numa noite de fevereiro de 1982, telefonamos de Londres para o sr. Plantard. Espervamos uma resposta arrogante e rspida, mais ou menos no diapaso da sua carta. 
Para nossa surpresa, ele se mostrou extremamente cordial e pareceu genuinamente satisfeito em falar conosco. Criticou os mesmos pontos que levantara na carta, mas 
de uma maneira amistosa, quase paternal. Sua carta, insinuou, fora um documento oficial, cpias haviam circulado entre outros membros da Ordem. Pessoalmente, estava 
disposto a ser bem menos frio. Em seguida, para nossa surpresa, queixou-se de que a fotografia dele mesmo e de seu filho publicadas no nosso livro no era muito 
boa. Concordamos, explicando que fora feita pelo nosso produtor da BBC durante um dos nossos encontros de 1979. O sr. Plantard prometeu nos enviar uma melhor, para 
edies subseqentes. Ao que parecia, at gromestres do Prieur de Sion podem estar sujeitos  vaidade.
Nos dois meses que se seguiram, tivemos vrias outras conversas por telefone com o sr. Plantard, enquanto Louis Vazart continuava a se encontrar com nosso colega 
em Paris. Finalmente, no final de maro, uma vez que a poeira levantada pela publicidade que acompanhou o lanamento do livro comeava a baixar e j no tnhamos 
de estar  disposio para entrevistas, combinamos ir a Paris para um encontro pessoal. Nesse nterim, foi publicado na Newsweek um artigo sobre o livro com citaes 
de Jean-Luc Chaumeil. Como este havia sado de cena, aquilo nos intrigou bastante. Que interesse tinha ele na questo? Em nome de quem ou com que autoridade falava? 
Louis Vazart declarou que as afirmaes de Chaumeil no deviam ser levadas a srio: o sr. Chaumeil, afirmou enfaticamente, no falava mais pelo Prieur de Sion.
Em meados de abril encontramo-nos com o sr. Plantard em Paris. Como de costume, apresentou-se com um squito, constitudo dessa vez por Louis Vazart e dois jornalistas, 
Jean-Pierre Deloux e Jacques Bretigny, que havia escrito Rennes-Ie-Chteau: capitale secrete de l'histoire de France. Evidentemente, Jean-Luc Chaumeil no estava 
presente. Quando perguntamos por ele, Plantard e Vazard foram vagos, lacnicos, evasivos, por vezes agressivos. Insinuaram ambiguamente que o sr. Chaumeil estaria 
de posse de documentos provenientes do Prieur de Sion e talvez disposto a vend-los por uma soma exorbitante ningum esclareceu, porm, que documentos eram esses 
ou de que modo o sr. Chaumeil tivera acesso a eles. O sr. Plantard acrescentou ainda que, na noite em que lhe havamos telefonado para marcar aquele encontro, recebera 
um outro telefonema, de algum que dissera ser um de ns e conseguira fazer uma boa imitao vocal. Dizendo que acabava de chegar a Paris, essa pessoa propusera 
ao sr. Plantard um encontro num hotel naquela mesma noite. Como acabara de receber nosso telefonema de Londres, o sr. Plantard no se deixou enganar. Movido pela 
curiosidade, contudo, enviou dois confrades para o encontro combinado. Mal estes haviam chegado, chegou tambm a polcia, atendendo a um chamado annimo. Algum 
telefonara, avisando sobre uma bomba nas vizinhanas.
Esse incidente nos deixou aturdidos. Havia de fato relao entre o falso telefonema ao sr. Plantard e a ameaa de bomba? Nesse caso, com que inteno? O sr. Plantard 
sugeriu que talvez algum quisesse fotograf-lo no local do logro. Mas de que serviria isso? Aquele episdio, a menos que tivesse uma dimenso que ignorvamos por 
completo, nos parecia fora de propsito - uma provocao tola e infantil, que no causara nenhum dano real, s aborrecimento.
Nesse encontro de abril de 1982, o sr. Plantard adotou uma atitude ambivalente em relao ao nosso livro. Aprovou-o no conjunto e se disps a corrigir, para a edio 
francesa, algumas referncias vagas ou imprecisas. Ao mesmo tempo, no quis confirmar nem refutar nossa tese de que a linhagem merovngia era descendente de Jesus. 
No havia provas em nenhum dos dois sentidos, disse evasivamente. Tudo ocorrera "num passado remoto demais", "demasiado tempo atrs". No entanto, reconheceu que 
os merovngios tinham ascendncia judaica, sendo originrios da linhagem real de Davi.
O sr. Plantard contestou tambm nossas sugestes relativas ao envolvimento do Prieur de Sion na poltica contempornea. O Prieur de Sion, declarou secamente, no 
tinha ambies polticas. Perguntamos ento: no as tivera no passado?
- No passado, sim - admitiu -, mas no atualmente. Hoje os objetivos do Prieur de Sion so filosficos.
- Que significa isso? - perguntamos. - A poltica  determinada pela filosofia ou a filosofia pela poltica?
- A poltica pela filosofia,  claro - respondeu o sr. Plantard com um sorriso irnico.
Durante esse encontro, dois outros elementos de interesse vieram  tona. A certa altura, o sr. Plantard mencionou, quase casualmente, de passagem, que, durante a 
guerra, emissrios de Heinrich Himmler lhe haviam oferecido o ttulo de duque da Bretanha, caso prometesse lealdade ao Terceiro Reich e que declinara o oferecimento. 
Em vez disso, como veremos, havia editado uma curiosa publicao intitulada Vaincre, que foi qualificada como "revista da Resistncia"; constava ainda que fora preso 
e torturado pela Gestapo. Mas por que lhe teria sido oferecido o ducado da Bretanha, se  que isso de fato ocorrera? A primeira vista, a prpria idia podia parecer 
absurda. Na verdade contudo, no era de todo implausvel.  sabido que os membros da SS tinham como objetivo final criar para si um Estado cujo territrio seria 
o principado medieval da Borgonha, erguido em bases nominalmente feudais ou cavaleirosas e subdividido em unidades menores, segundo antigas fronteiras polticas 
e no regionalismo tradicional. O restante da Frana passaria ser chamado de "Glia" e um ducado da Bretanha poderia perfeitamente ter tido lugar nos projetos da 
SS. Por que razo fora oferecido ao sr. Plantard, no entanto, era um outro problema.
O ltimo ponto de interesse suscitado pelo nosso encontro com o sr. Plantard em abril de 1982 foi ainda mais vago. Vrias vezes, no curso de nossa discusso, o sr. 
Plantard comentou o "momento" em que nosso livro fora lanado. Ao que parecia, julgara-o inoportuno. Ns o tnhamos publicado "cedo demais", disse-nos. E, pelo menos 
trs vezes, repetiu: "Ainda no era o momento." Havia uma ponta de censura e rancor nesses comentrios, como se tivssemos de fato alterado algum cronograma segundo 
o qual o Prieur de Sion estivesse trabalhando. De todo modo, admitiu o sr. Plantard, como que tentando ver a questo pelo melhor dos lados, nosso trabalho se mostraria 
valioso "quando chegasse o momento certo".
Qual seria o momento certo? No recebemos resposta concreta para esta pergunta, s generalidades nebulosas. Em vrias ocasies posteriores, contudo, em encontros 
e conversas pelo telefone com o sr. Plantard e outros, foi enfaticamente sugerido que 1984 seria um ano crucial nos planos do Prieur de Sion. Diante disso, em 1984 
dedicamos especial ateno ao que se passava na Frana. Nada aconteceu que parecesse ter alguma relevncia para o Prieur de Sion. Pelo menos no tocante s questes 
pblicas. Em contrapartida, no tocante s prprias questes internas do Prieur de Sion, 1984 se revelou de fato um ano muito conturbado.

18
A CONEXO BRITNICA

As pesquisas que culminaram com O santo graal e a linhgoem sagrada haviam comeado a partir de um mistrio aparentemente local no sul da Frana, na aldeia de Rennes-Ie-Chteau, 
nos contrafortes dos Pireneus. Ali, em 1891, Brenger Sauniere, o proco do lugar, descobrira uma coleo de pergaminhos antigos. Ao que tudo indica, em conseqncia 
dessa descoberta o padre se tomou extraordinariamente rico, ganhando e tambm gastando somas fabulosas de dinheiro. Podia-se suspeitar a princpio - como fizemos, 
juntamente com outros que escreveram sobre o assunto - que os pergaminhos em questo tinham permitido a Sauniere chegar a algum tipo de tesouro. Havia de fato algum 
fundamento para acreditar que ele talvez tivesse encontrado o tesouro do Templo de Jerusalm, pilhado pelos romanos em 70 d.C., levado para Roma e depois novamente 
pilhado pelos visigodos em 410 d.C. e levado para as vizinhanas de Rennes-le-Chteau. A medida que fomos examinando mais atentamente todo o assunto, no entanto, 
foi ficando cada vez mais evidente que, mesmo que houvesse um tesouro envolvido, a descoberta fundamental de Sauniere fora um segredo um segredo que, como dissemos, 
irradiando-se a partir de um vilarejo atrasado, acabava por envolver toda a cultura ocidental e remontava no tempo, projetando-se por sobre 2 mil anos de histria.
Ao mesmo tempo, vrias perguntas intrigantes continuavam sem resposta. Algumas diziam respeito muito especificamente aos pergaminhos supostamente encontrados por 
Sauniere. Segundo todos os relatos da histria que ouvimos ou lemos, tanto em documentos do Prieur de Sion quanto em fontes externas, Sauniere havia descoberto 
quatro pergaminhos. Trs deles eram, com muita preciso, caracterizados como: (1) uma genealogia datada de 1244, com o sinete da rainha Branca de Castela, me do 
rei Lus IX, que confirma a sobrevivncia da linhagem sangunea dos merovngios; (2) uma genealogia atualizada, abrangendo o perodo de 1244 a 1644, e datada de 
1644, da autoria de Franois-Pierre d'Hautpoul, na poca senhor de Rennes-IeChteau; e (3) o chamado "testamento" de Henri d'Hautpoul, datado de 1695, que ao que 
se diz conteria um "segredo de Estado" oficial, que contudo nunca foi revelado. A razo por que esses itens particulares teriam tamanha importncia permanecia obscura. 
Quem sabe havia alguma coisa de grande interesse escrita no verso dos pergaminhos? Ou, quem sabe, eles conteriam outras informaes explosivas alm de duas simples 
genealogias e um "testamento"?
Fosse qual fosse a resposta a estas perguntas, os trs documentos eram sempre e invariavelmente citados. Ao mesmo tempo, ainda em 1967, o Prieur de Sion deixara 
"vazar" o que seria o contedo de dois dos pergaminhos supostamente descobertos por Sauniere. Tratava-se dos enigmticos textos bblicos contendo mensagens cifradas 
que foram reproduzidos em livros sobre o caso, em artigos de revista e em nossos prprios filmes para a televiso. Um deles  um extrato do Evangelho de Joo, consistindo 
do captulo 12, versculos 1-12. O outro  uma combinao de Lucas 6:1-5, Mateus 12:18 e Marcos 2:23-28. Em ambos os textos, as palavras aparecem emendadas umas 
s outras, embora quebradas por vezes, de maneira aparentemente arbitrria, no final das linhas. Pontos misteriosos aparecem sob certas letras. Outras se elevam 
ligeiramente acima das vizinhas, ou so deliberadamente menores. H letras suprfluas interpoladas. Quando decifrado, o texto do Evangelho de Joo transmite a seguinte 
mensagem:
A DAGOBERT II ROI ET A SION EST CE TRESOR ET IL EST LA MORT.
(A DAGOBERTO II, REI, E A SIO PERTENCE ESTE TESOURO E ELE ALI JAZ MORTO.)

   O texto composto de Lucas, Mateus e Marcos, cifrado de maneira muito mais intricada, revela por fim a seguinte mensagem:
   
BERGERE PAS DE TENTATION QUE POUSSIN TENIERS GARDENT LA CLEF PAX DCLXXXI PAR LA CROIX ET CE CHEVAL DE DIEU J'ACHEVE CE DAEMON DE GARDIEN A MIDI POMMES BLEUES. (PASTORA, 
NENHUMA TENTAO. QUE POUSSIN, TENIERS, GUARDAM A CHAVE. PAZ 681. PELA CRUZ E ESTE CAVALO DE DEUS EU ACABO [OU DESTRUO] ESTE DEMNIO GUARDIO AO MElODIA. MAS AZUIS.)

Em 1979, no nosso primeiro encontro com o sr. Plantard, ele nos disse que os textos cifrados eram na verdade contrafaes forjadas em 1956 pelo marqus de Chrisey 
para um curto programa de televiso. Contestamos essa afirmao. O assombroso esforo necessrio para urdir as chaves do cdigo parecia incongruente, certamente 
ridculo, para um objetivo como esse. O sr. Plantard admitiu ento que as contrafaes tinham sido baseadas muito estreitamente nos originais. Em outras palavras, 
no tinham sido completamente "forjadas" pelo sr. Chrisey. Tinham sido copiadas, tendo o sr. Chrisey feito apenas alguns acrscimos. Suprimidos esses acrscimos, 
o que restava eram os textos originais encontrados por Sauniere.
Mas se esses dois textos bblicos eram autnticos, e se havia trs outros pergaminhos - duas genealogias e o "testamento" de Hautpoul -, isso perfazia um total de 
cinco. Cinco documentos diferentes, quando se afirmava que Sauniere descobrira apenas quatro.
Uma segunda questo, ainda mais decisiva, era o que fora feito desses pergaminhos. Segundo uma verso, teriam sido "extorquidos" e ido parar nas mos da Liga dos 
Livreiros Antiqurios - ou, de qualquer maneira, nas mos de determinados indivduos, em geral identificados como "Roland Stansmore"e "sir Thomas Frazer", que se 
tinham feito passar como representantes dessa entidade. Segundo outra verso, teriam sido roubados da biblioteca do padre mile Hoffet, em Paris, pouco aps sua 
morte em 1946. Dizia-se que depois teriam chegado aos arquivos dos Cavaleiros de Malta. Em nossos primeiros encontros, o sr. Plantard confirmara uma afirmao repetida 
em vrias fontes especificas do Prieur de Sion: que quela altura (1979) os documentos estavam em segurana numa caixa-forte do Lloyds International, em Londres. 
O sr. Plantard no explicou, porm, como tinham ido parar ali. Finalmente, outro misterioso acrscimo feito ao artigo de Jania Macgillivray afirmava que os pergaminhos 
tinham sido removidos de Londres para um cofre de segurana num banco parisiense, localizado na Place de Mxico n 4. Se isso fosse verdade, os pergaminhos, naquele 
final de 1979, estavam de novo na Frana. No havia qualquer indicao, porm, de quem os transferira ou por que, de quem tivera acesso a eles, de quem fora responsvel 
pelas nebulosas transaes a eles associadas.

Documentos Autenticados

Em nosso encontro de 17 de maio de 1983, o sr. Plantard deu mais detalhes sobre duas questes fundamentais relativas aos pergaminhos de Sauniere - e, como era tpico 
dele, aumentou com isso a nossa perplexidade. Os documentos descobertos por Sauniere, disse ele, eram de fato quatro. Trs eram aqueles a que vrias fontes aludiam 
repetidamente: uma genealogia datada de 1244, com o sinete de Bran

ca de Castela, uma genealogia de Hautpoul, datada de 1644, e o "testamento" de Hautpoul, datado de 1695. O quarto pergaminho, disse ele, era o original a partir 
do qual o marqus de Chrisey forjara sua contrafao. Segundo o sr. Plantard, havia uma mensagem cifrada de cada lado da pgina. Ao que parecia, esses dois textos 
se relacionavam de algum modo entre si - isso, por exemplo, se a folha fosse dobrada e os textos olhados contra a luz, em superposio. Na verdade, ele insinuou 
que a principal "modificao" feita pelo marqus de Chrisey consistira simplesmente em reproduzir os dois lados da mesma pgina em pginas diferentes e sem respeitar 
a escala original.
   Isso,  claro, fez ressurgir imediatamente uma questo com que nos entretramos ocasionalmente no passado. No seria possvel que os trs outros pergaminhos encontrados 
por Sauniere fossem importantes no por causa do seu contedo, mas por alguma outra razo alguma coisa relacionada com a realidade fsica das folhas em que estavam 
inscritos? Ou com algo que estivesse no verso, por exemplo? Uma genealogia da famlia Hautpoul, mesmo para quem os conhecesse e soubesse que tinham sido proprietrios 
de Rennes-Ie-Chteau, dificilmente poderia justificar todo o alvoroo aparentemente gerado. Mas, e se houvesse outra coisa no verso do pergaminho?
    verdade que h um documento sobre a genealogia Hautpoul de 1644 que sugere sua efetiva importncia.  sabido que ele foi autenticado em 23 de novembro de 1644, 
por Captier, notrio da cidade de Esperanza, perto de Rennes-le-Chteau. Aps desaparecer durante algum tempo, esse documento foi novamente encontrado por JeanBaptiste 
Siau, notrio de Esperanza, em 1780. Por alguma razo no explicitada, este o considerou to importante que se recusou a devolv-lo  famlia Hautpoul. Declarou 
tratar-se de um documento de "grande importncia", que no poderia sair de suas mos. Ofereceu-se para viajar com ele e mostr-lo pessoalmente a qualquer autoridade 
competente, mas insistia em devolv-lo depois  sua casa-forte.2 Vez por outra, a expresso "segredo de Estado" foi empregada em referncia a esse documento. Algum 
tempo depois do ano 1780, ele voltou a desaparecer. Ou, o que  mais provvel, foi escondido por causa da ecloso da Revoluo Francesa. H indcios de que, mais 
tarde, membros da famlia Hautpoul que sabiam da sua existncia tentaram localiz-lo, ao que parece sem xito.
O sr. Plantard se recusou a comentar tanto os pergaminhos Hautpoul quanto a genealogia de 1244 com o sinete de Branca de Castela. Afirmou simplesmente que o quarto 
pergaminho encontrado por Sauniere consistia dos dois textos bblicos cifrados, um de cada lado da pgina. Mas, ato contnuo, sem qualquer prembulo ou aviso, puxou 
subitamente de sua pasta e depositou sobre a mesa  nossa frente dois documentos que impressionavam pela profuso de fitas e sinetes. O texto, quando o lemos, pareceu 
arrancar abruptamente toda a questo dos pergaminhos do reino da hiptese e da especulao e ancor-lo num territrio muito concreto, muito especificamente britnico.
Os documentos que o sr. Plantard nos mostrou, e de que nos deu fotografias, tinham sido oficialmente autenticados em cartrio. O primeiro, datado de 5 de outubro 
de 1955 e dirigido ao consulado da Frana em Londres, requeria autorizao para a exportao de trs pergaminhos: uma genealogia datada de 1244 com o sinete de Branca 
de Castela, uma genealogia datada de 1644, por Franois-Pierre d'Hautpoul e o "testamento" de Henri d'Hautpoul de 1695. O texto se iniciava assim:

Eu, Patrick Francis Jourdan Freeman, tabelio (...) atesto (...) que a assinatura R.S. Nutting que se encontra subposta  petio anexa  de fato a do capito Ronald 
Stansmore Nutting (...).

O sr. Freeman declarava tambm ter verificado a autenticidade da certido de nascimento, que dizia estar anexa - embora na fotografia a certido de nascimento anexa 
seja no a do capito Nutting, mas a de um certo visconde Frederick Leathers.
quela altura, o nome Leathers era desconhecido para ns. Parecia claro, no entanto, que o capito Nutting era a pessoa cujo nome fora deturpado, aparecendo como 
"Roland" ou "Ronald Stansmore" em vrias referncias que tnhamos encontrado antes. Em 1981, por exemplo, o marqus de Chrisey, numa passagem citada acima, mencionara 
o "capito Ronald Stansmore, do Servio de Informaes britnico", que, fazendo-se passar por um "respeitvel advogado", comprara os pergaminhos de Sauniere, pretensamente 
em nome da Liga Internacional dos Livreiros Antiqurios. Na mesma passagem, havia meno a:
( .. .) o pedido de reconhecimento dos direitos merovngios feito em 1955 e 1956 por sir Alexander Aikman, sir John Montague Broclclebank, major Hugh Murchison Clowes 
e dezenove outros homens no tabelionato de P. F. J. Freeman, tabelio por designao real.

A primeira pgina dos documentos que o sr. Plantard nos mostrou trazia o cabealho "Pedido de Autorizao ao Consulado-Geral da Frana". No texto que se seguia, 
trs ingleses eram citados: o Right Honourable visconde Leathers, CH, nascido em 21 de novembro de 1883 em Londres; o major Hugh Murchison Clowes, DSO, nascido em 
27 de abril de 1885 em Londres; e o capito Ronald Stansmore Nutting, OBE, MC, nascido em 3 de maro de 1888 em Londres.  Esses trs cavalheiros solicitavam ao consulado-geral 
da Frana permisso para exportar daquele pas:

(...) trs pergaminhos cujo valor no pode ser calculado, confiados a ns, para fins de investigao histrica, por Madame James, residente na Frana em Montazels 
(Aude). Ela entrou na posse legal desses itens em virtude de um legado de seu tio, o padre Sauniere, vigrio de Rennes-leChteau (Aude).

Segue-se a descrio especfica dos trs itens em questo - a genealogia de 1244, a genealogia de 1644 e o "testamento" de 1695. Depois disso, o texto prossegue 
declarando:

Essas genealogias contm prova da descendncia direta, atravs da linha masculina de Sigeberto IV, filho de Dagoberto II, rei da Austrsia, atravs da Casa de Plantard, 
condes de Rhdae, e no devem ser de modo algum reproduzidas.

O texto traz as assinaturas do visconde Leathers, do major Clowes e do capito Nutting. No alto da pgina est o selo e a chancela, datada de 25 de outubro de 1955, 
de Olivier de Saint-Germain, o cnsul francs. Na verdade, contudo, o que Saint-Germain certifica  apenas que a assinatura e o timbre do tabelio, P. F. ]. Freeman, 
esto corretos.
O sr. Plantard mostrou ainda outros documentos, semelhantes ao primeiro mas datados de um ano depois. Estes introduziam um novo e,  sua maneira, augusto personagem, 
cuja certido de nascimento estava em anexo. A certido era de Roundell Cecil Palmer, conde de Selbome. No frontispcio, Patrick Freeman, tabelio associado a John 
Newman and Sons, 27 Clements Lane, Lombard Street, Londres, confirmava que a assinatura subposta  petio anexa era realmente a de lorde Selbome, aposta na presena 
do prprio tabelio. O sr. Freeman confirmava ainda a autenticidade e validade da certido de nascimento de lorde Selbome. O atestado era datado de 23 de julho de 
1956. Sob a assinatura do sr. Freeman estavam o selo e a chancela do cnsul-geral francs em Londres, que agora, um ano mais tarde, no era mais Olivier de Saint-Germain 
e sim ]ean Guiraud. Sua assinatura e chancela eram datados de 19 de agosto de 1956.
No verso desse atestado lia-se "Terceira cpia original" - o que implicava haver pelo menos outras duas. Abaixo lia-se: "Requerimento ao cnsul-geral da Frana em 
Londres para a reteno de pergaminhos franceses." No texto que se seguia, lorde Selborne, "nascido em 15 de abril de 1887, em Londres", declarava que, do tabelionato 
de Patrick Freeman, tabelio, estava encaminhando uma petio ao cnsul-geral da Frana para reter certos documentos franceses. Passava ento a especificar, "sob 
palavra de honra", os documentos em questo. Lorde Selborne afirmava ainda que, em conformidade com os desejos de madame James, que os havia "doado", esses documentos 
reverteriam legalmente, passados 25 anos, ao sr. Plantard, conde de Rhdae e conde de Saint-Clair, nascido em 18 de maro de 1920. Caso o sr. Plantard no os reclamasse, 
seriam entregues aos Arquivos Nacionais da Frana.
No pargrafo seguinte, lorde Selborne declarava que os documentos em questo, depositados pelo capito Nutting, o major Clowes e o visconde Leathers junto  Liga 
Internacional de Livreiros Antiqurios, 39 Great Russell Street, Londres, seriam depositados "neste dia" num cofre-forte do Lloyds Bank Europe Limited. No se faria 
qualquer divulgao deles. No p da pgina havia a assinatura de lorde Selborne.
Com base nessas duas declaraes autenticadas em cartrio,  possvel compor uma espcie de enredo. Ao que parece, em 1955, o visconde Leathers, o major Clowes e 
o capito Nutting conseguiram trs dos quatro pergaminhos encontrados por Sauniere em 1891. Afirmam ter obtido os pergaminhos da sobrinha de Sauniere, madame James, 
ento residente na aldeia de Montazels, onde o prprio Sauniere nascera, nas proximidades de Rennes-le-Chteau. Pediram e presumivelmente obtiveram permisso para 
exportar esses trs pergaminhos para a Inglaterra. Em 5 de outubro de 1955, os trs ingleses compareceram ao tabelionato de Patrick Freeman e autenticaram sua petio 
para exportar - ou, seno a prpria petio, autenticaram algo relativo a ela, ainda que apenas certides de nascimento e assinaturas.
Em 1956, lorde Selborne pediu autorizao para conservar os pergaminhos na Inglaterra. Sua petio, ao que parece, foi novamente autenticada por Patrick Freeman, 
em 23 de julho, e assinada pelo cnsul-geral francs em 29 de agosto. Os pergaminhos, originalmente confiados  Liga Internacional de Livreiros Antiqurios, foram 
ento depositados no Lloyds Bank Europe. Dentro de 25 anos - isto , em 1980 ou 1981 - eles deveriam reverter a Pierre Plantard de Saint-Clair e, caso este no os 
reclamasse, seriam destinados ao governo francs.

Cavalheiros da City Londrina

Desde os nossos primeiros passos na investigao do mistrio de Rennes-le-Chteau, tnhamos encontrado referncias a dois ingleses que teriam supostamente se apoderado 
dos pergaminhos de Sauniere. Como foi dito anteriormente, seus nomes tinham sido citados anteriormente como sir Thomas Frazer e o capito Roland ou Ronald Stansmore, 
que agora revelava ser o capito Ronald Stansmore Nutting. A deturpao do nome de Nutting sugeria que as fontes responsveis por seu "vazamento", anos antes, eram 
elas prprias pouco slidas, baseando-se em informao imprecisa.
   Em 1981, na verso adulterada do artigo de Jania Macgillivray, havamos encontrado outro nome ingls, o de um certo lorde Blackford. Alm disso, tambm em 1981, 
o marqus de Chrisey havia suplementado a lista de figuras inglesas relacionadas com a trama. Atravs de elementos fornecidos pelo sr. Chrisey, havamos chegado 
aos nomes de sir Alexander Aikman, sir John Montague Brocklebank e major Hugh Murchison Clowes, que, com outros dezenove homens, teriam "feito um pedido de reconhecimento 
dos direitos merovngios", lavrado "no tabelionato de P. F. J. Freeman, tabelio".
Agora, em 1983, em face dos documentos autenticados que o sr. Plantard nos mostrava, o papel de pelo menos alguns desses homens se tornava mais palpvel, mais identificvel. 
Alm disso, a confuso em torno do nome de Nutting fora esclarecida. E dois nomes haviam sido acrescentados: o visconde Frederick Leathers e o conde de Selborne. 
Assim, a partir de vrias fontes, viamo-nos diante dos nomes de oito ingleses que estariam de algum modo ligados com os pergaminhos descobertos por Sauniere: Frazer, 
Nutting, Aikman, Brocklebank, Clowes, Blackford, Leathers e Selborne. Havia tambm o tabelio P.F.J. Freeman. E uma aluso a "dezenove outros".
Quem eram essas pessoas? Qual poderia ter sido a natureza do seu interesse nos pergaminhos encontrados em Rennes-le-Chteau em 1891? Por que esses pergaminhos tinham 
tido tanta importncia para esse grupo particular de ingleses? E que deveramos ns fazer diante do indcio de uma conexo com espionagem e a comunidade de informaes? 
Convm lembrar que Nutting tinha sido qualificado como membro do Servio de Informaes britnico, enquanto Frazer fora chamado de "eminncia parda de Buckingham". 
(A expresso, traduzida do francs, provavelmente pretende aludir ao palcio de Buckingham.) Frazer havia recebido o grau de OBE e fora nobilitado em 1947. Suas 
atividades, tanto quanto pudemos apurar, pareciam restringir-se essencialmente ao mundo dos negcios. Entre outros cargos ocupados por ele estava o de diretor da 
North British and Mercantil e Insurance.
Ex-capito da Guarda Irlandesa, Nutting se destacara tambm nos negcios, sobretudo no comrcio martimo e nas finanas. Tinha participado dos conselhos diretores 
de nada menos que catorze empresas, entre as quais a Arthur Guinness and Guardian Assurance. Fora presidente do conselho diretor da British and Irish Steam Packet 
Company. E at 1929 fora um dos diretores do Banco da Irlanda. Segundo um dos scios, pessoalmente entrevistado por ns, Nutting trabalhara tambm para o MI5, antigo 
nome da National Security Division of Military Intelligence, da Gr-Bretanha. 
Sir Alexander Aikman presidira o conselho diretor da EMI de 1946 a 1954 e participara da implantao da Independent Broadcasting Authority (ITV). Entre as empresas 
a cujos conselhos diretores pertencera estavam a Dunlop e, de novo, a Guardian Assurance.
Como Nutting, sir John Brocklebank estivera envolvido em comrcio martimo e tambm em seguros. De fato, sua famlia era envolvida com navegao mercante havia dois 
sculos e ele prprio presidia o conselho diretor da Cunard. Tinha sido tambm presidente do conselho diretor da Liverpool Steamship Owners' Association e participara 
da direo de duas companhias de seguros, uma delas subsidiria da Guardian Assurance.
O major Hugh Murchison Clowes trabalhara na firma impressora da famlia, William Clowes and Son, especializada na produo de Bblias. Entre as empresas de que era 
diretor estava a Guardian Assurance.
Antes da Segunda Guerra Mundial, o visconde Frederick Leathers era considerado um especialista internacional em navegao mercante. Durante a guerra fora amigo ntimo 
de Wiston Churchill e servira como ministro do Transporte de Guerra, cargo para o qual sua competncia em comrcio martimo o qualificava particularmente. Trabalhara 
no planejamento logstico da invaso da Normandia. Entre as empresas a cujo conselho diretor pertencera estavam P & O, National Westminster Bank e Guardian Assurance.
Durante a Primeira Guerra Mundial, Glyn Mason, baro Blackford, exercera um posto de comando sob o general Allenby, na Palestina. De 1922 a 1940, representara o 
Partido Conservador no Parlamento. Durante a Segunda Guerra Mundial, comandara um setor da Guarda Nacional. Mais tarde, fora vice-presidente da Cmara dos Lordes. 
O baro Blackford era presidente do conselho diretor da Guardian Assurance.
O conde de Selborne era amigo ntimo de Churchill, assim como o visconde Leathers, e certamente deve ter trabalhado com este ltimo. De 1942 a 1945, foi ministro 
da Economia de Guerra e, nessa condio, tambm colaborador ntimo de sir William Stephenson, o "homem chamado Intrpido". A funo primordial do ministrio de Selborne 
era recusar ao inimigo todo e qualquer material que pudesse ser til no esforo de guerra. Alm disso, como ministro da Economia de Guerra, Selborne fora o chefe 
geral da SOE - a Special Operations Executive -, que infiltrava agentes em territrios ocupados, colaborava com grupos locais de resistncia, plantava alvos para 
ataques areos, empreendia aes de sabotagem e desarticulao por trs das linhas do inimigo. A SOE atuava em ntima colaborao com o OSS norte-americano,  precursor 
da CIA. Alm disso, a uma esquina do quartel-general da SOE, no n 64 da Baker Street, ficava o quartelgeneral secreto de todos os agentes especiais da "Frana livre", 
tambm sob a autoridade de Selborne.
Muitos membros da SOE provinham das reas de finanas, navegao, jornalismo... e seguros. O cargo que lorde Selborne ocupou durante a guerra obrigava-o necessariamente 
a manter contato ntimo com companhias seguradoras. Segundo sir William Stephenson:

Quando se tem acesso aos fichrios das companhias de seguros, dispe-se de estudos detalhados sobre o ponto fraco de cada processo de manufatura ou minerao. As 
seguradoras podem perder fortunas em conseqncia de um acidente e por isso empregam especialistas para avaliar todos os modos possveis de as coisas darem errado. 
Seus relatrios servem de guias para sabotadores.
 
E o sr. Colin Gubbins, o ltimo diretor executivo da SOE, fez questo de reunir  sua volta liquidantes de seguros: "Em tempo de paz, eles lidam com pedidos de indenizao 
por danos, feitos por fbricas. Portanto, sabem o que pode fazer uma mquina parar de funcionar. .. rapidamente."        .
Depois da guerra, lorde Selborne passou a se interessar cada vez mais por assuntos religiosos, pelas relaes entre a Igreja e o Estado e os procedimentos adotados 
pela Igreja da Inglaterra na designao de bispos. Chefiou o Comit do Laicato Eclesistico na Cmara dos Lordes. No final da dcada de 1950, comeou a se mostrar 
cada vez mais conservador - por vezes a um grau que se poderia classificar de assustador, excntrico, ou ambos. Em 1956, por exemplo, apresentou um projeto de lei 
para o controle da imprensa, que visava submeter todos os jornais britnicos aos padres refletidos por The Times em maio daquele ano. Segundo sua filha, que entrevistamos, 
ele pensava estar "travando um combate de retaguarda pelo imprio". Ao que parece, sua luta se ampliou a ponto. abarcar todos os movimentos monarquistas no continente. 
A filha de lorde Selborne declarou ainda que ele tinha profundo interesse por genealogias e vrias vezes passara frias na regio dos Pireneus. Entre suas atividades 
empresariais, lorde Selborne foi diretor da North British and Mercantile Insurance Company - a companhia de que sir Thomas Frazer era tambm diretor.
Poderia lorde Selborne ter ficado sabendo de alguma coisa relacionada ao pergaminho de Sauniere graas ao trabalho de sua organizao na Frana durante a guerra? 
Afinal, dizia-se que o sr. Plantard e o Prieur de Sion tinham participado na Resistncia e ajudado De Gaulle de uma maneira ou outra. Se isso fosse verdade, Selborne 
sem dvida os teria conhecido, e a SOE teria certamente tido algum grau de contato com eles. Esse contato podia perfeitamente ter-se dado atravs de Andr Malraux, 
que desempenhou papel decisivo nas operaes da Resistncia, que estava em contato com os servios de informaes e as redes de sabotagem britnicos durante a guerra, 
cujo irmo integrava a SOE, e que vrias vezes fora apontado como membro graduado do Prieur de Sion. Mas por que lorde Selborne se teria enredado nos assuntos do 
Prieur de Sion mais de dez anos depois?
Fosse como fosse, parecia haver uma espcie de padro orientando o envolvimento dos ingleses cujos nomes havamos encontrado. Havia conexes documentadas entre vrios 
deles e conexes muito provveis entre os outros. Vrios tinham estado engajados no s em planejamento de alto nvel durante a guerra como tambm em operaes clandestinas 
de um ou outro tipo. Todos os oito atuavam na esfera da navegao comercial e/ou dos seguros. Dois deles - Selborne e Frazer - tinham sido diretores na North British 
and Mercantile Insurance. Os outros seis estavam ligados  Guardian Assurance (hoje Guardian Royal Exchange Assurance) - quatro como diretores, um como presidente 
do conselho diretor, e um como diretor de uma companhia subsidiria.
Mas esse padro, assim configurado, s suscitava novas questes. O que estivera fazendo, por exemplo, a Guardian Assurance nos idos de 1955 e 1956? Teria servido 
de fachada a algo clandestino? Ou teria sido usada como fachada por certos membros do seu conselho diretor? Como situar Frazer e Selborne, que no estavam ligados 
 Guardian Assurance? De qualquer modo, por que oito homens, todos diretores de companhias seguradoras, se teriam interessado, como parecia, por obter genealogias 
que estabeleciam a legitimidade da pretenso merovngia ao trono francs? Seria possvel encontrar uma explicao nos assuntos franceses, ou anglo-franceses, da 
poca?
Aquele foi sem dvida um perodo turbulento. Um ano antes, em maio de 1954, o exrcito francs fora derrotado em Dien Bien Phu, na Indochina. Internamente, a Frana 
estava convulsionada, com ameaas de queda do govemo, golpes de Estado e talvez at de guerra civil avolumando-se agourentamente no horizonte. No incio de 1955, 
j tinham sido enviados para a Arglia 20 mil soldados franceses, e estava se tomando difcil manter a situao sob controle. Ondas de choque geradas pela escalada 
da crise na frica do Norte comeavam a reverberar na Frana. Nesse nterim, a Gr-Bretanha mergulhava cada vez mais na situao de Chipre, que foi declarada de 
emergncia em 1955. No mesmo ano, Churchill renunciou e Anthony Eden tomou-se primeiro-ministro. Em julho de 1956, Nasser anexou o canal de Suez. Em outubro a Hungria 
se sublevou e foi esmagada pela invaso sovitica. Menos de um ms depois, irrompeu a crise do canal de Suez e tropas britnicas e francesas, juntamente com as de 
Israel, invadiram o Egito.
A poca foi marcada por outros eventos que s se tomaram pblicos mais tarde mas que j se armavam nos bastidores durante os anos de 1955 e 1956. Em janeiro de 1957, 
por exemplo, foi descoberto um compl do exrcito francs para tomar parte da Arglia. Estavam sendo traados os planos para a Comunidade Econmica Europia, que 
levariam ao Tratado de Roma em 1957.
Finalmente,  digno de nota que 1956 parece ter sido um ano decisivo para os assuntos internos do Prieur de Sion. Em 1956, a existncia da ordem "veio a pblico" 
pela primeira vez e ela se registrou no Journal Officiel. No mesmo ano, material pertencente  ordem comeou a ser depositado na Bibliotheque Nationale.
Poderia a transao que trouxera os pergaminhos de Sauniere para a Inglaterra ter tido relao com certos acontecimentos da poca particularmente com desdobramentos 
dos assuntos franceses e/ou do Prieur de Sion? Nesse caso, porm, de que modo? Para que fim? Os pergaminhos de Sauniere teriam sido levados para a Inglaterra para 
que ficassem fora do alcance de algum? Nesse caso, quem? Para serem usados para algum fim? Nesse caso, qual? Ou, ao contrrio, para assegurar que no fossem usados 
para algum fim? Nesse caso, mais uma vez, qual? E no interesse de quem estavam trabalhando Selbome, Nutting, Leathers e seus colegas? Eram movidos por interesses 
estritamente pessoais - o interesse de estudiosos de antiguidades, desejosos de obter os pergaminhos por razes puramente acadmicas? Ou havia algum envolvimento 
oficial, relacionado com a poltica internacional de alto nvel?
Dadas as suas atividades durante a guerra, no seria de espantar que, dez anos depois, Selborne, Nutting e Leathers e associados ainda mantivessem relaes com, 
digamos, a comunidade de informaes e continuassem a se ocupar, mesmo que apenas ocasionalmente, com questes de governo.  possvel tambm que seu trabalho se 
encaixasse em alguma estrutura formal,  margem da comunidade de informaes oficial. No fim da guerra, Colin Gubbins, da SOE, formou uma Associao de Membros para 
ex-agentes desse servio. Era mais do que uma organizao convencional de veteranos. Seu objetivo era assegurar que, numa emergncia futura, pessoas com especial 
talento e percia pudessem ser rapidamente contactadas e reunidas. Andr Malraux - cujo irmo, Roland, fora agente da SOE - criou uma unidade similar na Frana. 
Na verdade, em 1947 ele j mobilizara um verdadeiro exrcito privado - o RPF, ou Rassemblement du Peuple Franais - para assegurar a posio de De Gaulle e neutralizar 
as tentativas comunistas de tomar o poder na Frana. O RPF, que era integrado basicamente por ex-combatentes da Resistncia, transformou-se em 1958 na Associao 
de Apoio ao General De Gaulle, e procurou impedir que o retomo de De Gaulle ao poder naquele ano gerasse qualquer perturbao. Consta que a associao de Malraux 
trabalhou em estreita colaborao com os Comits de Salvao Pblica na Frana metropolitana, organizao que tambm desempenhou importante papel no retomo de De 
Gaulle ao poder e da qual Pierre Plantard dizia ter sido secretrio-geral. Em 1962, a organizao de exmilitantes da Resistncia criada por Malraux foi rebatizada 
de Associao pela Quinta Repblica. Se Malraux era de fato, como se afirmava, membro do Prieur de Sion, ele e suas associaes teriam sido com toda probabilidade 
os canais para os interesses do Prieur de Sion na Inglaterra. E,  claro, podia ter havido ligaes entre Malraux e a organizao de ex-agentes da SOE criada por 
Colin Gubbins. A partir de Gubbins, bastava dar um passo para chegar a Selborne.
De todo modo, logo iramos descobrir, em nossa investigao, indcios convincentes de que foras misteriosas trabalhavam nos bastidores. Essas foras no se reduziam 
s do Prieur de Sion. Tomou-se cada vez mais dificil para ns no suspeitar do envolvimento de um ou outro servio secreto - da Gr-Bretanha, da Frana, ou at 
talvez dos Estados Unidos.

Investigaes Preliminares

Antes que pudssemos tirar nossas prprias concluses, tnhamos,  claro, de confirmar a autenticidade dos documentos autenticados e nos informar melhor sobre a 
transao que, ao que parecia, trouxera os pergaminhos para a Inglaterra em 1955. A informao de que j dispnhamos sugeria vrias pistas. Tratava-se de explorar 
sistematicamente uma por uma.
Uma pista era o Lloys Bank International, onde, segundo o documento autenticado em 1956 e assinado por lorde Selborne, os pergaminhos de Sauniere tinham sido depositados 
- e de onde, segundo informao recebida em 1981 do marqus de Chrisey, tinham sido recentemente retirados e transferidos para a caixa-forte de um banco de Paris. 
Em conversa com dois contatos nossos no mundo bancrio, obtivemos informaes importantes.
A primeira era que o tabelionato de Patrick J. Freeman era o mesmo usado pelo prprio Lloyds Bank International. Se a transao em jogo de fato envolvera um depsito 
no banco e houvera necessidade de um tabelionato, com toda probabilidade se teria recorrido ao do sr. Freeman.
A segunda informao importante obtida de nossos contatos foi que o Lloyds deixara de manter caixas-fortes para a guarda de valores em 1979 - o ano em que, segundo 
o sr. Chrisey, os pergaminhos tinham sido transferidos de volta para a Frana. Desde 1979, o bando dispunha simplesmente de uma sala-forte onde se podiam guardar 
envelopes. Ao que parecia, muitas pessoas haviam retirado seus pertences aps essa mudana no procedimento do banco. Era perfeitamente plausvel, portanto, que os 
pergaminhos, se estivessem no Lloyds, tivessem sido retirados em 1979 e transferidos para Paris. Obviamente, teramos gostado de confirmar se esse depsito fora 
realmente feito no Lloyds, mas isso se mostrou impossvel, porque no tnhamos como saber em nome de que pessoa - real ou fictcio - ele poderia ter sido registrado.
No documento de 1956 assinado por lorde Selborne, dizia-se que os pergaminhos tinham sido inicialmente depositados junto  Liga Internacional dos Livreiros Antiqurios. 
J tnhamos investigado a Liga antes, e nossas diligncias renovadas nos forneceram pouca informao adicional. O documento autenticado de 1956 dava como endereo 
da Liga o n 39 da Great Russell Street - exatamente em frente ao Museu Britnico. Em 1956, esse imvel era ocupado por um livreiro, Henry Stevens, Sons & Stiles 
e na poca sua loja de fato funcionava como quartel-general da Liga Internacional de Livreiros Antiqurios e da filial britnica. Essa pista, no entanto, estava 
ma h muito tempo.
O pessoal do consulado francs se mostrou ansioso por ajudar. Mostramos fotografias dos documentos autenticados pelo tabelio a uma vice-consulesa. Ela confirmou 
que, tanto quanto podia julgar, o selo oficial e a assinatura de Jean Guiraud no documento de 1956 eram autnticos. A assinatura do documento de 1955 lhe era desconhecida. 
Uma rpida verificao, contudo, revelou que Olivier de Saint-Germain, o nome que constava no documento, trabalhara de fato no consulado na poca, e a vice-consulesa 
no via motivo para desconfiar da autenticidade de sua assinatura. Por outro lado, pareceu-lhe curioso que o consulado se tivesse de algum modo imiscudo naquele 
assunto. Em geral, explicou, esse tipo de transao envolvendo manuscritos antigos tinha de ser autorizada no pelo consulado, mas pelo Ministrio da Cultura da 
Frana, em Paris.
A nosso pedido, a vice-consulesa concordou em verificar se havia algum registro de uma reunio no consulado envolvendo algum dos homens especificados nas datas relevantes 
de 1955 e/ou 1956. Lamentavelmente - e isso se repetiu em outros pontos da nossa investigao -, registros de poca to remota haviam h muito sido destrudos. No 
havia a mnima esperana de encontrar nada relativo a uma transao ocorrida mais de um quarto de sculo antes.
No tocante ao consulado francs, como no tocante ao Lloyds e  Liga de Livreiros Antiqurios, tudo parecia bastante plausvel, e provas circunstanciais pareciam 
apoiar a autenticidade dos documentos autenticados. O prprio tempo, no entanto, conspirara para nos privar tanto de maior esclarecimento quanto de provas cabais. 
Elementos novos estavam nos chegando na proporo direta em que se revelavam inverificveis. Pistas estariam sendo apagadas ou aquilo era simplesmente uma conseqncia 
inevitvel da passagem dos anos?

Um Tabelio Ingls

Uma vez que Patrick J. Freeman, o homem que autenticara os documentos, continuava em atividade, fomos entrevist-lo. Aps examinar nossas fotografias coloridas, 
o sr. Freeman ficou perplexo. O papel parecia igual, disse. O timbre era positivamente o seu, como tambm a assinatura e, ao que parecia, a mquina de escrever. 
Os documentos pareciam sem dvida ter sido lavrados em seu tabelionato. Mas ele no tinha a menor lembrana de qualquer transao envolvendo pergaminhos trazidos 
da Frana para a Inglaterra.
Pouco tempo depois, estivemos uma segunda vez com o sr. Freeman. Nessa altura, um exame de seus arquivos revelara que em 5 de outubro de 1955 houvera de fato uma 
transao com Nutting, Clowes e Leathers - os homens cujas assinaturas figuraram no documento datado daquele ano. Segundo os registros, o sr. Freeman havia assinado 
e selado para cada um deles, individualmente, uma declarao que confirmava que suas assinaturas, em anexo, eram autnticas. Esse era, explicou-nos o sr. Freeman, 
o procedimento normal na poca. Em 1955 o governo francs decretara que toda pessoa que representasse legalmente uma companhia de seguros na Frana devia possuir 
firma registrada. O sr. Freeman pde confirmar portanto que um aspecto do documento que nos interessava - isto , o fato de que ele registrara as assinaturas - era 
autntico. Mas seus arquivos no continham meno a nada relacionado aos pergaminhos de Sauniere, a genealogias ou  importao desses itens para a Inglaterra.
O sr. Freeman confirmou tambm que em 23 de julho de 1956, data do registo do segundo documento, houvera de fato uma transao com lorde Selborne. Mais uma vez, 
porm, os registros indicavam que isso envolvera apenas a autenticao de uma assinatura. Mais uma vez, no havia meno a nada alm disso.
O sr. Freeman continuou a expressar sua perplexidade com relao a todos os demais aspectos dos documentos em questo - a solicitao feita em 1955 para importar 
os pergaminhos de Sauniere para a Inglaterra, a solicitao em 1956 para conserv-los na Inglaterra durante 25 anos. Aquilo no fazia sentido, insistiu ele, que 
tinha boa mem6ria, especialmente para transaes inusitadas como aquelas pareciam ser. Revelou tambm que guardava cpias a carbono de tudo que era lavrado sob seus 
auspcios. Admitia que pelo menos parte dos documentos em questo s6 podia ter sido lavrada por ele. No entanto, nem sua memria nem seus registros podiam lhe revelar 
mais coisa alguma sobre o assunto.
Tnhamos chegado a um impasse. Por um lado, o sr. Freeman admitia que os documentos s podiam ter sido produzidos em seu tabelionato, com o uso de seu papel, sua 
mquina de escrever, seu timbre. Por outro, negava qualquer conhecimento de seu contedo, insistindo em afirmar que nada fizera alm de assinar um reconhecimento 
de firma para cada um dos homens envolvidos. Aventamos a
possibilidade de que ele tivesse sido enganado de algum modo poderia ter sido solicitado a assinar algo de incuo, por exemplo, e alguma coisa mais importante ter 
sido posteriormente datilografada no verso da pgina. Explicaes desse tipo no pareciam muito plausveis. O texto referente aos pergaminhos e aquele em que o sr. 
Freeman reconhecia as assinaturas pareciam indubitavelmente ter sido datilografados na mesma mquina. Tampouco parecia possvel que a pgina pudesse ter sido introduzida 
depois numa mquina de escrever sem quebrar o timbre do' tabelio. Nesse caso, como teria sido possvel acrescentar posteriormente ao texto uma passagem espria? 
O que antes parecia uma mera charada a decifrar comeava a assumir dimenses inesperadas.

Suspeitas de Falsificao

Havamos feito averiguaes junto ao Lloyds Bank,  Liga de Livreiros Antiqurios, ao consulado francs e a Patrick J. Freeman. Restava,  claro, a prpria Guardian 
Assurance - a companhia a cujo conselho diretor haviam pertencido tantos dos homens envolvidos. Em 1968, a Guardian Assurance Company fundira-se com a Royal Exchange, 
formando a hoje chamada Guardian Royal Exchange Assurance. Em outubro de 1983, encontramo-nos com o secretrio desta e lhe mostramos fotografias dos documentos autenticados, 
juntamente com as assinaturas dos ex-diretores da companhia. Nem  preciso dizer que ele ficou absolutamente perplexo e sugeriu que falssemos com um ex-vice-presidente 
do conselho diretor, sr. Ernest Bigland, que fora secretrio da companhia em 1955 e 1956.
Um encontro nosso com o sr. Bigland foi acertado. Nesse meio tempo, entramos em contato com o diretor administrativo da companhia. Este, que havia lido nosso livro 
anterior, conhecia a histria e ficou encantado com a oportunidade de nos ajudar na nossa investigao. Encarregou-se de checar pessoalmente antigos registros da 
companhia. Estes revelaram fatos curiosssimos. No dia em que o primeiro documento fora autenticado - 5 de outubro de 1955 - ocorrera uma reunio especial no programada 
do conselho diretor da Guardian Assurance.
Alguns dias depois, a Guardian Royal Exchange Assurance nos forneceu fotocpias das pginas do Livro de Presena dos diretores relativas ao outono de 1955 - inclusive 
do dia 5, data da reunio no programada. As fotocpias mostravam as assinaturas apostas no livro pelos diretores da companhia antes do incio da reunio. No alto 
da pgina figurava a assinatura do presidente, lorde Blackford. Seguiam se as assinaturas do visconde Leathers, do major Clowes e do capito Nutting. Para nossa 
consternao, elas no correspondiam em absoluto s que constavam dos documentos autenticados. No eram nem sequer aproximaes grosseiras, nem sequer tentativas 
de imitao. Eram inteiramente diferentes!
Ficamos pasmos. De um instante para outro, nossa investigao era desviada, seno descarrilada, por alguma coisa para a qual parecia no haver explicao lgica. 
Os documentos reconhecidos em cartrio eram falsificados ou autnticos? Se eram falsificados, qual era o objetivo da fraude? Por que ela era to flagrante? Quando 
se quer falsificar uma assinatura, busca-se alcanar alguma semelhana, uma imitao aceitvel. No se faz uma assinatura que nada tem a ver com a original. Certamente 
teria sido bastante fcil encontrar as assinaturas originais - na Cmara das Companhias, nos relatrios anuais da Guardian Assurance, em vrias outras fontes possveis. 
Ademais, se as assinaturas que constavam dos documentos eram falsas, por que Patrick J. Freeman no declarara isso? Ele no fizera nada de parecido. Pelo contrrio, 
confirmara que, nas datas especificadas pelos documentos, havia certificado a autenticidade das assinaturas em questo.
Alm disso, se os documentos autenticados eram falsificaes, quem as poderia ter feito? E por qu? O que poderia explicar a escolha daquele grupo particular de 
ingleses? Seria mera coincidncia o fato de tantos deles estarem associados  Guardian Assurance ou esse vnculo entre eles tinha alguma importncia para o fraudador?

O Enigma Equacionado

Em fevereiro de 1984, encontramo-nos com o sr. Ernest Bigland, exsecretrio da Guardian Assurance. O sr. Bigland ficou fascinado com a histria. Mais ainda, ela 
fazia algum sentido para ele - ou, pelo menos, no lhe parecia inteiramente inexplicvel.
Antes de mais nada, estava menos disposto do que ns a suspeitar de falsificao. No se impressionou com as discrepncias entre as assinaturas no Livro de Presena 
dos diretores e as que figuravam nos documentos autenticados. Discrepncias como aquelas, disse, nada indicavam. Homens como os que estavam envolvidos freqentemente 
usavam mais de uma assinatura. Em assuntos rotineiros ou puramente internos, podiam usar uma garatuja descuidada, desleixada. Em ocasies importantes ou oficiais, 
podiam usar algo mais formal - como as assinaturas apostas aos documentos autenticados. Era possvel at que uma verso especial de uma assinatura fosse usada para 
alguma transao especfica - e ser assim registrada. O sr. Bigland, que conhecera todos os homens envolvidos e lidara amplamente com eles, disse estar inclinado, 
em princpio, a aceitar as assinaturas nos documentos autenticados como genunas. E fez eco  questo que j levantramos: se as assinaturas eram falsificadas, por 
que o tabelio, Patrick J. Freeman, no o assinalara?
Mas isso no foi tudo. O sr. Bigland disse ter uma vaga lembrana - necessariamente vaga, pois o incidente se passara, afinal de contas, trinta anos antes - de que 
lorde Blackford mencionara certa vez documentos ou pergaminhos de extrema importncia vindos da Frana. Lembrava tambm de ouvir lorde Blackford falar da necessidade 
de deposit-los numa caixa-forte. Essas referncias, se no lhe falhava a memria, haviam sido feitas informalmente, numa conversa aps uma reunio do conselho. 
Parecia tratar-se de um assunto particular. Evidentemente nada daquilo significara coisa alguma para o sr. Bigland na poca. Ele imaginara que a coisa tinha interesse 
simplesmente como antiguidade. Assuntos desse tipo eram freqentemente discutidos entre diretores da Guardian Assurance na dcada de 1950. O sr. Bigland citou outros 
dois membros do conselho que tinham especial interesse por antiguidades. Um deles possua um castelo no sul da Frana e era um entusistico colecionador de antiguidades 
e manuscritos valiosos. O segundo, tambm colecionador, possua, entre outros tesouros, uma cpia original da Magna Carta que valia meio milho de libras.
Finalmente, o sr. Bigland falou do capito Ronald Stansmore Nutting. Segundo ele, entre os diretores da Guardian Assurance, Nutting estava ligado sobretudo a sir 
Alexander Aikman, ao major Hugh Clowes e a lorde Blackford. Era tambm muito amigo de sir John Montague Brocklebank of Cunard. O sr. Bigland declarou que o capito 
Nutting era de fato ex-agente do MI5 - como tambm o fora pelo menos um dos presidentes do conselho departamental da Guardian Assurance. Concluindo, o sr. Bigland 
acrescentou que 0representante da companhia na Frana nessa poca tinha sido agente da SOE.
Embora vagas, as informaes do sr. Bigland pareciam confirmar a autenticidade dos documentos. Se o ex-secretrio da companhia se dispunha a aceitar as assinaturas 
como genunas, nada nos obrigava a fazer diferente. No que nos dizia respeito, o pndulo oscilara da aceitao para a dvida e de novo para a aceitao. Mas ele 
haveria de oscilar mais uma vez, ainda que parcialmente.

Impasse

Encontramo-nos mais uma vez com Patrick J. Freeman. Mais uma vez, ele negou enfaticamente ter qualquer conhecimento da transao a que se referiam os documentos 
autenticados. Mais uma vez professou sua prpria perplexidade diante do assunto. Mais uma vez aventou e ns tambm - a possibilidade de o contedo dos pergaminhos 
ter sido, de algum modo, acrescentado posteriormente, ter sido anexado, talvez anos mais tarde, a outro texto legtimo e rotineiro. At aquele momento, havamos 
descartado essa possibilidade por causa do timbre do sr. Freeman. Ao que parecia, teria sido impossvel inserir a pgina numa mquina de escrever sem danificar esse 
timbre. Teria sido ainda mais impossvel datilografar nela. Isso parecia excluir a hiptese de os documentos terem sofrido qualquer alterao datilografada depois 
de deixarem as mos do sr. Freeman. Dessa vez, contudo, interrogamos muito especificamente o tabelio sobre seu timbre. No, disse ele, no era um lacre, mas mesmo 
assim ele no acreditava que fosse possvel inseri-Ia numa mquina de escrever e datilografar no papel. De todo modo, mostrou-nos um. Na verdade, consistia de um 
fino disco de papel colado  pgina e depois gravado em relevo. Usando o papel e a mquina de escrever do prprio sr. Freeman, fizemos o teste. Com cuidado, era 
na verdade possvel inserir a pgina com o timbre na mquina e datilografar nela.
Enquanto refletamos sobre este novo resultado, o sr. Freeman contemplava os textos que ele, e ns, havamos lido tantas vezes antes. De repente, alguma coisa lhe 
chamou a ateno. Era uma falha aparentemente trivial, sem importncia, que a maioria das pessoas, inclusive ns mesmos, jamais teria percebido. Ao mesmo tempo, 
contudo, era uma pista decisiva que, pelo menos no caso do documento de 1956, matava a charada.
O documento de 1956 trazia a assinatura de lorde Selborne. Seu texto dizia que os pergaminhos de Sauniere estavam depositados numa caixa-forte do Lloyds Bank Europe. 
Mas, como o sr. Freeman percebeu subitamente, e como pudemos confirmar pessoalmente junto ao banco, o Lloyds Bank Europe no existia em 1956. Nesse ano, as filiais 
europias do Lloyds compunham o Lloyds Bank Foreign. Este s passou a se chamar Lloyds Bank Europe em 29 de janeiro de 1964. Conseqentemente, essa parte do texto 
do documento no podia datar de 1956. S6 podia ter sido escrita em algum momento a partir de  1964.

Assim pde ser definitivamente assentado que pelo menos um dos dois documentos que o sr. Plantard nos mostrara no era de todo autntico. Evidentemente, isso punha 
sob suspeita tambm o documento anterior, de 1955, mas nesse caso nada pde ser provado num sentido ou noutro.  Tudo que podamos dizer com segurana era que parte 
do documento de 1956 fora forjada de algum modo aps o fato e pr-datada. O timbre, a assinatura do sr. Freeman, a assinatura do cnsul francs, o selo do consulado 
francs - tudo isso parecia bastante genuno. Pelo menos oito anos depois, a esses aspectos vlidos do documento anexara-se um texto esprio. Mas para que fim?
E, antes de mais nada, como o falsificador obtivera a parte vlida do documento? Alm disso, se o fizera, tinha uma amostra da assinatura habitual do capito Nutting 
diante de si. Por que, ento, fizera uma assinatura to flagrantemente diferente?

Uma possvel soluo

Em O santo graal e a linhagem sagrada, publicamos o texto do que supostamente seriam os estatutos do Prieur de Sion. Ele trazia o ttulo "Sionis Prioratus", era 
datado de 5 de junho de 1956 e assinado pelo suposto gro-mestre da Ordem na poca, Jean Cocteau. Os estatutos continham 22 artigos. Em sua maioria, eram complicados, 
por vezes burocrticos, por vezes ritualsticos, mas um deles, o Artigo X, se destacava por sua simplicidade mundana: "No ato de sua admisso, o membro deve fornecer 
certido de nascimento e uma amostra de sua assinatura" .
Em ltima anlise, era evidentemente isso que os documentos autenticados por Patrick J. Freeman envolviam: uma certido de nascimento e uma assinatura oficialmente 
autenticados. Parte do documento de 1956 provara-se inequivocamente fraudulenta. A parte correspondente do documento de 1955 estava agora necessariamente sob suspeita, 
mesmo que nada pudesse ser provado ou refutado a seu respeito. Uma coisa, porm, era indiscutvel: Patrick J. Freeman tinha autenticado as certides de nascimento 
e as assinaturas em questo.
Com isto em mente, devemos retomar  citao atribuda a lorde Blackford no texto adulterado do artigo de Jania Macgillivray e citado anteriormente, na p. 223. Segundo 
esse texto, lorde Blackford diz:

Foram as reformas introduzidas por Jean Cocteau em 1955 que provocaram a criao [da nova organizao], ao negar o anonimato aos membros da Ordem. Nessa ocasio, 
todos os membros foram obrigados a fornecer certido de nascimento e uma assinatura registrada em cartrio. Uma necessidade, talvez... mas uma violao da liberdade.
Cabe lembrar que essa declarao veio  luz pela primeira vez quando o artigo de Jania foi adulterado, em algum momento entre 1979 e 1981. Tnhamos recebido uma 
cpia dele do marqus de Chrisey em 1981 - dois anos antes que o sr. Plantard nos mostrasse os documentos autenticados com as assinaturas de homens vinculados  
Guardian Assurance, de cujo conselho diretor lorde Blackford era presidente.
Seria possvel que os ingleses envolvidos no caso fossem membros j veteranos do Prieur de Sion? Talvez se tivessem associado  Ordem atravs de suas ligaes com 
a Resistncia francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Talvez essa ligao fosse ainda mais antiga. E ainda que lorde Blackford, nas declaraes a ele atribudas, 
aparentemente protestasse contra o Artigo X dos estatutos de Cocteau, era possvel que seus companheiros o tivessem acatado, mesmo que com relutncia. Isso certamente 
explicaria as certides de nascimento e as assinaturas autenticadas.
Vrias fontes, inclusive algumas oriundas do prprio Prieur de Sion, haviam falado reiteradamente de uma crise ou sublevao no seio da Ordem em 1955 e 1956. Ao 
que diziam, um cisma completo s pudera ser evitado graas ao talento diplomtico de Pierre Plantard de Saint-Clair, que teria "reintegrado" a Ordem. Seria possvel 
que o atrito de 1955-1956 tivesse levado certos membros da Ordem, por razes que provavelmente nunca sero conhecidas externamente, a seqestrar certos documentos 
de valor, entre os quais os pergaminhos de Sauniere? Quando menos, isso lhes forneceria um elemento de barganha.
Essa possibilidade no nos parece inteiramente descartvel. Mas h tambm uma outra. Se homens como o visconde Leathers, o major Clowes e o capito Nutting tivessem 
acatado o Artigo X dos estatutos, eles teriam fornecido - como de fato parecia ter ocorrido - cpias autenticadas de suas certides de nascimento e assinaturas. 
Na prtica, isso significaria que a hierarquia do Prieur de Sion teria recebido e acumulado grande nmero de certides de nascimento e assinaturas. Presumivelmente, 
estas teriam sido arquivadas. Em qualquer momento no futuro, e especialmente depois que os homens que as tinham fornecido estivessem seguramente mortos, teria sido 
possvel "recicl-Ias". Lorde Selborne, por exefplo, morreu em setembro de 1971. A partir de ento, em qualquer momento, teria sido possvel exumar dos arquivos 
sua certido de nascimento e assinatura, acrescentar um texto e dat-Io de 1956, e teria sido absolutamente impossvel detectar a fraude, no fosse por uma nica 
falha: a meno ao Lloyds Bank Europe.
Havia nisso, sem dvida, vagos vestgios de um padro. O Artigo X dos estatutos, a crtica a esse artigo atribuda a lorde Blackford e o aparente acatamento do Artigo 
X por Nutting, Clowes, Leathers e Selbome - tudo isso no podia ser mera coincidncia. O roteiro que havamos imaginado, porm, pressupunha que toda fraude porventura 
existente nos documentos autenticados tinha sido perpetrada pelo Prieur de Sion - ou, de todo modo, por alguns de seus membros. Ao mesmo tempo, por mais que esse 
cenrio nos parecesse plausvel, no podamos ignorar os indcios de que outra mo estava envolvida - e esta parecia estar trabalhando no a favor, mas contra o 
Prieur de Sion.
Embora tivesse havido referncias anteriores aos documentos autenticados, o sr. Plantard nunca afirmou t-los visto; frisou que os adquirira apenas em 1983, pouco 
tempo antes de os mostrar a ns. Estvamos inclinados a acreditar nisso. A alterao do nome do capito Nutting antes de 1983, e a falta de preciso geral, sugeriam 
de fato que os membros do Prieur de Sion na Frana no tinham visto os documentos, s os conhecendo de ouvir falar. Alm disso, quando apontamos a incongruncia 
ligada ao Lloyds Bank Europe, o sr. Plantard ficou visivelmente chocado e perturbado. Praticamente nos implorou que levssemos nossa investigao  frente e lhe 
comunicssemos qualquer novo resultado. Fez tambm diligncias por conta prpria, aps as quais reconheceu prontamente, ainda que a contragosto, que o documento 
de 1956 era esprio. A partir disso, ficou cada vez mais evidente que, se tinha havido qualquer tentativa de nos enganar, esta no partira do sr. Plantard. Ao contrrio, 
estava claro que o embuste se destinara a ele prprio e que o nosso papel fora inteiramente secundrio. Ao que parecia, havamos simplesmente nos deixado enredar 
numa intriga obscura, num jogo de xadrez invisvel, entre o Prieur de Sion e mais algum.
Quando lidamos com problemas como esse suscitado pelos documentos autenticados, tendemos instintivamente a polarizar as possibilidades, a reduzir a questo a uma 
proposio elementar do tipo "oul ou". Ou os documentos so legtimos ou no so. Se no so, no podem ser levados a srio e devem ser imediatamente descartados. 
Nesse caso, contudo, era bvio que as coisas no eram to confortavelmente simples. Um dos documentos, pelo menos em parte, era sem dvida esprio. Por outro lado, 
estava em jogo um nmero to grande de aspectos - as afirmaes do sr. Bigland, para citar s um exemplo que tinham um fundamento suficientemente slido para justificar 
pesquisas adicionais. Quanto mais examinvamos a questo, mais nos dvamos conta de que no estvamos lidando nem com documentos plenamente legtimos, nem com "simples" 
falsificaes. Ao contrrio, estvamos lidando com alguma outra coisa, algo que recaa numa categoria situada em algum ponto entre a verdade e a falsidade. Essa 
categoria  muito conhecida pelos servios de espionagem. Na verdade,  o objeto de uma de suas atividades bsicas. Chama-se desinformao. Envolve a disseminao 
deliberada, planejada de dados equvocos, parcialmente verdadeiros, parcialmente errneos, no intuito de ocultar algo, tirar a ateno das pessoas de algo, desviar 
a ateno numa ou noutra direo perifrica ou tangencial. As melhores mentiras, porm, so sempre ampliaes ou variaes da verdade, no puras invenes. A desinformao 
mais eficaz estrutura-se sempre em torno de um ncleo de validade.  a partir desse ncleo que o labirinto de becos sem sada e pistas que no levam a lugar algum 
invariavelmente se difunde.
Tanto ns quanto o sr. Plantard tnhamos sido vtimas de uma desinformao. Quem quer que a tivesse forjado sabia muito exatamente o que o sr. Plantard esperava 
encontrar nos documentos autenticados - a ponto de convenc-lo de que ele de fato o encontrara. Quem quer que fosse o responsvel conhecia extremamente bem no s 
o sr. Plantard como tambm o Prieur de Sion, conhecia extremamente bem o pano de fundo da questo e dispunha de recursos impressionantes. A fraude no podia ter 
sido-trabalho de um amador. Era extremamente sofisticada, extremamente profissional.
Inevitavelmente, nossas suspeitas se voltaram para os servios secretos - da Gr-Bretanha, da Frana, ou at (embora no pudssemos imaginar por que razo) dos Estados 
Unidos. Segundo um scio do capito Nutting, ele pertencera ao Servio de Informaes britnico. Tnhamos bases tambm para suspeitar do envolvimento do Servio 
de Segurana Interna francs. Um jornalista conhecido nosso, numa ocasio em que estava trabalhando em Paris, recebera de um oficial da Segurana Francesa a sugesto 
de que lesse O santo graal e a linhagem sagrada - "porque diz respeito a questes polticas contemporneas", insinuara enigmaticamente o oficial. Alm disso, convm 
lembrar que representantes de companhias seguradoras que faziam negcios na Frana em meados dos anos 50 estavam legalmente obrigados a fornecer ao governo certides 
de nascimento e assinaturas autenticadas. O governo francs tinha portanto fcil acesso s certides e assinaturas que figuravam nos documentos que nos interessavam. 
Havia, porm, um outro servio de informaes que se tornou tambm objeto de fortes suspeitas. Esse servio tinha trabalhado tanto com o servio britnico quanto 
com o OSS norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial. Continua ativo at hoje, mantendo estreito vnculo tanto com a CIA quanto com o Vaticano. Tinha, por 
sua prpria natureza, um interesse direto e profundo em tudo que dissesse respeito ao cristianismo em geral e a Jesus em particular. Inclua  pelo menos segundo 
o que nos contaram mais tarde - certos membros do Prieur de Sion, ainda que as duas organizaes parecessem, sob muitos aspectos, diametralmente opostas. E, ao 
que se dizia, era nos seus arquivos que os pergaminhos de Sauniere tinham ido parar. O servio de informaes em questo era o dos Cavaleiros de Malta.

19
O PANFLETO ANNIMO

Na primavera de 1983, quando nos mostrou pela primeira vez os originais dos documentos autenticados, o sr. Plantard determinou que no deveramos discuti-Ios com 
ningum, nem imprimi-Ios. Se vazasse algum rumor a respeito deles, disse, as conseqncias seriam embaraosas. Algumas partes interessadas - uma das quais, sugeriu, 
era o governo francs -- poderiam conseguir se apoderar dos pergaminhos descobertos por Sauniere ou obt-Ios por meio de trapaa, e eles talvez nunca mais fossem 
vistos. Simplesmente desapareceriam em algum arquivo, como segredos de Estado. Ao contrrio dos arquivos ingleses e norte-americanos, os da Frana tendem a permanecer 
fechados.
Atendemos ao pedido do sr. Plantard. Concordamos em no discutir publicamente os documentos at que o Prieur de Sion, ou pessoas ligadas a ele, o tivessem feito 
em primeiro lugar. Concordamos em no os reproduzir ou divulgar seu texto at que j fossem de domnio pblico.
Em novembro de 1983, Louis Vazart nos enviou um texto que acabara de concluir sobre Dagoberto II e vrios aspectos histricos do caso. Consistia do original datilografado 
de um livro, fotocopiado e encadernado. Para nosso espanto, continha - sem que sequer houvesse muita discusso a respeito - fotografias borradas dos documentos autenticados.
Ficamos perplexos. Por que o sr. Vazart publicara os documentos se eles eram adversos aos interesses do Prieur de Sion? E por que o sr. Plantard nos fizera prometer 
segredo acerca desses documentos se, muito antes de termos qualquer oportunidade de reproduzi-Ios num livro nosso, o sr. Vazart iria faz-Io num livro seu? No nos 
passava pela cabea que o sr. Vazart tivesse tomado uma iniciativa como essa sem o conhecimento e a aprovao do sr. Plantard. E estvamos nos preparando para fazer 
essas perguntas ao sr. Plantard quando os acontecimentos sofreram uma reviravolta completa e tomaram rumo inteiramente diverso.
Em meados de dezembro de 1983, recebemos pelo correio um panfleto annimo - um pasquim do tipo no incomum na poltica da Frana e da Itlia. Ficamos sabendo posteriormente 
que o panfleto em questo no fora enviado somente a ns, tendo circulado amplamente na Frana. Compunha-se de uma s pgina, muito desleixadamente datilografada 
e depois fotocopiada. O texto pretendia ser uma propaganda do prximo lanamento de um livro de Jean-Luc Chaumeil, o homem que atuava como emissrio do Prieur de 
Sion quando de nossos primeiros contatos com a Ordem em 1979. Como foi dito anteriormente, mais tarde o sr. Chaumeil fora desautorizado pela Ordem.
Embora nada no prprio panfleto prove que ele foi escrito pessoalmente pelo sr. Chaumeil, isso  fortemente sugerido.  ntido o desejo de dar ao leitor essa impresso. 
No canto superior esquerdo da pgina h um logotipo - um punho cerrando uma rosa -, o smbolo convencional do Partido Socialista Francs. Em letras maisculas no 
alto, h o seguinte anncio: "EM JANEIRO PRXIMO EM TODAS AS LIVRARIAS: A DOUTRINA DO PRIEUR DE SION (CINCO VOLUMES) JEANLUC CHAUMEIL." Abaixo, o texto a seguir:
"Por manipulao do Prieur de Sion, fui induzido a escrever meu livro Le trsor du triannle d' or" - declara J. - L. Chaumeil. - "Agora vou revelar toda a verdade 
sobre este caso."
O livro vai revelar que L'Enigme sacre [traduo francesa de O santo graal e a linhagem sagrada] no passa de uma grande fraude sem qualquer fundamento srio. Alm 
disso, desde 1981 Pierre Plantard no  mais gro-mestre [e] o Prieur est sob a direo de uma inglesa chamada Ann Evans, a verdadeira autora dessa fico paranide!
Pierre Plantard no passa de um ... [segue-se uma afirmao injuriosa sobre o sr. Plantard, o sr. Vazart e o curador do museu de Stenay, que pode certamente ser 
injustificada.
 preciso lembrar que, em 1952, Pierre Plantard transferiu ilicitamente, da Frana para a Sua (para a Union des Banques Suisses), lingotes de ouro no valor de 
mais de 100 milhes [de francos]...
  
Segue-se um violento libelo pessoal contra o sr. Plantard, que no seria legtimo reproduzir aqui e que, de todo modo, no tem qualquer relao com a nossa histria. 
Depois disso, o texto diz:

Este caso, como os outros, foi varrido para debaixo do tapete porque Pierre Plantard trabalhou, no incio de 1958, como agente secreto de De Gaulle, assumindo o 
secretariado dos Comits de Salvao Pblica. Em 1960, associou-se a... Grard de Sede, tenho obtido tambm o apoio de Andr Malraux para levar a cabo o negcio 
de Gisors em que... outro... indivduo, Philippe de Chrisey, esteve envolvido...
Em 1980, um certo J. P. Deloux e Brtigny lanaram [as revistas] lnexpliqu, Atlas e Nostra, sob a gide de um membro do Prieur de Sion, Gregory Pons, e publicaram 
Rennes-le-Chteau: capitale secrete, brochura em cores com tiragem de 220 mil cpias. Feito esse trabalho, foi a vez de Nostra proclamar Plantard futuro Grande Monarca, 
e agora a Hebdo-Maaazine apia Jacques Chirac, que de fato se amolda muito bem  estrepitosa atrao do Prieur...

Como se pode ver, s o pargrafo de abertura desse texto  uma citao pretensamente direta do sr. Chaumeil. Tudo que se segue pretende se passar por expresso do 
que ele tem a dizer. Nada indica, porm, se as palavras so do prprio sr. Chaumeil ou lhe esto sendo atribudas pelo autor annimo do panfleto.
Alguns pontos do texto obviamente exigem uma explicao e o leitor as encontrar nas notas no fim deste volume. H tambm pontos que obviamente exigem correo. 
Num caso, pelo menos, podemos afirmar que o autor no se limita a tirar concluses apressadas. Ele simplesmente inventa. Nos agradecimentos da edio original de 
O santo graal e a linhagem sagrada, destacamos especialmente Ann Evans, nossa agente literria - "sem a qual", dissemos, "este livro no poderia ter sido escrito". 
Presumivelmente com base nessa declarao, o autor do panfleto concluiu que uma elusiva inglesa chamada Ann Evans foi de fato a fonte primria de nossas informaes 
e, de fato, a verdadeira autora do livro. Um equvoco como este pe imediatamente em questo a veracidade do que se segue. Mesmo assim, alguns pontos so dignos 
de nota.
Em primeiro lugar, o panfleto seria patentemente passvel de ao judicial. Se quisssemos, ns mesmos poderamos t-Ia movido. Ann Evans tambm. Os insultos e acusaes 
lanados contra os srs. Vazart, Chrisey e Plantard davam ainda mais base para um processo. O autor do texto, fosse quem fosse, certamente devia saber que se expunha 
a um risco considervel e que sua identificao poderia ter graves conseqncias. Por que, ento, o texto fora escrito e distribudo? Rara apresentar o ponto de 
vista do sr. Chaumeil? Ou para incrimin-Io? Neste caso, por qu?
O segundo ponto  que a inteno explcita do panfleto  desacreditar o sr. Plantard e o Prieur de Sion. No entanto, seja por total inpcia, seja por uma astuta 
estratgia, consegue fazer exatamente o oposto. A despeito das transgresses morais a ele atribudas, o sr. Plantard emerge como um personagem poderoso - um "agente 
secreto de De Gaulle", um homem capaz de exercer o cargo de secretrio-geral dos Comits de Salvao Pblica, que conseguiu obter a ajuda de ningum menos que Andr 
Malraux, que  capaz de traficar com grandes somas de dinheiro. Ainda que imagem do sr. Plantard possa parecer mais sinistra em face dessas acusaes, certamente 
no  diminuda. Tampouco o Prieur de Sion. Segundo o panfleto, o Prieur  capaz de "manipular" - de maneira no especificada - um homem a ponto de induzi-lo a 
escrever um livro.  capaz de orquestrar o contedo de vrias revistas e divulgar ou ocultar informaes a seu talante. Parece ter acesso  mdia e, presumivelmente, 
recursos considerveis. Desperta uma reao favorvel em Jacques Chirac. Mais uma vez, fica-se com a impresso de uma organizao mais ameaadora do que talvez se 
imaginasse, mas nem por isso menos influente ou poderosa. Se a inteno do panfleto era desmascarar e depreciar o sr. Plantard e o Prieur de Sion, seu autor annimo 
tinha procedido de maneira decididamente curiosa.

Arquivos Roubados

A nosso pedido, um dos nossos colaboradores em Paris telefonou para o sr. Chaumeil, marcou encontro com ele e perguntou sobre o panfleto. Num encontro posterior, 
ns prprios fizemos o mesmo. Em ambas as ocasies, o sr. Chaumeil protestou veementemente sua inocncia. No era responsvel pelo panfleto, insistiu. No repudiava 
nenhuma das alegaes feitas ali, mas negava t-Ias escrito. Estavam tentando incrimin-lo, afirmou. Essa era uma possibilidade que no podia ser descartada. O sr. 
Chaumeil tem o hbito de ser bastante desastrado, para no dizer desastroso, em suas declaraes, tanto em particular quanto em pblico. Em um de seus livros (Du 
premier au dernier templier), de que gentilmente nos deu um exemplar, ele nos havia atacado num palavreado de fazer ruborizar um cura. Outras vtimas do seu calo 
que no tivessem nosso senso de humor poderiam estar mais do que satisfeitas em p-Io em maus lenis.
Em seu encontro com nosso colaborador, ele se mostrou nervoso. Ao que parecia, o sr. Plantard havia ameaado process-lo, e o sr. Chaumeil, embora fanfarro, estava 
evidentemente assustado. Se era inocente, como alegava, podia agora se ver obrigado a provar isso nas barras do tribunal.
Alguns dias depois de recebermos o panfleto de uma fonte annima, chegou-nos um pacote de textos do sr. Plantard. Aparentemente ignorando que tnhamos recebido o 
panfleto, o sr. Plantard anexou uma cpia do mesmo. Incluiu tambm uma resposta a ele, na forma de uma folha bem impressa intitulada Ia Camisole Bulletin "TorchonRponse" 
N 1, com um texto de Louis Vazart - vazado numa linguagem quase to ofensiva quanto a do panfleto, mas mais coerente. Fora includa tambm a cpia de uma carta 
em que o sr. Plantard, acusando o sr. Chaumeil de ser o autor do panfleto, exigia dele uma retratao pblica formal das acusaes. Se esta no fosse feita rapidamente, 
declarava o sr. Plantard, iria process-Io por difamao. O mesmo fariam Louis Vazart e o marqus de Chrisey.
Seguiu-se uma pausa, tendo os feriados do Natal imposto uma paz passageira, seno no mundo em geral, pelo menos entre as partes contendoras em Paris. As hostilidades 
recomearam com o ano novo. Na primeira semana de fevereiro, recebemos outro pacote de documentos do sr. Plantard, destinado, como o anterior, a nos manter a par 
dos acontecimentos. O mais importante item no novo mao de papis era um texto de duas pginas datado de 17 de janeiro de 1984. No alto da primeira pgina estava 
impresso um cabeo oficial do Prieur de Sion - o primeiro que jamais vramos. Este era acompanhado por um timbre com as letras R +C, presumivelmente denotando a 
Rosa Cruz. Havia tambm o que parecia ser um selo oficial impresso com um carimbo de borracha - o timbre R +c fechado em dois crculos concntricos com a inscrio 
"Prieur de Sion - Secretariado Geral" e, abaixo, a assinatura do sr. Plantard. No canto superior esquerdo havia uma espcie de nmero de referncia 3/3/6/84. O 
documento, intitulado "Mise en Garde" ("Advertncia"), estava assim endereado, com abreviaturas tipicamente manicas: "CONFIDENTIELLE  nos F .' ." ("Confidencial, 
aos nossos confrades"). Por que, perguntamos a ns mesmos, aquilo fora enviado a estranhos como ns? Por que estavam tentando nos envolver na disputa entre o sr. 
Plantard com o sr. Chaumeil?
O texto da "Mise em Garde" entrava flagrantemente em choque com as pomposas formalidades do alto da pgina. Consistia, mais uma vez, de uma torrente de invectivas 
e ofensas dirigidas a Jean-Luc Chaumeil. Pretendia ser uma espcie de relao de imputaes ou acusaes, para a elucidao de todos os membros do Prieur de Sion. 
Assim, comeava nos seguintes termos:

Vemo-no obrigados a enviar a presente "Mise en Garde" contra o (...) indivduo conhecido como Jean-Luc Chaumeil, nascido em 20 de outubro de 1944, em Lille (...) 
contra quem uma ao por libelo foi impetrada junto ao foro em Nanterre 92000 por nosso G.M .'. (GroMestre) em 16 de dezembro de 1983.

Seguia-se uma lista selecionada das "calnias" de que Chaumeil era acusado - e, para anular seus protestos de inocncia, passagens fotocopiadas com o que se afirmava 
ser sua prpria caligrafia. Na segunda pgina havia outras dessas passagens; em seguida o texto da alegao era retomado, falando sobre duas caixas dos arquivos 
do Prieur de Sion datados de 1935 a 1955.

Essas duas caixas foram roubadas em 1967 da ento residncia do nosso irmo Philippe de Chrisey. Por quem? (...) Esse modesto pacote continha cartas do nosso falecido 
G M [gro-mestre) Jean Cocteau, de nossos confrades Alphonse Juin, Andr Malraux, etc. Teria ento o profano J. L. Chaumeil sido o receptador desses bens roubados? 
Seja como for, ele tentou tambm impingi-Ios ao nosso amigo Henry Lincoln...
Nem  preciso dizer que isso era flagrantemente falso. Em seu encontro conosco, Chaumeil negara possuir quaisquer documentos do Prieur, ou mesmo alimentar qualquer 
outro interesse pelo Prieur. E nem nesse encontro, nem em qualquer outra ocasio, tentara nos vender, nos dar ou nos impingir qualquer tipo de documento. Sendo 
assim, por que estvamos sendo mais uma vez enredados no caso? De todo modo, o Prieur parecia estar suficientemente incomodado com o assunto para lanar uma advertncia:

o Prieur de Sion e seus membros no tm qualquer interesse nas arengas de (...) l-L. Chaumeil, e aqueles que se acumpliciarem como esse trfico de documentos e 
libelos correm o risco de se verem eles mesmos inculpados nessa questo perante o foro.

Desse ponto em diante, o texto renovava a diatribes contra o sr. Chaumeil. Mas uma incongruncia gritante aparecia. Por um lado, a perspectiva de o sr. Chaumeil 
escrever um livro sobre o Prieur de Sion era ridicularizada. O sr. Chaumeil, afirmava-se, no tinha condies de dizer nada de vlido sobre o Prieur. Ao mesmo 
tempo, contudo, afirmava-se que duas caixas dos arquivos do Prieur, abrangendo os anos 1935-1955, tinham sido roubadas e sugeria-se enfaticamente que o sr. Chaumeil 
tivera acesso a elas. Nesse caso, como se podia ter tamanha certeza de que tudo que ele dissesse no passaria de fato de "mistificao" e de "pura inveno"? Aos 
nossos olhos, o Prieur talvez estivesse protestando um pouquinho demais. Estava claro que alguma coisa realmente os perturbara. Por alguma razo, que nada tinha 
a ver com injria e difamao pessoal, eles estavam obviamente atemorizados.
O texto da "Mise en Garde" dava muito o que pensar. Mas o documento tinha ainda um outro aspecto mais significativo e mais intrigante que qualquer coisa contida 
no prprio texto. No p da segunda pgina, os dois selos - um do Prieur de Sion como tal e outro do seu Secretariado-Geral - apareciam de novo. Abaixo deles havia 
quatro assinaturas, apostas "em nome do Prieur de Sion". As assinaturas, da esquerda para a direita, eram de: John E. Drick, Gaylord Freeman, A. Robert Abboud e 
Pierre Plantard.
Na verso adulterada do artigo de Jania Macgillivray, feita em algum momento entre 1979 e 1981, havia uma referncia a Gaylord Freeman. Aps a morte de Jean Cocteau, 
em 1963, declarava aquela verso, o poder no Prieur de Sion fora exercido por um triunvirato integrado por Pierre Plantard, Gaylord Freeman e Antonio Merzagora. 
Graas a essa referncia, o nome de Gaylord Freeman, pelo menos, nos era conhecido. Os de John E. Drick e A. Robert Abboud, no. Nunca os havamos encontrado antes.

O Encontro no La Tipia

Recebemos o pacote contendo a "Mise en Garde" em 3 de fevereiro de 1984, uma sexta-feira. Na segunda-feira, 6 de fevereiro, amos voar para Paris, para um encontro 
marcado com o sr. Plantard. No houve tempo, antes de partir, de rastrear as identidades dos srs. Drick, Freeman e Abboud.
A pedido do sr. Plantard, fomos encontr-Io num restaurante chamado La Tipia, situado na rua Rome, pegada  estao Saint-Lazare. O sr. Plantard observou que o local 
lhe era muito conveniente. Vinha para a cidade de trem e, aps estar conosco, podia partir imediatamente, sem ter de deixar a vizinhana imediata da estao ferroviria. 
Nos meses seguintes, voltaramos a nos encontrar com o sr. Plantard no La Tipia, na rua Rome. Foi s mais tarde que o local veio a adquirir um significado muito 
intrigante.
Ao contrrio do que sempre ocorrera at ento, o sr. Plantard foi ao nosso encontro sozinho, sem o seu costumeiro squito de colaboradores. Mais ainda, pareceu genuinamente 
aflito com uma srie de coisas e ansioso no s por nos fazer confidncias como para, em certos aspectos, obter nossa ajuda. No curso de nossa conversa, muitas questes 
diferentes foram levantadas. Como de costume, as respostas que recebemos suscitaram novas saraivadas de perguntas.

1. Obviamente, perguntamos ao sr. Plantard quem eram Gaylord Freeman, John E. Drick e A. Robert Abboud. Ele replicou bruscamente, com uma leve nota de pedido de 
desculpa na voz, que no estava em condies de responder a essa pergunta especfica. Ela dizia respeito, disse ele, a assuntos internos do Prieur de Sion, que 
no podia discutir com estranhos. Tentamos insistir na questo, perguntando se aqueles homens eram ingleses ou norte-americanos. O sr. Plantard limitou-se a repetir 
o que acabara de dizer - no podia discutir os problemas internos do Prieur de Sion.

2. No entanto, ele de fato continuou discutindo os problemas internos do Prieur de Sion, ou pelo      menos um aspecto deles. O assunto pareceu escapar num momento 
de conversa amena, quando o sr. Plantard tinha relaxado a guarda. Ser gro-mestre s vezes era uma amolao, disse em tom jocoso, como um pai afetuoso que se queixa 
ironicamente da paternidade. Expressamos uma vaga surpresa e ele se explicou brevemente. No se tratava de um problema grave, falou descuidadamente, mas exatamente 
naquele momento havia certo grau de atrito nas fileiras da Ordem, e ele tinha de impedir que isso se convertesse numa luta intestina. A principal dificuldade, disse, 
estava sendo causada pelo "contingente anglo-americano" do Prieur, que aparentemente desejava assumir uma direo diversa da adotada por seus confrades continentais. 
O sr. Plantard se recusou a ir alm disso. Na verdade, ficou reticente sobre o assunto, como se tivesse percebido que j tinha falado demais. O resultado foi que 
no conseguimos nenhuma indicao sobre quem, precisamente, poderia formar esse "contingente anglo-americano", nem sobre qual podia ser o pomo da discrdia. Restou-nos 
especular no escuro sobre a possvel causa da dissenso nas fileiras do Prieur de Sion, com base no que compreendamos dela.
3. Pouco depois desse fragmento de conversa, o sr. Plantard fez uma pausa e ps-se a ruminar. Havia naquele momento duas vagas na Ordem, disse pensativo. Seria uma 
grande vantagem ter essas vagas ocupadas por "estrangeiros" simpticos  posio francesa e continental. Isso serviria para contrabalanar a influncia do "contingente 
anglo-americano". Seguiu-se uma longa e sugestiva pausa. No dissemos nada. Em seguida a conversa desviou para outro tpico. Por um momento, porm, realmente pareceu 
que o sr. Plantard estava prestes a nos convidar para
  ingressar na Ordem. Se essa impresso foi correta e ele de fato pensou nisso, por que no o fez? Provavelmente se deu conta de que no era possvel que aceitssemos, 
no era possvel que prometssemos guardar o segredo que tal admisso implicaria. Alm disso, o sr. Plantard dissera haver duas vagas e ns ramos trs. De todo 
modo, o momento veio e passou. Permaneceu por muito tempo em nossas mentes, como um instante sedutor - um instante em que, pelo menos por uma frincha, uma porta 
se abriu, voltando depois a fechar-se.
4. O sr. Plantard confirmou a verdade - ou pelo menos a meia verdade - de uma das acusaes feitas no panfleto atribudo a Jean-Luc Chaumeil. Segundo o panfleto, 
o sr. Plantard havia transferido ilegalmente uma quantidade de ouro da Frana para a Sua em 1952. Ele admitiu que de fato transferira fundos substanciais para 
a Sua. Mas, embora esse tipo de transao fosse ilcita em 1984, no governo do presidente Mitterand, nos anos 50 fora perfeitamente legal. Alm disso, explicou, 
no fora feita em seu proveito pessoal. Os recursos envolvidos nada tinham a ver com a sua pessoa e ele de modo algum no se beneficiara deles. Ao contrrio, compreendiam 
um fundo especial a ser usado pelos Comits de Salvao Pblica; e ele, na qualidade de secretrio-geral dos comits, fizera a transao em benefcio dos comits, 
por ordem expressa de Charles de Gaulle.
Mas isso no era tudo. O negcio, disse o sr. Plantard, fora estritamente confidencial. De que modo o autor do panfleto pudera se inteirar dele, mesmo que de maneira 
equivocada ou distorcida? Segundo o sr. Plantard, s podia ter sido por meio de alguma fonte oficial no governo francs da poca. Alm disso, acrescentou, naqueles 
ltimos meses somas adicionais tinham sido transferidas para essa conta na Sua. Por qu? Presumivelmente para desacredit-Io pessoalmente, seno para incrimin-lo 
vez, o aparente acesso a "informao confidencial" sobre a transao, o valor das somas recm-transferidas e o conhecimento do nmero da conta em que deviam ser 
depositados provavam, afirmou o sr. Plantard, o envolvimento de um ou outro rgo ou agncia do governo.

5. O sr. Plantard nos entregou uma resenha publicada numa revista. Fora escrita por algum que se assinara simplesmente "Bayard". Tratava-se de um livro escrito 
(como viemos a saber depois) por um padre franco-canadense, o reverendo padre Martin. O livro, publicado pelas ditions du Rocher, se intitulava Le livre des compaonons 
secrets du Gnral De Gaulle ("O livro dos companheiros secretos do general De Gaulle"). Seu objetivo era investigar um suposto grupo de conselheiros e colaboradores 
secretos de De Gaulle, organizados numa coesa cabala ou ordem que Martin chamou de "les Quarante-Cinq" ("os Quarenta e Cinco"). De fato, como descobrimos ao ler 
o texto de Martin, "les Quarante-Cinq" parecem no ter tido ligao alguma com o Prieur de Sion. Em sua resenha, porm, "Bayard" acusava explicitamente Martin de 
tentar deliberadamente semear confuso na mente do leitor, misturando "les QuaranteCinq" com o Prieur. Valendo-se desse estratagema bastante engenhoso, o prprio 
resenhista conseguiu divulgar informaes sobre o Prieur como se elas fossem de conhecimento geral. Citamos a ltima coluna da resenha de "Bayard", que constitui 
o trecho mais relevante:

Podemos tambm suspeitar de que esse livro tem uma inteno oculta, que parece ser a de confundir "les Quarante-Cinq" com o Prieur de Sion. H muitas referncias 
a esta ltima ordem, jamais mencionada por quem quer que seja que se assina R. P. Martin (e que no , contudo, membro dela), como se, ao falar de "les Quarante-Cinq", 
desejasse nos remeter aos 45 membros franceses do Prieur de Sion durante o perodo em que ]ean Cocteau foi o gro-mestre e em que o marechal ]uin e Andr Malraux 
foram "Croiss" ("Cruzados", isto , membros seniores do Prieur).
Aps a morte de Cocteau em 1963 e a do marechal ]uin em 1967, restaram apenas 43 membros franceses. Foi nessa ocasio que, por insistncia do general De Gaulle (que 
no era membro do Prieur de Sion), Pierre Plantard de Saint-Clair foi alado ao grau de "cruzado".
Aps a morte de Andr Malraux em 1976, quando os norteamericanos estavam tentando conquistar a supremacia na Ordem, continuou havendo apenas 43 membros franceses.
Assim - ainda que s pelo jogo feito com o nmero dos membros franceses -, no deveramos entender que um dos objetivos de R. P. Martin  tambm indicar, aos que 
conhecem os mistrios contemporneos, que ele est aludindo ao ramo francs do Prieur de Sion e, ao mesmo tempo, atribuindo  Ordem uma posio poltica especfica?
Trata-se de um jogo esperto: comeando com fatos fidedignos (na verdade, uma das comendadorias de Sion na Frana pertence a uma mulher), ou mais ou menos fidedignos, 
o autor passa a utiliz-Ios para corroborar a idia de uma certa viso "gaullista" do mundo.
Mas no ser isso uma tentativa de influenciar o equilbrio interno do Prieur de Sion, atribuindo ao ramo francs uma poltica que no  a sua - exatamente no momento 
em que ele est tentando contrabalanar a influncia norte-americana e inglesa e restabelecer um equilbrio natural?
Perguntamos ao sr. Plantard se as afirmaes feitas sobre o Prieur de Sion eram corretas. Ele respondeu que sim. Perguntamos-lhe quem era "Bayard". "Talvez o prprio 
R. P. Martin", respondeu o sr. Plantard, com uma risadinha que sugeria que "Bayard" podia perfeitamente ser tambm ele mesmo. Mas, fosse "Bayard" quem fosse, as 
declaraes que lhe eram atribudas eram extremamente interessantes. Em primeiro lugar, ele enfatizava exatamente aquilo para o que o sr. Plantard chamara nossa 
ateno verbalmente: a existncia de atritos no interior do Prieur de Sion, gerados por um "contingente anglo-americano". Fazia eco tambm  ambgua afirmao feita 
pelo sr. Plantard em outras circunstncias de que o Prieur no era poltico. Afirmava categoricamente, pela primeira vez ao que soubssemos, que o marechal Juin 
e Andr Malraux eram membros do Prieur e especificava a posio que tinham na Ordem - a de "cruzados". Segundo os estatutos, o grau de "cruzado" era o segundo mais 
elevado na Ordem, imediatamente abaixo do grau de gro-mestre. Havia trs "cruzados" e, no grau imediatamente inferior, nove "comendatrios".
O comentrio de "Bayard" sobre De GauHe era particularmente interessante. Ele afirmava taxativamente que o prprio De GauHe no era membro do Prieur de Sion. Ao 
mesmo tempo, deixava claro que De GauHe no s estava a par dos assuntos do Prieur como tinha suficiente influncia sobre a ordem para insistir na promoo do sr. 
Plantard ao grau de "cruzado" aps a morte do marechal Juin. Se isso era verdade, contudo, significava que, at 1967, o sr. Plantard pertencera a um grau inferior. 
Por outro lado, segundo o marqus de Chrisey, j em 1956 o sr. Plantard tinha impedido, com sua diplomacia, um grande cisma na Ordem. E, segundo o texto adulterado 
de Jania Macgillivray, o poder no Prieur fora exercido, aps a morte de Cocteau em 1963, por um triunvirato integrado por Plantard, Gaylord Freeman e Antonio Merzagora. 
 verdade que no  de todo inusitado que um subordinado assuma o papel de liderana, especialmente num momento de crise. No entanto, se esse fosse o caso do sr. 
Plantard, isto significava que, em tudo que fizera entre 1957 e 1967, atuara como um subordinado - um subordinado que no era nem sequer do segundo escalo, mas 
do terceiro ou ainda inferior.
6. Questionamos insistentemente o sr. Plantard sobre os documentos autenticados com as assinaturas do visconde Leathers, do capito Nutting, do major Clowes e de 
lorde Selborne. Lembramos-lhe que nos pedira para no discutir ou publicar esses documentos, e que no entanto Louis Vazart estampara fotos dos mesmos em seu livro 
sobre Dagoberto II. Uma vez que os documentos estavam prestes a se tornar pblicos, por que nos pedira segredo? O sr. Plantard pareceu sinceramente embaraado. No 
sabia, disse com amargura, que o sr. Vazart ia publicar reprodues dos documentos. Se tivesse sabido de antemo, teria evitado. Ento o sr. Vazart no o consultara? 
No, respondeu o sr. Plantard. Sabia que o sr. Vazart estava escrevendo o livro, mas no tinha idia de que este incluiria qualquer referncia aos documentos. Mas, 
insistimos ns, fora certamente o sr. Plantard quem dera ou pelo menos mostrara os documentos ao sr. Vazart. No lhe pedira segredo, como a ns? O sr. Plan~ard respondeu 
que no dera os documentos para o sr. Vazart. No tinha idia de onde ele os conseguira. A primeira indicao de que sabia alguma coisa sobre eles surgira j impressa, 
como um fait accompli.
Ficamos perplexos. O sr. Plantard nos mostrara os originais dos documentos em abril do ano anterior. Se no os mostrara tambm ao sr. Vazart, ficava evidente que 
mais algum tinha cpias. Onde o sr. Vazart as obtivera? O sr. Plantard deu de ombros, impotente. No sabia, disse. Toda a situao lhe parecia extremamente inquietante. 
Praticamente nos implorou que continussemos investigando o assunto. Ficaria grato, afirmou, por qualquer informao que nossas pesquisas pudessem fornecer.
Estes foram os tpicos bsicos abordados em nossa conversa com o sr. Plantard em fevereiro de 1984. Nada fora esclarecido, nenhuma das nossas indagaes fora satisfatoriamente 
respondida. Ao mesmo tempo, viamo-nos s voltas com um verdadeiro emaranhado de novas perguntas. Quem eram John E. Drick, Gaylord Freeman e A. Robert Abboud? Qual 
era o papel do "contingente norte-americano" no Prieur de Sion e por que eram uma fonte de atrito dentro da Ordem? O sr. Plantard estivera mesmo prestes a nos oferecer 
o ingresso no Prieur para contrabalanar a influncia desse "contingente"? Por que algum do governo francs estaria transferindo fundos para uma conta secreta 
na Sua com o objetivo de desacreditar o sr. Plantard? Que valor devamos atribuir s informaes fornecidas por "Bayard" em sua resenha do livro do R. P. Martin? 
E, se no fora do sr. Plantard, de quem o sr. Vazart obtivera os documentos autenticados com as assinaturas do visconde Leathers, do capito Nutting, do major Clowes 
e de lorde Selborne?
Durante nossa estada em Paris, tivemos tambm uma srie de encontros com Louis Vazart. Ele fez eco s declaraes do sr. Plantard. No, afirmou, no havia recebido 
os documentos autenticados do sr. Plantard. Nesse caso, como os conseguira? Eles lhe haviam sido enviados, respondeu. Anonimamente. Num "simples envelope de papel 
pardo". Com selos britnicos e carimbo postal de Londres! Mais uma vez ficamos pasmos. Quem estava brincando de qu? Estaria algum tentando nos incriminar, tentando 
nos desacreditar junto ao sr. Plantard e ao Prieur de Sion? Fosse como fosse, se o sr. Vazart estava dizendo a verdade, uma coisa era evidente: algum em Londres 
estava a par de toda a questo, estava acompanhando todos os desdobramentos e, em determinados momentos-chave, estava intervindo misteriosamente.

20
O ELUSIVO "CONTINGENTE AMERICANO"

Provou-se bastante fcil determinar as identidades de Gaylord Freeman, John Drick e A. Robert Abboud. Todos os trs estavam listados em diversos catlogos e outras 
fontes padro. Diante disso, a evasiva do sr. Plantard se tomava ainda mais intrigante. Por que se recusar a falar sobre homens cujas vidas e atividades eram matria 
de registro pblico?
Todos os trs eram, ou tinham sido, ligados ao First National Bank de Chicago. John Drick trabalhara no banco desde 1944. Tendo comeado como caixa adjunto, em trs 
anos passou a vice-presidente adjunto. Em 1969, tornou-se presidente do banco e, ao mesmo tempo, um de seus diretores. Participara tambm do conselho diretor de 
vrias outras companhias americanas: Stepan Chemical, MCA Incorporated, Oak Industries e Central Illinois Public Service.
Gaylord Freeman, originalmente um advogado, inscreveu-se no foro de Illinois em 1934. Em 1940 ingressou no First National Bank of Chicago como procurador. Em 1960 
tomou-se presidente do banco. Ocupou a vice-presidncia do conselho diretor do banco de 1962 a 1969, a presidncia de 1975 a 1980. Foi tambm presidente do conselho 
diretor da First Chicago Corporation e membro dos conselhos diretores da Atlantic Richfield, Bankers Life and Casualty Company, Baxter Travenol Labs e Northwest 
Industries. Em 1979-80, participou de uma "fora-tarefa" sobre inflao para a American Bankers' Association. Era membro da MacArthur Foundation e curador do Aspen 
Institute of Humanistic Studies. O Aspen Institute fora fundado em 1949 para familiarizar executivos de alto nvel com disciplinas humansticas, especialmente a 
literatura. Hoje, compreende um quartel-general em Nova Y ork, uma propriedade de oito quilmetros quadrados na baa de Chesapeak e centros de conferncia no Hava, 
em Berlim e em Tquio.

Robert Abboud sucedeu a Gaylord Freeman na presidncia do conselho diretor do First National Bank of Chicago, mas alguns anos depois foi exonerado. Posteriormente 
tomou-se presidente da Occidental Petroleum Corporation. Em 1980, ele e outros foram processados por acionistas sob a acusao de enganar investidores no tocante 
 situao financeira do banco em meados dos anos 70. Segundo o Herald Tribune, em sua defesa Abboud afirmou que o banco atravessava graves dificuldades financeiras 
quando ele assumiu a presidncia do conselho diretor - de fato, declarou, os problemas de 1974 tinham sido ocultados para evitar uma crise de confiana no sistema 
bancrio". 
Pertenciam esses homens ao "contingente anglo-americano" a que o sr. Plantard aludira? Nesse caso, esse contingente se estendia pelas esferas rarefeitas das altas 
finanas, presumivelmente no s nos Estados Unidos como tambm em outros pases. Ao mesmo tempo, se os "contratempos" do sr. Abboud com o banco indicavam alguma 
coisa, o contingente estava ele prprio ameaado pela luta entre faces.
Pouco depois de descobrirmos a identidade dos srs. Drick, Freeman e Abboud, telefonamos para o sr. Plantard. Muito casualmente, mencionamos o que ficramos sabendo 
acerca da ligao deles com o First National Bank of Chicago. Vraiment? ( mesmo?), respondeu laconicamente o sr. Plantard, com certa ironia na voz, como se nos 
estivesse cumprimentando pela nossa meticulosidade. Declaramos que, obviamente, teramos de entrar em contato com os trs homens em questo. No mesmo instante o 
sr. Plantard ficou visivelmente nervoso. Havia questes muito importantes em jogo, declarou, pedindonos que, por favor, no entrssemos em contato com aqueles homens 
at que tivssemos outro encontro pessoal com ele. Com muita relutncia concordamos, mas lhe fizemos uma srie de outras perguntas. O sr. Plantard pediu que no 
lhe perguntssemos nada por telefone. Todo o problema teria de ser discutido em detalhes, "face a face". Insistimos: ele no podia adiantar alguma coisa? "Face  
face", repetiu o sr. Plantard.
Sentimo-nos obrigados a honrar a promessa feita ao sr. Plantard e abstivemo-nos de tentar entrar em contato direto com os srs. Drick, Freeman e Abboud. Ao mesmo 
tempo, porm, contatamos rapidamente amigos nos Estados Unidos e pedimos todas as informaes que pudessem obter sobre os trs, bem como sobre as vrias companhias, 
negcios e instituies a que estavam ligados. Poucos dias depois, recebemos um telefonema de Nova Y ork. Nosso informante declarou que no tinha certeza absoluta, 
teria de verificar o assunto, mas, se no lhe falhava a memria, lohn Drick morrera cerca de dois anos antes. Nesse caso, como a assinatura do homem podia constar 
de um documento datado de 17 de janeiro de 1984... a menos que os poderes do Prieur de Sion fossem de fato excepcionalssimos!?
Se John Drick estava morto, as assinaturas no "Mise en Garde" eram falsas. Como o sr. Plantard tambm assinara o "Mise en Garde" e nos enviara uma cpia dele, s 
nos restava desconfiar que tivesse algum envolvimento nisso. Mas, a partir do que tnhamos apurado sobre ele, parecia extremamente improvvel que pudesse cometer 
um erro to grosseiro e desastroso. Apor a assinatura de um morto num documento que parecia ter sido amplamente divulgado no era apenas um descuido espantoso. Era 
tambm algo obviamente perigoso, que expunha quem o fizesse a todo tipo de repercusso legal. Embora nunca tivssemos ouvido falar de John Drick antes, ele era, 
afmal de contas, uma figura de destaque no mundo das finanas. Nem sua identidade nem sua morte eram segredo, e quem urdira a "Mise en Garde" devia saber disso.
Alm do mais, se as assinaturas eram falsas, por que tinham sido escolhidas aquelas em particular? Aqueles nomes no tinham sido invocados irrefletidamente, nem 
escolhidos por sorteio. O nome de Gaylord Freeman j aparecera na verso adulterada do texto de Jania Macgillivray alguns anos antes. Por alguma razo estvamos 
sendo impelidos muito especificamente na direo do First National Bank of Chicago.
Telefonamos para a filial do First National Bank em Londres. Nossa pergunta certamente pareceu esquisita: John Drick estava mesmo morto? Fomos passados de ramal 
em ramal, at que finalmente nos puseram em contato com um dos diretores executivos do banco, que quis saber o porqu da pergunta. Respondemos que tnhamos ouvido 
falar que John Drick morrera alguns anos antes, mas, ao mesmo tempo, tnhamos em mos um documento aparentemente assinado por ele em 17 de janeiro de 1984. O homem 
do outro lado da linha tornouse cautelosamente vago. Sim, disse, tambm ele tinha a impresso de lembrar algo sobre a morte de Drick, mas no tinha certeza. Mais 
tarde, naquele dia, iria falar com algum capaz de esclarecer definitivamente a questo. Se pudssemos deixar um nmero, diria a essa pessoa que ligasse para ns.
Naquela tarde, recebemos uma chamada internacional dos Estados Unidos. Nosso interlocutor - que, atendendo a um pedido seu, chamaremos simplesmente de "Samuel Kemp" 
- se apresentou como um dos diretores seniores do banco. Tinha tambm um envolvimento especial com a rea de segurana bancria, estando em estreita ligao com 
a Interpol.
Explicamos a situao - que, como era de se esperar, aguou o apetite do "sr. Kemp". Seguiu-se uma conversa extremamente enfadonha, em que tentamos explicar o pano 
de fundo tanto quanto as circunstncias o permitiam. O "sr. Kemp" mostrou-se franco, sem malcia, bastante intrigado e mais do que disposto a fazer todas as averiguaes 
que lhe pudssemos confiar. Desde logo, contudo, podia confirmar com segurana que John Drick realmente morrera, em 16 de fevereiro de 1982. No curso de nossa conversa 
com o "sr. Kemp", outro item de interesse veio  tona: at 1983, o First National Bank of Chicago havia partilhado suas instalaes em Londres com a Guardian Royal 
Exchange Assurance!
Isso dificilmente podia ser uma coincidncia. Mas o que significava? Algum ligado ao banco teria surrupiado documentos e assinaturas da companhia seguradora? Ou 
algum ligado  companhia seguradora surrupiara assinaturas do banco? Fosse qual fosse a explicao, havia discrepncias na cronologia. As assinaturas da Guardian 
Assurance datavam, pretensamente, de 1955 e 1956. Mesmo que tivessem sido apostas mais tarde, isso no poderia ter ocorrido depois de 1971, porque naquele ano o 
Lloyds Bank Europe tomara-se o Lloyds Bank Intemational. Alm disso, o major Hugh Murchison Clowes morrera em 1956. Por outro lado, a participao conjunta de Gaylord 
Freeman, John Drick e A. Robert Abboud no First National Bank of Chicago tivera incio em meados dos anos 70. Fossem quais fossem as respostas a estas questes, 
uma coisa parecia evidente: algum interessado no caso estava agindo em Londres.
Nas semanas seguintes, mantivemos contato telefnico permanente com o "sr. Kemp". Depois da nossa primeira conversa, ele tratara de adquirir um exemplar do nosso 
primeiro livro, para se familiarizar com o pano de fundo. De nossa parte, enviamos-lhe um copioso dossi de documentos relativos tanto ao contedo do primeiro livro 
quanto  nossa investigao atual - incluindo,  claro, tudo que dizia respeito  conexo da Guardian Assurance com o First National Bank of Chicago. Isso compreendia, 
alm da "Mise en Garde" com as assinaturas de John Drick, Gaylord Freeman e A. Robert Abboud, a verso adulterada do artigo de Jania Macgillivray, em que tnhamos 
visto o nome de Gaylord Freeman pela primeira vez.
Depois de examinar todo esse material, o "sr. Kemp" ficou no s perplexo como intrigado. Ele tinha considervel experincia em desmascarar fraudes. Aquilo dava 
 histria um tom excitante e sua curiosidade tornou-se to grande quanto a nossa. Concordou em fazer investigaes por conta prpria e tambm, assim que se apresentasse 
o momento propcio, falar pessoalmente com Gaylord Freeman. Nesse nterim, pde confirmar uma coisa para ns. As assinaturas eram genunas. No havia dvida de que 
coincidiam com todas as outras amostras que se tinha podido encontrar das assinaturas dos trs homens.
Continuamos fornecendo ao "sr. Kemp" documentos adicionais e novas informaes,  medida que vinham  luz. Ele levava adiante a sua prpria investigao, mantendo-nos 
a par de seus progressos, e fez um relatrio minucioso. Este parecia comprometer irremediavelmente o sr. Plantard e o Prieur de Sion.
Dos anos em que os srs. Drick, Freeman e Abboud tinham trabalhado juntos no banco, o "sr. Kemp" s conseguiu encontrar um nico documento de que constavam as assinaturas 
dos trs. Tratava-se do Relatrio Anual de 1974 do First National Bank of Chicago e da First Chicago Corporation, que dera origem ao banco. O relatrio fora publicado 
em 10 de fevereiro de 1975 e distribudo a todas as filiais do banco, bem como aos acionistas. Nele, as assinaturas de John Drick, Gaylord Freeman e A. Robert Abboud 
apareciam juntas. No s isso. Apareciam exatamente na mesma seqncia que na "Mise en Garde".
O "sr. Kemp" medira as assinaturas em ambos os documentos. Verificou que as do Relatrio Anual de 1974 eram exatamente do mesmo tamanho que as da "Mise en Garde". 
Este era sem dvida um indcio incriminador.  praticamente impossvel algum conseguir fazer cada letra, cada volta e cada floreio de sua assinatura exatamente 
do mesmo tamanho em duas ocasies diferentes. Era inconcebvel que os trs homens tivessem conseguido tal proeza nos mesmos dois documentos. No havia dvida de 
que as assinaturas na "Mise en Garde" tinham-se baseado numa fotocpia. Evidentemente algum fotocopiara a ltima pgina do Relatrio Anual de 1974 e posteriormente 
reproduzira as assinaturas na "Mise en Garde".
Mais uma vez, no entanto, restava a questo do motivo. Por que exatamente aqueles homens? E por que correr o risco legal que o uso das assinaturas daqueles homens 
implicava? Pelo que sabamos, a "Mise en Garde" tivera uma circulao bastante ampla - fora enviada no s aos membros do Prieur de Sion, mas para ns e para outras 
pessoas que pesquisavam o assunto na Frana, alm de integrar um dossi apresentado ao judicirio francs. Parecia inacreditvel que o sr. Plantard ousasse se expor 
dessa maneira, ousasse se tornar to vulnervel s conseqncias da fraude. Outras pessoas poderiam sem dvida fazer averiguaes to rpidas quanto as nossas. Nesse 
caso, o desmascaramento da fraude no era mera questo de tempo? "Roubar" trs assinaturas, uma delas pertencente a um morto, era coisa sria. J no se tratava 
de uma brincadeira para gerar confuso. Em matria de desinformao, aquela no era tampouco das mais habilidosas.
O "sr. Kemp" informou que estivera com Gaylord Freeman. Mostrara-lhe a "Mise en Garde" com as trs assinaturas. Mostrara-lhe outros documentos pertencentes ao Prieur 
de Sion e ao sr. Plantard. Perguntara-lhe, de maneira bastante direta e explcita, se era ou tinha sido membro do Prieur de Sion, se j tinha ouvido falar dele 
ou de Pierre Plantard de Saint-Clair.
No dossi que enviramos ao "sr. Kemp", tnhamos includo uma cpia do estatuto do Prieur. Segundo o Artigo XXII desse estatuto, "A negao da condio de membro 
do Prieur de Sion, feita publicamente ou por escrito, sem causa ou perigo pessoal, acarretar a excluso do membro, que ser pronunciado pelo Convento". Se o sr. 
Freeman fosse de fato filiado ao Prieur, raciocinamos ns e tambm o "sr. Kemp", esse estatuto o obrigava a admiti-lo.
Segundo o "sr. Kemp", o sr. Freeman havia negado qualquer conhecimento do assunto. No era membro do Prieur de Sion. Nunca fora membro do Prieur de Sion. Nunca 
ouvira falar do Prieur de Sion nem de Pierre Plantard de Saint-Clair.
Ao mesmo tempo, a atitude do sr. Freeman parecera um tanto curiosa. Mostrara-se, disse-nos o "sr. Kemp", levemente irnico, ligeiramente aturdido com as perguntas 
que lhe foram feitas, mas tudo de maneira fria. No conjunto, mostrara-se desconcertantemente blas. No manifestara qualquer surpresa - nem com as perguntas, nem 
diante do fato de seu nome ocorrer num contexto to singular. No expressara absolutamente raiva ou indignao diante do modo como seu nome e sua assinatura estavam 
sendo usados. No tinha nem mesmo pedido maiores informaes e no reagira com mais intensidade do que teria feito se as indagaes se referissem a negcios puramente 
rotineiros.
Embora essa despreocupao pudesse parecer chocante, o "sr. Kemp" disse no duvidar das negativas do sr. Freeman. Isso, disse ele, s vinha tomar o assunto mais 
desconcertante aos seus olhos. Suspeitava de que havia algo de grave envolvido naquilo tudo, mas no conseguia atinar o qu. Graas  sua ligao com a Interpol, 
comentou, tivera oportunidade de investigar literalmente milhares de fraudes. Segundo todos os critrios que estava habituado a aplicar nessas circunstncias, o 
caso presente no tinha nenhum sentido. O que leva geralmente  fraude, explicou,  a sede do poder, o ganho financeiro ou ambos. No que dizia respeito ao Prieur 
de Sion, no entanto, e especialmente no que dizia respeito ao caso especifico da "Mise en Garde", nenhuma dessas motivaes parecia estar em jogo. Era difcil imaginar 
como o negcio podia envolver alguma manobra em busca de poder. Na verdade, o Prieur ficava comprometido, e no fortalecido, pelo uso de assinaturas claramente 
esprias, de falsidade to facilmente comprovvel. Tampouco era possvel discernir um componente de ganho financeiro. Como havamos descoberto muito tempo antes, 
a indiferena que o Prieur manifestava por dinheiro era um dos seus traos mais convincentes. Longe de procurar acumular rendas, o Prieur parecia bastante disposto 
a abrir mo de dinheiro, ou mesmo a gastar dinheiro em troca da divulgao de algum material.
O "sr. Kemp" disse que, certa feita, encontrara falsificaes absurdas e enigmticas. Vez por outra, mencionou, agentes aposentados da comunidade de informaes 
podem, por exemplo, criar um estratagema complicado para se divertir e pr  prova os colegas mais jovens. Mas isso tambm no parecia se aplicar ao presente caso. 
O Prieur atual vinha praticando seus ardis havia quase trinta anos, desde 1956, quando o sr. Plantard tinha 36 anos. Alm disso, o envolvimento de nomes como os 
de Malraux, Juin e De Gaulle depunha contra um jeu d'esprit meramente frvolo.
Em suma, estava acontecendo alguma coisa desnorteante no s para ns, mas para um profissional especialista nessas questes, com anos de experincia nas costas. 
O "sr. Kemp" concluiu essa conversa conosco com uma nota de ambigidade cuidadosamente dosada: "No confiem em ningum", disse. "Nem em mim."
Nesse meio tempo, tnhamos insistido em marcar com o sr. Plantard o encontro "face a face" que ele prprio dissera ser necessrio. Por razes que mais tarde ficaram 
claras, ele se mostrou esquivo. Freqentemente no conseguamos contat-lo nem ao telefone. Quando isso era possvel, ele se queixava de uma agenda carregada, ou 
tinha de tratar de algo relacionado aos estudos do filho, ou ia ficar fora de Paris, ou estava gripado. No passado, sempre mostrara prazer em nos encontrar. Agora 
parecia claramente relutante. Evidentemente, tnhamos outras coisas de que tratar; estvamos mergulhados na pesquisa.da histria do Novo Testamento, do cristianismo 
celta e do material que compe a primeira parte deste livro. Mesmo assim, estvamos frustrados ao ver que o tempo ia passando e o encontro com o sr. Plantard continuava 
sendo adiado. Tanto ele quanto o Prieur de Sion estavam comeando a parecer cada vez mais suspeitos.

Tambm nas outras frentes no estava acontecendo grande coisa. Nossas indagaes sobre o processo judicial contra o sr. Chaumeil s nos permitiram concluir que ele 
continuava pendente. Um livro do sr. Chaumeil foi publicado, mas de fato no passava de uma reedio de um trabalho anterior, com introduo e posfcio novos. No 
continha quaisquer revelaes escandalosas como as prometidas pelo panfleto annimo.
Finalmente, recebemos uma carta do sr. Plantard. Num tom friamente formal, ele consentia na to esperada entrevista, mas com uma ressalva: "Ser um prazer estar 
com os senhores no final de setembro em bases amigveis; lamento informar, porm, que no poderei fornecer qualquer informao para a publicao dos senhores."
Na mesma carta, o sr. Plantard declarava ter comprovado a autenticidade do documento de 1955 - aquele que tinha as assinaturas do visconde Leathers, do major Clowes 
e do capito Nutting. O documento, dizia, fora examinado e validado por "especialistas". Por outro lado, reconhecia que o documento de 1956 - o que tinha a assinatura 
do lorde Selborne e a referncia ao Lloyds Bank Europe - era fraudulento. Em seguida, em letras maisculas, repetia que os documentos autenticados deviam "permanecer 
confidenciais e no ser publicados" - insistncia ainda mais desconcertante uma vez que os mesmos, como ele prprio admitia, j tinham sido publicados por Louis 
Vazart e j no tinham coisa alguma de confidencial. E acrescentava: "Proibi na Frana qualquer publicao sobre o Prieur de Sion e sobre minha pessoa, e isso desde 
o ms de maro de 1984..."
O fraseado dessa declarao era interessante. No podamos acreditar,  claro, que o sr. Plantard possusse to amplos poderes de censura. O que ele queria dizer, 
provavelmente,  que instrura os membros do Prieur de Sion a manter silncio. Sua interdio no podia envolver o conjunto da imprensa, mas certamente abrangia 
as vrias fontes internas que vinham vazando material para o pblico havia quase trinta anos.
A carta do sr. Plantard continha outra declarao de interesse. Fora acrescentada como um ps-escrito: "Oponho-me tambm expressamente  publicao da correspondncia 
trocada entre mim e o general De Gaulle, bem como com o marechal Juin ou com Henri, conde de Paris. Esses documentos, roubados da rua St. Lazare, 37, Paris, so 
confidenciais e continuam sendo 'segredo de Estado', ainda que estejam  venda..."
Estaria o sr. Plantard, por acreditar que tnhamos acesso a essa correspondncia, revelando inadvertidamente que ela existia - e que talvez tivesse algo de comprometedor? 
Ou simplesmente queria que pensssemos isso? A essa altura, estvamos desconfiando de tudo. Nada parecia inequvoco; nada podia ser tomado por seu valor aparente; 
tudo admitia uma explicao alternativa. Comevamos a ver o Prieur de Sion como uma imagem hologrfica, que se transformava como um prisma, segundo a luz e o ngulo 
de que era vista. De uma perspectiva, parecia ser uma influente, poderosa e rica sociedade secreta internacional, cujos membros incluam figuras eminentes nas artes, 
na poltica e nas altas finanas. De outra, parecia uma mistificao engenhosa, urdida por um grupelho para obscuros fins prprios. Talvez, de certo modo, fosse 
as duas coisas.

Confrontao com o sr. Plantard

Como nosso encontro com o sr. Plantard se aproximava, reunimos as provas que tnhamos acumulado. Elas incluam trs itens bastante condenatrios. No podamos imaginar 
como o sr. Plantard conseguiria explicar qualquer delas, muito menos as trs. Evidentemente, ele no devia ter idia dos rumos que dramos s nossas investigaes, 
nem do que havamos desenterrado. Estvamos confiantes de que conseguiramos peg-lo desprevenido.
O primeiro item era a morte' de John Drick. Como o sr. Plantard explicaria a assinatura de um documento pelo sr. Drick em 17 de janeiro de 1984, se o homem tinha 
morrido dois anos antes?
O segundo ponto tambm dizia respeito s assinaturas na "Mise en Garde". Como o sr. Plantard explicaria o fato de serem absolutamente idnticas s que figuravam 
no Relatrio Anual de 1974 do First National Bank of Chicago?
O terceiro item envolvia um assunto completamente diferente. Em 1979, o sr. Plantard - que at ento era conhecido simplesmente como Pierre Plantard - comeara a 
usar um nome bem mais bombstico: Pierre Plantard de Saint-Clair, conde de Saint-Clair e conde de Rhdae (o antigo nome de Rennes-le-Chteau). Em O santo graal e 
a linhagem sagrada, fizemos um comentrio mordaz" sobre tal aquisio aparentemente sbita de foros de nobreza e o sr. Plantard ficara ofendido com nossa insinuao. 
Para provar que no estava simplesmente se apropriando de ttulos de maneira espria ou inventando-os, mostrara-nos seu passaporte e nos dera uma fotocpia da sua 
certido de nascimento. Em ambos os documentos, constava de fato o nome Plantard de Saint-Clair, conde de Saint-Clair e conde de Rhdae, e no segundo seu pai tambm 
era assim chamado. Pouco depois, porm, tnhamos solicitado uma cpia da certido de nascimento  prefeitura da VII Circunscrio Administrativa de Paris. A certido 
assim obtida trazia informaes idnticas, sob quase todos os aspectos, s daquela que o sr. Plantard nos dera. Com a diferena de que no certificado fornecido pela 
prefeitura no constava ttulo algum, e o pai do sr. Plantard no era citado como conde de SainteClair ou conde de Rhdae. Era referido simplesmente como valet de 
chambre.
 claro que isso, por si s, no provava coisa alguma. E mesmo que a certido do valet de chambre fosse vlida, algumas questes ficavam em aberto. Como, por exemplo, 
o sr. Plantard conseguira fabricar com tanta perfeio uma "cpia oficial" do original? Como fora possvel reproduzir daquela maneira o papel, os selos oficiais 
e as assinaturas - se isso de fato ocorrera? De todo modo, a incongruncia entre um camareiro e um conde de Saint-Clair e Rhdae merecia uma explicao. Parecia-nos 
que isso poderia despertar uma reao reveladora, especialmente se fosse apresentado ao sr. Plantard de repente, inopinadamente, sem lhe dar tempo para preparar 
uma resposta. Um breve momento de confuso poderia tra-lo.
Tivemos de enfrentar mais um enigma antes da nossa confrontao com o sr. Plantard. Conseguiramos um efeito muito maior, pensamos, se levssemos conosco uma cpia 
do Relatrio Anual de 1974 do First National Bank of Chicago - de posse da fonte original das assinaturas dos srs. Drick, Freeman e Abboud, poderamos p-Ia diante 
dos olhos do sr. Plantard. Assim, uma semana antes do dia da nossa viagem para Paris, telefonamos ao "sr. Kemp" e perguntamos se podia nos enviar uma fotocpia do 
documento, explicando-lhe por que o queramos. O "sr. Kemp" respondeu que no havia problema e que uma fotocpia seguiria pelo correio no dia seguinte.
Na tarde do dia seguinte, recebemos uma chamada telefnica um tanto aflita da secretria do "sr. Kemp". Ele a instrura, disse ela, a nos enviar uma fotocpia da 
ltima pgina do Relatrio Anual de 1974a que trazia as trs assinaturas em questo. Ela havia tentado vrias vezes cumprir a instruo... mas era impossvel conseguir 
a cpia! Tentara em todas as mquinas do banco, mas as assinaturas no eram reproduzidas.
No dia seguinte, falamos de novo com o "sr. Kemp". Ele tinha investigado o problema pessoalmente e a explicao parecia bastante simples. As assinaturas no Relatrio 
Anual - possivelmente como medida de segurana, para evitar reproduo espria - tinham sido impressas em tinta azul-clara, sem nenhum teor de grafite. Sem algum 
teor de grafite no era possvel obter uma fotocpia.
Sem dvida isso era bastante simples. Mas suscitava uma questo inteiramente nova. Juntamente com o "Sr. Kemp", havamos concludo, de maneira bastante taxativa, 
que as assinaturas na "Mise en Garde" do Prieur de Sion tinham sido simplesmente reproduzidas do Relatrio Anual de 1974. Mas como o sr. Plantard conseguira faz-Io, 
se era impossvel fotocopi-las?
Com certeza havia outras explicaes possveis. As assinaturas no Relatrio Anual poderiam ter sido fotografadas, e em seguida teria sido possvel fotocopiar a fotografia. 
Mas por que se dar tanto trabalho para obter exatamente aquelas trs assinaturas? Por que no usar outras, que pudessem ser simplesmente fotocopiadas sem dificuldade? 
Por que um fraudador desleixado ou negligente a ponto de usar a assinatura de um homem morto dois anos antes ter-se-ia dado tanto trabalho para obt-Ia, quando qualquer 
outra teria servido igualmente bem ao seu propsito?
Nos dias que se seguiram, esse enigma nos importunou. Apesar disso, ainda tnhamos trs elementos de prova bastante eloqentes para apresentar ao sr. Plantard. Como 
a assinatura de Jonh Drick pudera aparecer num documento dois anos depois de sua morte? Como o sr. Plantard podia explicar a absoluta identidade entre as assinaturas 
na "Mise en Garde" do Prieur de Sion e as que figuravam no Relatrio Anual de 1974? E como podia explicar que uma certido de nascimento obtida da prpria fonte 
oficial qualificasse seu pai no como um conde, mas como camareiro? Munidos dessas perguntas, lanamo-nos ao que, entre ns, chamvamos zombeteiramente de "hora 
da verdade".

Hora da Verdade

No domingo, 30 de setembro, tivemos nosso encontro com o sr. Plantard em Paris no que se tomara o local de costume, o restaurante La Tipia, na rua Rome. Nos encontros 
anteriores, sempre chegvamos cedo e espervamos por ele. Dessa vez, porm, embora tenhamos sido bastante pontuais, ele estava  nossa espera. Em poucos minutos 
ficou claro que estava  nossa espera tambm em outros sentidos. Respondeu s nossas perguntas comprometedoras, antes mesmo que tivssemos podido formul-las.
Aps trocar os cumprimentos de praxe, pedimos caf. Pegamos um pequeno gravador e o pusemos sobre a mesa. O sr. Plantard lanou-lhe um olhar um tanto dbio mas no 
fez objeo. Tiramos ento de uma pasta o "Mise en Garde" do Prieur de Sion com as assinaturas de John Drick, Gaylord Freeman e A. Robert Abboud. Antes que pudssemos 
dizer uma palavra a respeito, o sr. Plantard apontou para as trs assinaturas.
- Foram feitas com um clich, vocs sabem - disse, fazendo com a mo o gesto de carimbar alguma coisa.
Trocamos olhares furtivos. Essa possibilidade nunca nos ocorrera antes, e tampouco ao "sr. Kemp". Mas, sim, no havia dvida, um clich podia explicar que as assinaturas 
no "Mise en Garde" e no Relatrio Anual fossem exatamente do mesmo tamanho. Grandes empresas, rgos governamentais e outras instituies, que tm de produzir um 
nmero muito grande de documentos, de fato usam clichs. Um diretor de empresa em geral no assina centenas de cheques de pagamento um a um. Por outro lado, o sr. 
Plantard estava dando a entender claramente que possua o clich em questo, ou tivera acesso a ele - o mesmo clich que fora usado no Relatrio Anual de 1974.
Mas, replicamos, passando rapidamente a atacar em outra frente, um dos homens cujas assinaturas apareciam ali...
Estava morto, interrompeu-nos tranqilamente o sr. Plantard, tirando as palavras das nossas bocas. Sim, John Drick morrera no incio de 1982. Contudo, num procedimento 
de rotina, o Prieur continuava a usar sua assinatura em documentos internos at que a vacncia aberta na Ordem com a sua morte fosse preenchida.
Esta no nos pareceu ser a mais plausvel ou a mais satisfatria das explicaes. Continuar usando desse modo a assinatura de um morto est longe de ser uma prtica 
comum em qualquer tipo de instituio. Mas no tnhamos como contestar a afirmao do sr. Plantard. No tnhamos condies de discutir com ele sobre diretrizes e 
procedimentos internos do Prieur de Sion, por menos ortodoxos que fossem.
No tnhamos contado coisa alguma ao sr. Plantard sobre nosso contato com o "sr. Kemp", nem sobre a entrevista deste com Gaylord Freeman. Tampouco o sr. Plantard 
revelou explicitamente saber alguma coisa a respeito. Em vez disso, como se para evitar que suscitssemos a questo - ou talvez simplesmente para deixar claro que, 
apesar de tudo, estava muito bem informado -, observou em tom casual que, j no ms de dezembro anterior, o Artigo XXII do estatuto do Prieur fora oficialmente 
revogado. Nos ltimos nove meses, os membros do Prieur no estavam mais obrigados a reconhecer sua afiliao. Agora, ao contrrio, estavam instrudos a negar qualquer 
conhecimento da Ordem e a no divulgar qualquer tipo de informao.
Ficamos efetivamente desarmados. Contrariando todas as nossas expectativas, o sr. Plantard fornecera uma explicao para cada um dos pontos com que estvamos certos 
de lhe passar uma rasteira. Tinha apresentado essas explicaes sem titubear, sem parar para pensar e sem se mostrar sequer ligeiramente desconcertado. Mais ainda, 
havia claramente antecipado cada um dos pontos, antes que tivssemos podido levant-las. Parecia s haver duas maneiras de explicar isso. Ou o homem era realmente 
vidente, o que nos parecia pouco provvel, ou algum lhe "dera o servio". Mas as fontes a que poderia ter recorrido eram extremamente limitadas, e ainda confivamos 
na discrio do "sr. Kemp".
Restava o problema das certides de nascimento contraditrias. Posto diante delas, o sr. Plantard continuou soberbamente blas. Mais uma vez, no houve um instante 
de pausa, uma s expresso de incerteza ou embarao. Deu-nos um breve sOrrisinho, ligeiramente irnico, ligeiramente melanclico - como se nos cumprimentando pela 
aplicao, ainda que isso implicasse a invaso da sua privacidade e o revolvimento da sua vida pessoal. Sim - disse, apontando para o certificado em que seu pai 
figurava como camareira -, aquele documento fora introduzido nos arquivos da prefeitura durante a guerra. Essa tinha sido, comentou com ar negligente, uma prtica 
comum. Obviamente a Gestapo examinara todos os documentos. No era de todo raro - sobretudo se a pessoa estava ligada de algum modo  Resistncia - falsificar informaes 
para enganar os alemes.
Essa explicao, pelo menos, pde ser confirmada. No dia seguinte fomos pessoalmente  prefeitura e apresentamos as certides de nascimento discrepantes aos funcionrios 
de l. Muitos documentos tinham sido falsificados, disseram-nos, para enganar ou dar pistas falsas ao alemes durante a guerra. Muitos registros originais tinham 
sido destrudos, dispersas ou removidos. A repartio podia atestar a autenticidade de tudo que fosse posterior  guerra. No tocante a tudo que remontava a antes 
de 1945, porm, simplesmente no havia como saber. O que podiam era apenas informar se um documento estava de acordo com o que tinham nos seus arquivos. Se o pai 
do sr. Plantard era um conde, teria sido perfeitamente natural ocultar esse fato da Gestapo, que punha grande empenho em descobrir aristocratas. O sr. Plantard podia 
perfeitamente ter tido sua certido de nascimento retirada e substituda por outra. Se ele no tinha retificado seus documentos nos arquivos da prefeitura depois 
da guerra, obviamente s existiriam ali informaes falsas.

Os Planos do Prieur para o Futuro

No decorrer da nossa conversa no La Tipia, vrios outros pontos foram abordados de passagem. Como em ocasies anteriores, o sr. Plantard assumiu um tom proftico 
ao falar sobre eventos pblicos de grande escala. Agora tudo estava no lugar, disse a certa altura. Todas as peas estavam alinhadas no tabuleiro nas posies requeridas. 
Nada poderia deter "isso" agora, declarou, sem se dignar a explicar o que vinha a ser "isso". Mitterrand, acrescentou, tinha sido um degrau necessrio. Agora, no 
entanto, ele j cumprira seu papel e se tomara dispensvel. Chegara a hora de avanar, e nada poderia impedir "isso" de faz-lo.
Sem meias palavras, perguntamos ao sr. Plantard se conhecia pessoalmente Gaylord Freeman. Respondeu muito enfaticamente que sim, tendo ao mesmo tempo plena conscincia 
de que a conversa estava sendo gravada. Perguntamos que interesse podia ter um importante financista norte-americano como Gaylord Freeman na restaurao merovngia 
na Frana. O sr. Plantard hesitou. Para homens como o sr. Freeman, respondeu em seguida, o objetivo primordial era a unidade europia - os Estados Unidos da Europa, 
que fundiriam as naes do continente num bloco de poder coeso e independente, comparvel  Unio Sovitica e aos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, o sr. Plantard 
falou tambm rapidamente sobre uma espcie de Mercado Comum ampliado - uma organizao financeira ou econmica semelhante  Comunidade Econmica Europia, mas que 
incluiria tambm os Estados Unidos. Depois de mais uma pausa, o sr. Plantard acrescentou, com certa relutncia, o que soou como um comentrio amargurado. Naquele 
momento, disse, seria um erro da nossa parte confundir os objetivos imediatos do Prieur de Sion com uma restaurao merovngia.
Este ltimo ponto era algo de novo, um desdobramento que parecia ter ocorrido em algum momento posterior  publicao do nosso primeiro livro. Seria essa, cogitamos, 
a fonte da dificuldade causada pelo "contingente anglo-americano" no seio do Prieur de Sion? Quem sabe teria havido uma disputa intema, com os membros ingleses 
e norte-americanos insistindo numa mudana de prioridades - um distanciamento da idia monrquica original, to cara ao sr. Plantard, e uma adoo de princpios 
econmicos e polticos mais mundanos, mais imediatamente prticos? Insistimos para que desenvolvesse a idia, mas o sr. Plantard se recusou.
E quanto ao Vaticano? Lanamos a pergunta, tentando dar uma deixa capaz de estimular o sr. Plantard a revelar mais alguma coisa. O papa atual era um aliado potencial 
ou um adversrio potencial nos esquemas que pudessem estar em andamento? No havia "bons papas" nem "maus papas", respondeu o sr. Plantard. Isso - o que quer que 
"isso" fosseenvolvia antes uma poltica permanente para o Vaticano,  qual os papas deviam se sujeitar. De todo modo, concluiu o sr. Plantard, conseguira-se uma 
reaproximao com o Vaticano. Roma iria cooperar. Em troca, fora necessrio fazer algumas concesses, mas elas eram essencialmente nominais.
Alis, nosso livro causara certo alvoroo no Vaticano, acrescentou o sr. Plantard - s para nos mostrar, pareceu-nos, que tinha acesso a esse tipo de informao. 

21
O PANORAMA SE AMPLIA

Por mais que os comentrios do sr. Plantard tivessem sido vagos, estvamos impressionados com o desembarao com que discutira os interesses polticos do Prieur 
de Sion. No passado, ele no s se recusava a discutir esses interesses. Negava que sequer existissem. Por que se teria mostrado to loquaz agora? Confiava verdadeiramente 
em ns ou havia algum outro fator envolvido?
O que nos deixava ainda mais perplexos era o fato de o sr. Plantard ter desmontado todas as provas potenciais com que tnhamos pretendido confront-lo. No s isso. 
No se deixara em absoluto surpreender por essas provas. Tudo parecia indicar que fora avisado de antemo. No entanto, no tnhamos como tirar isso a limpo e o "sr. 
Kemp", quando lhe narramos a conversa, mostrou-se igualmente aturdido.
De todo modo, agora nos sentamos liberados da promessa feita meses antes. Naquela poca, em conversa telefnica, prometramos ao sr. Plantard no entrar diretamente 
em contato com os signatrios da "Mise en Garde" antes de ter com ele a conversa "face a face" que pedia. A conversa, por mais inconcludente que tivesse sido, ocorrera. 
Assim, escrevemos para Gaylord Freeman em Chicago, mencionando seu encontro com o "sr. Kemp" e perguntando se confirmaria, por escrito, a posio que adotara naquela 
entrevista. Recebemos uma resposta um tanto arrogante. Na carta, como na entrevista com o "sr. Kemp", o sr. Freeman negou pertencer ao Prieur de Sion, negou ter 
conhecimento do sr. Plantard, negou envolvimento nos eventos que nos haviam levado a contat-Io. Reconhecia as assinaturas como "tendo sido tomadas" do Relatrio 
Anual de 1974 do First National Bank of Chicago. No queria ser citado em livro algum. Na carta, como na entrevista com o "sr. Kemp", mostrou no estar disposto 
a levar o assunto adiante. No pediu qualquer informao adicional sobre o uso que estava sendo dado ao seu nome e  sua assinatura.

Trs semanas depois do nosso encontro com o sr. Plantard em Paris, recebemos um pacote dele. Continha um bilhete a ns endereado e cpias de duas cartas dirigidas 
aos membros do Prieur de Sion. A primeira trazia o timbre da Ordem que aparecia na "Mise en Garde". Era datada de Cahors, 10 de julho de 1984 - isto , dois meses 
e meio antes do nosso encontro no La Tipia.
No texto, o sr. Plantard anunciava aos membros do Prieur que renunciara formalmente  dignidade de gro-mestre e  sua prpria condio de membro da Ordem. Tendo 
sido eleito gro-mestre em Blois, em 17 de janeiro de 1981, sentia-se obrigado agora, dizia, "por razes de sade" e "de independncia pessoal e familiar", a renunciar 
aos seus direitos, e aos de sua famlia, no Prieur de Sion. Essa renncia entraria em vigor dentro de sessenta dias, "de acordo com os regulamentos internos da 
Ordem". No p da pgina ele citava "o decreto de 16 de dezembro de 1983" pelo qual, ao que parecia, o Artigo XXII dos estatutos fora revogado. Todos os membros do 
Prieur passavam agora a ser "obrigados a manter seu anonimato" e a "responder negativamente" a quaisquer perguntas sobre seu envolvimento na Ordem. Seguia-se a 
enigmtica declarao de que "o reconhecimento de documentos ser feito apenas pelo cdigo" - embora no ficasse claro se isso designava uma cifra ou um cdigo de 
conduta.
A segunda carta era datada do dia seguinte, 11 de julho, tambm em Cahors. Dessa vez, o papel trazia o cabealho pessoal do sr. Plantard, com seu timbre em carmesim, 
com um crculo encerrando uma florde-lis em ouro e, embaixo, as palavras Etin Arcadia Eoo... No texto que se seguia, dirigido aos "caros confrades" do Prieur, o 
sr. Plantard repetia que acabara de apresentar sua renncia com o gro-mestre, tendo passado os ltimos 41 anos na Ordem - na qual fora introduzido, dizia, em 10 
de julho de 1943 por recomendao do padre Franois Ducaud-Bourget. Durante os trs anos e meio em que fora gro-mestre, explicou, tivera de assumir enorme carga 
de trabalho, bem como viajar muito, o que seu atual estado de sade j no lhe permitia.
Acrescentava que sua renncia fora ditada tambm por outros fatores. Renunciara, dizia, por no poder aprovar "certas manobras" executadas por nossos "confrades 
ingleses e americanos" e tambm para assegurar a independncia dele prprio e de sua famlia. Um motivo adicional, afirmava, contribura para sua deciso: a publicao 
"na imprensa, em livros e em panfletos fotocopiados depositados na Bibliotheque Nationale", de vrios "documentos falsos ou falsificados" pertencentes a ele. Como 
exemplos, citou certides de nascimento, reprodues de papis do Prieur de Sion trazendo assinaturas de mais de dez anos antes e difamaes da sua pessoa que o 
haviam levado a apresentar queixa em Nanterre em 16 de dezembro de 1983. Encerrava expressando aos confrades seus melhores votos "de xito na implantao de uma 
sociedade melhor".
Que fazer dessas duas cartas? Na aparncia, pareciam bastante francas. No entanto, um dos aspectos notveis de ambas era o modo como abordavam, de maneira muito 
precisa, praticamente todos os pontos suscitados verbalmente em nosso encontro, trs semanas antes encontro em que, como agora se evidenciava, o sr. Plantard no 
falava mais como gro-mestre ou mesmo como membro do Prieur de Sion. Dir-se-ia que as cartas de renncia tinham sido escritas depois daquele encontro. Por outro 
lado, no havia dvida de que alguma coisa estivera no ar nos ltimos sete meses e meio. Tinha havido referncias anteriores  dificuldade com o "contingente anglo-americano". 
Tinha havido referncias anteriores  revogao do Artigo XXII dos estatutos. A enorme dificuldade que tivramos para entrar em contato com o sr. Plantard durante 
a primavera e o vero, e mais ainda para marcar um encontro com ele, podia tambm ter sido reflexo de alguma conturbao no seio do Prieur.
Sob esse aspecto, o bilhete a ns endereado que o sr. Plantard anexou s duas cartas de renncia era particularmente interessante. Escrevia-nos, dizia ele, para 
enviar cpias de seus documentos confidenciais de renncia e para confirmar que desde maro de 1984 recusara ificia1mente todo e qualquer encontro ou entrevista 
cujo objetivo se relacionasse de algum modo com o Prieur de Sion. Esta afirmao em itlico era enfaticamente sublinhada no texto do bilhete. Parecia que este constitua 
uma declarao oficial, para ser vista e aprovada (ou desaprovada) por outros membros da Ordem. O sr. Plantard estava deixando claro no s para ns, mas para mais 
algum, que no discutira coisa alguma sobre o Prieur desde o ltimo ms de maro. Quando se encontrara conosco no fim de setembro, os sessenta dias requeridos 
para que sua renncia tivesse efeito j tinham transcorrido. Falara conosco j no mais como gro-mestre e nem mesmo como membro do Prieur, mas em carter meramente 
pessoal. Enquanto conversvamos a uma mesa no La Tpia, um novo gro-mestre j fora presumivelmente escolhido, ou pelo menos proposto.
A renncia do sr. Plantard foi acompanhada de uma escassez geral de informao. Louis Vazart, para quem telefonamos ao receber a notcia, mostrou-se visivelmente 
transtornado. Nada disse, porm, a no ser que fora um duro golpe e que agora provavelmente ocorreriam mudanas significativas, "nem todas boas". O marqus de Chrisey 
se recusou a responder qualquer de nossas muitas cartas e tambm no conseguimos lhe falar por telefone. O sr. Plantard tornouse igualmente arisco, exceto por um 
protocolar carto com votos de feliz ano novo.


Explicaes Contraditrias

A nosso ver, havia pelo menos quatro explicaes possveis para a renncia do sr. Plantard:

1. Tnhamos documentado um Prieur de Sion histrico desde o sculo XII at o sculo XVI. A partir de 1619, contudo, a Ordem se tornara cada vez mais clandestina, 
por vezes atuando sob os nomes de outras organizaes, por vezes sumindo de vista por completo. Talvez ela tivesse deixado de existir e o Prieur de Sion atual, 
registrado em 1956, fosse mera inveno - algum tipo de jeu d'esprit, perpetrado por razes desconhecidas pelo sr. Plantard e alguns amigos mais chegados, que se 
tinham valido de documentos oriundos do Prieur original. Fosse qual fosse o jogo, fossem quais fossem seus objetivos, ele fora levado adiante pelo menos nos ltimos 
trinta anos, embora no tivesse havido nenhuma tentativa bvia de tirar proveito das possibilidades financeiras que gerara. Mas (se esse cenrio estivesse correto), 
em algum momento no curso de 1984, o sr. Plantard conclura que fora longe demais - talvez em decorrncia de nossas investigaes, talvez em decorrncia de alguma 
outra coisa. Os nomes associados com a Guardian Assurance, e mais ainda os nomes associados com o First National Bank of Chicago, podem ter representado uma extrapolao 
dos limites da prudncia e suscitado o espectro de srias repercusses legais ou talvez de exposio pblica embaraosa. Em conseqncia, o sr. Plantard concebera 
uma manobra para tirar de cena todo o caso. Afirmando ter renunciado ao Prieur, podia sustentar nada mais saber sobre suas atividades. A verdade seria, contudo, 
que, com a "renncia" do sr. Plantard o Prieur de Sion simplesmente deixara de existir.

2. O Prieur de Sion existia como organizao genuna e legtima, com recursos e influncia indeterminados, mas o prprio sr. Plantard cara em descrdito. Talvez 
tivesse passado dos limites ao nos enviar o documento com as assinaturas dos srs. Drick, Freeman e Abboud, revelando assim alguma coisa sobre o funcionamento da 
Ordem que no estava autorizado a divulgar. Talvez o sr. Chaumeil ou outra pessoa possusse materiais que, se publicados, poderiam ser seriamente comprometedores, 
no plano poltico ou em outro. Talvez o governo francs, ou quem quer que estivesse pretensamente depositando fundos na conta do banco suo, estivesse dificultando 
as coisas. De todo modo, o sr. Plantard se teria tornado uma ameaa, real ou potencial, para a Ordem, e o que de melhor pudera fazer no interesse desta fora afastar-se. 
Era possvel at que tivesse sido pressionado a faz-lo - seja por fatores externos, como as maquinaes de um ou outro servio de informaes, ou por faces internas, 
com'o o "contingente anglo-americano".
3.Devamos tomar as cartas de renncia ao p da letra, sem lhes atribuir qualquer outro significado adicional. Pelas razes nelas declaradas, o sr. Plantard decidira 
voluntariamente renunciar. Seus confrades estariam to perplexos quanto Louis Vazart e ns mesmos, e logo um novo gro-mestre seria escolhido, se  que j no fora.

4. O Prieur de Sion registrado em 1956 podia ter sido uma inveno do sr. Plantard. Podia ter sido uma influente sociedade secreta internacional. Podia ter sido 
qualquer coisa entre esses dois extremos. Fosse como fosse, naquele momento o sr. Plantard considerava aconselhvel se esquivar da curiosidade de estranhos, inclusive 
da nossa. Em conseqncia, montara uma espcie de charada. Apesar da sua pretensa renncia, continuaria exercendo suas funes como antes; e era plausvel admitir 
que, embora permanecendo como membro ativo da Ordem, e talvez at seu gro-mestre, negasse qualquer conhecimento das suas atividades. Em dezembro de 1983, ele revogara 
o Artigo XXII do~ estatutos. Na verdade, invertera-o, ordenando a todos os membros do Prieur que negassem e repudiassem sua afiliao. Ao redigir uma carta ostensiva 
de renncia, estaria simplesmente pondo-se ele prprio em conformidade com seu novo edito. Nesse caso, sua renncia era uma farsa.

Pelo que podamos ver, havia essas quatro possibilidades. Havia tambm,  claro, variaes e combinaes delas. Sem dvida o sr. Plantard parecia estar sofrendo 
presso a partir da prpria Ordem - provavelmente do "contingente anglo-americano". Parecia tambm estar sujeito a presso vinda de fora, na forma de intervenes 
externas no identificadas. Havia ainda a questo da desinformao deliberada. Sem dvida, em parte ela fora disseminada pelo prprio sr. Plantard, mas em parte 
tinha tambm outras origens. Havamos suposto de incio que a desinformao destinava-se especificamente a ns, quando de fatQ parte dela tivera por alvo tambm 
o sr. Plantard.
A medida que refletamos sobre a situao, outra explicao possvel para a renncia do sr. Plantard ficou clara de repente; se provasse ter algum fundamento, ela 
seria a mais explosiva e sensacional de todas. Uma semana depois de recebermos o pacote do sr. Plantard, chegou-nos um outro panfleto annimo - ou melhor, sob pseudnimo. 
Era assinado simplesmente "Cornelius" e, como no caso do primeiro panfleto, pretendia noticiar o prximo lanamento de um livro, da autoria de "Cornelius" e intitulado 
Os escndalos do Prieur de Sion. Lamentavelmente, no podemos citar esse panfleto.
No momento, ele  um documento extremamente perigoso j que nenhuma de suas alegaes foi provada e ele contm pelo menos uma dezena de libelos contra personalidade 
internacionais muito conhecidas. Podemos, no entanto, apresentar um resumo de alguns dos pontos principais.
1. O ex-banqueiro Michele Sindona estava nessa poca cumprindo pena de priso na Itlia por fraude e sob outras acusaes de cumplicidade no assassnio de um investigador 
italiano, Giorgio Ambrosoli. (Sindona morreu em 1986, aps beber uma xcara de caf envenenado.) Segundo "Cornelius", o assassnio de Ambrosoli foi de fato cometido 
a mando de um destacado poltico italiano, ainda ativo nos negcios do pas. Esse homem, alega "Cornelius",  tambm membro graduado do Prieur de Sion, tendo contribudo 
para a eleio de Pierre Plantard como gromestre em 1981. Insinua que o assassino est envolvido no escndalo do Banco Ambrosiano, o ex-banco do Vaticano, e com 
o caso que culminou na misteriosa morte do banqueiro italiano Roberto Calvi, encontrado enforcado sob a Blackfriars Bridge em Londres em 1982.

2. O prprio Michele Sindona estaria, segundo "Cornelius", implicado em certas transaes financeiras duvidosas envolvendo, direta ou indiretamente, o Prieur de 
Sion. Outros bancos dos Estados Unidos tambm teriam participado.

o PANORAMA SE AMPLIA 291
3.Em maio de 1974, o cardeal Jean Danielou, principal porta-voz do Vaticano na poca sobre a questo do celibato clerical, foi encontrado morto em circunstncias 
que deram margem a muitos boatos e rumores maliciosos. Um strip-teaser de boate estava envolvido. Uma soma substancial de dinheiro tambm. I Quando jovem, o cardeal 
Danielou fora muito ligado a Jean Cocteau, cujo Oedipus rex traduziu para o latim, o que o projetou nos crculos intelectuais franceses. Por meio de sua ligao 
com Cocteau,  provvel que o cardeal tenha conhecido Pierre Plantard de Saint-Clair. Segundo "Cornelius", o cardeal estava envolvido em transaes financeiras secretas 
com o Prieur de Sion. Teria tambm desempenhado um papel nas maquinaes de Michele Sindona e outros banqueiros. Sua morte - oficialmente atribuda a um ataque 
cardaco -  evasivamente imputada por "Cornelius" a causas no acidentais.

4. "Cornelius" alega ainda que o Prieur de Sion estaria estreitamente associado tanto com a Mfia italiana como com a loja manica italiana conhecida como P2, 
que provocou enorme sensao quando sua existncia, atividades e composio foram descobertas e tomadas pblicas em 1981. H meno especfica ao assassnio de um 
general italiano - general Dalla Chiesa pela Mfia e a dois grandes escndalos financeiros italianos.
5. Em 19 de janeiro de 1981 - isto , dois dias depois que Pierre Plantard de Saint-Clair foi eleito gro-mestre do Prieur de Sion -, um membro graduado da Ordem 
teria tido, segundo "Cornelius", um encontro com Licio Gelli, gro-mestre da P2. O encontro teria ocorrido no restaurante La Tipia, na rua Rome, em Paris.

 preciso frisar que, apesar de intensas investigaes, no nos foi possvel confirmar de modo algum qualquer das alegaes de "Cornelius". Em face disso, seu panfleto 
s pode ser encarado como torpemente calunioso e est, como dissemos, sujeito a efeitos penais. Pelo que sabemos, foi amplamente distribudo. Suas alegaes esto 
sem dvida sendo investigadas neste momento por jornalistas - ou j foram descartadas como carentes de fundamento. Mas, se vier a ser provado que qualquer das alegaes 
de "Cornelius" tem algum grau de validade, estaremos bulindo num vespeiro especialmente assustador. Seja como for, e por fora apenas de seu panfleto, "Cornelius" 
conseguiu enfiar no mesmo saco o Prieur de Sion, a Mfia e a P2. Mesmo que s na mente das pessoas, situou as atividades do Prieur de Sion no obscuro submundo 
dos negcios europeus - em que a Mfia se imbrica com sociedades secretas e agncias de espionagem, em que grandes empresas se aliam ao Vaticano, em que imensas 
somas de dinheiro so gastas para fms clandestinos, em que as linhas de demarcao entre poltica, religio, espionagem, altas finanas e crime organizado comeam 
a se dissolver.
Isso por si s poderia ter levado o sr. Plantard a renunciar, ou a mergulhar na obscuridade, junto com o Prieur de Sion.

O Prieur Desaparece

Com a renncia do sr. Plantard, as informaes sobre o Prieur de Sion cessaram por completo. O prprio sr. Plantard tomou-se mais arredio do que nunca, ficando 
cada vez mais difcil contat-lo, mesmo por telefone. Louis Vazart tomou-se claramente mais reticente que antes, ao passo que outras pessoas pareciam ter sumido. 
Em julho de 1985, como todos os que o conheciam, ficamos pesarosos com a notcia da morte de Philippe, marqus de Chrisey. Fosse qual fosse a natureza do Prieur 
de Sion, e fosse qual fosse o papel do sr. Chrisey nele, era ele sem dvida a pessoa mais socivel, mais dotada de talento criativo, mais original e talvez mais 
brilhante que tnhamos encontrado no curso da nossa investigao. Era tambm um romancista extraordinariamente bem-dotado, merecendo, num nvel puramente literrio, 
mais reconhecimento do que recebeu.
Aps a renncia do sr. Plantard, o Prieur de Sion se tomou de fato invisvel. Desde 1956 ele fora mais ou menos acessvel aos que o investigavam com suficiente 
empenho. Desde 1979, tnhamos tido um canal direto de comunicao com ele e com seu gro-mestre; durante algum tempo, aps a publicao do nosso livro anterior, 
o Prieur parecera disposto a assumir um perfil de razovel destaque. Agora, de repente, ele voltava a mergulhar na sombra, correndo um vu sobre suas atividades, 
sem deixar pista. Fossem quais fossem os objetivos e prioridades do "contingente anglo-americano" no interior da Ordem, e os interesses externos que pudessem estar 
envolvidos, eles pareciam ter tido xito em comprometer, seno em depor, o sr. Plantard - conseguindo ao mesmo tempo mergulhar todo o Prieur na obscuridade.
Ao mesmo tempo, nossas prprias pesquisas j haviam comeado a nos conduzir em certas direes no de todo incompatveis com aquelas apontadas por "Comelius". No 
podamos dar crdito s alegaes que vinculavam o Prieur com a P2 e a Mfia. No havia nenhum indcio que comprovassem essas afirmaes. No podamos dizer nem 
mesmo se essas organizaes, caso estivessem envolvidas, estavam ao lado do Prieur ou contra ele. O panfleto de "Cornelius" - anunciando um livro que na verdade 
nunca foi publicado - podia sem dvida ter sido uma tentativa de desacreditar o Prieur por meio de puras falsidades, e no pela revelao de algum de seus segredos.
Apesar disso, ficava cada vez mais claro que o Prieur de Sion tinha de fato interesses e realmente atuava numa esfera um tanto dbia uma esfera em que partidos 
democrata-cristos da Europa, vrios movimentos em prol da unidade europia, grupelhos monarquistas, variantes atuais das ordens de cavalaria, seitas manicas, 
a CIA, os Cavaleiros de Malta e o Vaticano se enredavam, se uniam temporariamente para um ou outro fim especfico, voltando depois a se separar. A questo fundamental 
era onde, precisamente, o Prieur se encaixava nessa trama de organizaes e interesses frouxamente articulados. Era uma das muitas pequenas associaes manipuladas 
como pees por foras mais poderosas, mais obscuras? Pusera-se conscientemente  disposio dessas foras, com base numa hierarquia de valores genuinamente partilhada 
ou por fora de uma comunho temporria de interesses? Ou era na verdade uma das foras que puxavam os cordes?

22
      RESISTNCIA, CAVALARIA
E OS ESTADOS UNIDOS DA EUROPA

Em nossa pesquisa anterior, tnhamos procurado seguir o rasto do Prieur de Sion em sculos passados e assim confirmar a sua existncia. Em outras palavras, tnhamos 
tentado verificar a correo, ou pelo menos a plausibilidade, das alegaes feitas hoje pela Ordem no tocante  sua prpria linhagem. Tivemos um xito surpreendente, 
que de.sarmou nosso ceticismo inicial.
O prprio Prieur afirmava ter sido criado com o nome "Ordre de Sion", em 1090 - ou, segundo outros relatos, em 1099. Pudemos apurar, com base em evidncias documentrias 
de primeira mo, que uma abadia foi de fato fundada em 1099 no monte Sio, em Jerusalm, e confiada aos cuidados de uma misteriosa mas explcita ordem de religieux. 
Em 19 de julho de 1116 o nome Ordre de Sion j figurava em cartas rgias e outros documentos oficiais. Encontramos outra carta rgia, datada de 1152 e com o selo 
do rei Lus VII da Frana, que conferia  Ordem a sua primeira sede na Europa, em Orlees. Uma outra carta, datada de 1178 e com o selo do papa Alexandre III, confirmava 
certas propriedades fundirias da ordem no s na Terra Santa, como na Frana, na Espanha e por toda a pennsula italiana - na Siclia, em Npoles, na Calbria e 
na Lombardia. Fomos informados de que, at a Segunda Guerra Mundial, havia vinte documentos referentes especificamente  Ordre de Sion nos Arquivos Municipais de 
Orlees, mas dezessete deles tinham sido perdidos durante um bombardeio areo.
Pudemos assim confirmar as afirmaes do Prieur atual com relao a suas origens e ao primeiro sculo de sua existncia. De maneira semelhante, pudemos confirmar 
outras alegaes relativas  histria posterior da Ordem. Alm de simples datas e listas de propriedades fundirias, pudemos tambm conferir as ligaes do Prieur 
com uma entremeada rede de famlias nobres, que se pretendiam todas descendentes da dinastia merovngia, que reinou na Frana entre os sculos V e VIII. Assim, por 
exemplo, a famlia descendente de um cavaleiro bastante obscuro, um tal Jean de Gisors, que desempenhou papel de relevo nas atividades da Ordem, provou-se ligada 
 famlia de Hugues de Payn, primeiro gro-mestre dos Templrios. De importncia comparvel na hist6ria da Ordem, e tambm ligada a Payn por parentesco, era a famlia 
Saint-Clair, ancestral de Pierre Plantard de Saint-Clair, atual porta-voz da Ordem e seu gro-mestre de 1981 a 1984. Na verdade, nossa pesquisa verificou cabalmente 
algo apenas insinuado nas afirmaes da Ordem atual: que o Prieur de Sion, ao longo de sua hist6ria, foi em grande parte uma questo de famlia, uma organizao 
centrada em determinadas casas reais e aristocrticas.
O Prieur era nominalmente citado em fontes que iam desde o sculo XII at o incio do sculo XVII. Nessa altura, segundo documentos datados de 1619, a Ordem teria 
cado no desagrado do rei Lus XIII de Frana, que a expulsou de sua sede em Orlees e transferiu suas instalaes para os jesutas.5 Depois disso, o Prieur de 
Sion parece desaparecer dos registros hist6ricos, pelo menos sob esse nome, at 1956, quando surge novamente, registrado no Journal Officiel francs. No entanto, 
a Ordem fazia repetidas menes a certas atividades que teria desenvolvido entre 1619 e o sculo XX, a certos eventos hist6ricos em que teria desempenhado um papel, 
a certos desdobramentos hist6ricos em que teria tido algum tipo de interesse. Quando examinamos os eventos e desdobramentos em questo, encontramos irrefutvel evidncia 
do envolvimento de um ncleo organizado e coeso trabalhando de maneira orquestrada nos bastidores, por vezes usando outras instituies como fachada. Esse ncleo 
no era especificamente nomeado, mas tudo indicava tratar-se realmente do Prieur de Sion. Mais ainda, ele revelava envolver precisamente a mesma rede de famlias 
interligadas que reivindicavam descendncia merovngia. Quer se tratasse das intrigas e das guerras de religio do sculo XVI, da insurreio conhecida como Fronda 
no sculo XVII ou das conspiraes manicas do sculo XVIII, sucessivas geraes precisamente das mesmas famlias tinham estado implicadas, atuando segundo um modelo 
nico e constante.
Com base nisso, foi-nos possvel concluir que de fato havia um tipo de conexo linear direta entre o Prieur de Sion do presente e a Ordem do mesmo nome que fora 
expulsa de sua sede em Orlees em 1619. Parecia claro que, durante aquele intervalo de cerca de 330 anos, o Prieur tinha sobrevivido e continuado a atuar, ainda 
que sob diferentes fachadas ou por meio de vrias outras organizaes. Foi possvel associ-lo, por exemplo,  Compagnie du Saint-Sacrement do sculo XVII na Frana, 
a um conclave de clrigos extremamente heterodoxos, seno herticos, baseado na igreja de Saint-Sulpice em Paris, aos misteriosos e elusivos "rosa-cruz" alemes 
do incio do sculo XVII, a certos ritos da franco-maonaria do sculo XVIII, a conspiraes polticas e sociedades secretas esotricas do sculo XIX. Atravs de 
organizaes como essas e dos vnculos recorrentes que as mesmas famlias mantinham com elas, um contnuo ininterrupto se estendia desde 1619 at a poca atual.
Mas, o que dizer sobre o presente? No nosso primeiro encontro com o sr. Plantard, em 1979, ele definira sua posio inequivocamente. Disse no ter qualquer objeo 
quanto a discutir a histria da Ordem. Quanto ao futuro, porm, s faria aluses veladas, no estando disposto a dizer coisa alguma sobre o presente.  verdade que 
alterara ligeiramente essa posio durante os anos de 1983 e 1984 - pelo menos a ponto de nos mostrar os documentos autenticados que pretensamente teriam trazido 
os pergaminhos de Sauniere para a Inglaterra, e o exemplar da "Mise en Garde" com as assinaturas dos srs. Drick, Freeman e Abboud. Estes nos haviam levado ao conselho 
diretor da antiga Guardian Assurance Company e ao First National Bank of Chicago. Nada, porm, pudera ser conclusivamente elucidado, definitivamente provado. Tnhamos 
simplesmente andado s cegas em meio a um nevoeiro de desinformao, e nossas diligncias suscitavam tantas questes quantas respondiam, seno mais. Ao investigar 
o Prieur hoje, tnhamos s vezes a impresso de estar investigando uma quimera ou uma miragem. Ele sempre recuava quando nos aproximvamos.
Tomava-se intangvel no exato momento em que tnhamos a impresso de t-Io agarrado, s para se materializar em outro ponto, alguns passos  nossa frente. Surgiam 
indcios que, quando examinados, se anulavam uns aos outros, ou s aumentavam a confuso, ou se espiralavam, formando um prisma de espelhos refrativos.
No fomos os nicos a ter esse tipo de impresso. No ano seguinte ao da renncia do sr. Plantard, contratamos os servios em tempo integral de uma pesquisadora profissional. 
A mulher em questo tinha mais de 35 anos de experincia, tendo .trabalhado em projetos de vrios autores renomados. Tanto ela quanto seu marido, um ex-militar que 
lutara na Resistncia, tinham muitas relaes bem-situadas e acesso a esferas em que ns, como estrangeiros, no podamos penetrar. No h dvida de que ela tinha 
mais habilidade do que ns no trato com as instituies francesas, fossem bibliotecas e arquivos ou rgos do governo. Residindo na Frana, tinha obviamente melhores 
condies de passar semanas inteiras perseguindo uma nica pista num ou noutro labirinto especfico. Se determinado rgo estava fechado em dado momento, ou determinada 
pessoa no podia ser contatada, ela podia sempre retomar no dia seguinte, ou na semana seguinte se necessrio.
Ela nos forneceu um conjunto de informaes extremamente valioso. Exumou fragmentos de informao de fontes muitas vezes improvveis e conduziu suas investigaes 
com admirvel firmeza. Recusava-se a se deixar desencorajar, intimidar ou deter por fanfarronadas, cavilaes ou evasivas. Apesar de tudo isso, confessou-nos que 
nunca, em toda a sua experincia, havia encontrado tantos impasses, portas fechadas, negativas hipcritas e contradies misteriosas. Praticamente em todas as entrevistas 
que fizera para ns, a cortesia e o desejo de ajudar se transformavam em reticncia, reserva ou mesmo hostilidade to logo ela abordava certas reas. Perguntamos 
tanto a ela quanto ao marido como viam todo aquele caso, a que concluses as investigaes que tinham feito os levavam. Foram bastante enfticos. Inquestionavelmente, 
disseram, havia algum tipo de farsa.

A Revista Vaincre

Apesar de tudo, foi possvel exumar pelo menos alguma informao, no s do prprio Prieur de Sion mas de fontes independentes. A despeito da atitude evasiva do 
sr. Plantard e da barreira de desinformao e de reticncia das autoridades, conseguimos saber alguma coisa sobre a Ordem e seu antigo gro-mestre. Os dados que 
obtivemos nos permitiram monitorar algo das suas atividades, pelo menos desde a Segunda Guerra Mundial.
Pouco depois do nosso primeiro encontro com o sr. Plantard, ele nos enviara uma declarao datada de 11 de maio de 1955 e feita em Paris por um certo Poirier Murat, 
que se apresentava como cavaleiro da Lgion d'Honneur, detentor da Medaille Militaire e ex-oficial da Resistncia francesa. O sr. Murat declarava conhecer o sr. 
Plantard desde 1941. Declarava ainda que o sr. Plantard, entre 1941 e 1943, editara uma "revista da Resistncia", intitulada Vaincre. O documento declarava ainda 
que o sr. Plantard fora mantido pela Gestapo na priso de Fresnes de outubro de 1943 at fevereiro de 1944.
Procuramos checar a veracidade das afirmaes do sr. Murat. Assim, escrevemos para o Exrcito francs, que respondeu dizendo no possuir os arquivos relativos e 
sugerindo que entrssemos em contanto com o diretor-geral dos Archives de France. O exrcito encaminhou tambm nossa carta para a Prfecture de Police de Paris, 
que nos aconselhou entrar em contato com o diretor da priso de Fresnes. Quando escrevemos para o diretor-geral dos Archives de France, fomos instrudos a entrar 
em contato com os Arquivos Departamentais, em Paris. Os Arquivos Departamentais tambm nos aconselharam a escrever diretamente para a priso de Fresnes. Em resposta 
s nossas indagaes, Fresnes quis saber por que ns as estvamos fazendo e pediu detalhes sobre a nossa pesquisa. Escrevemos de volta, anexando detalhes concementes 
e fotocpias, entre as quais a declarao de Poirier Murat. No recebemos resposta.
Era esse tipo de coisa que havamos encontrado reiteradamente no curso de nossas investigaes. Mas foi tambm esse tipo de coisa que nossa pesquisadora se revelou 
particularmente capaz de enfrentar. A fora de persistncia, ela acabou por arrancar uma resposta de Fresnes. Esta no foi, contudo, muito esclarecedora: "... aps 
pesquisar as fichas dos que estiveram presos em Fresnes, no encontramos qualquer sinal de que o sr. Plantard tenha passado por este estabelecimento entre outubro 
de 1943 e fevereiro de 1944." Teria Poirier Murat - cavaleiro da Legio de honra, detentor da Medalha Militar e exoficial da Resistncia francesa - mentido em sua 
declarao? Se mentira, por qu? Se no mentira, por que no havia registro da priso do sr. Plantard em Fresnes? Teria o registro sido removido? Ou, por alguma 
razo desconhecida, o registro nunca fora feito?
Nossas tentativas de localizar Vaincre, a "revista da Resistncia" a que o sr. Plantard estivera ligado, foram muito mais bem-sucedidas. Encontramos seis nmeros 
da Vaincr e, ao que parece, s esses foram publicados. Contrariando nossas expectativas, no se tratava de um jomaleco feito s ocultas e mal produzido. Aqueles 
exemplares nada tinham de clandestinos. Eram impressos em papel de excelente qualidade, o que no era fcil de obter na Frana na poca, e inclua ilustraes e 
fotografias. No primeiro nmero era claramente declarado que a revista fora impressa pela firma de Poirier Murat, com uma tiragem de 1.379 exemplares. No sexto nmero 
a tiragem declarada era de 4.500 exemplares. No conjunto, a Vaincre representava um empreendimento que no poderia ter-se realizado sem algum conhecimento por parte 
das autoridades. Representava tambm um empre
endimento necessariamente sustentado por uma verba substancial.
Com base nos seis nmeros que conseguimos obter, era difcil encarar a Vaincre como uma "revista da Resistncia". Os artigos nela publicados, de colaboradores identificados 
e em alguns casos muito
conhecidos, tratavam basicamente de uma combinao de esoterismo, mito e pura fantasia. Falava-se muito sobre a Atlntida, por exemplo. Dava-se particular nfase 
a uma antiga "sabedoria tradicional" celta e os temas e imagens mticos em que ela sobrevivera. Havia tambm o tempero liberal de uma espcie de teosofia neozorostrica, 
com iniciados tibetanos e cidades ocultas no Himalaia. Acima de tudo, no entanto, a Vaincre se propunha ser o rgo de uma organizao, ou ordem, especifica, chamada 
Alpha Galates.
Sob a ocupao alem e o governo de Vichy, sociedades secretas, inclusive a franco-maonaria, foram estritamente proibidas, e a afiliao a qualquer delas estava 
sujeita a penas rigorosas. Por isso, a Alpha Galates no se qualificava em absoluto como uma sociedade secreta, embora, evidentemente, no fosse outra coisa. Em 
vez disso, apresentava-se, de maneira muito explcita, como uma ordem de cavalaria, ou de neocavalaria. Os principios da cavalaria eram enfaticamente repetidos e 
a maior parte dos artigos da Vaincre tratava de temas ligados cavalaria: tanto da Frana como fonte suprema da cavalaria quanto do papel da cavalaria no mundo moderno. 
Segundo a Vaincre e a Alpha Galates, a cavalaria seria o instrumento de uma renovao nacional da Frana: "... uma cavalaria  indispensvel, porque nosso pas no 
pode renascer exceto por meio de seus cavaleiros". 
Quando a cavalaria surgiu, durante a chamada Idade das Trevas, ou Idade Mdia, a instituio repousava em bases especificamente espirituais. Ttulos convencionais 
de nobreza - por exemplo, baro, conde, marqus, duque - denotavam posio social e poltica, terras, linhagem. O cavaleiro, no entanto, conquistava suas esporas 
e sua espada mediante sua prpria virtude pessoal- ou, mais precisamente, sua vertu - e pureza moral. Mais tarde o conceito de cavalaria foi progressivamente degradado, 
acabando por reduzir-se a uma pequena recompensa por algum tipo de servio, ou at a verniz na imagem pblica de um primeiro-ministro. A Vaincre e a Alpha Galates, 
no entanto, insistiam na cavalaria em seu sentido original e tradicional: "O Chevalier no pode viver sem o ideal espiritual, que ser o manancial de fora moral, 
intelectual e espiritual atravs das geraes vindouras."
Segundo a Vaincre, a Alpha Galates tinha sido registrada no Journal Officiel francs em 27 de dezembro de 1937. Uma verificao nesse rgo de julho de 1937 a abril 
de 1938, contudo, no revelou essa entrada. Do Ministrio da Defesa francs, quando lhes escrevemos, disseram que nunca tinham ouvido falar nem da Vaincre nem de 
Alpha Galates e no tinham registro desses nomes. A Chefatura de Polcia francesa negou qualquer conhecimento - embora mais tarde tenhamos sabido que o equivalente 
francs de uma Diviso Especial possua na verdade um dossi sobre a Alpha Galates e seus lderes. De todo modo, e a despeito das negativas oficiais, a Vaincre realmente 
existiu, como existiram seus colaboradores, entre os quais se incluam, ao que tudo indica, vrios membros da Alpha Galates.
Um dos colaboradores da Vaincre foi Robert Amadou, agora um conhecido escritor sobre temas esotricos e manicos, martinista e oficial de uma loja manica pertencente 
 Gr-Loja Sua Alpina.  Outro destacado colaborador foi o professor Louis Le Fur, conhecido publicista de direita antes da guerra. Posteriormente,  claro, caiu 
em descrdito em razo de seu apoio ao governo de Vichy. Durante a ocupao alem, contudo, gozou de certa reputao como comentador de assuntos culturais e foi 
nomeado por Ptain para um importante cargo na rea da educao.  Na poca, Louis Le Four era um nome de peso. Ele no se teria associado publicamente a uma revista 
como a Vaincre a menos que a considerasse uma iniciativa sria e louvvel. Em um de seus artigos, o prprio Le Fur declara ter sido membro da Alpha Galates durante 
oito anos. Entre os outros membros da Ordem, ele cita Jean Mermoz, aviador falecido antes da guerra, e Gabriel Trarieux d'Egmont, escritor sobre temas esotricos 
e poeta mstico sem grande expresso, cujo nome ainda desperta certo respeito.
Segundo a Vaincre, os membros da Alpha Galates se dividiam em duas grandes categorias, a "Legio" e a "Falange". O papel da Legio no  especificado. O da Falange 
 definido como de pesquisa filosfica e de instruo de futuros cavaleiros. O interessante  que, segundo os estatutos de 1956 registrados na Chefatura de Polcia 
francesa em Annemasse, o Prieur de Sion tambm era dividido nessas duas categorias de Legio e Falange.
Baseados em parte nisso, supusemos de incio que Alpha Galates podia ser apenas mais uma fachada do Prieur de Sion. Verificamos, contudo, que provavelmente no 
era esse o caso. O sr. Plantard nos afirmou pessoalmente que s entrou no Prieur em 10 de julho de 1943. Na carta que acompanhou sua renncia, repetiu essa afirmao 
e acrescentou que ingressara no Prieur sob os auspcios do padre Franois Ducaud-Bourget. Sua ligao com a Vaincre e com a Alpha Galates, por outro lado, datava 
de pelo menos um ano antes. A partir dessa cronologia, a Alpha Galates e o Prieur de Sion pareciam ser duas organizaes independentes - a menos,  claro, que a 
primeira fosse uma espcie de extenso, ou talvez um servio de recrutamento, da primeira. Fosse como fosse, se o Prieur admitira o sr. Plantard, devia apreciar 
o que a Alpha Galates fazia. E, sob muitos aspectos, a orientao das duas ordens parecia muito similar, seno idntica. Isso fica particularmente evidente na nfase 
dada  cavalaria. Alm disso, alguns colaboradores da Vaincre figuram mais tarde em publicaes vinculadas ao Prieur.
J no primeiro nmero da Vaincre, seu editor e diretor  chamado de "Pierre de France" e tem sua fotografia publicada. A fotografia  indubitavelmente a de um jovem 
sr. Plantard, na poca com 22 anos. Em 21 de setembro, a Vaincre noticia que Pierre de France tomara-se gro-mestre da Alpha Galates. No quarto nmero, de 21 de 
dezembro de 1942, o nome Pierre de France  emendado, aparecendo como Pierre de France-Plantard. Seu endereo - rua Lebouteux n 10, Paris 17 -  dado como o endereo 
do quartel-general ou escritrio central da Alpha Galates.
Apesar de seu carter mtico e cavaleiroso, a Vaincre no deixa de ter uma orientao poltica. Como parece indicar o envolvimento de Louis le Fur, a revista  explicitamente 
pr- Vichy e por vezes efusivamente ardorosa na defesa de Ptain. O primeiro nmero contm um hino a Ptain, e a Alpha Galates  qualificada como "uma Gr-Ordem 
de Cavalaria", "a servio da ptria" e "com o marechal". Ocasionalmente, aparecem tambm nas pginas da Vaincre torpes afirmaes anti-semitas que fazem eco aos 
mais fanticos delrios da propaganda nazista. "Para restaurar nossa ptria em sua grandeza...  preciso erradicar... falsos dogmas... e os princpios corruptos 
da outrora democrtica maonaria judaica."
Por outro lado,  preciso lembrar a poca e as circunstncias em que a Vaincre foi publicada. A maior parte da Frana estava ocupada por tropas alems, a Gestapo 
estava por toda parte e no era possvel publicar quase nada que escapasse s autoridades alems e a seus sabujos franceses. O sr. Plantard dificilmente teria podido 
publicar uma revista bem produzida como a Vaincre e apoiar De Gaulle. Tudo que aparece nas pginas da revista deve ser encarado com cautela, porque ela era impressa 
na expectativa de ser lida por olhos alemes. Para sobreviver, tinha forosamente de fazer certas afirmaes conciliatrias, no se desviando de maneira muito acentuada 
da linha oficial do regime. Quando o questionamos a respeito de certas afirmaes potencialmente conciliatrias da Vaincre, o sr. Plantard, sem demonstrar maior 
embarao, enfatizou esse ponto. Insinuou que, sob sua ptina pr- Vichy e petainista, a Vaincre continha mensagens e instrues que s a Resistncia podia decifrar.
Mesmo que isso seja verdade,  difcil qualificar a Vaincre como uma "revista da Resistncia".  igualmente difcil, porm, tom-la por seu valor declarado e desprez-Ia 
como nada mais que uma bizarra publicao esotrica, com claras simpatias por Vichy e Ptain. Embora conservador na politica e na religio, o padre Franois DucaudBourget 
desempenhou papel ativo na Resistncia francesa, tendo mesmo recebido a Medalha da Resistncia. Se ele de fato patrocinou o ingresso do sr. Plantard no Prieur de 
Sion,  muito pouco provvel que o sr. Plantard, a Alpha Galates ou a Vaincre fossem to propensos a colaborar com os alemes como podia parecer  primeira vista. 
Alm disso, a Vaincre tinha sido impressa por Poirier Murat, cavaleiro da Legio de Honra, detentor da Medalha Militar e oficial da Resistncia francesa. No era 
provvel que Murat tivesse endossado uma revista como a que Vaincre parecia ser, a menos que ela tivesse realmente outro plano de atuao e prestasse servio  Resistncia. 
Por fim, havia, como veremos em breve, as relaes posteriores do sr. Plantard com Charles de Gaulle. A inabalvel hostilidade de De Gaulle aos excolaboracionistas 
 bastante conhecida. Se o sr. Plantard tivesse realmente sido um colaboracionista, no teria podido desfrutar mais tarde da amizade com De Gaulle.
Um outro elemento de prova pesa bastante em favor do sr. Plantard, da Alpha Galates e da Vaincre. Uma das mais abjetas publicaes da Frana ocupada durante a guerra 
foi uma corrupta revista satrica intitulada Au Pilori. Tratava-se de uma publicao ardorosamente prnazista, fanaticamente anti-semita e antimanica. Dedicava-se 
a denunciar judeus e maons, ou supostos judeus e maons, publicando nomes e endereos, tudo fazendo para ajudar, e at bajular a Gestapo. Qualquer pessoa atacada 
pela Au Pilori no podia ser "de todo m". E, em 19 de novembro de 1942, Au Pilori publicou um comentrio satrico debochado sobre o sr. Plantard, a Alpha Galates 
e a Vaincre. No fez qualquer acusao explicita, mas procurou, da maneira mais maliciosa, ridicularizar os trs. Publicou tambm o endereo do sr. Plantard - o 
que, naquelas circunstncias, equivalia a encorajar atos de hostilidade e vandalismo por capangas partidrios, seno pela Gestapo.
Todo o terceiro nmero da Vaincre foi uma defesa contra o ataque da Au Pilori. Declarava que um membro da Alpha Galates fora expulso e sugeria que fornecera informaes 
 Au Pilori. Na tentativa de refutar Au Pilori, Vaincre reafirmou os objetivos da Alpha Galates. Estes foram assim expressos:

1. a unidade da Frana em suas fronteiras geogrficas e a abolio da linha de demarcao entre as zonas de ocupao alem e aquelas sob o controle de Vichy;

2. a mobilizao de toda a energia e os recursos da Frana para a defesa da nao e, particularmente, a conclamao dos jovens para o servio militar obrigatrio;
3.a criao de uma "nova ordem ocidental", um "cavalaria jovem europia", cuja tnica seria a "Solidariedade". Em cada nao europia, essa organizao, conhecida 
como "Solidariedade", deveria representar "o primeiro passo dos Estados Unidos do Ocidente". 

A julgar pelas circunstncias, a defesa da Vaincre contra Au Pilori no foi convincente nem bem-sucedida. Aps a publicao de mais trs nmeros a revista parou 
de circular, e tudo indica que o fez sob presso. Com o desaparecimento da Vaincre, as atividades e a carreira do sr. Plantard parecem ter atravessado um perodo 
de temporria obscuridade. Alguns dos temas enunciados pela Vaincre voltariam de novo tona, porm, sob os auspcios no s do Prieur de Sion como de outras organizaes.
Para os nossos fins, o mais importante desses temas  o dos Estados Unidos da Europa. Como vimos, a Vaincre, ao se defender contra Au Pilori, declarou que os Estados 
Unidos da Europa - ou "Estados Unidos do Ocidente" - eram um dos objetivos primordiais da Alpha Galates. De fato, a idia dos Estados Unidos da Europa volta  baila 
reiteradamente nas pginas da Vaincre. Ao lado da idia de uma nova cavalaria europia,  um dos temas predominantes da publicao. No primeiro nmero, por exemplo, 
h a ilustrao de um cavaleiro seguindo a cavalo por uma estrada rumo ao sol, que desponta no horizonte. A estrada, ao longo da qual se l a inscrio "Estados 
Unidos do Ocidente", tem seu incio demarcado pela data 1937. No sol que se levanta na sua extremidade est inscrito 1946. Um lado da estrada  denominado Bretanha, 
o outro, Baviera.
Muito antes da guerra, o professor Louis Le Fur fora oco-fundador de um pequeno grupo chamado "nergie". Entre os membros desse grupo, e entre os mais ntimos colaboradores 
de Le Fur, estava um homem chamado Robert Schuman, que mais tarde veio a ser um destacado poltico francs.  Schuman sonhava com a unio das indstrias de carvo 
e ao da Europa ocidental. Via nisso, contudo, apenas um passo preliminar para a criao de uma entidade poltica muito mais ampla - uma federao europia, oi! 
os Estados Unidos da Europa. Nos anos seguintes, Schuman, fazendo eco s idias expressas por Le Fur e outros na Vaincre, tornou-se um dos principais arquitetos 
e inspiradores da Comunidade Econmica Europia.

O Crculo Kreisau

O quinto nmero da Vaincre, datado de 21 de janeiro de 1943, contm um artigo de Louis Le Fur em louvor ao novo gro-mestre da Alpha Galates, Pierre de France-Plantard. 
Nesse texto, Le Fur cita "um grande alemo, um dos mestres da nossa Ordem". O "grande alemo" em questo, ento com 58 anos, faz uma declarao extraordinria a 
propsito de Pierre de France, com seus 23 anos:
Tenho o prazer de dizer, antes de minha partida para a Espanha, que nossa Ordem finalmente encontrou, na pessoa de Pierre de France, um chefe digno.
 portanto com plena confiana que parto para cumprir minha misso; pois, embora no me iluda com relao aos perigos que corro no exercicio de minha tarefa, sei 
que at o meu ltimo suspiro minha divisa ser o reconhecimento da Alpha e a fidelidade ao seu chefe. 
  
Esta declarao  atribuda a Hans Adolf von Moltke, diplomata de carreira e membro de uma das mais prestigiosas e influentes familias da aristocracia alem. Em 
1934, von Moltke fora embaixador da Alemanha na Polnia. Em 1938, seu nome foi cogitado como prximo embaixador alemo na Gr-Bretanha. Na ocasio da declarao 
que lhe  atribuda, acabava de ser designado embaixador na Espanha, onde morreu em 1943.
Embora ostensivamente em bons termos tanto com Hitler quanto com Himmler, von Moltke era, de fato, um "bom alemo". Era primo em primeiro grau e amigo intimo do 
conde Helmut James von Moltke. Era primo tambm de Claus von Stauffenberg. Casara-se com a irm de um outro primo, Peter Y orck von Wartenburg. Helmut James von 
Moltke, juntamente com Peter Yorck von Wartenburg, foi o Hder do chamado Circulo Kreisau, a ala civil da resistncia alem a Hitler. O conde Claus von Stauffenberg 
foi o arquiteto e inspirador da conspirao militar contra o Reich, que culminou no atentado a bomba de 20 de julho de 1944 - a tentativa de assassinar Hitler em 
seu quartel-general de Rastenburg.        .
Em suma, o homem que apia o sr. Plantard na Vaincre e se declara membro da Alpha Galates estava na linha de frente do esforo surgido dentro da Alemanha para derrubar 
o regime nazista. Na poca em que foi designado para a Espanha, seu primo, Helmut James von Moltke, estava fazendo sondagens secretas junto aos Aliados, atravs 
da Sucia, tendo em vista a paz, buscando obter o apoio deles para a deposio de Hitler e empenhando-se em assegurar termos de paz favorveis ao novo governo alemo 
democrtico que se seguiria. De seu posto de embaixador na Espanha, Hans Adolf von Moltke logo iniciaria negociaes clandestinas semelhantes. Embora isso s tenha 
vindo a pblico depois da guerra, era essa a "misso" que ele estava partindo para desempenhar; e tinha toda razo em no se iludir quanto aos perigos que corria. 
Hoje, Claus von Stauffenberg, Helmut James von Moltke, Peter Yorck von Wartenburg e seus companheiros de conspirao contra o Terceiro Reich so considerados heris, 
tanto na Alemanha quanto no exterior. O dia 20 de julho, aniversrio do atentado a bomba,  feriado nacional e oficialmente chamado Dia de Stauffenberg. At hoje, 
no entanto, nunca surgiu qualquer indcio de que a Resistncia alem tinha algum tipo de vnculo com qualquer outro movimento de resistncia no continente. Os historiadores 
consideram que ela foi totalmente independente da rede de operaes clandestinas que se estendia por outros lugares da Europa. Realmente pode ter sido. Mas a declarao 
de Hans Adolf von Moltke na Vaincre indica que ele era membro da Alpha Galates - uma espcie de sociedade secreta que atuava sob o disfarce de uma moderna ordem 
esotrica de cavalaria. Indica tambm que seu compromisso fundamental era com a Alpha Galates e seu gro-mestre. Poderia a Alpha Galates ter de fato atuado como 
elo de ligao entre a Resistncia alem a Hitler e os movimentos de resistncia na Frana, e quem sabe tambm em outros pases?
Numa carta, Helmut James von Moltke admite que no houve contato entre seu crculo de conspiradores e qualquer organizao francesa antes do final de 1942. Aps 
grandes dificuldades, conta ele, tinham conseguido estabelecer ligaes com grupos".. .nos vrios territrios ocupados, com exceo da Frana, onde, pelo que sei, 
no hoposio efetiva baseada em princpios fundamentais". Pouco depois, no entanto, ele comea a aludir ao "nosso homem em Paris", embora a histria ainda no 
tenha descoberto a identidade desse homem. Talvez por coincidncia, mas talvez de maneira significativa, o primeiro nmero da Vaincre s foi publicado no final de 
1942 - em outubro daquele ano.
No h dvida de que os objetivos da Alpha Galates, tal como expostos na Vaincre, tinham muito em comum com os objetivos do Crculo Kreisau, de Moltke. Ambas as 
organizaes se concentravam em movimentos de juventude e em mobilizar os recursos da juventude europia. Ambas insistiam numa hierarquia moral e espiritual de valores 
como base para uma renovao da Europa - uma oposio, nas palavras de Moltke, "baseada em princpios fundamentais". Ambas tinham uma orientao essencialmente inspirada 
na cavalaria. E ambas tinham como meta final a criao dos Estados Unidos da Europa. Mesmo antes da guerra, uma federao nesses moldes fora exaltada e patrocinada 
por membros do Crculo Kreisau. Mais tarde, essa idia se tornou, para Moltke e seus companheiros, a pedra angular de qualquer poltica do ps-guerra. Segundo um 
comentarista, o Crculo Kreisau "tinha como objetivo a longo prazo uma federao europia de Estados, os Estados Unidos da Europa".
Na busca desse objetivo, no incio de 1943 o Crculo Kreisau j estava em contato com representantes do British Foreign Office baseados na Sua. Estava tambm em 
estreito contato com um importante funcionrio norte-americano tambm baseado na Sua - Allen Dulles, que chefiava ali o posto do Office of Strategic Services, 
o OSS, precursor da CIA.

23
A VOLTA DE DE GAULLE

Com o desaparecimento da Vaincre no incio de 1943, sumiram tambm quaisquer vestgios do sr. Plantard. Ns, pelo menos, no conseguimos encontrar nenhum sinal dele 
nos doze anos que se seguiram. Ento, em 1956, o Prieur de Sion se registrou formalmente no Journal Officiel da Frana. Ao mesmo tempo, depositou, junto  subprefeitura 
de Saint-Julien-en-Genevois, perto de Annemasse, na fronteira com a Sua, uma pretensa reproduo de seu estatuto, da qual conseguimos uma cpia. Mais tarde nos 
disseram que aquele estatuto era esprio e nos deram uma cpia do supostamente verdadeiro. Mas, esprio ou no, o estatuto registrado na subprefeitura ps novamente 
o sr. Plantard em evidncia. Ele  citado especificamente como secretrio-geral do Prieur de Sion. O Prieur  apresentado como composto, do mesmo modo que a Alpha 
Galates, pela "Legio" e a "Falange". A primeira  definida como "encarregada do apostolado". A segunda  qualificada como "guardi da tradio". Pelo estatuto, 
a ordem se compe de nove graus, todos conferindo ttulos cavaleirosos. A organizao, no bombstico e enigmtico jargo do estatuto,  descrita assim:

A assemblia geral  composta de todos os membros da associao. Ela consiste de 729 provncias, 27 comandos e um arco designado Kyria. Cada um dos comandos, bem 
como os arcos, deve consistir de quarenta membros, cada provncia de treze membros.

Os membros so divididos em dois grupos efetivos:
 a) A Legio, encarregada do apostolado.
b) A Falange, guardi da Tradio.

Os membros compem uma hieraquia de nove graus, que consiste de:
        a) em 729 provncias:
1. Novios: 6.561 membros
2. Cruzados: 2.187 membros

b) em 27 comandos:
3. Valetes: 729 membros
4. Escudeiros: 243 membros 
5. Cavaleiros: 81 membros 
6. Comandantes: 27 membros

c) no Arco Kyria:
7. Condestveis: 9 membros 
8. Senescais: 3 membros
9. Nautonnier: 1 membro

Nem na Vaincre, nem em qualquer outro documento ou publicao h qualquer coisa que sugira que o sr. Plantard ou o Prieur de Sion fossem especificamente catlicos. 
Na Vaincre, a orientao do sr. Plantard parecia ser esotrica, pag e teosfica. Em fontes posteriores, tanto ele quanto o Prieur se valem de um amplo espectro 
de tradies, entre as quais o gnosticismo e vrias formas de cristianismo heterodoxo ou hertico. Segundo esse estatuto de 1956, no entanto, o Prieur de Sion  
uma ordem de cavalaria especificamente catlica. A Ordem  ali apresentada com o subttulo "Chevalerie d'lnstitutions et Regles Catholiques, d'Union Indpendante 
et Traditionaliste" [Cavalaria de Instituies e Regras Catlicas, de Unio Independente e Tradicionalista]. A abreviatura disto  CIRCUIT, o nome de uma revista 
que, segundo o estatuto,  publicada internamente pela Ordem e circula entre seus membros.
Ainda no foi possvel definir se o estatuto de 1956  genuno ou no. Para nossos propsitos aqui, ele  relevante, em primeiro lugar por causa da nfase que d 
 cavalaria e em segundo por causa de sua semelhana com o estatuto da Alpha Galates tal como publicado na Vaincre. Alm disso, ele trouxe a pblico, pela primeira 
vez em doze anos, o nome do sr. Plantard. Dali em diante, este e o Prieur de Sion estariam cada vez mais relacionados ao crescente interesse pelo enigma de Brenger 
Sauniere e Rennes-le-Chteau. Pouco tempo depois, no entanto, o sr. Plantard deveria figurar num contexto muito mais conhecido e de muito maior ressonncia.

Comits de Salvao Pblica

Em 7 de maio de 1954, o exrcito francs na Indochina sofreu, na batalha de Dien Bien Phu, uma derrota calamitosa e definitiva que levou  perda do imprio francs 
no sudeste da sia. Seis meses depois dessa dbcle, uma implacvel e cruel campanha terrorista irrompeu na Arglia sob os auspcios do nacionalismo argelino. Determinada 
a no sofrer outra derrota humilhante, a Frana enviou em um ms 20 mil soldados para sua colnia norte-africana. Ao fim e ao cabo esse nmero chegaria a 350 mil. 
Apesar disso, a situao na Arglia continuou a se deteriorar, levando a uma luta selvagem que se prolongou por oito anos.
Diferentemente da Indochina, a Arglia ficava perto da Frana, logo ali, do outro lado do Mediterrneo. A populao francesa na Arglia no constitua um ncleo 
isolado de estrangeiros, mas uma comunidade h muito estabelecida. As cidades argelinas eram, sob muitos aspectos, mais francesas do que norte-africanas. A Arglia 
no era vista como uma possesso estrangeira, mas como parte integrante da Frana. Em conseqncia, os acontecimentos na Arglia tiveram maior repercusso na Frana.
 medida que crescia a confuso na Arglia, o mesmo se passava na Frana. No final de 1957, o pas estava no s em confuso mas num estado de crise crnica. Governos 
caam com apavorante rapidez. Por duas vezes a Frana ficou sem governo por perodos de mais de quatro semanas, enquanto os partidos se digladiavam, sem conseguir 
negociar coalizes. Um sentimento de pnico comeou a reinar enquanto, como pano de fundo, assomava o espectro sinistro da guerra civil declarada.
Em meio  disseminao do caos, floresciam as conspiraes. O exrcito, em particular, estava envolvido em muita intriga clandestina. Na Arglia, comeou a se formar 
uma rede de sociedades semisecretas: os Comits de Salut Public [Comits de Salvao Pblica]. Organizada nos moldes dos Comits de Salvao Pblica da poca da 
Revoluo Francesa, a rede argelina tinha por objetivo associar os interesses franceses, o exrcito francs e a populao francesa da frica do Norte numa fora 
unida que pudesse constituir um baluarte contra a independncia da Arglia e mant-Ia como colnia francesa. Ao mesmo tempo, os comits comearam a procurar na Frana 
uma liderana forte que pudesse ser simptica  sua causa. Uma nica pessoa era considerada capaz de exercer tal liderana: Charles de Gaulle. Assim, os comits 
na Arglia comearam a fazer insistente presso para que De Gaulle assumisse o poder na Frana, se necessrio por meio de um golpe militar. Receberam o apoio de 
muitos militares graduados, entre os quais o marechal Alphonse Juin, que  apresentado como tendo sido um importante membro do Prieur de Sion. Foram apoiados tambm 
por um movimento pr-gaullista que ganhava corpo na Frana, o Partido Social Republicano, entre cujos lderes estava Michel Debr, que se tornou ministro da Justia 
de De Gaulle e, pouco depois, entre 1959 e 1962, primeiro-ministro da Frana. Outra importante figura pr-gaullista foi Georges Bidault, ex-heri da Resistncia. 
Entre 1945 e 1954, Bidault trabalhara em estreita ligao com Robert Schuman - o velho amigo do professor Le Fur - na elaborao do projeto da Comunidade Econmica 
Europia.
Talvez ingenuamente, os comits argelinos consideravam evidente que podiam contar com De Gaulle para manter a Arglia nas mos da Frana. De Gaulle nada fez para 
desencorajar essa crena. Contudo, como eventos subseqentes provariam, no era essa a sua inteno.
Em abril de 1958, o governo recm-eleito da Frana manifestou desejo de resolver a crise argelina concedendo independncia  colnia. Em 13 de maio, os Comits de 
Salvao Pblica na Arglia reagiram promovendo um golpe de Estado em Argel e formando seu prprio governo. Ao mesmo tempo, fizeram a De Gaulle um apelo para que 
assumisse o poder na Frana, reunificasse o pas e preservasse a condio de colnia da Arglia. Num manifesto de 15 de maio, De Gaulle declarou simplesmente que 
se manteria de prontido para o caso de ser convocado. A Frana continuava em situao catica.
Em 23 de maio circulavam notcias de que j se estavam formando Comits de Salvao Pblica na Frana metropolitana. Em 24 de maio, um comit assumiu o poder na 
Crsega, enquanto rdios na Arglia conclamavam a Frana e seu povo a "escolher entre a estrela de Moscou e a cruz de Lorena". Ao se opor  independncia da Arglia 
e apoiar De Gaulle, antigos militantes da Resistncia e das foras francesas livres viram-se lado a lado com ex-oficiais de Vichy e com elementos de direita ainda 
mais extremada.
Em algum momento durante aquela semana, parece ter vazado a notcia de que um golpe militar estava planejado para o dia 28 e que o exrcito tomaria o poder na Frana. 
Multiplicavam-se os rumores de uma iminente descida de tropas de pra-quedistas em Paris.! De fato, em 28 de maio o governo renunciou, deixando o campo livre para 
De Gaulle. Em 29 de maio, todos os Comits de Salvao Pblica de Paris foram mobilizados e milhares de gaullistas tomaram as ruas. No fim da tarde, De Gaulle apareceu 
na capital, aceitou a presidncia da Quinta Repblica Francesa e comeou a formar seu governo, com Michel Debr e Andr Malraux em seu gabinete. Os Comits de Salvao 
Pblica tinham obviamente desempenhado um papel-chave no processo que arrastara o novo presidente para o cargo - e, ao que parecia, tinham bloqueado efetivamente 
qualquer oposio sria. Em 29 de maio - o dia em que De Gaulle assumiu o poder - um porta-voz declarou que havia 120 comits ativos na Frana metropolitana. 


Na medida em que se pode fazer uma generalizao como essa, os Comits de Salvao Pblica na Arglia tinham prioridades diferentes dos da Frana. Para os comits 
argelinos, o objetivo bsico era assegurar que o status da colnia permaneceria inalterado, e De Gaulle era visto como um meio para a consecuo desse objetivo. 
Em contrapartida, pelo menos para uma parte dos comits franceses, o objetivo bsico parece ter sido instalar De Gaulle na presidncia; a Arglia talvez fosse inteiramente 
secundria, seno irrelevante.  difcil, contudo, ter certeza quanto a isso, pela simples razo de que os prprios comits, especialmente na Frana, eram obscuros. 
Eram obviamente muito difundidos, obviamente muito bem organizados - um verdadeiro "exrcito secreto", com muitas ligaes com o exrcito regular. Mas  praticamente 
impossvel obter informao segura sobre eles, e praticamente inexiste uma documentao confivel. Ningum duvida de que os comits existiram, com tambm no h 
dvida alguma sobre a natureza geral do seu papel. Mas sabe-se muito pouco alm disso. Considera-se provvel que o prprio De Gaulle se mantivesse pessoalmente em 
contato com a estrutura de comando dos comits, pois sempre manteve suas opes em aberto.  igualmente provvel, porm, que ele tenha destrudo todos os registros 
de tais contatos, se  que tais registros existiram. Na verdade, um bigrafo de De Gaulle nos disse que ele mantinha contatos desse tipo valendo-se de intermedirios 
e nada era escrito.
Seja como for, De Gaulle, tendo assumido o poder, viu-se numa posio extremamente delicada com relao aos comits. Em grande parte devia a eles a sua posio de 
chefe do Estado. Estimulara-os a acreditar que, sob seus auspcios, a Arglia permaneceria francesa. Agora estava prestes a descumprir sua parte na "barganha" implcita 
e negociar a independncia da colnia com lderes nacionalistas argelinos. Isso, evidentemente, o exporia a acusaes de traio.
De Gaulle deve certamente ter antecipado o repuxo dos comits argelinos. Este no tardou a vir. Tomou a forma da OAS, a Organisation de l' Arme Secrete, ou Organizao 
do Exrcito Secreto, que se dava por misso vingar o que via como a traio de De Gaulle. Formada por oficiais radicais, veteranos do conflito argelino e excolonizadores 
e oficiais franceses radicados na Arglia, a OAS, foi responsvel, nos anos que se seguiram, por uma srie de tentativas de assassnio do presidente francs. At 
hoje existem ex-membros da OAS para quem o simples nome de De Gaulle  uma maldio.
No fim das contas, contudo, os comits argelinos no chegaram a representar uma grande ameaa para a estabilidade do novo regime de De Gaulle na Frana. j os comits 
franceses eram coisa completamente diferente. Se tivessem se empenhado numa campanha intensa de oposio, poderiam ter constitudo um problema muito mais srio. 
Em conseqncia, seus membros tinham de ser controlados, convencidos a debandar ou canalizar sua energia para algum outro objetivo e acabar aceitando a guinada do 
novo presidente com relao  Arglia. Isso deve ter exigido um substancial esforo de relaes pblicas. A julgar pelos registros existentes, esse esforo parece 
ter sido orquestrado por Pierre Plantard.
No nosso primeiro encontro com o sr. Plantard em 1979, ele nos contou que De Gaulle lhe pedira pessoalmente para assumir a direo dos Comits de Salvao Pblica 
na Frana e, depois que estes haviam completado sua tarefa de instalar o general no poder, presidir sua dissoluo. Num panfleto mimeografado depositado na Bibliotheque 
Nationale em 1964, Anne Lea Hisler - a primeira mulher do sr. Plantard - declara:

Sob a autoridade do marechal Alphonse Juin, a sede do SecretariadoGeral dos Comits de Salvao Pblica na Frana metropolitana ficava em Aulnay-sous-Bois [subrbio 
de Paris]. Esse comit era dirigido por Michel Debr, Pierre Plantard, conhecido como Way, e Andr Malraux.


A sra. Hisler cita tambm uma carta que teria sido enviada por De Gaulle ao sr. Plantard em 3 de agosto de 1958, cerca de dois meses aps a formao do novo governo:

Meu caro Plantard,
Em minha carta de 29 de julho de 1958, disse-lhe o quanto apreciei a participao dos Comits de Salvao Pblica no trabalho de renovao que empreendi. Agora que 
foram estabelecidas novas instituies que vo permitir ao nosso pas redescobrir a posio que lhe  de direito, acredito que os membros dos Comits de Salvao 
Pblica podem se considerar liberados das obrigaes que at o momento assumiram, e se desmobilizar.

O panfleto de Anne Lea Hisler no teve circulao ampla. Na verdade, a cpia que est na Bibliotheque Nationale talvez seja a nica existente. Ambas as citaes 
acima, no entanto - o depoimento da sra. Hisler sobre o papel do sr. Plantard nos Comits de Salvao Pblica e a passagem da carta atribuda a De Gaulle -, foram 
posteriormente reproduzidas por Louis Vazart num livro que vem tendo sucessivas reedies h sete anos. Ao que saibamos, ningum jamais impugnou, contestou ou mesmo 
ps -em questo a autenticidade ou a veracidade de ambas as citaes. 
Ns mesmos, contudo, no ficamos plenamente satisfeitos. Assim, procuramos obter alguma confirmao adicional e, se possvel, mais informao. Checamos todas as 
coletneas publicadas de cartas, notas e agendas de De Gaulle. Como talvez no seja de espantar, no h qualquer referncia ao sr. Plantard, ao pseudnimo "Way" 
ou a cartas, seja de 29 de julho ou 3 de agosto. O Institut Charles De Gaulle, depositrio de todos os arquivos pertencentes ao general, tampouco sabe de qualquer 
contato entre ele e um homem chamado Plantard ou Way. Os historiadores ligados ao Institut que consultamos se mostraram cticos. Parecia-lhes inacreditvel que um 
assunto suficientemente importante para levar De Gaulle a escrever duas cartas em quatro dias no tivesse deixado qualquer vestgio nos registros oficiais. O diretor 
dos Archives do Institut declarou que, pelo que sabia, estava de posse de toda a correspondncia de De Gaulle e que os nomes Plantard e Way no apareciam nela.
J comevamos a duvidar da confiabilidade da sra. Hisler quando recebemos uma carta do Institut. O diretor ainda no encontrara registro das cartas citadas, mas 
de fato, e finalmente, encontrara referncias aos nomes "Plantard" e "Way". Para seu embarao, essas referncias apareciam no em seu prprio arquivo, mas em cpias 
antigas do Le Monde, em geral considerado o mais confivel dos jornais franceses.
Em sua edio de 18-19 de maio de 1958, Le Monde publicou um pequeno artigo intitulado "Um Comit de Salvao Pblica clandestino em Paris?" O texto era o seguinte:

A agncia norte-americana United Press divulgou o texto de um apelo lanado por um "Comit de Salvao Pblica na regio de Paris" em apoio ao general De Gaulle. 
Comunicados desse comit esto reservados a agncias estrangeiras "desde que o acordo (provavelmente de sigilo) sobre sua fonte seja respeitado". O apelo no traz 
endereo nem assinatura.

No dia 6 de junho, foi publicado um artigo mais longo: "Quantos Comits de Salvao Pblica existem na Frana?" Relata que um dos lderes do golpe na Arglia revelara 
a dois jornalistas que os comits na Frana metropolitana somavam no menos de 320. O artigo continua, citando um comunicado do Comit Central de Salvao Pblica:

Os Comits de Salvao Pblica devem expressar os desejos do povo, e  em nome da liberdade, da unidade e da solidariedade que todos os cidados franceses devem 
participar da tarefa de reconstruo do nosso pas. Todos os voluntrios que responderam aos nossos apelos durante os ltimos quinze dias devem estar presentes hoje 
para ajudar o general De Gaulle... Patriotas, assumam seus postos e tenham confiana no homem que j salvou a Frana... 

Esse comunicado, especifica o artigo do Le Monde; trazia a assinatura de certo "capito Way", o que se supunha ser um pseudnimo.
Em 8-9 de junho, Le Monde publicou um terceiro artigo: "Comits de Salvao Pblica esto bem implantados em Paris, na regio de Paris e em catorze Departamentos". 
O artigo cita um comunicado que deixa claro que j havia um Comit de Salvao Pblica em Paris por ocasio do golpe de Estado na Arglia, em 13 de maio. Entre 16 
e 18 de maio, esse comit implantara outros em seis circunscries administrativas de Paris, em 22 comunas do Departamento do Sena e em catorze departamentos metropolitanos. 
O comunicado enfatiza que o objetivo primordial dos comits  a "reabilitao nacional" sob os auspcios do general De Gaulle. Afirma que os comits esto trabalhando 
em harmonia com "vrias associaes de veteranos de guerra". Aps citar esse comunicado, o artigo do Le Monde volta a se referir ao comunicado citado em 18-19 de 
maio, que trazia a assinatura do "capito Way":

Aps sua publicao, seu autor se deu a conhecer por ns mediante uma carta em que afirmou:
"O comit central foi criado em 17 de maio, e seu objetivo era propaganda e estabelecer uma ligao entre todos os Comits de Salvao Pblica em Paris.
"Considerando que a Frana  uma terra da liberdade, onde todos tm o mais absoluto direito s suas convices, nossa ao deve ser situada acima de toda poltica, 
num nvel exclusivamente patritico, para reunir o mximo de nossos recursos para a renovao da Frana.
"Como declaramos em carta de 29 de maio ao general De Gaulle, 'acatamos estritamente as orientaes que nos so dadas pelas autoridades pblicas' ."

Essa carta, informa o artigo em seguida, era assinada pelo sr. Plantardo Ao que parecia, ele podia ser contatado em seu nmero de telefone pessoal, discando-se as 
palavras "WAY" e "PAIX".
Em 29 de julho - o dia em que supostamente De Gaulle enviou sua carta de agradecimento ao sr. Plantard -, Le Monde publicou mais um artigo, em que era anunciada 
a dissoluo do comit central para a regio de Paris:

Recebemos o seguinte comunicado:
"A efetiva dissoluo do Comit Central de Salvao Pblica para a regio de Paris, que acarreta a dissoluo do Comit de Salvao Pblica em Paris e outras localidades, 
desobriga assim os militantes que responderam ao apelo de 17 de maio.
"Os responsveis pelo Comit Central resolveram instituir federaes para (...) um movimento nacional cujo programa assegura a defesa do pas e da liberdade.
Pelo secretariado do comit,
        Capito Way"

O signatrio deste comunicado, "capito Way", j publicou, durante o ms de maio, vrios apelos e declaraes em nome do "Comit Central de Salvao Pblica para 
a regio de Paris". Como j indicamos, trata-se do sr. Pierre Plantard ... que, com alguns amigos, tomou a iniciativa de implantar esse comit.
O "Movimento" que suceder ao comit  dirigido pelo sr. BonerieClaros, um jornalista. Seu tesoureiro  o sr. Robin; o sr. Pierre Plantard  o secretrio e encarregado 
da propaganda... 

De tudo isso comeava a emergir gradualmente um padro. De Gaulle certamente vira com satisfao o apoio dos Comits de Salvao Pblica, tanto na Arglia quanto 
na Frana metropolitana. Ao mesmo tempo, como j dissemos, devia estar atemorizado ante a perspectiva de uma reao violenta quando sua posio no tocante  Arglia 
ficasse clara. Alm disso, a Revoluo Francesa, e os destinos de Danton, Desmoulins e Robespierre, haviam demonstrado que os Comits de Salvao Pblica eram potencialmente 
muito perigosos, podendo voltar-se contra aqueles que antes haviam apoiado. Diante disso, era necessrio criar uma forma de diretrio que (1) pudesse unificar e 
coordenar os comits na Frana metropolitana; (2) promovesse o acordo dos comits da Frana com o programa do novo governo; e (3) dissolvesse os comits da Frana 
quando necessrio, deixando assim os comits argelinos isolados. Ao que parecia, fora por essas razes que o sr. Plantard fundara o Comit Central de Paris, que 
se imps como uma espcie de autoridade ad hoc sobre os demais comits j existentes e passou, de fato, a control-los. Nesse nterim, De Gaulle pde manter uma 
serena e olmpica distncia do movimento aparentemente "popular" que o alou ao poder - bem como do processo potencialmente delicado de ter de desmontar pessoalmente 
o aparelho organizacional desse movimento antes que este pudesse voltar-se contra ele.
Admitindo que esta anlise da situao  mais ou menos correta, a manobra foi bastante engenhosa - um exemplo da mais sofisticada estadstica maquiavlica. No teria 
sido possvel implement-la sem um conluio muito ntimo, e muito secreto, entre De Gaulle e o sr. Plantard..

Circuit

Como observamos, o Prieur de Sion, segundo os estatutos de 1956 depositados junto  polcia francesa, identificava-se pelo acrnimo CIRCUIT, que, ao que se dizia, 
era tambm o nome da revista de circulao interna da Ordem. H, de fato, duas sries da revista Circuit, a primeira datada de 1956, a segunda de 1959.10 A srie 
de 1956 ,  primeira vista, de uma irrelevncia desconcertante. H um artigo sobre astrologia, exaltando o uso de um dcimo terceiro signo, em vez do zodaco tradicional 
de doze signos. Afora isso, a revista no parece ter mais substncia que a publicao de uma associao de condminos. Contm interminveis discusses sobre moradia 
de baixo custo, palavras cruzadas, jogos para crianas num condomnio, anncio de lpis. Uma nica nota que parece ter alguma importncia informa que a associao 
de condminos a que a revista  dirigida mantm estreito contato com uma rede de outras associaes de condminos.  razovel suspeitar que as associaes de condminos 
funcionam na Circuit como fachada para alguma outra coisa, e que a prpria revista usava cdigos complexos como aqueles supostamente usados na Vaincre. Essas "associaes 
de condminos" podem at ter sido o aparelho organizacional que, dois anos mais tarde, emergiu para regular os Comits de Salvao Pblica na Frana. Mas, se no 
era possvel refutar essas hipteses, tampouco havia como confirm-las. Elas permanecem confinadas ao reino da mera especulao.
A srie de 1959 da Circuit  coisa inteiramente diversa. O primeiro nmero  datado de 10 de julho de 1959, e o diretor  identificado como Pierre Plantard. A prpria 
revista, porm, no pretende estar associada ao Prieur de Sion. Ao contrrio, declara-se o rgo oficial de algo denominado Federao das Foras Francesas. Havia 
inclusive um timbre, e os seguintes dados:

Publication priodique culturelle de la Fdration des Forces Franaises
116 rue Pierre Jouhet, 116
Aulnay-sous-Bois - (Seine-et-Oise)
Tl.: 929-72-49

No incio dos anos 70, um pesquisador suo checou o endereo acima. Pelo que pde averiguar, nenhuma revista fora jamais publicada ali. O nmero do telefone tambm 
se mostrou falso. 11 Todas as tentativas feitas para seguir a pista da Federao de Foras Francesas, pelo pesquisador em questo, por ns mesmos e por outros se 
provaram inteis. At hoje no surgiu nenhuma informao sobre qualquer organizao parecida.  difcil, porm, atribuir a mera coincidncia que o endereo, Aulnay-sous-Bois, 
seja o mesmo em que Anne Lea Hisler situou o Secretariado-Geral dos Comits de Salvao Pblica na Frana metropolitana. Alm disso, o segundo nmero da revista 
noticia que o sr. Plantard recebera mais uma carta de agradecimento de De Gaulle, essa datada de 27 de junho de 1959 - onze meses aps as cartas discutidas acima. 
Parece evidente que a Federao das Foras Francesas era uma espcie de prolongamento da mquina administrativa dos comits, talvez um meio de manter os membros 
em contato uns com os outros. Se isso  verdade, indica que o Prieur de Sion estava usando sua revista para algo alheio aos seus assuntos internos.
A srie de 1959 do Circut remete o leitor reiteradamente a Vaincre, o que indica que esta continuava disponvel na poca. Na verdade, Circuit faz eco a muitos dos 
temas e questes suscitados na Vancre. Como esta, dedica muito espao a esoterismos, mitologia e matrias sobre cavalaria. H artigos assinados por Anne Lea Hisler 
e outros, inclusive Pierre Plantard, que por vezes escreve tambm sob o pseudnimo "Chyren". O texto inclui afirmaes como esta: "Todas as coisas se encontram em 
forma simblica. Aquele que sabe interpretar o significado oculto compreender. A humanidade est sempre apressada, preferindo que as solues lhes sejam sempre 
entregues...";] . "O lugar que parece o mais slido talvez seja o mais instvel. Tendemos a esquecer que vivemos num vulco, no centro de foras extremamente poderosas..."; 
"... tudo se realiza segundo ciclos bem determinados. Um 'Timoneiro' guia a arca ['arche'] no dilvio". E finalmente:

No somos estrategistas e estamos acima de todas as crenas religiosas, perspectivas polticas e questes financeiras. Damos aos que vm a ns auxlio moral e o 
indispensvel man do esprito. No somos seno mensageiros, dirigindo-nos igualmente aos que crem e aos que no crem com o nico intuito de transmitir fragmentos 
de verdade. No endossamos a astrologia convencional e errnea. As estrelas por si mesmas no exercem influncia. Elas no passam de pontos de referncia no espao.

Segue-se outra defesa do zodaco de treze signos, que o sr. Plantard usa para prever algo do futuro da Frana. Muito curiosamente, ele previu que 1968 seria um ano 
cataclsmico.
Esse no , contudo, o nico tipo de matria encontrado na Circuito H artigos sobre vinhos e vinicultura - o enxerto de videiras - e interminveis explicaes sobre 
o comrcio de vinho. H tambm declaraes patriticas que fazem eco ao tom tanto da Vaincre quanto dos comunicados emitidos pelos Comits de Salvao Pblica. Uma 
dessas declaraes, por exemplo, assinada por Adrian Sevrette, afirma que no ser possvel encontrar soluo para os problemas existentes.

...a no ser atravs de novos mtodos e novos homens, pois a poltica est morta. O curioso  que os homens no querem reconhecer isso. Existe apenas uma questo: 
a organizao econmica. Mas acaso existem ainda homens capazes de pensar a Frana, como durante a Ocupao, quando os patriotas e os combatentes da Resistncia 
no se importavam com as tendncias polticas de seus companheiros de luta?

E, em outro artigo:
Desejamos que os 1.500 exemplares da Circuit sejam um contato que acenda uma luz; desejamos que a voz dos patriotas possa transcender obstculos como em 1940, quando 
eles deixaram a Frana invadida para vir bater  porta do gabinete do Lder da Frana Livre. Hoje, a situao  a mesma. Antes de tudo, somos franceses. Somos a 
fora que luta de uma maneira ou de outra para construir uma Frana purificada e nova. Isso deve ser feito no mesmo esprito patritico, com a mesma vontade e solidariedade 
de ao. Por isso apresentamos aqui o que declaramos ser uma antiga filosofia.

Segue-se um detalhado plano de governo para devolver  Frana o esplendor perdido. Ele insiste, por exemplo, na extino dos departamentos e na restaurao das provncias:
O departamento no passa do fruto de um sistema arbitrrio, criado na poca da Revoluo, ditado e determinado pela poca, segundo as exigncias de locomoo (o 
cavalo). Hoje, j no representa nada. A provncia, ao contrrio,  uma poro viva da Frana;  um vestgio intacto do nosso passado, a prpria base em que tomou 
forma a existncia da nossa nao; ela tem seu prprio folclore, seus costumes, seus monumentos, muitas vezes seus dialetos locais, que desejamos restaurar e promulgar. 
A provncia deve ter sua prpria organizao especfica de defesa e administrao, adaptada s suas necessidades especficas, dentro na unidade nacional. 

O projeto que se segue  ordenado em nove tpicos: Conselho das Provncias; Conselho do Estado; Conselho Parlamentar; Impostos; Trabalho e Produo; Assistncia 
Mdica; Educao Nacional; Maioridade; Habitao e Escolas.
No entanto, a despeito dessas preocupaes especificamente, e at obsessivamente, francesas, o sr. Plantard, em mais um artigo da Circuit, enfatiza um outro tema 
proclamado na Vaincre:

... a criao de uma Confederao de Pases toma-se uma Confederao de Estados: os Estados Unidos da Euro-frica, que representam economicamente (1) uma comunidade 
africana e europia de intercmbio baseada num mercado comum, e (2) a circulao da riqueza de modo a servir ao bem-estar de todos, sendo este o nico fundamento 
estvel em que a paz pode ser construda.


24
    PODERES SECRETOS DE GRUPOS CLANDESTINOS
    
 lugar-comum que a poltica favorece estranhas alianas. Uma nao ou instituio que se v sob presso, lutando por seus objetivos ou mesmo por sua sobrevivncia, 
far alianas quando e onde for possvel - e muitas vezes, se isso for conveniente, com naes ou instituies teoricamente inimigas. A Histria, em certo nvel, 
 um compndio de coalizes disparatadas, casamentos grotescamente descombinados. Na maior parte dos ltimos setenta e tantos anos, a Unio Sovitica foi percebida 
pelo Ocidente como uma ameaa e um adversrio, potencial ou real; isso no impediu que houvesse um intervalo, entre 1941 e 1945, em que o Ocidente se uniu  Unio 
Sovitica contra um inimigo que ambos percebiam como mais perigoso. Em escala menor, h muitos outros exemplos. Em 1982, a junta militar radicalmente anti-sovitica 
da Argentina anunciou sua disposio de receber armas e equipamentos soviticos para fazer guerra contra a Gr-Bretanha pela posse das ilhas Malvinas. Atualmente, 
na Guerra do Golfo, o Ir vitupera Israel e no entanto sabe-se que recebe armas desse pas, porque Israel considera o Iraque uma ameaa potencialmente maior. Ap6s 
seu encontro com Mikail Gorbachev em 1985, Ronald Reagan, reduzindo as relaes internacionais ao nvel da Disneylndia, como  tpico dele, afirmou ter apontado 
o caminho pelo qual todos os povos do mundo, inclusive os dos Estados Unidos e Unio Sovitica, se uniriam em face de uma invaso por outro planeta. At Ronald Regan 
pode ter rasgos de lucidez. Confrontado com os violceos comedores de gente de Srio, a desferir raios mortais capazes de carbonizar o adversrio, at Ian Paisley 
e Gerry Adams poderiam se convencer a unir suas foras (embora pessoalmente, diante da perspectiva dessa aliana, n6s talvez nos inclinssemos a apoiar os comedores 
de gente).

Segundo todos os indcios que pudemos colher, bem como as informaes que conseguimos do sr. Plantard, o Prieur de Sion deseja os Estados Unidos da Europa em parte 
como um baluarte contra o imprio sovitico, mas basicamente como um bloco de poder independente, um bloco de poder auto-suficiente e neutro, capaz de equilibrar 
a balana de poder entre a Unio Sovitica e os Estados Unidos. Sob esse aspecto, a posio do Prieur de Sion parece quase idntica  da PanEuropa, a organizao 
pela unidade europia atualmente dirigida pelo dr. Oto de Habsburgo, que, como o Crculo Kreisau e outras entidades, usa como smbolo uma cruz celta dentro de um 
crculo. Ao mesmo tempo, outras organizaes e instituies desejam uma Europa unida basicamente como baluarte contra o imprio sovitico, buscando vincul-la estreitamente 
aos Estados Unidos. At que ponto cada um desses campos subordinar suas divergncias com o outro s finalidades comuns? At que ponto cada um far concesses com 
o simples objetivo de chegar a uma Europa unida, dispondo-se a deixar a discusso das prioridades e lealdades para depois?
Na medida em que perseguia a idia de uma Europa unida de algum tipo, ou de alguma maneira, o Prieur de Sion deve necessariamente ter estabelecido contatos, e muito 
provavelmente acordos, com um espectro diversificado de outras organizaes. Quando se tenta retraar a histria da idia da Europa unida, encontra-se um emaranhado 
de alianas e casamentos de convenincia. Assim como a crise da Arglia induziu ex-combatentes da Resistncia e veteranos da Foras Francesas Livres a se aliar a 
ex-oficiais de Vichy e colaboracionistas, assim tambm o sonho de uma Europa unida impeliu por vezes conservadores moderados ou democratas-cristos a se unir temporariamente 
com grupos de direita muito mais ameaadores, muito mais radicais e at "neonazistas". No surpreende, portanto, que nossa investigao sobre o Prieur de Sion nos 
tenha conduzido ao tenebroso territrio do panfleto assinado por "Cornelius" - o territrio em que "os bons moos", agindo com o que julgam ser as melhores intenes, 
demonstram estar trabalhando em estreita ligao com organizaes como a P2.

O Movimento Europeu

Como vimos, a idia dos Estados Unidos da Europa foi promovida durante a guerra pela Vaincre na Frana e pelo Crculo Kreisau de Helmut James von Moltke na Alemanha. 
Evidentemente, estas no foram as nicas fontes de apoio  idia, nem as mais influentes. A idia foi amplamente acatada em meio  Resistncia francesa, por exemplo, 
especialmente em reas de fronteira como as Ardenas, onde as lealdades nacionais dos indivduos estavam muitas vezes divididas entre a Frana, a Blgica, Luxemburgo 
e a Alemanha. A idia foi entusiasticamente patrocinada por Andr Malraux, que, j em 1941, defendia "um New Deal europeu, uma Europa federal que exclusse a URRS". 
Foi defendida pelo marechal Alphonse Juin, que, como Malraux, haveria de entrar em grave conflito com De Gaulle a propsito da Arglia. Foi defendida por Georges 
Bidault, que, como chefe da OAS, na esteira da reviravolta de De Gaulle na Arglia, iria tramar o assassnio do general. Foi patrocinada tambm por Winston Churchill, 
que, num discurso feito em 19 de setembro de 1946 na Universidade de Zurique, declarou: "Devemos construir uma espcie de Estados Unidos da Europa." Na verdade, 
j em outubro de 1942, Churchill escrevera ao British War Cabinet: "Por mais difcil que seja diz-lo  agora, acredito que a famlia europia pode agir em conjunto 
como uma unidade sob um Conselho da Europa. Aspiro aos Estados Unidos da Europa."
Terminada a Segunda Guerra Mundial, a Europa estava exausta, devastada e desiludida. Ao mesmo tempo os europeus, fossem quais fossem seus vnculos, sentiam que tinham 
sido unidos por aquela tragdia partilhada e coletiva - uma tragdia que cada vez mais parecia uma guerra civil em escala colossal. Para a Europa do aps-guerra, 
a prioridade fundamental era evitar a todo custo mais um conflito como aquele, outra luta fratricida como aquela. Talvez o meio mais bvio de assegurar isso fosse 
a unidade europia; e assim um apelo por essa unidade ergueu-se de uma multiplicidade de campos, os mais diversos.
No final de 1947, as vrias pessoas e instituies empenhadas na unidade europia formaram, por iniciativa prpria, um comit para coordenar sua ao. Em maio de 
1948, esse comit j organizara um Congresso da Europa, semelhante ao conselho que Churchill advogara cincos anos e meio antes. Reunido em Haia, ele incluiu representantes 
de dezesseis pases. O presidente de honra foi Winston Churchill. Um comunicado emitido na sesso final declarava: "Desejamos uma Europa unida em cujo territrio 
a livre circulao de pessoas, idias e bens seja restaurada."
Pouco depois, foi criado o Movimento Europeu - um organismo no oficial, mas de carter permanente, para perseguir e promover o ideal de uma Europa unida. Mais uma 
vez, Winston Churchill foi um dos presidentes de honra.
Em julho de 1948, Georges Bidault, ento ministro das Relaes Exteriores da Frana, tornou-se o primeiro membro de um governo a propor oficialmente a criao de 
um parlamento europeu. Bidault, ao lado de Jean Monnet, hoje considerado o pai da Comunidade Econmica Europia, e Robert Schuman, o antigo colaborador de Louis 
Le Fur, passaram a trabalhar em conjunto pelo que chamavam de uma "federao do Ocidente".
Outra figura de grande importncia no movimento em prol da unidade europia foi um polons, dr. Joseph Retinger. Desde os anos 20, Retinger atuara na defesa da unidade 
europia e, ao que parece, tinha tido contato tanto com Helmut James von Moltke, lder do Crculo Kreisau, quanto com Hans Adolf von Moltke, que se dissera membro 
da Alpha Galates. Durante a Segunda Guerra Mundial, Retinger esteve baseado na Inglaterra, tendo trabalhado de incio como conselheiro poltico do general polons 
Sikorski - que tambm parece ter estado ligado a Hans Adolf von Moltke quando este foi embaixador da Alemanha na Polnia. Em 1943, Retinger ingressou na Special 
Operations Executive britnica e, aos 56 anos, desceu de pra-quedas na Polnia como agente da SOE. Depois da guerra, voltou a assumir papel ativo na promoo da 
unidade europia. Em maio de 1948, ajudou a organizar o Congresso da Europa em Haia. Em julho do mesmo ano, viajou para os Estados Unidos com Winston Churchill, 
Duncan Sandys e o ex-primeiro-ministro da Blgica, Paul-Henri Spaak, para angariar auxlio financeiro para o recm-criado Movimento Europeu. A viagem resultou na 
criao, em 29 de maro de 1949, do American Committee on a United Europe [Comit Americano por uma Europa Unida], ou ACUE. Com o ACUE, inaugurou-se um processo 
pelo qual sucessivas organizaes empenhadas na luta pela unidade europia passaram a ser, na prtica, controladas por rgos americanos, empenhados na promoo 
de interesses americanos.
Assim foram lanadas as sementes para o crescimento de uma nebulosa subcultura subterrnea, em que sociedades secretas e semisecretas - religiosas, polticas e financeiras 
- logo comearam a florescer. No final dos anos 50, essa subcultura adquirira impulso prprio, envolvendo um ambiente que, embora invisvel para o pblico em geral, 
comeou a exercer influncia cada vez mais difusa nos negcios pblicos.

Manobras da CIA

O principal responsvel pelo despertar do interesse americano nos movimentos em prol da unio europia foi talvez o conde Richard Coudenhove-Kalergi, que fundara 
em 1922 a Pan-Europa, na forma da Unio Pan-Europia. Embora pouco tenha realizado no plano prtico, a Pan-Europa foi uma organizao prestigiosa no perodo entre 
as guerras. Entre seus membros incluam-se vrias figuras polticas respeitadas, como Lon Blum e Aristide Briand na Frana e Eduard Beness na Tchecoslovquia, bem 
como Winston Churchill. Dela participavam ainda Albert Einstein e luminares da cultura como Paul Valry, Miguel de Unamuno, George Bernard Shaw e Thomas Mann.
Obrigado a sair da ustria pela Anschluss alem de 1938, Coudenhove-Kalergi fugiu para os Estados Unidos em 1940. Ali, empreendeu uma incansvel campanha por seu 
ideal pan-europeu, insistindo em que a unidade europia devia ser uma prioridade da poltica dos Estados Unidos depois da guerra. Seus esforos serviram para convencer 
vrios importantes polticos norte-americanos, como William Bullit e os senadores Fulbrigtht e Wheeler. Quando os Estados Unidos entraram na guerra, algumas das 
idias de Coudenhove-Kalergi forneceram um esquema de ao. Esse esquema foi adotado como tal pelo OSS, o precursor da CIA.
O OSS, ou Office of Strategic Services [Agncia de Servios Estratgicos], foi criado nos moldes da M16* e da SOE britnicas, e com seu auxlio. Seu primeiro diretor 
foi o general William ("Wild Bill") 00novan. Depois da guerra, os agentes de Donovan constituiriam o ncleo da CIA. Um deles, Allen Dulles, foi diretor da CIA de 
1953 at1961, quando a dbcle da Baa dos Porcos o obrigou a renunciar. Dulles, que durante a guerra estivera baseado na Sua, mantinha os contatos que l estabelecera 
com Helmut James von Moltke e o Crculo Kreisau.
Como diretor do OSS, William Donovan no tardou a perceber o valor potencial do Vaticano para operaes de espionagem. Milhares de sacerdotes catlicos se espalhavam 
pela Europa, em todos os pases, todas as cidades, praticamente em cada aldeia e vilarejo. Milhares de sacerdotes catlicos serviam tambm como capeles nas foras 
armadas de todas as naes em luta. Essa rede j estava engajada em atividades de espionagem, transmitindo grandes volume de informao ao departamento interno de 
informaes do prprio Vaticano. Um dos quatro chefes de setor do servio de informaes do Vaticano era o monsenhor Giovanni Montini - mais tarde, papa Paulo VI. 
Diante disso, Donovan empenhou-se em estabelecer laos estreitos com o Vaticano.
Pouco depois da entrada dos Estados Unidos na guerra, Donovan promoveu uma aliana com o padre Felix Morlion, fundador de um servio de informaes catlico europeu 
chamado Pro Deo [Por Deus], com sede em Lisboa. Sob os auspcios de Donovan, o Pro Deo transferiu seu quartel-general para Nova York e passou a ter suas atividades 
financiadas pelo OSS. Em 1944, quando Roma foi libertada, Donovan e o padre Morlion conseguiram instalar o Pro Deo no prprio Vaticano. Ali, o servio estava particularmente 
bem-situado para obter informaes de sacerdotes catlicos que tinham estado ou ainda estavam na Alemanha ou com as foras armadas alems. Os jesutas, com sua formao 
sofisticada, disciplina rigorosa e organizao coesa, mostravam-se uma fonte de informaes especialmente valiosa.
No perodo que se seguiu  guerra, os Estados Unidos se apressaram em tirar proveito do aparelho montado por Donovan, particularmente na Itlia. Em 1948, com as 
eleies italianas marcadas, a recm-criada CIA lanou-se num complexo de operaes clandestinas para impedir qualquer possibilidade de uma vitria comunista. Sob 
os auspcios de James Angleton, ex-chefe do posto do OSS em Roma e mais tarde chefe de contra-informao da CIA, milhes de dlares foram secretamente canalizados 
para os democratas-cristos, enquanto verbas adicionais eram despejadas nos jornais e outros veculos de propaganda. Esse procedimento foi tambm muito til na Frana. 
Como foi dito acima, a viagem do dr. Joseph Retinger aos Estados Unidos no interesse do Movimento Europeu levou  criao, em 29 de maro de 1949, do Comit Americano 
por uma Europa Unida, ou ACUE. Seu conselho era presidido por William Donovan. O vice-presidente era o ex-chefe do posto do OSS na Sua, Allen Dulles. O secretrio 
era George S. Franklin, tambm diretor do Private Council on Foreign Relations [Conselho Privado de Relaes Exteriores], que mais tarde se tornou coordenador da 
Comisso Trilateral. O diretorexecutivo do ACUE era Thomas Braden, na poca chefe do Departamento de Organizaes Internacionais da CIA. Sob os auspcios desses 
homens, o ACUE decidiu financiar o Movimento Europeu de Joseph Retinger. Verbas oriundas do Departamento de Estado norte-americano foram discretamente canalizadas 
para o quartel-general do Movimento Europeu, em Bruxelas. Com a expanso da influncia da Unio Sovitica na Europa oriental, teve incio a "Guerra Fria". Concebido 
originalmente para promover a unidade europia, o Movimento Europeu foi-se limitando gradualmente a auxiliar na construo de um "baluarte contra o comunismo" - 
e isso gerou uma atmosfera propcia ao surgimento de organizaes clandestinas.
Agora parcialmente financiado pela CIA, Joseph Retinger e outros membros do Movimento Europeu estabeleceram ligaes com o prncipe Bernhard, dos Pases Baixos, 
com o primeiro-ministro italiano e com sir Colin Gubbins, ex-diretor da SOE britnica. Juntamente com o ento diretor da CIA, general Walter Bedell Smith, esse grupo 
criou um think tank, ou conselho consultor, que se reuniu pela primeira vez em maio de 1954 no Hotel de Bilderberg, na cidade alem de Oosterbeek. Assim nasceram 
as Conferncias de Bilderberg.
Nesse nterim, a CIA estivera atuando tambm por iniciativa prpria, dando incio a um amplo programa de aes secretas de apoio a qualquer instituio que pudesse 
ajudar na consolidao do "baluarte contra o comunismo". Lderes e partidos polticos, grupos de presso, sindicatos, jornais e editoras eram todos pesadamente subsidiados, 
desde que sua orientao fosse suficientemente pr-ocidental e anticomunista. Consta que, na dcada de 1950, a cada ano 20 a 30 milhes de d6lares em mdia9 foram 
gastos na Itlia em apoio a atividades culturais, organizaes de jovens, iniciativas editoriais e grupos catlicos de um tipo ou outro. Projetos patrocinados pela 
Igreja, inclusive misses e orfanatos, foram muitas vezes co-financiados pela CIA. Essa agncia distribua dinheiro entre muitos bispos e monsenhores, entre os quais 
o futuro papa Paulo VI. E, evidentemente, o Partido Democrata Cristo da Itlia continuou sendo foco de uma ateno especial. Na verdade, em 1919 Giorgio Montini, 
pai do futuro papa Paulo VI, fora co-fundador do que veio a se chamar Partido Democrata Cristo, partido pelo qual, alis, seu irmo mais velho foi senador.
O Movimento Europeu do dr. Joseph Retinger, patrocinado pela CIA, era tambm ativo na Itlia, ajudando a consolidar os laos entre a agncia norte-americana de informaes 
e o Vaticano. Retinger contava com o apoio do dr. Luigi Gedda, seu velho amigo pessoal, que alm de mdico conselheiro do papa Pio XII era chefe da Azione Cattolica, 
ou Ao Catlica, o poder subjacente ao Partido Democrata Cristo. Por meio de Gedda, Retinger pde tambm angariar os servios do futuro para Paulo VI, e assim 
a Ao Cat6lica tornou-se uma privilegiada destinatria de fundos da CIA.
A relao entre a CIA e o Vaticano estreitou-se em 1963, quando o papa Joo XXIII morreu, sucedendo-lhe Paulo VI, anteriormente Giovanni Montini, arcebispo de Milo. 
Como observamos antes, Montini j estava ligado  agncia e j recebia fundos dela. Ainda durante a guerra, havia trabalhado com os servios de espionagem dos Estados 
Unidos, passando informaes do Vaticano para o OSS e vice-versa. Aps a guerra, como arcebispo de Milo, entregou  CIA abrangentes dossis sobre sacerdotes politicamente 
atuantes. Estes viriam a ser usados para influenciar as eleies italianas de 1960.
A relao entre o Vaticano e a CIA perdura at hoje. Segundo Gordon Thomas e Max Gordon- Witts, em novembro de 1978 houve um encontro privado entre o papa Joo Paulo 
II e o chefe do posto da CIA em Roma. Em decorrncia desse encontro, chegou-se a um acordo pelo qual o Papa receberia regularmente, todas as semanas, informes da 
CIA. O que a CIA recebeu em troca no foi especificado, mas no  difcil adivinhar.
Outro dos mais influentes aliados da CIA dentro da Igreja foi o cardeal Frallcis Spellman, de Nova York. Em 1954, ele trabalhou diretamente para a CIA na Guatemala, 
ajudando a preparar ali um golpe orquestrado pela prpria agncia. Mas Spellman estava tambm profundamente envolvido em questes italianas. Desempenhou papel decisivo 
na obteno de grandes somas de dinheiro sujo para uso da Igreja Catlica. Era intimamente ligado a Bemardino Nogara, o crebro por trs do Banco do Vaticano, e 
com o conde Enrico Galeazzi, que, ao lado de Michele Sindona, cuidava dos investimentos e das finanas do Vaticano no incio dos anos 60. E foi o cardeal Spellman 
quem, em 1963, primeiro chamou a ateno do Papa para o padre Paul Marcinkus, de Chicago. Em 1971, Marcinkus, j na condio de bispo, era diretor do Banco do Vaticano, 
amigo ntimo de membros da P2, como Michele Sindona e Robert Calvi e, ao que se afirma, membro ele prprio da P2.
As origens da loja manica P2 so obscuras, mas acredita-se que ela tenha-se formado no incio dos anos 60.  Quaisquer que tenham sido suas prioridades e objetivos 
originais, seu gro-mestre Licio Gelli, de ultradireita, logo a inseriu na falange dos grupos e organizaes que formavam o "baluarte contra o comunismo". Alguns 
de seus membros recebiam generosos subsdios da CIA. E, por intermdio de indivduos como Calvi e Sindona, a P2 fornecia um instrumento para fazer chegar a instituies 
anticomunistas na Europa e na Amrica Latina verbas tanto do Vaticano quanto da CIA. Calvi afirmou tambm que ele pessoalmente conseguira transferir 20 milhes de 
dlares do Vaticano para o Solidariedade na Polnia, embora se acredite que a soma total enviada ao Solidariedade tenha ultrapassado 100 milhes de dlares. Antes 
de ser condenado  morte, Michele Sindona era no s financista da P2 como tambm conselheiro do Vaticano para assuntos de investimento, ajudando a Igreja a vender 
ativos seus e reinvestir nos Estados Unidos. Os servios de Sindona para a CIA incluam a transferncia de verbas para "amigos" na Iugoslvia, bem como aos coronis 
gregos, antes que tomassem o poder em 1967. Sindona canalizou tambm milhes de dlares para os fundos do Partido Democrata Cristo da Itlia.
Em 1981, quando a existncia da P2 foi manchete internacional pela primeira vez, o escndalo em torno da sua influncia nos escales mais altos do governo, da polcia 
e das finanas ficou basicamente limitado  Itlia. No entanto, segundo David Yallop,

... ainda h ramificaes em atividade na Argentina, Venezuela, Paraguai, Bolvia, Frana, Portugal e Nicargua. H tambm membros ativos na Sua e nos Estados 
Unidos. A P2 est ligada com a Mfia na Itlia, em Cuba e nos Estados Unidos. Est ligada com vrios regimes militares da Amrica Latina e com diversos grupos neofascistas. 
Est tambm intimamente ligada  CIA. Penetra at o cerne do Vaticano. Ao que parece, o interesse comum central de todos esses elementos  o 6dio e o temor ao comunismo. 

Atualmente,  do conhecimento geral que a P2, por mais influente e poderosa que possa ter sido, era (e provavelmente ainda ) controlada por um poder ainda mais 
alto, mais nebuloso, que lhe transmite suas instrues por meio de Licio Gelli, o gro-mestre da Ordem. Segundo uma comisso parlamentar italiana, a organizao 
por trs da P2 situa-se "alm das fronteiras da Itlia".] Fizeram-se muitas especulaes, mais ou menos plausveis, sobre essa organizao. Alguns a identificaram 
com a Mfia americana. Alguns sugeriram a KGB ou alguma outra agncia de informaes da Europa oriental. Alguns sugeriram at o Prieur de Sion. Em 1979, no entanto, 
um egresso da P2 - um jornalista chamado Mino Pecorelli - acusou a CIA. Dois meses depois de fazer essa acusao, Pecorelli foi assassinado.
Em maro de 1981, a polcia italiana invadiu a villa de Licio Gelli. Descobriu extensas listas dos membros da loja. Descobriu tambm um fichrio dos arquivos de 
Licio Gelli - embora os prprios arquivos tivessem desaparecido, sendo aparentemente mais importantes que as listas de membros. Alguns dos tpicos do fichrio foram 
publicados nos jornais italianos. Incluam a Opus Dei. Incluam Giulio Andreotti, ex-ministro das Relaes Exteriores da Itlia e apontado, num documento que recebemos, 
como membro do Prieur de Sion. Incluam tambm a organizao oficialmente conhecida como Ordem Soberana e Militar do Templo de Jerusalm - isto , a organizao 
que se proclama hoje descendente em linha direta dos cavaleiros Templrios.

A Ordem dos Cavaleiros

A Ordem Soberana e Militar do Templo de Jerusalm, em sua forma atual, data de 1804, quando se anunciou publicamente e foi oficialmente reconhecida por vrias outras 
instituies. Ela reivindica, contudo, uma linhagem muito mais antiga. Segundo o que a prpria Ordem afirma, Jacques de Molay, o ltimo gro-mestre dos Templrios, 
deixou, quando de sua execuo em 1314, um carta designando seu sucessor . Embora oficialmente dissolvidos pelo papado, os Templrios se teriam perpetuado atravs 
dos sculos, em obedincia aos termos dessa carta. A autenticidade desse documento continua gerando controvrsias entre os historiadores, embora haja certo corpo 
de provas a seu favor. A questo nunca assumiu maior imporcincia porque a Ordem Soberana e Militar jamais reivindicou explicitamente qualquer tipo de poder, nem 
procurou ativamente recuperar as prerrogativas, privilgios e posses dos cavaleiros que proclama serem seus predecessores. Atualmente, ela se dedica sobretudo a 
pesquisas de antiguidades e obras de caridade. Seus procedimentos internos lembram, por vezes, certos ritos da franco-maonaria, por vezes os de outras ordens herldicas, 
como as do Velocino de Ouro, do Santo Sepulcro e de So Maurcio. Seu gro-mestre atual  o conde portugus Antnio de Fontes.
Em 1982, tivemos o primeiro de vrios encontros com um funcionrio da Ordem Soberana e Militar do Templo. Ao longo de nossas conversas, ele nos descreveu a luta 
de faces e o cisma que, na ltima dcada, reinara na instituio que ele representava. Uma faco dos membros havia-se desligado da Ordem para formar sua prpria 
ordem neo-Templria na Sua. Essa faco, por sua vez, gerara mais uma dissidncia, que, sob a liderana de Anton Zapelli, adotara um perfil novo e mais conspcuo 
e um programa mais agressivo. O quartelgeneral de Zapelli era tambm na Sua - em Sion. Constava que, entre os membros da organizao de Zapelli, havia vrias pessoas 
ligadas  Gr-Loja Alpina, da Sua, cujo nome aparecera anteriormente em alguns documentos do Prieur de Sion.
Nada disso teria qualquer interesse particular para ns, no fosse pelo fato de que j tnhamos encontrado o nome de Zapelli em outro contexto. Em 1979, na nossa 
primeira tentativa de entrar em contato com o Prieur de Sion e com o sr. Plantard, um informante em Paris o tinha mencionado. Nessa ocasio, Zapelli fora apontado 
como o verdadeiro poder por trs do Prieur de Sion - embora essa afirmao possa certamente ter sido fruto de simples confuso, j que a organizao templria de 
Zapelli tinha sede em Sion e se intitulava Grand Prieur de Suisse.
Impressionados com o reaparecimento do nome de Zapelli em conexo com a Ordem Soberana e Militar do Templo, aventamos a possibilidade de ele estar de fato relacionado 
ao Prieur. O representante da Ordem Soberana e Militar no sabia. Tinha conhecimento, disse, do Prieur de Sion. Dentro da sua prpria organizao, o Prieur de 
Sion era conhecido por sua atuao na Resistncia francesa durante a guerra. No tinha nenhum conhecimento, porm, de qualquer ligao que Zapelli pudesse ter com 
essa Ordem. Na verdade, declarou, ficaria muito grato se consegussemos descobrir e o informssemos. Parecia temer que o Prieur, trabalhando atravs de Zapelli, 
pudesse talvez estar tentando assumir o controle da sua prpria Ordem.
Quando perguntamos ao sr. Plantard se conhecia Zapelli, ele se limitou a dar um sorriso enigmtico, dizendo: "Conheo todo mundo." Mais tarde, contudo, chegou a 
ns um documento destinado a circular dentro da organizao de Zapelli. Nele se destacavam dois temas de interesse fundamental. Um eram negcios bancrios e finanas 
internacionais. Ao que parecia, em 1982 a organizao de Zapelli fundara seu prprio banco ou "sociedade de participao mtua". O outro tema de importncia capital 
era a Europa unida e "o papel dos Templrios modernos na unificao da Europa". Os Templrios originais, afirmava o documento de Zapelli, tinham-se empenhado em 
criar uma Europa unida. Seus sucessores atuais viam-se agora compelidos a emergir da sombra, a se dedicar a algo mais importante que meras antiguidades, envolver-se 
na poltica, trabalhar pela unidade europia e promover "o conceito europeu". A estrutura defendida por Zapelli era, em linhas gerais, similar  da Confederao 
Sua. A Europa era definida como se estendendo do Atlntico e do Mediterrneo at os Urais.
No encontramos qualquer prova confivel que ligasse Zapelli ao Prieur de Sion. Tampouco encontramos prova de ligao entre Zapelli e Licio Gelli ou outros membros 
da P2. Como estes, contudo, ele parece mover-se numa espcie de regio penumbrosa, em que sociedades secretas se misturam s altas finanas e  poltica pan-europia, 
em que as fronteiras nacionais no constituem obstculo e em que no vigora nenhuma regra legal definida. Resta ainda o fato de que o ndice dos arquivos de Licio 
Gelli revela que a P2 tem algum interesse na Ordem Soberana e Militar do Templo.

O papel preciso e o poder efetivo dos Templrios de hoje permanecem duvidosos. Por outro lado, h uma outra organizao, historicamente relacionada de maneira muito 
estreita com os T emplrios, cujo papel e poder so muito mais amplamente documentados e tangveis. Trata-se da organizao que foi tradicionalmente rival dos Templrios: 
a dos cavaleiros Hospitalrios de So Joo - ou, como hoje  conhecida a sua principal ramificao, a Soberana Ordem Militar de Malta.
A Ordem de So Joo teve origem em um hospital dedicado a So Joo, fundado em Jerusalm por mercadores italianos por volta de 1070, cerca de trinta anos antes da 
Primeira Cruzada, com a finalidade de servir aos peregrinos. Parece ter-se constitudo oficialmente como ordem por volta de 1100, logo aps a Primeira Cruzada, quando 
teve seu primeiro gro-mestre. Os Hospitalrios so portanto anteriores aos Templrios, mas de incio no estavam envolvidos em atividades militares, limitando-se 
ao trabalho do hospital. Em 1126, contudo, cerca de oito anos depois que os Templrios apareceram publicamente em cena, os Cavaleiros de So Joo j comeavam a 
assumir um carter cada vez mais militar, que logo iria eclipsar, embora no suplantar inteiramente, seus servios hospitalares. Nos anos que se seguiram, passam 
a representar, juntamente com os Templrios e mais tarde com os Cavaleiros Teutnicos, o maior poder militar e financeiro na Terra Santa, e um dos maiores em toda 
a cristandade. Como os Templrios, os Hospitalrios tornaram-se imensamente ricos. Sua ordem transformou-se numa vasta estrutura militar, eclesistica e administrativa, 
com centenas de cavaleiros, um exrcito permanente, numerosos servios subsidirios, uma rede de castelos e fortalezas e enormes extenses de terra, no s na Palestina 
como em todo o mundo cristo. Ao mesmo tempo, a Ordem permaneceu fiel s suas origens hospitalares, mantendo hospitais bem administrados e limpos, onde seus prprios 
mdicos atendiam.
Em 1307, os Templrios foram acusados de uma lista de ofensas contra a ortodoxia catlica, e em 1314 j tinham sido oficialmente extintos. Entre 1309 e sua secularizao 
em 1525, os Cavaleiros Teutnicos sofreram periodicamente acusaes semelhantes - embora seu teatro bsico de operaes, na Prssia e ao longo da costa bltica, 
os pusesse fora do alcance de qualquer autoridade disposta a atac-Ios. Em contrapartida, os Cavaleiros Hospitalrios de So Joo nunca incorreram nesse tipo de 
estigma. Continuaram a gozar das boas graas do papado. 'Na Inglaterra e, em menor grau, em outros pases, terras antes pertencentes aos Templrios lhes foram transferidas.

Aps a queda da Terra Santa em 1291, os Cavaleiros de So Joo recolheram-se durante algum tempo em Chipre. Depois, em 1309, estabeleceram sua sede e quartel-general 
na ilha de Rodes, que governavam como um principado exclusivo. Ali permaneceram por mais de dois sculos, resistindo a dois grandes cercos dos turcos. Finalmente, 
em 1522, um terceiro cerco forou-os a abandonar a ilha e, em 1530, eles se instalaram em Malta. Em 1565, Malta foi por sua vez sitiada pelos turcos numa das operaes 
mais audaciosas da histria militar. Numa defesa pica, 541 Cavaleiros Hospitalrios e sargentos, auxiliados por uma guarnio de cerca de 9 mil soldados montados 
e fortemente armados, repeliram os repetidos ataques de algo entre 30 e 40 mil homens. Seis anos mais tarde, em 1571, a esquadra da Ordem, juntamente com navios 
de guerra da ustria, Itlia e Espanha, obteve uma vitria decisiva na Batalha naval de Lepanto, dizimando definitivamente o poderio martimo dos turcos no Mediterrneo.
Os cercos de Rodes e Malta e a Batalha de Lepanto foram os pontos altos da histria dos Hospitalrios, sobrepujando at mesmo suas faanhas na Terra Santa durante 
as Cruzadas. Em meados do sculo XVI, eles ainda constituam uma das maiores potncias militares e navais do mundo cristo, com fora e recursos financeiros comparveis 
aos da maioria dos reinos. As sementes do declnio, porm, j haviam sido plantadas. Na Alemanha, Sua, Holanda, Esccia e Inglaterra, a Reforma protestante comeara 
a quebrar a unidade da Europa catlica; e as fissuras que surgiam por toda a cristandade ocidental eram espelhadas, em microcosmo, dentro da Ordem de So Joo. Os 
membros ingleses e alemes da Ordem a abandonaram e criaram suas prprias instituies. No sculo XVII, os cavaleiros que ainda residiam em Malta tinham sido deixados 
para trs pela mar da histria, formando um fervoroso enclave ainda apegado a preceitos cavaleirosos obsoletos, enquanto o resto da Europa avanava para a nova 
era do mercantilismo, da industrializao e da hegemonia das classes mdias.
Em 1798, no entanto, os cavaleiros continuavam em Malta, ainda que reduzidos  condio de um esquisito anacronismo, impotentes e dirigidos por um gro-mestre inepto, 
cuja fidelidade ao catolicismo estava corroda pela franco-maonaria. Foi ento que Napoleo varreu o Mediterrneo a caminho da sua desastrosa campanha no Egito. 
Os cavaleiros, que outrora tinham sido capazes de resistir aos turcos por quase dois sculos e meio, estavam agora incapazes de oferecer resistncia. Foram sumariamente 
expulsos por Napoleo, que reivindicou Malta para a Frana, s para perd-la de novo para a esquadra britnica comandada por Horatio Nelson. Para a Ordem de So 
Joo, seguiu-se um perodo confuso. Finalmente, em 1834, os cavaleiros puderam implantar.uma nova base para si em Roma. Apesar da perda de sua ilha ptria, adotaram 
o ttulo de Ordem de Malta para se distinguir das ordens protestantes de So Joo que ento comeavam a se formar na Inglaterra e na Alemanha. Voltaram a se dedicar 
ao trabalho hospitalar, o que, nos 150 anos seguintes, lhes valeu crescente prestgio. Logo aps a Segunda Guerra Mundial, antes da criao do Estado de Israel, 
chegou-se at a falar da entrega da soberania sobre Jerusalm aos Cavaleiros de Malta.
Em 1979, a Ordem contava 9.562 cavaleiros plenos, dos quais cerca de mil eram norte-americanos e mais de 3 mil italianos. 17 Atualmente, do seu quartel-general no 
Palazzo Malta, na Via Condotti, em Roma, os Cavaleiros de Malta mantm uma organizao hospitalar de abrangncia mundial. H um setor de primeiros socorros para 
atuar em casos de catstrofes naturais. Hospitais e leprosrios dirigidos pela ordem distribuem-se por vrios pases. E, como as ordens protestantes congneres de 
So Joo na Gr-Bretanha, Alemanha, Holanda e Sucia, a dos Cavaleiros de Malta tem seu prprio servio de ambulncias. Na Irlanda do Norte, as ambulncias da ordem 
inglesa de So Joo e as dos Cavaleiros de Malta esto nas ruas ao mesmo tempo, atendendo s necessidades dos respectivos credos e comunidades.
Pelas normas do direito internacional, a condio atual dos Cavaleiros de Malta  a de um principado soberano independente.18 O gro-mestre  reconhecido como chefe 
de Estado, com posio secular equivalente  de um prncipe e posio eclesistica correspondente  de um cardeal. A Ordem mantm relaes diplomticas formais com 
vrios pases, especialmente na frica e na Amrica Latina, e seus representantes nesses pases gozam dos privilgios diplomticos de praxe. Os graus mais elevados 
da Ordem mantm-se at hoje fastidiosamente aristocrticos. Os cavaleiros mais graduados tm de exibir um braso de pelo menos trezentos anos, em sucesso patrilinear 
ininterrupta.
Como j ter ficado evidente, a Ordem de Malta do sculo XX  idealmente talhada para o trabalho de espionagem. Sua rede de membros  internacional e bem organizada 
ao mesmo tempo. Seus hospitais e servios mdicos freqentemente a situam estrategicamente em locais crticos - como a Irlanda do Norte. Seus membros incluem de 
pessoal mdico e motoristas de ambulncia a importantes figuras da poltica, dos negcios e das finanas, que tm acesso a esferas em que sacerdotes comuns no penetrariam. 
Conseqentemente, os Cavaleiros de Malta se associaram estreitamente ao servio de informaes do prprio Vaticano. A Ordem parece no ter sido hostil a tal associao. 
Ao contrrio, parece ter visto com bons olhos a oportunidade de retomar, num nvel clandestino, o papel que comeara a desempenhar pela primeira vez no sculo XII 
- o de ponta-de-lana de uma cruzada.
Acredita-se hoje que a Ordem de Malta  um dos principais canais de comunicao entre o Vaticano e a CIA. H amplos indcios para tal assero. Em 1946, James Angleton 
- ex-membro do OSS e ento chefe do posto da CIA em Roma, que atravs de sua agncia canalizou milhares de dlares para os democratas-cristos italianos - recebeu 
uma condecorao da Ordem de Malta por trabalhos de contra-informao. Igualmente condecorado foi Luigi Gedda, o chefe do grupo chamado Ao Catlica, que serviu 
de elo entre a CIA, o Movimento Europeu de Joseph Retinger e o futuro papa Paulo VI. Em 1948, os Cavaleiros de Malta conferiram sua mais elevada condecorao, a 
GrCruz do Mrito, ao general Reinhard Gehlen, chefe do servio secreto da Alemanha Ocidental, que na poca era praticamente um departamento da CIA. Anteriormente, 
Gehlen tinha comandado os servios de informao de Hitler para a Rssia. Vemos assim que desde fins da dcada de 1940 a Ordem de Malta j se envolvia na guerra 
secreta contra o comunismo que comeava a se intensificar por toda a Europa.
O trabalho da Ordem no plano da informao deve ter sido naturalmente facilitado pela presena em suas fileiras de alguns funcionrios norte-americanos de alto escalo. 
 medida que a Guerra Fria se intensificava, o contingente norte-americano da Ordem cresceu consideravelmente. A mais influente figura desse contingente foi, mais 
uma vez, o cardeal Francis Spellman, de Nova York - que havia trabalhado para a CIA na Guatemala e cuja rede de colaboradores pessoais levava diretamente  P2. Spellman 
tornou-se "Protetor e Conselheiro Espiritual" dos cavaleiros americanos. Tornou-se tambm, de fato, seu chefe. Nessa condio, angariou fabulosas somas de dinheiro, 
uma vez que cada cavaleiro institudo a cada ano devia pagar 10 mil dlares como taxa de alistamento. Afirmou-se que somente uma parcela desse dinheiro foi um dia 
remetida para a Ordem em Roma, tendo sido a maior parte desviada para outros fins. Spellman estava associado tambm a um cardeal que, nos anos 50, fez uma tentativa 
de pr a Ordem a servio de seus prprios objetivos polticos.
No  raro que diretores da CIA sejam cavaleiros de Malta. John McCone, por exemplo, foi um deles. O atual diretor da agncia, William Casey, tambm. Consta que 
o ex-diretor William Colby foi convidado para ingressar na Ordem, mas teria declinado com as seguintes palavras: "Sou muito precavido. "22 Entre os membros da Ordem 
atualmente incluem-se William Wilson (embaixador dos Estados Unidos no Vaticano), Clare Boothe Luce (ex-embaixador dos Estados Unidos na Itlia), George Rocca (ex-subchefe 
de contra-informaes da CIA) e Alexander Haig.
Mas no  apenas nessas prestigiosas esferas dos Estados Unidos que a Ordem recruta seus membros. Licio Gelli, gro-mestre da P2, est ligado  Ordem, provavelmente 
como cavaleiro, embora isso no possa ser confirmado no momento. No entanto, o colaborador mais prximo de Gelli, Umberto Ortolani,  cavaleiro de Malta e serviu 
como embaixador da Ordem no Uruguai, onde foi dono de um banco. Tambm cavaleiros so Alexandre de Marenches (ex-chefe do servio francs de informaes), os generais 
Lorenzo e Allavena (ex-chefes do Servio Secreto Italiano), o general Giuseppe Santovito (ex -chefe do servio militar de informaes italiano) e o almirante Giovanni 
Torrisi (chefe do Estado-Maior italiano). Os trs ltimos foram tambm membros da P2. 
Evidentemente, seria equivocado e injusto ver a Ordem de Malta como mero "instrumento da CIA". A ordem continua sendo uma instituio autnoma, empenhada em trabalhos 
filantrpicos e diplomticos prprios, em grande parte louvveis. Existe, contudo, um convincente conjunto de provas que atesta seu envolvimento em atividades de 
informao. Parte dessa atividade nem sequer decorre necessariamente da linha de ao oficial da ordem. Assim, por exemplo, um cardeal e um alto funcionrio da rea 
de informao que por acaso sejam cavaleiros podem se encontrar num ou noutro servio social da Ordem. Um pode apresentar o outro a um banqueiro influente ou a um 
poltico destacado. Desse modo, um projeto pode ser implementado e coordenado no mais alto nvel, sem diretrizes oficiais, sem instrues por escrito ou procedimentos 
formais que poderiam em ltima anlise exigir prestao de contas. No haveria nenhuma escriturao reveladora para ser descoberta mais tarde - escriturao que 
muitas vezes pode ser comprometedora e que  notoriamente difcil eliminar sem deixar vestgios. Assim como as lojas da maonaria, a Ordem de Malta, por sua prpria 
natureza, conduz a processos desse tipo. Funciona, de fato, como um canal ideal. E a sua margem de manobra  ampliada pelo seu prestgio diplomtico, seu perfil 
relativamente discreto, sua rede internacional e o respeito gerado por suas atividades humanitrias.
A situao atual na Amrica Central  considerada por alguns comentaristas indicativa do modo com a Ordem de Malta pode ser utilizada - indicativa, na verdade, do 
modo como qualquer organizao do gnero pode ser subordinada aos objetivos desta ou daquela ideologia poltica. O atual chefe da Ordem nos Estados Unidos  um destacado 
homem de negcios, J. Peter Grace. Antes de 1971, Grace estava ligado  Radio Liberty e  Radio Free Europe, ambas fundadas por Reinhard Gehlen e financiadas pela 
CIA. Hoje, Grace - entre cujos auxiliares est um outro cavaleiro de Malta, William Simon, ex-secretrio do Tesouro dos Estados Unidos - dirige uma organizao chamada 
Americares, cujo conselho diretor preside. Um objetivo bsico da Americares  levantar dinheiro para auxlio  Amrica Central. A agncia encarregada de distribuir 
esse auxlio  a Ordem de Malta, trabalhando atravs de suas ramificaes em EI Salvador, Guatemala e Honduras.
Ao mesmo tempo, a Americares parece ter alguns interesses em comum com a World Anti-Communist League (Liga Anticomunista Mundial), hoje dirigida pelo ex-general-de-diviso 
John Singlaub, afastado em 1978 por desafiar o presidente. Quando a Casa Branca fracassou na tentativa de obter o apoio do Congresso para financiar os contras na 
Nicargua, Ronald Reagan obteve o apoio da World AntiCommunist League e de outras entidades. A organizao de Singlaub passou a fornecer abertamente aos contras 
dinheiro e implementos. Jornalistas americanos indagaram legitimamente que proporo desse dinheiro e implementos  na verdade fornecida pela Americares de Peter 
Grace e distribuda atravs dos Cavaleiros de Malta. Se essa colaborao existe em alguma medida, resta perguntar se Grace e a Americares esto simplesmente explorando 
os Cavaleiros de Malta, ou se a Ordem est envolvida como um todo, por fora das suas prprias diretrizes.
o fator desconhecido
No nosso encontro com o sr. Plantard em outubro de 1984 - quando, sem que soubssemos disso naquele momento, ele no estava mais falando como gro-mestre do Prieur 
de Sion - a Ordem de Malta foi mencionada. O Prieur de Sion, disse o sr. Plantard - com uma ponta de ressentimento, ao que nos pareceu -, contava alguns Cavaleiros 
de Malta entre seus membros. Isso no nos pareceu muito surpreendente. quela altura, j havamos descoberto que os Cavaleiros de Malta pareciam estar em toda parte. 
Por que no tambm no Prieur de Sion? De fato, o padre Franois Ducaud-Bourget - que era publicamente apresentado como tendo sido gro-mestre do Prieur de Sion 
e patrocinara o ingresso do sr. Plantard na Ordem, segundo declarao do prprio - fora, de 20 de setembro de 1947 a 18 de novembro de 1961, capelo dos Cavaleiros 
de Malta. Dada a ligao dos Cavaleiros com o OSS durante a guerra, esse papel parecia perfeitamente condizente com as atividades do padre em prol da Resistncia 
francesa - mesmo quando estava baseado em Paris, conseguia fornecer armas a grupos desta, feito recompensado aps a guerra com uma medalha da Resistncia.
A imprensa francesa, num breve artigo sobre a eleio do sr. Plantard como gro-mestre em 1981, afirmara: "Os 121 altos dignitrios do Prieur de Sion so todos 
eminncias pardas das altas finanas e de organizaes internacionais polticas ou filosficas." Algo muito parecido podia sem dvida ser dito sobre os Cavaleiros 
de Malta. Em virtude da natureza intrnseca das duas ordens, seria de esperar que ambas atuassem praticamente na mesma esfera, o submundo penumbroso para o qual 
convergem a poltica, as fmanas, a religio e o trabalho de vrias agncias de informao. No havia dvida, tambm, de que a Ordem de Malta e o Prieur de Sion 
tinham certos interesses e certos objetivos em comum. Ambas as ordens, embora talvez por razes diferentes e com prioridades diversas, pareciam empenhadas na criao 
de algum tipo de Estados Unidos da Europa. E, se admitssemos a autenticidade da linhagem do Prieur, as histrias de ambas tinham sido estreitamente entrelaadas. 
Ambas reivindicavam uma herana que remontava s Cruzadas, e por fora dessa herana seus caminhos se teriam cruzado em vrios pontos ao longo dos sculos seguintes. 
Ambas eram explicitamente instituies da neocavalaria, e seria de se esperar que uma ocupasse lugar de destaque nos arquivos da outra. Seria de se esperar que uma 
tivesse antiga familiaridade com a outra e, provavelmente, considervel conhecimento dos segredos da outra. Esse passado partilhado teria, por si s, criado inevitavelmente 
algum vnculo entre elas.
Ao mesmo tempo, deve ter havido alguns pontos cruciais de disputa entre as duas ordens. Os Cavaleiros de Malta tinham-se mantido sempre inabalavelmente leais ao 
papado e  Igreja Catlica, e essa lealdade persiste at hoje. O Prieur, por outro lado, se apresentava tradicionalmente como hostil ao Vaticano e, de fato, parecia 
ter um papado prprio, alternativo. Alm disso, na qualidade de guardio de uma linhagem descendente da Casa de Davi atravs de Jesus ou de sua famlia, o Prieur 
tendia naturalmente a ser percebido como inimigo pela Igreja. Suas respectivas posies em face de Roma, portanto, situariam necessariamente o Prieur e a Ordem 
de Malta como adversrios.
Era possvel tambm que houvesse uma disputa entre as duas ordens em torno de prioridades e palcos de operao atuais. Pelo menos na concepo do sr. Plantard, a 
esfera prpria de interesse do Prieur parecia residir basicamente na Europa. Embora os Cavaleiros de Malta conservassem obviamente um interesse vital pela Europa, 
ultimamente grande parte de sua energia - como a da Opus Dei, da P2 e da CIA - fora desviada para a Amrica Latina. Pelo menos em certo sentido, os Cavaleiros de 
Malta tinham sido parcialmente cooptados pela CIA. Se o Prieur de Sion inclua em suas fileiras alguns cavaleiros de Malta, no temeria cair por sua vez no controle 
deles? Quem sabe o sr. Plantard se teria deixado perturbar, talvez a ponto de optar pela renncia, por elementos de dentro da Ordem que defendiam um desvio da ateno 
da Europa para a Amrica Latina? E quem sabe esses elementos, que talvez inclussem alguns Cavaleiros de Malta, constituiriam o tal "contingente anglo-americano" 
a que o sr. Plantard culpara pela gerao de dissenses nas fileiras do Prieur?
Fosse isso verdade ou no, restava um outro grande ponto de divergncia entre o Prieur de Sion e a Ordem de Malta: o mao de pergaminhos encontrados por Brenger 
Sauniere em Rennes-le-Chteau em 1891. Na medida em que fossem ser comprometedores para o papado, tendo talvez at ajudado o Prieur na sua luta clandestina com 
o Vaticano, esses pergaminhos seriam do interesse dos Cavaleiros de Malta. Segundo declaraes do prprio Prieur, os pergaminhos em questo tinham sido obtidos 
e trazidos para a Inglaterra "por meio de fraude" e ido parar nos arquivos dos Cavaleiros de Malta. 
Na tentativa de seguir a pista dos pergaminhos de Sauniere, ns nos tnhamos encontrado num desnorteante labirinto de fraudes, pistas falsas, documentos falsificados, 
assinaturas forjadas e desinformao cuidadosamente disseminada. Tnhamos chegado  inescapvel concluso de que alguma outra agncia estava envolvida - de que nos 
havamos metido, sem perceber, no meio de uma luta invisvel entre o Prieur e mais algum. De incio, tendemos a suspeitar do envolvimento de um ou outro servio 
de informao. Mas por que no podia tratar-se dos Cavaleiros de Malta? Ou quem sabe de algum servio de informao que atuasse atravs deles? Evidentemente, no 
podemos confirmar nossas suspeitas. Mas continua havendo uma incgnita na equao.  impossvel no conjeturar que esse fator pode ser a Ordem de Malta, agindo no 
interesse de outrem ou no seu prprio interesse.

EPLOGO

Tentamos saber mais sobre o Prieur de Sion nos dias de hoje. Buscamos apurar algo de preciso sobre seus membros, seu poder e seus recursos, seus objetivos especficos. 
A certa altura, alimentamos a esperana de conseguir chegar ao centro do labirinto, no necessariamente para destruir o Minotauro que porventura ali se emboscasse, 
mas pelo menos para encar-lo. Ao mesmo tempo, no entanto, no podamos escapar  lamentvel constatao de que freqentemente nos vamos sendo manobrados por indivduos 
que conseguiam, com grande sutileza e habilidade, estar sempre um passo  nossa frente.
No h dvida de que o Prieur existe. Suas atividades, como as de seu ex-gro-mestre, so objeto de registro histrico. A revista Vaincre foi publicada durante 
a guerra, e provavelmente parecia to enigmtica s autoridades alems quanto nos parece hoje. A Alpha Galates gozou de alguma forma de existncia, e parece ter 
reunido pessoas como Hans Adolf von Moltke. Por arredio e misterioso que seja, o sr. Plantard exerceu uma influncia muito real e esteve associado a pessoas como 
Cocteau, Malraux, Juin e De Gaulle. Indcios documentais tornam impossvel duvidar tanto do papel que o sr. Plantard exerceu nos Comits de Salvao Pblica como 
do papel que estes, por sua vez, exerceram na volta de De Gaulle ao poder em 1958. ~a verdade, o retorno de De Gaule ao poder comprova a atividade de um aparelho 
extremamente sofisticado, engenhoso, bem-organizado e disciplinado, com experincia em manobras polticas.
Aos nossos olhos, a principal dvida diz respeito no  existncia ou  natureza do Prieur, mas s suas atividades atuais e s ligaes que parece manter hoje. 
Essas companhias no seriam pelo menos em parte claramente insalubres? E no teria o Prieur, a despeito dos elevados objetivos que professa, se sujado e corrompido 
com isso?'
Como pode uma organizao que se relaciona com congneres da P2 manter a sua prpria integridade? E como conciliar uma organizao como essa com a imagem de si mesma 
que o Prieur procura projetar?

Mas talvez tenha sido ingenuidade nossa esperar qualquer coisa de diferente. Afinal, alianas desse tipo esto longe de ser novidade na histria do Prieur. Pelo 
que pudemos investigar, nem o Prieur nem seus gro-mestres jamais se esquivaram  ndoa do poder poltico. Ao contrrio, tanto a Ordem quanto sua hierarquia dirigente 
parecem ter estado, ao longo dos sculos, constantemente envolvidos em maquinaes e intrigas. No sculo XVI, durante as guerras de religio, por exemplo, e no sculo 
XVII, durante a insurreio conhecida como Fronda, o Prieur claramente tirou partido de todos os recursos, de todos os acordos possveis na poca. Foi, em suma, 
"realista". Para sobreviver, lanou mo das mesmas medidas e tcnicas costumeiramente usadas por outras organizaes e instituies que operam no "mundo real" - 
inclusive a Igreja Catlica.
Se o Prieur de hoje opera num submundo insalubre, fazendo alianas  custa de concesses, sacrificando ideais a convenincias, isso no significa que tenha sido 
corrompido recentemente. Significa simplesmente que a Ordem est fazendo o que dela se podia esperar, e provavelmente no  hoje nem mais nem menos corrupta do que 
foi no passado. A sobrevivncia, para uma organizao como o Prieur de Sion, obriga necessariamente a sujar as mos com o poder poltico. Admitindo-se que o envolvimento 
com o poder poltico  at certo ponto sinnimo de corrupo, o Prieur sempre foi corrupto. Igualmente corrupta foi a maioria das instituies do gnero que no 
se deixaram sucumbir por fora da prpria pureza. Como vimos, os Cavaleiros de Malta esto sujeitos s mesmas acusaes que podem ser lanadas contra o Prieur, 
como tambm, alis, o Vaticano, tanto no passado quanto no presente. Pode ser que o papa Joo Paulo II, a despeito da sua intransigncia dogmtica, esteja pessoalmente 
acima de crticas. Mas uma nuvem paira sobre o prprio Vaticano. Na verdade, o desmascaramento da P2, o escndalo em torno do Banco Ambrosiano e a misteriosa morte 
de Roberto Calvi - o "Banqueiro de Deus" - demonstram todos que a hierarquia e a administrao do Vaticano esto operando precisamente nas mesmas esferas suspeitas, 
clandestinas, subterrneas que a Ordem de Malta e, ao que parece, o Prieur de Sion. Se o Prieur est corrompido, o Vaticano no fica atrs.
Se tivessem ocorrido num governo democrtico no estilo ocidental, as atividades do Vaticano no ltimo quarto de sculo teriam indubitavelmente dado lugar a uma grande 
investigao, e provavelmente  queda de um governo. No caso de Roma, contudo, essas atividades causaram apenas perturbaes superficiais, e a prpria Igreja permaneceu 
fundamentalmente inabalada. No s isso. Ela continua a desempenhar sua funo pastoral tradicional. Continua sendo capaz de proporcionar alvio e conforto. Em certas 
reas do mundo - por exemplo, na Amrica Latina, na Polnia e na Thecoslovquia, nas Filipinas -, ela pode representar um farol da liberdade e da esperana. E, embora 
seu rebanho possa estar minguando, sobretudo no Ocidente, ela ainda  capaz de constituir para ele um repositrio de confiana e significado.
A questo  que, sob os acordos srdidos da hierarquia temporal da Igreja em qualquer poca dada, permanece o que se pode chamar de "a igreja arquetpica", a estrutura 
concebida como uma "barca", como "uma arca a arrostar o mar do tempo". Por trs de todas as vicissitudes passageiras permanece um ideal, uma estrutura de princpios 
elevados, uma "comunho de almas", que por sua prpria natureza  imune  corrupo. A idia da Igreja permanecer inconspurcada, sejam quais forem as atividades 
do Vaticano ou do papado. Um papa como Alexandre VI, por exemplo, pode ter cometido todos os crimes, da simonia ao incesto e ao assassnio. Pode ter gracejado cinicamente, 
dizendo que "esse mito de Cristo nos foi bastante til". A despeito de tudo isso, continuou sendo "o vigrio de Cristo na Terra".
Algo similar se aplica ao Prieur de Sion. Como o papado, o Prieur de Sion tem sculos de sujeira em suas mos, e ultimamente parece ter adquirido novas crostas 
de imundcie. No entanto, assim como a Igreja arquetpica, por trs do papado, permanece por trs do Prieur de Sion uma concepo igualmente elevada - a de uma 
cabala cavaleirosa arquetpica. Sejam quais forem suas atividades num dado momento, o Prieur ideal, como a Igreja ideal, permanece superlativamente sobranceiro 
e imune. Nesse nvel superior, o Prieur no  uma mera sociedade secreta a tramar e conspirar nos bastidores com outras sociedades secretas.  antes o guardio 
voluntrio de uma tradio sublime, que muita gente est ansiosa por abraar.  tambm, em sua nfase na cavalaria, a encarnao de um cdigo de conduta considerado 
capaz de ligar a humanidade ao divino.
A doutrina da cavalaria, tal como promulgada pelo Prieur de Sion,  realmente arquetpica. No esteve presente apenas na cavalaria da Europa crist durante a Idade 
Mdia. Pode ser encontrada em instituies to diversas como o patriciado da antiga Esparta, o Ramo Vermelho da antiga Ulster pr-crist, as comunidades guerreiras 
de tribos como os sioux e os cheyennes do Oeste americano, os samurais do Japo - e os sicarii ou zelotes do tempo de Jesus. Todas essas instituies eram reguladas 
e governadas por um cdigo que no era apenas tico ou moral, mas cosmolgico - um cdigo que visava pr a atividade humana em harmonia com a ordem do cosmo. Envolviam 
uma disciplina no apenas social e militar, mas tambm espiritual. Pretendia-se que, em virtude dessa disciplina, o adepto agiria de acordo com a lei divina.
Como dissemos na Parte II deste livro, a poltica  atualmente, em grande parte, uma questo de embalagem convincente. Se bem apresentada - isto , de maneira a 
aplacar ansiedade e suscitar confiana -, a cavalaria pode exercer forte atrao sobre a mentalidade contempornea. Pode proporcionar ritual, cor, pompa e espetculo 
a um mundo cada vez mais desprovido dessas coisas e cada vez mais atormentado por sua ausncia. Pode dar sentido de continuidade a um mundo que se sente desligado 
do passado e sem razes. Pode oferecer dignidade e grandeza a pessoas cada vez mais oprimidas pela convico da sua prpria pequenez e insignificncia. A indivduos 
incomodados com a prpria impotncia, solido e isolamento, a cavalaria pode oferecer a perspectiva de pertencer, de integrar uma comunidade, de participar de um 
empreendimento fraterno elevado. Pode atender ao desejo secreto que a maioria das pessoas alimenta de participar de uma "elite", por mais ultrapassada que esta palavra 
possa ser hoje. Pode oferecer uma hierarquia de valores e um cdigo de conduta no arbitrrios ou casuais, mas construdos sobre um fundamento tradicional sagrado 
- um fundamento que pretende representar um padro ou plano divino. Pode oferecer um canal ritual, e por isso sancionado, de expresso emocional. Assim, a cavalaria 
pode ser transformada num principio de coerncia e num repositrio de confiana e sentido. Nas circunstncias apropriadas,  possvel confiar nela e, de volta, obter 
sentido. O poder de uma cavalaria ressurrecta foi ilustrado durante a Segunda Guerra Mundial no Japo, onde o cdigo samurai do Bushido infundiu um principio norteador 
em toda uma cultura, o que culminou nos camicases e no seu - aos olhos ocidentais - aterrador "fanatismo".
Embora acentuadamente menos beligerante e militarista, o Prieur de Sion est particularmente bem equipado para se apresentar como um veculo de ideais cavaleirescos. 
Est tambm particularmente bem equipado para se apresentar como algo mais que isso. Diferentemente de muitas outras instituies sociais, polticas e religiosas, 
o Prieur, como observamos na Parte II deste livro, tem considervel sofisticao psicolgica. Compreende a profundeza e a magnitude das necessidades internas da 
humanidade. Sabe como manipular arqutipos - imagens e temas arquetpicos - de modo a dot-los da mxima atratividade.
Um dos smbolos arquetpicos de maior ressonncia, por exemplo,  o do roi perdu, ou "rei perdido" - o monarca auxiliado por foras sobrenaturais que, tendo concludo 
sua misso na terra, em vez de morrer propriamente, muda-se para outra dimenso e ali aguarda o momento em que a necessidade do povo ditar o seu retomo. Os falantes 
da lngua inglesa conhecem esse arqutipo atravs do rei Artur. No Pas de Gales, Owen Glendower se encaixa no mesmo padro, assim como Frederico Barba-Roxa na Alemanha. 
O roi perdu que figura com mais relevo nos mitos do Prieur de Sion  Dagoberto II, o ltimo verdadeiro monarca merovngio. Dagoberto  apresentado pelo Prieur 
de tal modo que sua imagem se funde na mente das pessoas com a do supremo rei perdido, o prprio Jesus. Num nvel psicologicamente simblico, afora qualquer questo 
de descendncia sangnea, .Dagoberto se torna uma extenso de Jesus. Uma vez estabelecida essa ligao psicolgica, mesmo que inconscientemente, a idia de uma 
descendncia literal e histrica toma-se muito mais facilmente propagvel.  exatamente por meio de tcnicas desse tipo que o mistrio associado a Rennes-le-Chteau 
assumiu tamanha atrao magntica, no s para ns autores como para os nossos leitores.
O Prieur compreende tambm a ntima relao existente entre confiana e poder. Compreende a fora do impulso religioso e sabe que esse impulso, se insuflado e canalizado, 
 uma fora potencialmente to grande quanto, digamos, o dinheiro - de fato, grande a ponto de representar talvez um princpio altemativo de poder. Finalmente, o 
Prieur de Sion sabe como se vender, sabe como passar uma imagem de si condizente com seus objetivos. Como dissemos antes,  capaz de orquestrar e regular a percepo 
que o pblico em geral tem dele como uma cabala arquetpica, seno como a suprema cabala arquetpica. Seja qual for, em ltima anlise, a autenticidade da sua linhagem, 
ele  capaz de transmitir a impresso de ser o que deseja que as pessoas pensem que , porque compreende a dinmica pela qual essas impresses se transmitem.
Mas sofisticao psicolgica e talento para fazer o prprio marketino no so os nicos pontos que o Prieur de Sion tem a seu favor. Em 1979, o sr. Plantard nos 
disse, de maneira bastante categrica, que o Prieur estava de posse do tesouro do Templo de Jerusalm, saqueado pelos romanos durante a revolta de 66 d. C. e depois 
transportado para as vizinhanas de Rennes-le-Chteau, no sul da Frana. O tesouro, afirmou o sr. Plantard, seria devolvido a Israel "no momento certo". Se o Prieur 
realmente possui o tesouro do Templo e  capaz de exibi-la hoje, as implicaes so assombrosas. No seria apenas um fenmeno arqueolgico que eclipsaria descobertas 
como as das runas de Tria. Teria tambm incalculveis repercusses religiosas e polticas no mundo contemporneo. Qual seriam, por exemplo, as implicaes para 
o Estado de Israel atual, bem como para o judasmo e o cristianismo, se - com base nos registros ou outras evidncias provenientes do T empIo de Jerusalm - Jesus 
fosse confirmado como o Messias? No o messias da tradio crist posterior, mas o Messias esperado pelo povo da Palestina 2 mil anos atrs - isto , o homem que 
era o legtimo rei da sua nao, que se casou, teve filhos e, quem sabe, absolutamente no morreu na cruz. Os fundamentos das duas maiores religies do mundo, e 
possivelmente tambm os do islame, no ficariam abalados? As diferenas entre o judasmo e o cristianismo no seriam abolidas de um sgolpe, e pelo menos parte da 
animosidade do islame?
Seja como for, e deixando de lado o tesouro do Templo, o Prieur de Sion pode fazer uma reivindicao que gozaria de considervel aceitao, mesmo no mundo de hoje. 
No interesse das famlias que representa, pode revelar uma sucesso dinstica que remonta at a Casa de Davi do Antigo Testamento. Pode demonstrar, de maneira bastante 
definitiva e atendendo aos requisitos da mais exigente investigao genealgica, que a dinastia merovngia pertencia  linhagem davdica - tendo sido formalmente 
reconhecida como tal pelos carolngios, que lhes sucederam, por outros monarcas e pela Igreja catlica da poca. Auxiliado pelas modemas tcnicas de relaes pblicas, 
propaganda e venda, o Prieur poderia apresentar assim ao mundo contemporneo uma pessoa que - segundo a mais estrita definio desse termo nas Escrituras - teria 
o direito de se dizer um Messias bblico. Isso pode parecer absurdo. Mas certamente no  mais absurdo que, digamos, a crena das dezenas de milhares de norte-americanos 
que esperam ser "arrebatados" de seus carros para o cu em vrios pontos da freeway entre Pasadena eLos Angeles.
Isso no significa,  claro, que podemos esperar ver qualquer dia desses o Prieur numa entrevista coletiva, acompanhado pelo costumeiro circo da mdia. Provavelmente 
no veremos, no momento, qualquer tipo de anncio pblico. Uma descendncia direta da Casa de Davi - ou, se isso puder ser provado, de Jesus e sua famlia - jamais 
poderia ser usada em si mesma como degrau para a obteno de poder secular. O prieur de Sion e/ou a linhagem merovngia jamais poderiam simplesmente se revelar, 
divulgar sua identidade e confiar no fervor popular para fazer o resto. Haveria cticos demais. Haveria gente demais que simplesmente no estaria interessada. Mesmo 
entre as pessoas dispostas a reconhecer a legitimidade da descendncia merovngia, haveria opositores demais - muita gente que, independentemente de sua afiliao 
religiosa, no teria maior desejo de ser governada por um Messias do que por qualquer outra pessoa. E muitos homens que j esto no poder, ou manobrando para obt-lo, 
estariam muito pouco dispostos a acolher de bom grado um novo desafio na arena. Em 679, a Igreja catlica, traindo o pacto feito com Clvis um sculo e trs quartos 
antes, participou com conhecimento de causa da trama para assassinar Dagoberto II. Seria possvel esperar seriamente dos que detm ou buscam poder hoje no mundo 
algum grau maior de remorso, de escrpulos inibidores? Mais uma vez,  impossvel no lembrar da parbola do Grande Inquisidor de Dostoievski.
Alm disso,  improvvel que o prprio Prieur tenha algum desejo de criar perturbao. Se nossa avaliao  correta, seu objetivo  criar os Estados Unidos da Europa, 
sob regime monrquico ou imperial, e no uma situao de caos em que as instituies atuais seriam comprometidas, solapadas ou destrudas. Pelo que podemos discernir, 
o Prieur nada tem a ganhar com uma revoluo, seja poltica ou de qualquer outro tipo. Ao que parece, estaria muito mais interessado em "herdar" uma ordem j estabelecida, 
ou talvez em assumir o controle dela, para transform-la gradualmente a partir de dentro - de modo a causar o mnimo de agitao, o mnimo de desorientao, o mnimo 
de tumulto. Isso imporia, necessariamente, uma conduta de infiltrao discreta, e no de contestao aberta - uma conduta como a que caracteriza organizaes como 
a P2 e a Opus Dei.
Por todas estas razes, portanto, uma linhagem no pode ser usada como degrau para a obteno do poder. Ela  antes um trunfo a ser usado apenas quando o poder j 
tiver sido obtido. Um homem no pode dizer "Vejam quem eu sou" e esperar, com base nisso, ser eleito ou promovido a papa, presidente, rei ou imperador. Mas se j 
fosse papa, presidente, rei ou imperador, estabelecido com mais ou menos segurana como tal, poderia ento dizer "Vejam quem eu sou", e com isso no s consolidar 
sua posio mas tambm revesti-la de uma nova aura, uma nova credibilidade, um novo e mais profundo significado.
Conseqentemente, no que diz respeito ao futuro imediato,  pouco provvel que o Prieur tome qualquer medida repentina, chocante ou sensacional.  muito mais provvel 
que continue se valendo das tcnicas que lhe serviam com maior ou menor eficcia no passado e das famlias que a ele tm estado associadas, como a casa de Lorena. 
Essas tcnicas incluiriam um programa de infiltrao gradual e metdica, mas discreta, nas instituies existentes. Incluiriam uma rede de casamentos interdinsticos 
de alto nvel a atrair certas famlias influentes - no s reais e aristocrticas, mas tambm envolvidas na poltica, nas fmanas e na mdia - para o seu "aprisco". 
Incluiriam tambm a manipulao de arqutipos, de modo a promover uma atmosfera favorvel  implementao de certos objetivos a longo prazo. Assim, para tomar um 
exemplo extremo, um golpe de Estado repentino que restaurasse a monarquia na Grcia, digamos, ou em Portugal seria contraproducente. Mesmo que isso fosse exeqvel, 
muita gente se oporia e muita gente ficaria indiferente, vendo nisso apenas mais uma mudana de regime, a ser aceita com maior ou menor aprovao ou ceticismo. Por 
outro lado, se uma figura monrquica carismtica fosse sensacionalmente conduzida ao poder por uma mar de aclamao popular, seu poder seria completamente diferente.
Desde a Primeira Guerra Mundial e a queda da maioria das dinastias reinantes na Europa, a democracia republicana tomou-se a norma geral na sociedade ocidental. Como 
vimos, no entanto, a monarquia no perdeu nem seu apelo arquetpico nem sua utilidade puramente funcional. Durante a Segunda Guerra Mundial, Churchill, ao lado de 
muitos outros, via o colapso do sistema monrquico como um dos fatores preponderantes da ascenso do totalitarismo e, em especial, do fenmeno do nazismo. Consta 
que, em discusses secretas, ele e Roosevelt teriam concordado em que a restaurao da monarquia era o melhor meio no s de recompor a Europa estilhaada do aps-guerra, 
mas tambm de assegurar o no-ressurgimento das tendncias que tinham culminado no Terceiro Reich. Cogitaram da restaurao dos Habsburgos no trono da ustria e 
talvez da Hungria, com Oto de Habsburgo presidindo uma espcie de confederao imperial do Danbio. Segundo o prprio Oto de Habsburgo, discutiram tambm a possibilidade 
de fazer de lorde Louis Mountbatten o imperador de uma nova confederao alem.        .
Alis, o sonho da restaurao monrquica no declinou, mesmo nos nossos dias. Na Espanha, o rei Juan Carlos est entrando na segunda dcada de seu reinado, presidindo 
a primeira democracia que seu pas conheceu depois de cerca de 35 anos, e essa soluo at agora tem-se mostrado bem-sucedida. Na Frana, os movimentos monarquistas 
continuam to vigorosos como sempre, ao mesmo tempo em que o prprio presidente assume uma postura cada vez mais majesttica. A ex-imperatriz Zita, me de Oto Habsburgo, 
uma mulher agora na casa dos oitenta anos, sempre que visita Viena atrai multides que a aclamam com a deferncia geralmente reservada ao papa. Em 1984 e 1985, certos 
jornais voltaram a especular sobre uma possvel restaurao Habsburgo na ustria.

Se a prpria monarquia continua exercendo tamanho apelo, quanto no poderia esse apelo ser aumentado se um monarca ou aspirante a monarca pudesse tambm se proclamar, 
em estrita conformidade com o significado original do termo, um Messias?
Ns, os autores, no desejamos ser vistos como proslitos ou propagandistas do Prieur de Sion. Na verdade, suspeitamos do Prieur de Sion. Se vemos com simpatia 
alguns dos seus objetivos tericos, somos claramente cticos, ou mesmo desconfiados, em relao a outros. E, deixando de lado todas as consideraes tericas, resta 
o fato de que toda concentrao de poder nas mos de um pequeno grupo de indivduos - especialmente um grupo de indivduos que opera basicamente em segredo -  potencialmente 
perigosa.  um trusmo o fato de que os maiores crimes e atrocidades da Histria foram em sua maioria perpetrados por pessoas que agiam segundo o que acreditavam 
ser as melhores intenes. Preferiramos ver pessoas criando uma noo de sentido a partir do seu prprio ntimo a v-las aceitar uma noo proposta a partir de 
fora, por mais nobre ou louvvel que parea.
Nossa poca, no entanto, parece decidida a abraar uma ou outra forma de mito messinico para obter uma noo de sentido. Se isso for inevitvel, preferiramos ver 
um Messias mortal presidindo uma Europa unida a ver um Messias sobrenatural presidindo o Armagedon. O Prieur de Sion no pode fornecer um Messias no sentido que 
a palavra assumiu erroneamente para, digamos, os fundamentalistas americanos. Temos nossas suspeitas de que s o departamento de efeitos especiais de um estdio 
de Hollywood possa faz-lo. Mas se estivermos certos em nossas avaliaes, tudo indica que o Prieur de Sion pode fornecer um Messias como o que o prprio Jesus, 
como personagem histrico, realmente foi.




   
    
